Pó enamorado: E as Montanhas Ecoaram, Khaled Hosseini

Khaled Hosseini retratou o amor filial   e o Afeganistão  e arrasou as tabelas. Outono de 1952, Afeganistão. Na aldeia isolada de Shadbagh, ...

Mostrar mensagens com a etiqueta Top Mais. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Top Mais. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, setembro 12, 2013

Rentrée 2013 | Folha a folha


São seis volumes para 3500 páginas confessionais, de que se venderam cerca de 500 mil exemplares só na Noruega, país de origem do autor, Karl Ove Knausgård (n. 1968). Provocatoriamente intitulado A Minha Luta (Min Kampf), este ciclo de romances, lançado entre 2009 e 2011, chega a Portugal em Outubro, com a publicação do primeiro volume, sobre a morte do pai de Knausgård. Será a leitura mais voyeurista desta rentrée e a aposta editorial mais arriscada, assumida como «um projecto demencial» pela Ahab, pequena editora de ficção traduzida criada pelos advogados portuenses Joana Pinto Coelho e Tiago Szabo em 2008 e já detentora de um espaço único no mercado português. Acusado de violar de forma radical a privacidade de familiares e amigos, Knausgård defende a sua obra, negando tratar-se de uma autobiografia, mas, sim, de uma investigação sobre a sua própria identidade ao jeito de Proust e uma saga sobre os pequenos e grandes combates da vida quotidiana.
Das apostas desta rentrée na estreia em ficção por autores portugueses, destaquem-se o primeiro romance da poeta Ana Luísa Amaral (Ara, Setembro, Sextante) e os romances de estreia dos jornalistas Raquel Ribeiro (Este Samba no Escuro, com Cuba ao fundo, Outubro, Tinta-da-China) e Bruno Vieira Amaral (apresentado pela Quetzal para Outubro, como «um mosaico de personagens marginais, inesperadas, carregadas de histórias peculiares»). Por seu turno, sairão, em Setembro, novos romances de Pepetela (O Tímido e as Mulheres, D. Quixote), Valter Hugo Mãe (A Desumanização, agora pela Porto Editora), David Machado (Índice Médio de Felicidade, D. Quixote), José Rodrigues dos Santos (pela Gradiva e ainda envolto em secretismo) e Ana Cristina Silva (A Segunda Morte de Anna Karénina, Oficina do Livro). Em Outubro, será a vez de novas ficções de Richard Zimler (A Sentinela, agora pela Porto Editora), Alice Vieira (ainda sem título, D. Quixote) e Miguel Real (Romance de Macau, D. Quixote), de um pequeno romance póstumo de Urbano Tavares Rodrigues (Nenhuma Vida, D. Quixote) e do mais recente thriller do norte-americano luso-descendente Daniel Silva (Anjo Caído, Bertrand). Em Novembro, haverá novo romance de Rita Ferro (ainda sem título, D. Quixote). Na área do conto, aguarde-se o inédito A Liberdade de Pátio, de Mário de Carvalho (em Outubro, pela Porto Editora, aquando da homenagem prestada ao autor no festival Escritaria, em Penafiel).
Quanto à ficção estrangeira contemporânea, preparem-se, já em Setembro, para os mais recentes romances de J. M. Coetzee (A Infância de Jesus, D. Quixote), Mario Vargas Llosa (O Herói Discreto, Quetzal) e A. M. Homes (Assim Para Nós Haja Perdão, Women’s Prize for Fiction 2013, Relógio d’Água) e para a edição de O Menino de Cabul, de Khaled Hosseini (Presença) e do recente livro de memórias Relatório do Interior, de Paul Auster (Asa). A autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie estará em Lisboa no final deste mês para promover Americanah (D. Quixote), romance ambicioso sobre a imigração e as questões da raça nos EUA e no Reino Unido. Em Outubro, será a vez de NW, de Zadie Smith (D. Quixote), de mais um título de Haruki Murakami pela Casa das Letras, de Vida Depois da Vida, de Kate Atkinson (Relógio d’Água), e O Conselheiro, de Cormac McCarthy, que aterra nos cinemas um mês depois, adaptado por Ridley Scott. Já em Novembro, abram espaço na estante para o novo de Julian Barnes (Variações da Vida, Quetzal), Os olhos têm ouvidos no jardim da minha casa, estreia da cantora brasileira Vanessa da Mata (Quetzal), Dinheiro: Uma Biografia Não Autorizada, de Felix Martin (finalista do Guardian Book Award, Círculod e Leitores/Temas e Debates), O Vígaro, de John Grishman (Bertrand) e Serena, de Ron Rash (Presença, finalista do Pen Faulkner 2009; o filme homónimo estreia em Portugal em Dezembro)
Quanto à poesia, em Setembro, surgem os quatro primeiros livros da obra poética toda de Sophia de Mello Breyner Andresen pela Assírio & Alvim e uma Antologia Poética de Natália Correia (D. Quixote), organizada e prefaciada por Fernando Pinto do Amaral —Fernando Dacosta lança entretanto O Botequim da Liberdade (Casa das Letras), registo de como Natália «marcou, a partir de um pequeno bar de Lisboa, o século XX português. Em Outubro, sairá A Dama e o Unicórnio, de Maria Teresa Horta (D. Quixote) e, em Novembro, O Nome Negro, de António Carlos Cortez, pela Relógio d’Água, editora que também nos presenteia com uma Antologia Poética de Emily, Anne e Charlote Brontë, traduzida por Ana Maria Chaves.
Às prateleiras dos clássicos, chegará em Outubro, pela Relógio d’Água, um segundo prato forte editorial: a nova tradução portuguesa de Ulysses, de James Joyce, por Jorge Vaz de Carvalho (a obra foi traduzida no Brasil por Antônio Houaiss em 1966 e, a partir deste, em Portugal, por João Palma-Ferreira, em 1989). Nesse mesmo mês, a editora lança nova tradução de Guerra e Paz, de Tolstoi, por António Pescada, e, em Novembro,  Bem Está O Que Bem Acaba, de W. Shakespeare, traduzido por M. Gomes da Torre. Destaque ainda para Pnin, de Vladimir Nabokov, e O Desconhecido do Norte-Expresso, de Patricia Highsmith (ambos em Setembro, pela Relógio D’Água), Tudo Passa, de Vassily Grossman, e A Irmã, de Sándor Márai (ambos em Outubro, na D. Quixote), Contos de Thomas Mann (Outubro, Bertrand), Na Corda Bamba, de Saul Bellow (Novembro, Quetzal), Mason & Dixon, de Thomas Pynchon (Novembro, Bertrand) e para mais dois volumes da colecção de obras de Fernando Pessoa coordenada por Jerónimo Pizarro para a Tinta-da-China: em Outubro, sai Livro do Desassossego com edição de Pizarro após um regresso às fontes do texto; em Novembro, surge Eu Sou Uma Antologia, inventário dos 136 autores inventados por Pessoa e identificados por Jerónimo Pizarro e Patricio Ferrari nas cerca de 30 mil folhas do espólio pessoano.
Anotem-se ainda na lista de eventuais compras de livros nesta rentrée os ensaios Enxaqueca, de Oliver Sacks, e O Ano Em Que Sonhámos Perigosamente, do filósofo esloveno Slavoj Zizec, ambos previstos para Setembro, na Relógio D’Água. Em Outubro, chegarão, pela Quetzal, o mais recente livro ensaístico de Claudio Magris (Alfabetos) e uma recolha dos ensaios de David Foster Wallace (Uma Coisa Supostamente Divertida Que Nunca Mais Vou Fazer). Na colecção de livros de viagens da Tinta-da-China saem, em Setembro, Mais Um Dia de Vida: Angola 1975, relato de Ryszard Kapucinski prefaciado por Pedro Rosa Mendes, e, em Novembro, Big Bang Brasil, de Alexandra Lucas Coelho, e o curiosíssimo Dicionário de Lugares Imaginários, levantamento feito por Gianni Guadalupi de 1200 lugares imaginários na história da literatura, com prefácio de Alberto Manguel.
Entretanto, a Gradiva lança, em Outubro, O Início do Infinito, do físico David Deutsch, e o clássico de gestão Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes, de Stephen R. Covey, e, em Novembro, reedita o esgotadíssimo clássico sobre computação e inteligência artificial  Gödel, Escher e Bach, de Douglas Hofstadter. Para entender o cenário económico actual, leiam-se O Preço da Desigualdade, do Nobel de Economia Joseph E. Stiglitz (Setembro, Bertrand), Austeridade: A História de Uma Ideia Perigosa, de Mark Blyth (Outubro, Quetzal) ou, em Novembro, um ensaio sobre como sobreviver a uma crise assinado por Isabel Santos, jornalista de economia da TVI, para a Gradiva. Na área da história, destaque para Um Agente Português na Roma do Renascimento, investigação assinada por Paulo Lopes a partir de manuscrito inédito de um fidalgo português que foi agente secreto da corte portuguesa em Roma no séc. XVI (Setembro, CL/Temas e Debates). A fechar o ano e já perto do Natal, chegarão às livrarias dois dos seis livros infantis de recriação e efabulação de episódios-chave da Bíblia assinados por Dulce Maria Cardoso e ilustrados por Vera Tavares para a Tinta-da-China.

