Pó enamorado: E as Montanhas Ecoaram, Khaled Hosseini

Khaled Hosseini retratou o amor filial   e o Afeganistão  e arrasou as tabelas. Outono de 1952, Afeganistão. Na aldeia isolada de Shadbagh, ...

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quarta-feira, outubro 19, 2016

John Le Carré | A verdade, agora a cores

John Le Carré escreveu uma autobiografia que não revela segredos íntimos ou de de Estado, mas é uma boa coleção de reminiscências de um ficcionista patológico.

David John Moore Cornwell (n. 1931) tinha 25 anos quando foi formalmente admitido como agente júnior do Serviço Secreto Britânico, no M15. Quatro anos depois, insatisfeito com a falta de ação naqueles serviços, o jovem caçador de espiões pediu transferência para o M16, do outro lado da rua. Do tempo no M15, guardaria sobretudo na memória as correções ortográficas anotadas nas margens dos seus relatórios pelos agentes seniores com estudos clássicos. «Nenhum editor que encontrei desde então foi alguma vez tão exigente ou teve tanta razão.» Poucos anos depois, com 33 anos, o agente reforma-se, graças ao sucesso internacional de um romance, O Espião que Saiu do Frio. Haviam nascido entretanto John Le Carré e George Smiley («o velho espião apressado»).
«A espionagem e a escrita de romances foram feitas uma para a outra. Ambas pedem um olhar atento à transgressão humana e às muitas vias para a traição.» Aos 84 anos e após a publicação de mais de 23 livros  — sobretudo histórias de espiões passadas durante a Guerra Fria (1945-1991) —, John Le Carré fez sair finalmente a sua autobiografia, projeto que tentara completar em 1979 e em 2001. A publicação recente (Outubro de 2015) de uma biografia autorizada de mais de 600 páginas pesou na vontade de contar a sua versão dos factos, mas, ainda assim, o resultado final não acrescenta muito ao trabalho do biógrafo Adam Sisman. O Túnel dos Pombos  é uma coleção de histórias e fragmentos que o próprio autor apresenta de forma despretensiosa, como registo de «incidentes isolados, autónomos, não apontando em nenhuma direção de que eu tenha consciência, contados pelo que acabaram por significar para mim e porque me alarmam, assustam ou comovem, ou porque me acordam a meio da noite e me fazem rir alto.» Na verdade, o conjunto lê-se de forma tão saborosa como os seus romances, mas sem o suspense habitual.
Talvez a única revelação autobiográfica digna desse nome sejam alguns pormenores da relação do escritor com os pais; a mãe, que o abandonou quando ele tinha cinco anos de idade («até hoje não faço a ideia de que tipo de pessoa era»), e o pai, Ronnie, um vigarista de primeira, «fantasista, preso ocasional», «viciado em teatralidade», que batia nos filhos, mas lhes assegurou uma educação de elite e, no caso de David, legou-lhe a irrequietude crónica e a arte de tecer uma história a partir do nada e «cegar as pessoas com pormenores inventados». Mirabolantes, os esquemas do pai são relatados pelo filho (que os explorou em vários enredos, sobretudo no romance mais autobiográfico, O Espião Perfeito) com ambiguidade moral (uma expressão que lhe é cara enquanto ficcionista) ou, pelo menos, sem uma censura veemente. Afinal, Ronnie foi a primeira grande personagem de David Cornwell  aka John Le Carré, a fonte de todas as perguntas e efabulações, a raiz da habilidade em mentir e imaginar: «nascido para a mentira, criado para ela, treinado para ela por um sector que mente para ganhar a vida, treinado nela como romancista».
Do ambiente na Alemanha do pós-guerra (onde assistiu, repugnado, ao branqueamento de velhos nazis) e da Guerra Fria até uma entrevista com Bernard Pivot (à conta de uma gravata emprestada) e aos encontros com vários realizadores e atores famosos (Fritz Lang, Stanley Kubric, Francis Ford Coppola ou Martin Ritt; Alec Guiness, Richard Burton, entre outros) sucedem-se múltiplas histórias reais, contadas de memória, grande parte delas vividas enquanto o romancista pesquisava para os seus livros e personagens (para quem conhece bem a obra, é curioso conhecer a fonte de várias delas).

