Pó enamorado: E as Montanhas Ecoaram, Khaled Hosseini

Khaled Hosseini retratou o amor filial   e o Afeganistão  e arrasou as tabelas. Outono de 1952, Afeganistão. Na aldeia isolada de Shadbagh, ...

terça-feira, março 04, 2014

João Antônio | A chute de tampinha e conversa de malandro.

João Antônio (com uma bola de bilhar na mão) e os malandros Lima Duarte como Malagueta, Gianfrancesco Guarnieri como Perus e Maurício do Valle como Bacanaço.



Manual do subúrbio: João Antônio uniu o submundo de São Paulo à grande literatura brasileira.
Enquanto o ex-comissário de polícia Rubem Fonseca leva aos limites o retrato da violência no Rio, João Antônio (1937-1996), filho de uma doméstica mulata e de um camionista de origem portuguesa (apelido Ferreira), mostra o submundo de São Paulo. A década é a de 60 e a matéria é o conto, trabalhado por ambos num hiper-realismo feroz, que amarra a literatura brasileira à objetividade do quotidiano nas margens da megalópole.
No caso de João Antônio, logo no livro de estreia, aos 26 anos, ele une registo autobiográfico e talento literário enquanto estiliza o linguajar rude dos subúrbios e a gíria dos malandros. Malagueta, Perus e Bacanaço, vencedor de dois prémios Jabuti de 1963, foi agora editado por cá, na colecção Sabiá, da Cotovia.
O volume reúne nove contos e divide-se em três partes («Contos Gerais», «Caserna» e «Sinuca»). No essencial, as narrativas misturam vivências da infância e adolescência, sensíveis mas nunca sentimentalistas, com o registo da sobrevivência áspera e sofrida dos excluídos. O último conto, que dá título ao livro, é a obra-prima de João Antônio, retrato instantâneo da fauna marginal paulista: «Safados por todos os cantos. Magros, encardidos, amarelos, sonolentos, vagabundos, erradios, viradores.»
Os protagonistas, Malagueta (velho piranha), Bacanaços (mulato proxeneta) e Perus (moleque estreante) representam três idades num «ambiente em que não pode haver frescura, meio tom, meia palavra: a coisa ou é ou não é» (Antônio, em entrevista). Numa só noite de sábado, eles percorrem os salões de bilhar e os botecos de cinco bairros: «São Paulo era grande e eles, três tacos, tinindo para o que desse e viesse. Haveria jogo em algum canto. Faziam fé.»
Procuram otários, imaginam tramoias e medem jogadas, são pisados pela polícia, competem entre si, ganham e perdem. À vez, vamos conhecendo cada um e o seu olhar sobre o jogo triste da vida. «Fazer o quê? Eram três vagabundos e iam.» Acabam como começaram: «quebrados, quebradinhos», sem dinheiro nem para um café. Através da frase curta, da enumeração constante e do desfile de imagens, figuras e discursos vivos, João Antônio dá-nos a ver (e a ouvir) a cidade brutalista, com as entranhas feias todas à vista.

Malagueta, Perus e Bacanaço, João Antônio, Cotovia, 216 págs., 17.50 euros

Em 2013, saiu no Brasil o álbum Malagueta, Perus e Bacanaço, de Thiago França, em homenagem aos 50 anos do lançamento da primeira edição do livro de contos de João Antônio. Download disponível no blog do músico: thiagofrancaoficial.blogspot.com.br

SOL/ 17-01-2014
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)