SOL/ 30-08-2013
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

quinta-feira, fevereiro 14, 2013

Os melhores dos últimos 25 anos


O que fica do que foi (editado em Portugal nos últimos 25 anos)

Alexandra Alpha, José Cardoso Pires, Dom Quixote, 1987
Até ao Fim, Vergílio Ferreira, Bertrand, 1987
O Medo, Al Berto, Contexto, 1991
Último Volume, Miguel Esteves Cardoso, Assírio & Alvim, 1991
História de Portugal, José Mattoso (dir.), 1993-95, Círculo de Leitores
Amar um Cão, Maria Gabriela Llansol, Colares Editora, 1990
O Erro de Descartes: emoção, razão e cérebro humano, António Damásio, Europa-América, 1995
Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago, Caminho, 1995
Tratado da Evidência, Fernando Gil, IN-CM, 1996
A Situação Social em Portugal, António Barreto (org.), ICS-UL, 1996-2000
Manual dos Inquisidores, António Lobo Antunes, Dom Quixote, 1996
Poesias Completas, Alexandre O’Neill, Assírio & Alvim, 2000
Pode um Desejo Imenso, Frederico Lourenço, Cotovia, 2002
A Ronda da Noite, Agustina Bessa-Luís, Guimarães, 2006
As Saias de Elvira e Outros Ensaios, Eduardo Lourenço, 2006
Século Passado, Jorge Silva Melo, Cotovia, 2007
Uma Grande Razão – Os poemas maiores (antologia), Mário Cesariny, Assírio & Alvim, 2007
Combateremos a Sombra, Lídia Jorge, Dom Quixote, 2007
“O Nosso Século É Fascista!”, Manuel Loff, Campo das Letras, 2008
Ofício Cantante - Poesia Completa, Herberto Helder, Assírio & Alvim, 2009 620 pp.
Dicionário do Judaísmo Português, VVAA., Editorial Presença, 2009
Adoecer, Hélia Correia, Relógio D’Água, 2010
Uma Viagem à Índia, Gonçalo M. Tavares, Caminho, 2010
Peregrinação de Enmanuel Jhesus, Pedro Rosa Mendes, Dom Quixote, 2010
Obra Poética, Sophia de Mello Breyner Andresen, Caminho, 2010