«A meio da vida, eu estava a ficar gordo e preguiçoso e a viver à custa de um fundo de experiência passada que estava a esgotar-se. Chegara o momento de abordar mundos não familiares», confidencia. Assim, muitas vezes à boleia de repórteres de guerra e correspondentes (que lhe emprestaram também a coragem), o escritor correrá mundo à procura de histórias, da rendição de Phnom Penh (onde pela primeira vez lhe apontaram uma arma) à eleição pluripartidária no Congo Oriental, em 2006. A parte mais interessante de O Túnel dos Pombos reúne relatos destas aventuras e de extraordinárias personagens reais mais ou menos conhecidas: da ativista humanitária Yvette Pierpaoli a Yasser Arafat (que cheira a pó de talco Johnson’s e com quem ele dança o dabke numa passagem de ano) à ativista alemã radicalizada Brigitte, ao dissidente Andrei Sakharov, ao chefe mafioso russo Dima, Rupert Murdoch, ao ex-chefe do KGB Vadim Bakatin, ao agente russo Issa Kostoev, ao poeta exilado Joseph Brodsky, ao presidente italiano Francesco Cossiga, a Margaret Tatcher, ao espião Nicholas Elliott (que discorre sobre Kim Philby) ou a Thomas, senhor da guerra congolês. Do contacto com todos eles e das notas em caderninhos que foram depois escrupulosamente aproveitadas para a escrita, sempre à mão, dos romances, Le Carré diz que contou agora a verdade, se não toda, aquela que melhor serviu à ficção, uma verdade disfarçada, sim, onde necessário, mas nunca conscientemente falseada. Afinal, «a verdade real reside, se reside algures, não nos factos, mas nos matizes». O Túnel dos Pombos  dá-nos uma boa conta deles.

O Túnel dos Pombos, John Le Carré, Dom Quixote, 382 págs., 18.90 euros


Jornal Sol, 07-10-2016
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

quinta-feira, setembro 15, 2016

Alexander von Humboldt - Isto anda tudo ligado


Alexander von Humboldt foi o primeiro a olhar a terra como um organismo vivo e interdependente e a alertar para a mão destrutiva do Homem sobre ela. Uma biografia recupera-o como herói de aventuras e da ciência.

«A natureza, em toda a parte, fala ao homem com uma voz [que é] familiar à sua alma.» Colocada hoje em destaque, esta frase com toques new age passa despercebida ou é associada, talvez, a uma promoção qualquer de terapias alternativas ou à defesa do Urso Rosa ou do Tigre da Malcata. Alexander von Humboldt escreveu-a algures em 1800, resumindo uma inédita valorização das sensações e da reação emocional para a observação e estudo dos fenómenos naturais. Influenciado por Kant e por Goethe, o naturalista alemão foi o primeiro a defender a terra como uma cadeia unificada e animada por forças interativas, logo vulnerável à intervenção humana nociva (é considerado o pai do ambientalismo), uma rede de vida cuja compreensão depende obrigatoriamente de uma «impressão do todo». Humboldt revolucionou a forma como vemos o mundo natural ao ponto de a clareza e clarividência dos seus ensinamentos apagarem o seu nome da História. Em 2015, A Invenção da Natureza: As aventuras de Alexander von Humboldt, herói esquecido da ciência resgatou-o do esquecimento e conquistou o Costa Biography Award, o mais importante prémio para este género.
Quando faleceu, em 1859, nas vésperas do nonagésimo aniversário, era o segundo homem mais famoso do mundo (a seguir a Napoleão). Centenas de rios, cidades e outros locais haviam sido nomeados em sua honra, cerca de 5000 cartas eram-lhe dirigidas por ano, o seu nome era familiar por todo o globo e um anatomista alemão havia mesmo requisitado o seu crânio para análise aturada (ao que ele ainda respondeu: «preciso da minha cabeça por mais algum tempo, mas mais tarde terei todo o gosto em lha ceder»). Centenas de milhares de pessoas compuseram a procissão de um quilómetro e meio que acompanhou o carro fúnebre através de Berlim, empunhando bandeiras pretas. Nos EUA, os jornais noticiaram o fim da «era Humboldt». Graças à biografia escrita por Andrea Wulf, torna-se fácil percebermos hoje o protagonismo deste viajante científico excepcional, cujas ideias e abordagem multidisciplinar ainda podem ser tidas como proféticas. 

 
Um colega testemunhou que ele era capaz de «percorrer a cadeia de todos os fenómenos do mundo ao mesmo tempo» e Goethe, grande companheiro de debate, explicou que «em oito dias a ler livros não se conseguia aprender tanto como aquilo que ele nos oferece numa hora». O essencial do retrato de Humboldt composto por Andrea Wulf (nasceu na Índia, cresceu na Alemanha e hoje vive em Inglaterra) advém da consulta da sua correspondência e de múltiplos registos pessoais. Optando por traçar mini-retratos de várias grandes figuras por ele influenciadas, como Charles Darwin, Thomas Jefferson, Simón Bolívar, Henri David Thoreau, George Perkins Marsh, Ernst Haeckel ou John Muir (dedica a estes três os capítulos finais), a historiadora acentua o valor do legado holístico e interdisciplinar de Humboldt, a sua ligação excecional da ciência à arte ou à política (foi anti-esclavagista e anti-colonialista).
Dissolvidos numa narrativa viva (são raras, e pouco extensas, as citações do próprio), os dados mais ínfimos sobre a vida, ideias e viagens de Humboldt são inteligentemente integrados para sustentar, sem folclore, uma grande ideia de e sobre o protagonista. Wulf segue de muito perto o herói, mas para nos dar uma perspetiva completa de um caminho de descoberta, experiência e registo. No mesmo parágrafo, explica-nos que o naturalista «achava difícil encontrar um método racional para estudar o que o rodeava» e que, nos cinco anos fundamentais de viagem pela América do Sul, os seus baús se encheram tão depressa que «tiveram de encomendar mais resmas de papel para pressionar as suas plantas e, por vezes, encontravam tantos espécimes que mal conseguiam levá-los para casa».
 