Primeiro, um desvio ao parâmetro temporal desta seleção dos 25 melhores livros de autores portugueses publicados entre 1987 e 2011. Por seis anos, falha a entrada na lista um dos maiores romances portugueses do século XX, senão o maior: Sinais de Fogo, de Jorge de Sena, editado em 1979. Imperdoável, seria não o referir. E porque poucas vezes ele é apontado, também, como a abordagem mais frontal e artisticamente conseguida do tema da sexualidade (e da homossexualidade) na ficção portuguesa, acrescento-lhe outra, também marcante, a de Frederico Lourenço, em Pode um Desejo Imenso, de 2002. Ainda no romance, oito outros destaques, por ordem cronológica. De 1987, Alexandra Alpha, onde, com a sua jocosidade certeira e hipercrítica, José Cardoso Pires ajusta contas com a intelligentsia portuguesa (neste caso, a burguesia intelectual lisboeta dos anos 60 e 70), como nenhum outro o fez depois dele. Do mesmo ano, Até ao Fim, monólogo de um pai no velório do filho, expressão máxima do existencialismo ateu, humanista, de Vergílio Ferreira. De 1990, Amar um Cão, uma boa porta de entrada no universo de originalidade radical de Maria Gabriela Llansol, sobre o qual Eduardo Lourenço vaticinou: será «o próximo grande mito literário da literatura portuguesa».
Salto até 1995 e Ensaio Sobre a Cegueira, súmula da força estilística (e ideológica) da ficção de José Saramago. Em 1996, António Lobo Antunes publica Manual dos Inquisidores, retrato cru do Portugal pós-25 de Abril, romance maior numa obra polifónica e experimental que depois se tornou cada vez mais um desafio para iniciados. De Agustina Bessa-Luís, escolho Ronda da Noite, de 2002, o derradeiro romance, em homenagem à obra toda, com a qual tive durante muito tempo uma relação difícil. Foi no ensaio dedicado a Santo António (de 1979) e no interesse da autora pela mística que, por fim, julguei entender a fonte da grandeza da sua escrita. Agustina escreve em comunicação com uma verdade estranha, possui uma sabedoria quase paranormal, e, lidos como visões, e não como acumulações de aforismos morais ou filosóficos, os seus livros adquirem uma verdadeira dimensão visionária. Combateremos a Sombra (2007), de Lídia Jorge, centrado na personagem do psicanalista Osvaldo Campos, é, por sua vez, um romance corajoso e apuradíssimo, prenúncio das cegueiras que vão corrompendo Portugal no novo milénio. Lídia Jorge prossegue um labor literário que, tal como o da maioria dos autores portugueses verdadeiramente grandes, merecia mais acompanhamento e análise por parte da crítica e discussão pública. Como obra master de Hélia Correia e da iluminação da sua escrita, anote-se Adoecer (2010), um «encontro pessoal» da escritora com Elizabeth Siddal, Dante Gabriel Rossetti, os pré-rafaelitas e o século XIX inglês. Ainda em 2010, dão-se outros encontros, fulgurantes: entre os dois melhores ficcionistas da geração nascida pouco antes do 25 de Abril e os dois expoentes máximos da literatura portuguesa das viagens ultramarinas. Em Uma Viagem à Índia, Gonçalo M. Tavares evoca Os Lusíadas (e Ulisses, de Joyce), para firmar uma epopeia intelectual até uma Índia psicológica, território da solidão desolada do homem contemporâneo. Em Peregrinação de Enmanuel Jhesus, Pedro Rosa Mendes evoca Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, para tornar física, real, uma epopeia de confronto com o passado no presente.
Na poesia, destaco, por afinidade eletiva, as antologias da obra de Al Berto, Alexandre O’Neill, Mário Cesariny (para quando a edição integral?), Herberto Helder e Sophia de Mello Breyner Andresen. Na crónica, Miguel Esteves Cardoso, pela imprevisibilidade do estilo e pelo retrato paródico do modo de ser português, e Jorge Silva Melo, em Século Passado, que é autobiografia, divagação, sobretudo registo de um crítico, encenador e intelectual de exceção.
Na Filosofia, saliento a investigação «epistémica» de Fernando Gil sobre a possibilidade da evidência. Na área da História, destaque absoluto para os oitos volumes da História de Portugal, com colaborações dos melhores historiadores portugueses. Nota especial também para Dicionário do Judaísmo Português, no qual, sob coordenação de Lúcia Mucznik, José Alberto Tavim, Esther Mucznik e Elvira de Azevedo Mea, mais de 60 especialistas reuniram, pela primeira vez, o conhecimento sobre a presença judaica, desde o séc. V, no território hoje português e sobre a diáspora dos judeus de origem portuguesa no mundo. Destaco ainda “O Nosso Século É Fascista!”, de Manuel Loff, escolha pessoal, pelo que me deu a descobrir sobre as relações entre Salazar e Franco e as suas visões do mundo entre 1936 e 1945.
E, porque rever 25 anos de edição por autores portugueses é como arrumar a casa, uma útil arrumação do estado da nação dificilmente poderá passar ao lado do diagnóstico d’ A Situação Social em Portugal entre 1960 e 2000, feito por vários investigadores, sob organização de António Barreto. Deixo para o fim, mas para os destacar como primeiros entre os primeiros, Eduardo Lourenço e António Damásio, figuras máximas da cultura e da ciência portuguesas nos últimos 25 anos.