Humboldt perseguiu cada um dos fios da teia da vida, a 6000 dos 6300 metros de altitude do equatorial vulcão inativo Chimborazo, nas profundezas da floresta tropical (onde se deliciava com o coro dos macacos, procurando distinguir as contribuições das várias espécies) ou nas plantações coloniais junto ao lago venezuelano Valencia, onde primeiro se apercebeu do efeito devastador das desflorestações, tal como na siberiana estepe de Barada, dizimada pela epidemia de antraz, confirmou o impacto ambiental da agricultura intensiva. Atento às diferenças e semelhanças entre as coisas que via, mais do que à sua classificação, concluiu que os «poderes orgânicos trabalham incessantemente» e a vida pulsa por todo o lado. Isso mesmo tentou reproduzir (foi o primeiro divulgador científico com impacto  transversal e universal) numa proto-infografia, um desenho de 90 por 60 centímetros representando o Chimborazo em corte transversal e toda a variedade e riqueza da rede de vida que o compunha. A biografia de Andrea Wuld reprodu-lo também a ele, Alexander von Humboldt, assim, detalhado e completo, uma «fonte que nunca secou».

A Invenção da Natureza
Andrea Wulf
Temas e Debates / Círculo de Leitores
568 págs., 22.20€

SOL | 30-07-2016
© Filipa Melo (Reprodução integral interdita sem autorização prévia)

sexta-feira, agosto 26, 2016

Manuel António de Vasconcelos - Um moderno na ilha


Sem mestre, tertúlia ou seguidores, Manuel António de Vasconcelos, o engenheiro químico que se fez arquiteto, levou o modernismo até aos Açores. Sai nova obra de resgate do seu legado.

Era costume ser visto a circular pelas ruas de Ponta Delgada, ao volante de um Ford Taunus azul clarinho, com design e cor bastante insólitos para a época e para a ilha. Entre 1933 e 1942, quando o açoriano Manuel António de Vasconcelos (1907-1960) produziu o essencial da sua obra arquitectónica, tornou-se evidente que o gosto estético e a sensibilidade técnica que exibia excediam em muito os dotes artísticos de base e a formação em engenharia química (com especialidade em açúcares) adquirida na Bélgica. O estilo distinto deste arquiteto autodidata provinha sobretudo de Paris (e de curtas incursões na Holanda e na Alemanha) e dos nove meses que ali passara numa espécie de ano sabático, a apurar o seu hobbie, a pintura, na Academia dirigida por Maître Emile Renard, a contatar com artistas (como o escultor Ernesto Canto Maia, seu conterrâneo) e a imbuir-se de referências estéticas modernistas (como a do arquiteto Robert Mallet-Stevens) e art déco. Disso fazem prova ainda hoje as obras-maiores, o que dela resta ou ficou registado: o Casino das Furnas (1937/8, desenhado de raiz), o Hotel Terra Nostra (de 1935; «uma nota perfeita de civilização, em tão remotas paragens», destacaria Raul Lino), a Barbearia Gil (incrustação subversiva num edifício de traça oitocentista, destacada pelo arquiteto  Francisco Gomes de Menezes «pelo requinte e ousadia»), o Montepio Terceirence (1939; onde perseguiu também «o gosto até ao pormenor, na caracterização de uma determinada atmosfera», segundo o arquiteto João Maia Macedo), os vários projetos residenciais (entre eles, a moradia de família, sóbria e geometricamente elegante), o Armazém de Chá de Porto Formoso (1937) ou o edifício dos Produtores de Papel (1952).

MAV desenhando no jardim de sua casa (© D.R.)
 Em 1993, saíra já uma biografia do arquiteto açoriano, assinada por Manuel Ferreira. O resgate do seu contributo prossegue agora, com a edição, pelo Instituto Cultural de Ponta Delgada, de Manuel António de Vasconcelos: pioneiro da arquitectura modernista, da autoria de Cristina Cordeiro, jornalista, ex-diretora das revistas Casa Cláudia, Arquitectura & Construção e CUBO, aqui assistida na pesquisa por Ana Maria Vasconcelos Faria e Maia (filha do visado). À venda nos Açores, o álbum ilustrado chegará ao continente em Setembro. É um trabalho delicado de pesquisa, contextualização e validação.
Manuel António de Vasconcelos, neto do fundador do jornal Açoriano Oriental, foi engenheiro químico, diretor da Fábrica de Açúcar de Santa Clara (como o havia sido o seu pai) e diretor técnico da Fábrica de Papel, arquiteto autodidata e diretor artístico e técnico ao serviço da Sociedade Terra Nostra. Vale a pena descobri-lo através dos documentos coligidos: por exemplo, a revista Architectes de Gand dedicada a três arquitetos flamengos que o terão influenciado; anotações criteriosas dos caderninhos pretos que dedicou às obras da Sociedade; fotografias de época que ilustram como simulou, de modo precursor, o uso de betão; aguarelas do próprio, plantas e fotografias atuais das obras. O cuidado da jornalista na pesquisa resulta em detalhes deliciosos, como a inclusão de uma planta de interior desenhada de memória e comentada pela filha de dois antigos empregados da Casa de M. Friedman (1939-42). Na parte final do livro, seis entrevistas e um ensaio (pela historiadora de arte Isabel Soares de Albergaria) validam a revisão crítica da concepção arquitectónica de um modernista, «muitas das vezes mais por desejo do que por realidade» (José Manuel Fernandes), com obra breve, mas marcante.

Manuel António de Vasconcelos: Pioneiro da Arquitectura Modernista, Cristina Cordeiro, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 156 págs.

 

Jornal "i" 02-07-2016
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

quinta-feira, abril 18, 2013

António e Cleópatra | Estrategas «quase» com coração





A culpa é de Shakespeare, porque arruinou a lenda pejorativa orquestrada pelos historiadores de Octaviano/Augusto contra o casal que ameaçou a Pax Romana no século I a.C.. Assim, Marco António, o líder militar malignamente ambicioso, e Cleópatra, rainha sanguinária capaz da sedução sexual mais chã, transformaram-se no mais imortal casal de amantes-suicidas. Mas, afinal, onde está a verdade histórica?
Após Generais Romanos: Os Homens que Construíram o Império Romano e César: A Vida de um Colosso (Esfera dos Livros), o historiador classicista inglês Adrian Goldsworthy (n. 1969) quis contar a história deste casal «tão objetiva e imparcialmente quanto possível, pois ela já contém paixão suficiente sem que o autor precise de acrescentar muitos dos seus próprios comentários». António e Cleópatra (Esfera dos Livros) saiu em 2010, a par de Cleópatra (Civilização), um retrato da última rainha do Egito muito completo, mas muito efabulado, que valeu o Pulitzer à biógrafa Stacy Schiff.
Talvez só pela leitura destas duas perspetivas se atinja a conjugação de mito e história exigida pela força enigmática das personagens, pelas lacunas das fontes e pelas evidências arqueológicas. Mas, se conhecer o romance entre o casal permanece tarefa quixotesca, Goldsworthy prova que é possível entendermos a sua aliança e derrota num contexto político e ideológico amplo e bem fundamentado. «Cleópatra não foi de facto assim tão importante», mas foi sem dúvida «um animal político» e Marco António não foi «um general particularmente brilhante», teve «mais insucessos do que êxitos», mas deve ser retirado da sombra de Cleópatra, porque simboliza bem as lutas intersticiais no fim da República e início do Império em Roma. Quando se uniram, António e Cleópatra estavam ambos enfraquecidos. Em 500 páginas, percebemos como e porquê, numa história que é mais política e militar, mas que ainda assim não dispensa um toque de paixão.

António e Cleópatra, Adrian Goldsworthy, Esfera dos Livros, 521 págs., 25 euros

SOL/ 04-01-2013
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

António Mega Ferreira | O espírito de Casanova

Após o senhor Quita, cabeleireiro reputado, também poeta e membro da Arcádia Lusitana, lhe arranjar o cabelo, «abîmé pela viagem», Giacomo Casanova (1725-1798) visita o centro da cidade acompanhado pelo comerciante Jácome Ratton, seu anfitrião nesta estadia em Lisboa, dois anos após o Terramoto de 1755. Diante das ruínas da Casa da Ópera, reduzida a «uma espécie de fantasmagoria macabra, com as suas paredes descarnadas e os camarotes queimados erguendo-se a céu aberto, como que à espera de acolher um espetáculo sumptuoso que jamais voltaria a repetir-se», Casanova comove-se com a extensão da catástrofe, que acredita ter sido capricho da natureza, mais do que manifestação divina. «Nunca a transitoriedade da glória e dos feitos da espécie me pareceu tão evidente como diante deste cenário de horror», confessa o aventureiro italiano ao irmão, Francesco Casanova, numa de seis cartas da sua autoria datadas dessa altura e que compõem a nova ficção do escritor, gestor e jornalista António Mega Ferreira.