LER © Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

terça-feira, janeiro 24, 2012

Os Melhores de 2011




• Contos Carnívoros, Bernard Quiriny, Ahab Edições
• Ferrugem Americana, Philip Meyer, Bertrand
• Vida e Destino, Vassíli Grossman, Dom Quixote
• Americana, Don DeLillo, Relógio D’Água
• Crítica da Razão Cínica, Peter Sloterdijk, Relógio d’Água
• O Mapa e o Território, Michel Houellebecq, Objectiva
• Hoje Preferia Não Me ter Encontrado, Herta Müller, Dom Quixote
• Liberdade, Jonathan Franzen, Dom Quixote
• A Questão Finkler, Howard Jacobson, Porto Editora
• Viver no Fim dos Tempos, Salvoj Zizec, Relógio D’Água

E ainda:

• Némesis, Philip Roth, D. Quixote
• O Progresso do Amor, Alice Munro, Relógio D'Água
• Cleópatra, Stacy Schiff, Civilização
• O Sentido do Fim, Julian Barnes, Quetzal
• A Noite das Mulheres Cantoras, Lídia Jorge, Dom Quixote
• O Retorno, Dulce Maria Cardoso, Tinta-da-China
• As Luzes de Leonor, Maria Teresa Horta, Dom Quixote
• As Teorias Selvagens, Pola Olioxarac, Quetzal

segunda-feira, março 21, 2011

Ler a Crise | Em 16 livros


 
Tempos interessantes & Boas intenções
 É uma maldição: «Que vivas em tempos interessantes!» Aos antigos sábios chineses que a terão formulado, podemos responder que, sim, comprovámo-lo no século XX (Hobsbawn dixit) e voltamos a assumi-lo no XXI. Qual o nome hoje dado a este mal-estar? Ah, a crise! A sua dura realidade e a sua fascinante complexidade motivaram, nas últimas duas décadas, milhões de páginas.
O interesse é real. A maldição está em aberto. De todas as áreas da ciência e do pensamento, nascem interpretações e circunstanciações, convicções e propostas. Eis uma escolha entre várias delas, uma escolha entre mil e uma possíveis. Um guia, discutível e por vezes redundante, mas tão bem-intencionado para pensar o presente, e nós nele, como todos os autores referidos. 

Para Daniel Innerarity, é importante e urgente estranharmos a sociedade «complexa, inalcançável e inconcebível» em que vivemos. Mais, esta nossa estranheza é compreensível já que vivemos o presente de uma sociedade invisível. O conceito dá título e acentuação máxima ao ensaio escrito pelo filósofo espanhol em 2004. Na era da generalização do virtual, perante o «actual desajuste entre o que se vê e o que só se pode supor», é cada vez mais difícil protestar e governar. Por isso, Innerarity recusa o actual «uso abusivo da desculpa» (como na luta anti-terrorista) e incita à prática de dizer «Não». Todo o espaço tornado símbolo, a virtualização dos territórios, a sociedade «enredada», o combate público (e sobretudo político) pela atenção ou a construção social e cultural do medo resultaram numa «opacidade social» que obriga a Filosofia a funcionar como «observatório de espionagem». Há que cooperar na vigilância do mundo num «contexto global de responsabilidade». É urgente instaurar a «utilidade social da suspeita» contra a trivialidade. Há que procurar a «verdade da excepção» e repensar a função da utopia. Não para monopolizarmos o futuro como alternativa ao presente, mas impedirmos que «o presente se feche» e sinal de esperança.
A Sociedade Invisível, Daniel Innerarity. Teorema, 237 págs.

Três maleitas, três preocupações movem o canadiano, e católico, Charles Taylor (n. 1931), filósofo atento à teoria política. Primeiro: somos invidualistas, narcisistas, egocêntricos, perdemos os horizontes morais e o sentido da vida. Segundo: somos seres desencantados com o nosso mundo imerso num mal-estar generalizado, vivemos «a primazia da razão instrumental» (máxima eficácia + melhor relação custo-produção = medida do sucesso e domínio da tecnologia) e eclipsámos as noções de objectivo ou fim. Terceiro:  anestesiada a nossa vontade de participação política, arriscamo-nos à perda do controlo e da liberdade, ao despotismo brando, como o definiu Tocqueville. Dedicado sobretudo à primeira maleita, o ensaio original O Mal da Modernidade, de 1992 (depois rebaptizado A Ética da Autenticidade), busca a fidelidade de cada eu a si mesmo, como motor de diálogo e mobilização cívica e política, de «um sentido de vinculação mais interiorizado e mais intenso». Aqui, repensa-se uma ética da autenticidade (final século XVIII) como um «ideal moral» válido. Seremos tantos mais verdadeiros connosco próprios quanto mais o entendermos como uma ligação a um todo mais amplo.
A Ética da Autenticidade, Charles Taylor. Edições 70, 235 págs.

Individualismo da auto-realização ou neo-individualismo narcísico ou, simplesmente, a nossa vida orientada em função do que, apenas para e segundo cada um de nós, parece mais importante. O filósofo e sociólogo francês Gilles Lipovetsky (n. 1944) identificou-o na Era do Vazio (ensaio de 1983) e aprofundou-o na conceptualização de uma hipermodernidade assente num hipercapitalismo de consumo. Em 2008, e nova parceria com o crítico de cinema Jean Serroy (Ecrã Global, 2007), ocupou-se de A Cultura-Mundo: Resposta a uma Sociedade Desorientada. Antes de mais, aceitemos o nosso desnorte perante um regime inédito de cultura: «espécie de hipercultura universal» que transcende as fronteiras e baralha as antigas dicotomias. Vivemos uma cultura «pós-revolucionária e, ao mesmo tempo, hipercapitalista», a par de um consumo bulímico e de uma hiperindividualização. Lipovetsky e Serroy traçam o diagnóstico para, por fim, desejarem a reabilitação da cultura do mérito e do trabalho, o reforço da coesão social e o investimento no capital humano, na educação e na investigação. Tudo isto, garantem, pode resultar da substituição do triunfo do economicismo pela «vingança da cultura». Para vivermos melhor em conjunto, «mobilize-se a inteligência e a imaginação dos seres humanos» na tarefa de «civilizar a cultura-mundo» e a cultura-mercado.
A Cultura-Mundo: Resposta a uma Sociedade Desorientada, Gilles Lipovetsky e Jean Serroy. Edições 70, 243 págs.

Da felicidade apenas conhecemos o incessante anseio que temos dela. Vista de qualquer outro modo, garante Fernando Savater (n. 1947), ela não passa de «tolice de canção ligeira ou embuste de padres». Podemos nunca lhe ver o rosto, antes apenas o traseiro, mas jamais deixaremos de a idealizar, asssegura este escritor e filósofo espanhol, catedrático de Ética. Autor prolífico, interessou-lhe em 1986 editar uma série de ensaios sobre a questão moral, para «abordar a felicidade a partir do seu visceral núcleo ético». O Conteúdo da Felicidade, de 2002, é a reedição acrescentada destes textos e exemplo da inteligência estimulante de Savater. Diz-nos, por exemplo: «O segredo da felicidade é ter gostos simples e uma mente complexa; o problema é que frequentemente a mente é simples e os gostos complexos.» E a citação ajusta-se como piada aos piores sinais da contemporaneidade. Entre a ética e a felicidade, está em comum «o que o homem quer». Por isso, Savater opta por «uma abordagem do funcionamento interno da decisão ética». O que quero eu realmente? Uma vida boa? Mas, como regulá-la para que assinale «os limites devidos à liberdade» e supere o pior individualismo? Entre outros desafios (como a reflexão sobre o discurso ecológico), Savater propõe-nos pensar se a tentação da solidão não é, afinal, «a primeira ameaça contra o projecto ético de um egoísmo racional».
O Conteúdo da Felicidade, Fernando Savater, 2002. Ambar, 176 págs.

Na última década, nasceu «um Homo consumericus de terceira geração, uma espécie de turboconsumidor distante, móvel e flexível, bastante liberto das antigas culturas de classe, imprevisível no que toca aos seus gostos e às suas compras», mais exibicionista e menos invejoso. Gilles Lipovetsky define-o (define-nos?) no ensaio A Felicidade Paradoxal, de 2006. E pergunta: perante a supremacia do consumo «contínuo, dessincronizado e hiperindividualista», como se redefiniu o imaginário da felicidade? Lipovetsky desemboca num paradoxo. Precisamos de menos consumo, para recentrarmos a nossa busca de satisfação, a gestão da energia global e do individualismo. Precisamos de mais consumo, para proporcionar melhores condições sociais, gerir melhor o tempo e os recursos e usufruir de experiências novas. O consumo emocional, como experiência íntima e forma de privatização dos modos de vida, está no centro de uma «corrida desenfreada à felicidade privada». Somos cada vez mais hedonistas e, globalmente, temos cada vez mais meios para o sermos. Então, por que motivo decresce a alegria de viver e aumenta a insatisfação existencial, profissional e sexual? Lipovetsky sustenta a correcção e reestruturação do terceiro acto das sociedades de consumo numa premente reinvenção da felicidade.
A Felicidade Paradoxal: ensaio sobre a sociedade do hiperconsumo, Gilles Lipovetski. Edições 70, 357 págs.