 
Cartas de Casanova, escrito em apenas três meses e meio, é um romance epistolar talentoso. Nele se conjugam um conhecimento histórico e erudito do protagonista (Histoire de ma vie, a autobiografia de Casanova, foi base de inspiração e consulta), da cidade e da época (um hiato naquelas memórias), um domínio raro da língua (a inclusão de expressões francesas ou italianas adiciona, sem peso, cor e circunstância ao texto) e do género epistolar (brilhante o recurso às notas do tradutor-autor, espécie de rubrica-guião paralelo) e, por fim, ou sobretudo, uma muito imaginativa gestão global da narrativa. Como num divertimento musical, Mega Ferreira apresenta-nos o herói em trânsito (acaba de escapar da prisão dei Piombi, em Veneza) e um conjunto circunscrito, mas muito representativo, de personagens (sobretudo históricas), para compor uma anotação original à margem de dois dos mais marcantes momentos e figuras do século XVIII. Ao jeito da época, prova, ele mesmo, como escritor, avoir de l’esprit jusqu’au bout des ongles.

Cartas de Casanova, António Mega Ferreira, Sextante Editora, 208 págs., 16.60 euros

SOL / 15-02-2013
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

quarta-feira, dezembro 21, 2011

Anaïs Nin e Henry Miller


O estranho é que juntos e sozinhos somos tão humanos, tão suave e calorosamente humanos, e na nossa escrita turbulentos, túrgidos, espectrais, febris, monstruosos; encharcados em carnalidades homoeróticas. O meu estilo esmaltado, e o teu, muscular, pelejando, arrancando faíscas um ao outro.
Anaïs Nin para Henry Miller
Louveciennes, 16 Outubro de 1932
Todas as cartas de amor são ridículas, talvez porque, como James Joyce definiu no final de Ulisses, «o amor ama amar o amor». A constatação muda de figura quando, na década de 30 do século XX, dois candidatos a escritores decidem aliar à sua experimentação literária a procura de uma sintaxe para a paixão, a amizade e o sexo. Foi assim com a correspondência trocada durante duas décadas (1932-1953) entre Anaïs Nin (Paris, 1903-Los Angeles, 1977) e Henry Miller (NY, 1891-Califórnia, 1980). Um exemplo raro de parceria intelectual e fusão sexual e afectiva, entendidas por ambos também como fuga à convenção, destruição de tabus e afirmação de uma identidade e de uma voz individual. Primeiro editada pela Difel, com tradução de Manuel João Gomes, reaparece nas livrarias, pela Caleidoscópio (tradução de Tiago Marques), a compilação de mais de 250 exemplos de Cartas de Amor entre Nin e Miller, seleccionadas e prefaciadas por Gunther Stuhlmann em 1987.
Na introdução, Stuhlmann explica que a decifração, escolha e datação do material que lhe havia sido confiado por Anaïs obedeceu sobretudo ao «esforço para oferecer uma narrativa contínua», mais «romance literário» do que documento de uma paixão literata. É uma pena que, como diz, tenha deixado de parte «longas discussões acerca de Dostoiévski, Proust, Joyce, D. H. Lawrence; críticas pormenorizadas feitas ao trabalho em curso um do outro; reflexões acerca de filmes, livros, e assim por diante, frequentemente encaixadas em cartas de vinte ou mais páginas dactilografadas». O legado de afirmação feminina de Nin supera a mera autoria de literatura erótica e os epítetos agressivos que lhe colaram inclinações para a ninfomania, a poligamia, a bissexualidade ou, mesmo, o incesto. Miller foi bem mais do que um vagabundo boémio e libertino, predador sexual e autor de literatura durante anos banida nos EUA como de matriz pornográfica. O equívoco feito de lugares-comuns que envolveu durante décadas o nome e a relação dos dois pode até derivar da publicação póstuma da versão não expurgada dos diários de Anaïs e ter sido reforçado pelo sucesso do filme Henry & June (Philip Kaufman, 1990, com Maria de Medeiros no papel da escritora) ou da muito pouco reverente biografia Anaïs Nin, assinada, em 1995, por Deirdre Bair.
Aquilo a que Stuhlmann chama «material marginal à história pessoal» é, afinal, o mais interessante nesta correspondência compulsiva (só em 1932, ano em que se conheceram, Miller endereçou mais de 900 páginas a Anaïs). Um diálogo intelectual entre um homem e uma mulher num momento histórico muito importante, a batalha de explicação mútua entre duas pessoas que, muitas vezes em divergência teórica, ambicionam acima de tudo escrever uma literatura inovadora e apurada. O que as tornaria indestrutíveis, segundo Anaïs, era o facto de «no [seu] âmago, [estar] um escritor, não um ser humano». Na verdade, concretizaram mais percursoras tentativas de automaterialização do corpo mental e físico através da escrita do que um banal enredo com várias triangulações picantes.