O interesse pela área ainda é diminuto. O estado actual dos conhecimentos é fraco e incompleto. Todavia, a investigação sobre a felicidade poderá, segundo o economista suíço Bruno S. Frey (n. 1941), representar um desenvolvimento revolucionário nas políticas económicas. A par dos teóricos da corrente e do modelo de Economia do Bem-Estar, Frey proclama a urgência e a viabilidade da avaliação do bem-estar «subjectivo declarado» de cada cidadão (o que possibilita também uma outra medição da utilidade). Felicidade, Uma Revolução na Economia, de 2009, resume as reflexões do autor e do seu núcleo académico de investigação (o Grupo de Zurique). Frey diverge, por exemplo, das teorias convencionais que tomam o rendimento como melhor medida do bem-estar individual. As conclusões dos seus estudos indicam que «um rendimento por habitante mais elevado tem pouco efeito, ou nenhum, sobre a felicidade ao longo do tempo». Mais:  «acima de um certo limiar de rendimento per capita, é fraca a correlação positiva» entre este e o bem-estar subjectivo. Pioneiro na aplicação da psicologia à economia, o autor leva-nos a olhar de outra forma para as relações entre felicidade e (des)emprego, ócio, sobreconsumo de televisão, casamento ou divórcio, democracia directa ou federalismo.  Para Bruno S. Frey, a felicidade é uma realidade sustentável.
Felicidade, Uma Revolução na Economia, Bruno S. Frey. Gradiva, 357 págs.

Falecido em Agosto último, Tony Judt (n. 1948) foi então descrito pela Time como «um intelectual público à moda antiga». Nos dois últimos anos de vida, o historiador britânico provou-o com a penosa escrita (sofria de esclerose lateral amiotrófica) de Um Tratado Sobre os Nossos Actuais Descontentamentos, um «guia para os perplexos» e para os jovens. Os alertas prementes de Judt não se resumem a repensar o Estado e encontrar uma nova voz para a esquerda. Fundador e director do Instituto Erich Maria Remarque, da Universidade de NY, emblemático colaborador da New York Review of Books, descendente de líderes rabínicos, ex-sionista e uma das mais controversas vozes críticas do Estado de Israel, Judt sempre defendeu a História como um relato contínuo, sem princípio, meio e fim. O monumental Pós-Guerra, História da Europa desde 1945 ou os ensaios de O Século XX Esquecido: Lugares e Memórias (2008) são a base para a sua reflexão final. A vida que agora temos, o mundo que perdemos, a insustentável leveza da política são capítulos sustentados num caminho cujo objectivo é a construção de um novo espaço público contra as actuais «comunidades muradas». «Temos o dever de olhar o mundo criticamente.» Judt legou-nos a defesa da prática da discordância.
Um Tratado sobre os Nossos Actuais Descontentamentos, Tony Judt. Edições 70, 219 págs.

Para Cristóvão Colombo o mundo era redondo, logo, ele chegaria às índias indo pelo Ocidente. Para o jornalista norte-americano Thomas L. Friedman (n. 1953, três prémios Pulitzer, cronista do The New York Times), o mundo está a tornar-se plano, logo, a globalização não nos trará apenas más descobertas. A segunda teoria, tão contra-corrente como a primeira, foi apresentada em 2005, em O Mundo é Plano: uma história breve do século XXI (actualizado em 2006 e 2007). Friedman escreve na primeira pessoa e conjuga relatos de viagem e pesquisa, testemunhos, histórias e detalhes, documentos e estatísticas. Nesta espécie de crónica-ensaio-reportagem, o mundo está mais plano devido a uma tripla convergência. Hoje, a competição comercial estabelece-se num novo terreno de jogo global, impulsionado pelas novas tecnologias informáticas e de comunicação e potencialmente acessível a todos os indivíduos e empresas. As aspirações dos «novos jogadores» (sobretudo a Índia e a China) explodem e colocam-se no centro das mudanças. A nova colaboração horizontal (que liga e colabora em vez de comandar e controlar) determinará uma inédita reconfiguração social, política e económica. Friedman tem o mérito de nos desviar para uma reflexão mais fértil sobre a globalização, como eventual caminho para um futuro mais justo.
O Mundo é Plano: uma história breve do século XXI, Thomas L. Friedman. Actual Editora, 519 págs.

Um mundo interligado e em crise reposiciona-nos perante «o outro». Dois guias dão-nos um panorama essencial sobre o Médio Oriente e «a ascensão dos restantes» (a China, a Índia, o Brasil, a Rússia ou a África do Sul) face a um declínio da supremacia política dos EUA. Lançado em 2005, A Grande Guerra pela Civilização: a conquista do Médio Oriente condensa trinta anos de cobertura de todas as guerras naquela região pelo jornalista Robert Fisk (n. 1946). São mais de mil páginas de relato vívido, fluido e detalhado. Em contacto directo com os povos, com a fúria e a morte, no Líbano, Israel, Palestina, Irão, Arménia, Argélia, no Iraque, ou frente a Osama bin Laden quando este faz a primeira ameaça directa aos EUA. Fisk é um repórter pacifista, imparcial, mas nunca acrítico. As informações fundamentais que fornece visam uma correção da história. Por seu turno, o jornalista indiano-americano Fareed Zakaria (n. 1964, doutorado em Ciência Política, actual editor da Time) analisa «a terceira grande mudança de poderes da era moderna», convicto de que a democracia liberal pode prevalecer. O Mundo Pós-Americano, de 2008 descreve uma nova configuração do mundo, determinada pelo crescimento económico e recrudescer do nacionalismo.
O Mundo Pós-Americano, Fareed Zakaria. Gradiva, 254 págs.
A Grande Guerra pela Civilização: a conquista do Médio Oriente, Robert Fisk. Edições 70, 1229 págs.