Anaïs é talvez mais famosa pelas páginas eróticas de Passarinhos ou de Delta de Venus (traduzido por Luiza Neto Jorge, nos anos 80, para a Bertrand; reeditado pela Bico de Pena em 2006), livro que defendeu ter escrito apenas por questões de sobrevivência. Miller é identificado sobretudo pela autobiografia crua e pelo realismo brutal (para muitos, entendido ainda como mera 'obscenidade') de Trópico de Cancer (primeiro publicado em Paris, em 1934, e que muito deve ao apoio de Anaïs) ou Trópico de Capricórnio (1939). Pouco é reconhecido do esforço técnico das suas especulações quase-filosóficas, dramas simbólicos e associações surrealistas, presentes também na trilogia de «Rosa-Crucificação» (Sexus, 1949, Plexus, 1953, Nexus, 1960).
A biógrafa Deirdre Bair definiu Anaïs Nin como «uma grande autora menor». Igualmente com dificuldade Henry Miller será alguma vez aceite como autor relevante para os cânones literários mais exigentes. Produto da sua época, os dois escritores não resistiram à prova que o tempo fez do resultado literário daquilo que mais confiavam possuir: no caso dele, «talento», no dela, «instintos». Cartas de Amor mostra-nos, antes, a prevalência mútua da análise autobiográfica sobre qualquer outra motivação ou conquista literárias, com exemplo máximo em O Diário de Anaïs Nin (editado pela Bertrand, com introdução de G. Stuhlmann), registo que a escritora manteve dos 11 anos de idade até quase à morte. A herança de Nin e Miller concentra-se na força e originalidade da investigação de um passado individual, centro da criação de cada um deles. Uma espécie de autoetnografia, de esforço de recuperação do «tempo perdido» («Está tudo escrito em pedra», diz Miller), cuja dimensão mais íntima nos é dada a partir de um enredo de amor, entre duas pessoas sem medo do 'sexo' e com fome de liberdade perfeita, porque criativa.

Cartas de Amor, Anaïs Nin e Henry Miller, Caleidoscópio, 366 págs.

SOL/ 10-07-2009
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

sábado, junho 25, 2011

Cleópatra | rainha sem rosto

Ceópatra, Michelangelo

Logo no início, Stacy Schiff esclarece que, até hoje, nenhum retrato em pedra de Cleópatra VII se revelou fidedigno. Daí que, insiste, permaneça acertado o remoque do escritor francês André Malraux: «Nefertiti é um rosto sem rainha; Cleópatra é uma rainha sem rosto.» Mais do que desvendar os traços exactos da face, foi a vontade de dar consistência à vida e aos actos desta figura lendária o que moveu a biógrafa norte-americana (vencedora de um prémio Pulitzer por Véra, sobre a mulher de Vladimir Nabokov; autora de Saint-Exupéry; A Biography e do estudo A Great Improvisation: Franklin, France, and the Birth of America). Cleópatra, biografia datada de 2010, é mais convincente do que qualquer outro ensaio histórico sobre a última rainha do Egipto e tão cativante como qualquer abordagem ficcional. Vingando-se dos mitos, Cleópatra ressurge com toda a carne e osso da sua grandiosidade, um misto de «suprema confiança» e de «superlativos poderes de persuasão».
A riqueza substancial do que lemos deriva de um cruzamento crítico muito inteligente entre escassíssimas informações biográficas seguras, múltiplos dados históricos sobre a época e os contemporâneos e desconcertantes elementos de efabulação mítica. Só assim se torna credível que, ainda que quase sem fontes primárias, Schiff recrie a «educação esmerada» da jovem Cleópatra a partir do contexto detalhado e vivo da Alexandria do seu tempo (século I a.C.), devotada ao saber literário, à memorização e ao culto da destreza verbal, cruzando-o com referências historiográficas (Plutarco assegurou que a rainha dominava nove línguas) e a lenda sexual da mulher que, aos 21 anos, seduziu Júlio César (com o dobro da idade). Cozinhando todas as referências, subtrai-se da famosa sensualidade de Cleópatra o que se acentua da sua inteligência, verve e cultura. Talvez só uma mulher conseguisse este ajuste de contas histórico com outra mulher, uma figura tão «monstro» quanto «maravilha», cuja excepcionalidade e poder ainda hoje intimidam. Nestas páginas onde sobressai também a vivacidade do olhar da biógrafa, Cleópatra é uma mulher «senhora de si» e, finalmente, senhora de uma verdade histórica abafada por «dois mil anos de críticas desfavoráveis e prosa inflamada, de cinema e ópera».

Cleópatra, Stacy Schiff, Civilização, 400 págs.


SOL/ 09-06-2011
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

terça-feira, maio 17, 2011

Byron, Napoleão e Eros



Foi um «poeta coxo com feições de Adónis». Um homem com uma pesada herança familiar de crime, desgraças, dívidas e dissolução que ficou para a história como símbolo de extravagante e inédita celebridade. Neto de Jack Mau-Tempo, filho de Jack o Doido e sobrinho-neto de Lord Celerado (de quem herda o título nobiliárquico), George Gordon Byron nasce em Londres, em 1788, e morre na Grécia, em 1824, com 36 anos. Lord Byron, pois, um dos maiores poetas românticos ingleses, cuja biografia, esquadrinhada como poucas desde até antes da sua morte, excede em inventividade e paradoxo a mais fértil personagem romanesca ou o mais louco poema-sonho dos românticos. Da escritora irlandesa Edna O'Brien (n. 1930), chega a Portugal  Byron e o Amor, ensaio-biografia de 2009. O crítico Harold Bloom qualificou-o como «uma espécie de novella, narrada com o mesmo rápido e efervescente andamento do nobre lord narrando Don Juan» (New York Review of Books).
Para ser grande, foi inteiro. Tudo seu exagerou e nada excluiu. Foi todo em cada coisa, pondo quanto era no mínimo que fez. Digressivo, intensíssimo, vibrante, o Byron de Edna O'Brien aprofunda parte do que ficara explícito e fundamentado nos três volumes da biografia assinada por Leslie A. Marchand em 1957 (Byron: A Biography, Random House). No final, a escritora (também autora de uma biografia de James Joyce, editada em 1999), generosa, resume a vida do poeta como «símbolo do homem simples, humano, ambicioso, errático, generoso, devastador, esplêndido, obscuro e discordante». O'Brien quase se absteve de qualificações nas cerca de duzentas páginas anteriores, apenas se permitindo comentários curtos e extemporâneos à margem da narração veloz e fluida dos acontecimentos. Pelo caminho, duas contemporâneas do poeta descrevem-no como «louco, mau e perigoso de conhecer», «amoral como um coelho e disparatado como um ganso». Precisamente, é através da descrição sucessiva das marcas do individualismo narcísico nas ligações amorosas e sexuais de Byron que nos apercebemos de quanto ele contribuiu para uma histórica associação do génio artístico a um extremo e explosivo exagero de sentimentos.
Diz Bloom: «Ele desnorteou e fascinou os seus contemporâneos com uma vitalidade abertamente erótica, composta por narcisismo, pretensiosismo, sadomasoquismo, incesto, sodomia heterossexual, homossexualidade, o que quiserem.» Na verdade, há de tudo isto neste ensaio-novela biográfico. O impossível amor adolescente pela prima Mary como fonte de uma cínica visão idealizada das mulheres. A paixão e «ligação mística» com o jovem pupilo John Edleston, em Cambridge, e o início da vida de dissipação escandalosa, em Londres. A peculiar e irresistível «combinação de génio e satanismo» a causar, nos salões whig ou na Câmara dos Lordes, o desmaio febril de tantas mulheres e a adulação invejosa de tantos homens. O auge da celebridade, 1812-1814, e Byron «a pendurar o coração no primeiro cabide que encontrasse», depois a relação com Shelley (aqui, pouco explorada). As viagens, os casamentos e os incontáveis casos e enfatuamentos, as filhas legítimas e ilegítimas, a paixão louca pela meia-irmã, Augusta («o único amor desinteressado da sua vida»), os indícios de loucura... Vasto, o Caminho do Libertino termina na Grécia, quando o emissário do Comité Grego em Londres, num uniforme escarlate, luta pela independência, enquanto ama violentamente o jovem pagem Loukas. Quando morre, à revelia da sua última vontade, o corpo de Lord Byron é transportado para Inglaterra. Os médicos autopsiam-no, fascinados com a possibilidade de encontrarem no cérebro e na dura-mater uma explicação para os mistérios do morto. Depois, alguns daqueles que ele acreditou mais o amarem cometem a suprema traição: o manuscrito das suas memórias arde em chamas altas. À semelhança da força do estilo drasticamente fluente, não premeditado, do poeta, sobrevive hoje uma personagem altiva e desdenhosa, tortuosa e caprichosa, contraditoriamente virtuosa. Byron consumou, sob quase todas as formas, o amor como «verme imortal que devora o coração». Edna O'Brien descreve-o de forma eficaz e contribui para mais uma certificação do poeta inglês como «eterno arquétipo da celebridade, o Napoleão [que ele tanto admirou] dos domínios da rima» (Bloom).