A história acelerou-se tanto que «perdeu as estribeiras». O passado desvitaliza-se tanto mais o presente se impacienta. O homem foi atropelado pelo imediatismo e imaginação imprevisível dos acontecimentos. Muitas vezes reduzido ao papel de espectador, está ele mesmo imerso numa espécie de caos mental e moral, das ideias e dos costumes. Hoje, o homem e a história «estão não apenas desfasados mas profundamente perturbados», afirma Thérèse Delpech, perita em segurança internacional, questões estratégicas e de defesa, comissária da UNMOVIC (Comissão das Nações Unidas de Vigilância, Verificação e Inspeção). Em O Regresso da Barbárie (Prémio Femina de Ensaio 2005), a investigadora francesa descreve a «desordem interior» de um mundo interligado, onde a violência e o terror se banalizaram. Incapazes de entender o sentido da história, sujeitamo-nos a que à «barbárie da acção» se suceda a barbárie do espírito. Delpech procede a uma análise desde a primeira revolução russa, em 1905, até ao passado mais recente e ao presente, para, por fim, viajar até 2025. São três as suas «apostas em relação ao futuro»: quanto ao terrorismo internacional, à proliferação de armas de destruição maciça e às relações sino-americanas. É só um o seu apelo: a ética tem de estar no centro de uma reabilitação da política. Para que se evite o avanço mais apetrechado do que nunca do «lado mais destruidor da psicologia humana».
O Regresso da Barbárie, Thérèse Delpech (Prémio Femina de Ensaio). QuidNovi, 262 págs.

«As palavras fast food invadiram tudo, os McDonald's e os Kentucky Fried Chicken do espírito humano levam a melhor por um milhão contra um sobre a cultura.» Disse-o George Steiner (n. 1929) numa entrevista de rádio, depois publicada, em 2000, com o título Barbárie e Ignorância. Neste mesmo ano, editou-se Quatro Entrevistas com George Steiner, por Ramin Jahanbegloo. Nos dois livros, um dos mais influentes intelectuais contemporâneos (crítico, ensaísta, filósofo e tradutor) exprime de forma imediata a evolução do seu entendimento do mundo. Formado pelo judaísmo vienense do início do século e no culto e paixão pela «grande cultura», denuncia hoje a prevalência de um «a-humanismo». Pessimista, ainda assim insiste: «O ensino é a doença da esperança necessária!» Testemunhos como o de Steiner, reflexo de uma biobibliografia ímpar, iluminam a análise do presente. No caso português, é no pensador Eduardo Lourenço (n. 1923) que encontramos semelhante possibilidade e um inestimável inventário do modo de ser português. Leiam-se, por exemplo, os ensaios reunidos em O Esplendor do Caos (1998), acutilantes e actualíssimas perspectivas sobre o poder, a cultura, a comunicação ou a religião.
Barbárie e Ignorância, George Steiner. Fim de Século, 106 págs.
Quatro Entrevistas com George Steiner, Ramin Jahanbegloo. Fenda, 212 págs.
O Esplendor do Caos, Eduardo Lourenço, 1998. Gradiva, 125 págs.

Slavoj Žižek disseca a nossa época sem piedade e recorrendo às mais heterogéneas armas de análise. Todavia, Slavoj Žižek jamais poderia existir senão na nossa época. Nascido em 1949, o filósofo e psicanalista esloveno será talvez o melhor representante da teoria crítica pós-moderna e pós-revolucionária. Em Marx e Hegel bebeu o suficiente para inspirar esperança na sobrevivência do pensamento político de esquerda. Freud e Lacan continuam a ser os seus mestres. Mantém uma grande paixão pelo cinema. Em cerca de cinquenta títulos, Žižek terá provavelmente referido, comentado ou respondido a todas as principais propostas de análise teórica da contemporaneidade. Daí que o essencial a saber sobre Žižek é que as suas propostas partem de uma fortíssima capacidade de dispersão. Faça-se o teste com o ensaio mais recente traduzido em Portugal: Da Tragédia à Farsa (de 2009). Propõe um mergulho radical na «crise em curso», enquadra-a a partir dos acontecimentos do 11 de Setembro e da derrocada financeira de 2008, mas para abordar as «questões conexas». Žižek quer associar o nosso mal-estar ao «núcleo utópico da ideologia capitalista» e sustentar a viabilidade de «novas formas de práxis comunista».
Assume-se como «extremamente parcial». E em pleno combate à «chantagem moralista democrático-liberal».
Da Tragédia à Farsa, Slavoj Zizek. Relógio D’Água, 179 págs.

«A própria ideia de revolução como acontecimento transformador na história deve-se à religião. Os movimentos revolucionários modernos são uma continuação da religião por outros meios.» Aparentemente seculares, as utopias do século XX (nazismo e comunismo) projectaram sobre nós o regresso de mitos religiosos muito antigos. John Gray (n. 1948) expõe a base da sua reflexão sobre progresso social e contra o humanismo liberal logo no início do ensaio A Morte da Utopia, de 2007. Para este filósofo político britânico, o alerta máximo reside no ressurgimento de crenças apocalípticas, acentuado pela progressiva escassez de recursos naturais. São estas crenças que moldam políticas antagónicas como as de Bush ou Ahmadinejad e fazem eclodir conflitos políticos. Enquanto John Gray prega que «a tarefa mais necessária do tempo presente é aceitar a realidade irredutível da religião», Peter Sloterdijk (n. 1947) coloca a repressão da cólera no epicentro dos actuais desiquilíbrios políticos. No ensaio «político-psicológico» Cólera e Tempo, de 2006, o filósofo alemão percorre a história da cólera enquanto essencial escape de tensões. E afirma que à morte de Deus e ao fim das reivindicações da esquerda dura, corresponde a morte de uma cólera produtiva.
A Morte da Utopia, John Gray, 2007. Guerra e Paz, 311 págs.
Cólera e Tempo, Peter Sloterdijk, 2006. Relógio D’Água, 267 págs.

Em 2000, e em colaboração com o seu ex-aluno Michael Hardt, Antonio Negri (n. 1933) publicou Império e proclamou: «Ao alcançar o nível global, o desenvolvimento capitalista encontrou-se directamente confrontado com a multidão, sem qualquer mediação. Daí que se evaporasse a dialéctica, a ciência do limite e a sua organização.» Surgia um dos mais veementes manifestos anti-globalização, depois desenvolvido em Multidão: guerra e democracia na Era do Império (2004). O reconhecimento da importância do pensamento do sociólogo e filósofo político marxista italiano suplantava por fim a fama mundial motivada, desde 1979, pela controversa condenação judicial por ligação às Brigadas Vermelhas, como ideólogo e mandante moral de crimes como o sequestro e assassinato do líder democrata cristão Aldo Moro. Admirado ou repudiado, Antonio Negri é uma das mais emblemáticas referências da história e teorização da esquerda desde o final dos anos 50 até hoje. Adeus, Sr. Socialismo: Que futuro para a esquerda?, longa entrevista realizada e editada em 2006, actualiza a sua análise do papel e da realidade da esquerda desde 1989, em confronto com os principais acontecimentos políticos da actualidade.
Multidão: guerra e democracia na Era do Império, Antonio Negri e Michael Hardt. Campo das Letras, 351 págs.
Adeus, Sr. Socialismo: Que futuro para a esquerda?, Antonio Negri com Raf Valvola Scelsi. Ambar, 234 págs.

«Agora paz, / agora pão, / agora poema.» O brado foi escrito pelo poeta cabo-verdiano Corsino Fortes. Tomando como sábia esta ordenação de prioridade das necessidades do homem, é obrigatório ler O Império da Vergonha, ensaio-manifesto publicado em 2005 e assinado pelo sociólogo suíço Jean Ziegler (n. 1934), relator especial da ONU para o Direito à Alimentação entre 2000 e 2008. Ziegler, uma das vozes mais incómodas da actualidade, escreve sobre a fome e procura a «eclosão do sentimento de justiça no leitor». A sua arma é a partilha de dados privilegiados e de uma profunda experiência no terreno, num estilo fluido e directo. A sua denúncia é a de uma «ordem canibal» quanto à distribuição de recursos e da riqueza mundiais. O Império da Vergonha faz uma radiografia global dos maiores focos de desnutrição e miséria (destaque para a Etiópia e o Brasil), da acção de multinacionais como a Nestlé ou a Siemens e da falência do direito internacional contra os mais condenáveis trânsitos políticos, comerciais e financeiros. Descreve-se uma ignóbil conjugação entre o desespero da fome e da dívida nos países subdesenvolvidos do hemisfério sul e os interesses das maiores empresas transcontinentais. Hoje, garante Ziegler, somos nós todos quem patrocina «armas de destruição maciça contra os mais fracos».
O Império da Vergonha, Jean Ziegler. Asa, 282 págs.

É uma epidemia altamente contagiosa na era da globalização e foi identificada, baptizada e investigada pelo britânico Oliver James. Chama-se Affluenza e a sua definição é: «dar muito valor ao dinheiro, aos bens, às aparências (física e social) e à fama». A maleita distorce os valores e torna-nos «absolutamente obcecados em medir-nos a nós e aos outros». Propaga-se sobretudo em países dominados pelo capitalismo egoísta (EUA à cabeça) e manifesta-se através de distúrbios emocionais, como depressão, ansiedade, abuso de substâncias ou compulsões como o vício das compras, do trabalho ou do sexo. Affluenza é uma «nova teoria» e titula o livro de mais de quatrocentas páginas publicado em 2007 por este jornalista, ex-psicólogo clínico, produtor e apresentador de documentários na televisão e na rádio. Em mais de quatrocentas páginas, apresentam-se sob a forma de «viagem mental» as conclusões da viagem real efectuada pelo autor, durante um ano e pelos quatro cantos do mundo, à procura de manifestações do vírus. O interesse do livro não está tanto no seu eventual mérito científico (defendido por Oliver James em 2008 na monografia Selfish Capitalist), mas sim no cruzamento entre dados estatísticos e outros e a riqueza dos cerca de 240 retratos-entrevistas que serviram de fonte ao autor. Uma excursão insólita através do mundo global no século XXI.
Affluenza, Oliver James, 2007. Civilização, 2007



LER/ Janeiro 2011
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)