Byron e o Amor, Edna O'Brien, Relógio D'Água

LER/ Fevereiro 2011
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domingo, fevereiro 13, 2011

Agatha Christie | Cacos e risos



Em 1930, Agatha Christie (1890-1976) estava divorciada há três anos e já era uma autora reconhecida. Tinha 40 anos, adorava viajar e, em Ur, na Mesopotâmia, conheceu Max Wallowan, um jovem arqueólogo com 25 anos. Ele perguntou-lhe: «Tens alguma coisa contra viver com um homem cuja profissão é desenterrar mortos?» E ela respondeu: «De todo, eu adoro cadáveres!» Durante os 45 anos seguintes, Agatha acompanhou o segundo e derradeiro marido em todas as suas expedições arqueológicas anuais no Médio Oriente, tornando-se, ao tempo, uma das mulheres mais conhecedoras nesta área (no Museu Britânico e no Museu de Alepo exibem-se artefactos descobertos, catalogados e restaurados pelos dois). Na Síria, com o subtítulo Conta-me Cá Como Vives, é o relato diarístico e autobiográfico da estadia do casal naquele país. Sai agora na colecção da Tinta da China dedicada a livros de viagens. É um livro despretensioso e muito divertido.
Esqueçam os 89 romances e 21 peças de teatro assinados por Lady Christie, embora alguns dos melhores tenham sido produzidos durante temporadas da escritora na Síria. Na Síria foi escrito em Londres, em plena Segunda Guerra, como homenagem a «algo imperecível» e «um exercício de amor». Lê-se, no epílogo: «Porque eu amo aquela terra fértil e tranquila e as suas gentes simples, que sabem rir e desfrutar a vida; que são ociosas e alegres, e que têm dignidade, boas maneiras e um grande sentido de humor, e para quem a morte não é terrível.» A filha, Rosalind Christie Hicks, explicou que o segredo desta paixão foi Agatha entender como os sírios viviam e nunca ter procurado interferir no seu modo de vida.
«Isto não é um livro profundo», adverte no início. Como crónica «inconsequente» e «sinuosa», Na Síria é, antes, uma delícia de leitura. O olhar de Agatha mostra-se sagaz, divertido, tão disponível para a surpresa, sem choque, com os detalhes do quotidiano (e neste livro há muitos, inusitados) como com as descobertas feitas nos 'tell' (amontoados de escombros). Há caras e logísticas, hábitos e temperamentos, novos e velhos, todos curiosos, ratos e pulgas, tendas, indigestões, pantomimas, cacos e risos. E há sobretudo uma bonomia a anular o choque com a diferença e o desconhecido, tratados como verdadeiras preciosidades.

Na Síria, Agatha Christie, Tinta da China, 285 págs.
SOL/ 23-07-2010
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sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Roland Barthes | Dizer o luto


Roland Barthes (1915-1980), semiólogo, filósofo, escritor, crítico literário. Um cometa ambivalente que, desde os anos 50, revolucionou o entendimento do texto, sem jamais se fixar numa raiz, num sistema ou numa teoria. Edgar Morin chamou-lhe «um dissidente» cuja necessidade de distância e questionamento permanente se manifestou até perante os interesses maiores: o estruturalismo, o 'nouveau roman', a semiologia, o Japão. Na abordagem ao autor de O Grau Zero da Escrita, Mitologias, Elementos da Semiologia ou Fragmentos de um Discurso Amoroso apenas um dado é imutável: o amor pela mãe. Dele recolhemos agora um testemunho poderoso em Diário de Luto, notas pessoais sobre a perda da mãe, escritas pelo autor desde o dia seguinte à morte de Henriette Binger, a 25 de Outubro de 1977, até Setembro de 1979, seis meses antes da sua própria morte (por acidente). Diário de Luto, em versão integral, organizada cronologicamente, é editado por cá pelas Edições 70, no mesmo ano em que a editora Seuil o revelou em França, após, não sem polémica, o irmão de Barthes ter mais uma vez permitido a divulgação de parte do seu espólio inédito.
Henriette morre aos 85 anos, quando o filho está prestes a fazer 64. Com a «mam», morre uma parte de Roland, que sempre vivera com ela e que dela cuidara com zelo durante os meses finais, diz, como se fosse ele a mãe e ela a filha. Em fichas de notas soltas, incluídas no início das obras que ainda finalizará (a conferência «Longtemps je me suis couché de bonne heure» e, sobretudo, A Câmara Clara, de 1979), o escritor regista o cataclismo interno da perda. Exprime a evolução da dor, da emotividade ao desgosto profundo. Analisa o legado da mãe, «tão perfeitamente generosa», e a acédia que toma conta dele, o seu «egoísmo desolado», a incapacidade de ser como ela. É ele mesmo quem explica: «O que é espantoso nestas notas: um sujeito devastado presa da presença de espírito.» Sentindo-se mais do que nunca próximo de Proust, Barthes exprime o luto como «o da relação amante e não o de uma organização de vida». Frágil, expõe-se em estado de abandono perante a solidão definitiva, «sem outro termo doravante senão a [sua] própria morte». Diário de Luto é um registo notável da «integração» do luto através da linguagem, como um desgosto «inexprimível, mas apesar de tudo dizível».

Diário de Luto, Roland Barthes, Edições 70, 267 págs.

SOL/ 27-11-2009
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