Pó enamorado: E as Montanhas Ecoaram, Khaled Hosseini

Khaled Hosseini retratou o amor filial   e o Afeganistão  e arrasou as tabelas. Outono de 1952, Afeganistão. Na aldeia isolada de Shadbagh, ...

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terça-feira, julho 04, 2017

Nikolai Gogol | A sangue-frio, nas estepes


O fulgor e a crueldade dos cossacos no século XVI ainda hoje eriçam os cabelos do leitor.  Nikolai Gogol descreveu-os, no epicentro histórico da tensão entre a Ucrânia e a Rússia.

Em 1936, ao concluir o conto satírico O Nariz, Nikolai Gogol tinha 27 anos, vivia em São Petersburgo, era um funcionário ministerial apagado, mas um artista dominado por complexas preocupações moralistas e patrióticas. Procurava corresponder ao legado romântico (e nacionalista) do mestre Pushkin, ainda assim a sua prosa conjugava elementos de terror e humor absurdos ou mesmo grotescos com uma forte sensibilidade realista; a fonte da futura grande literatura russa. E, na verdade, ainda hoje a encenação deste texto provoca tão facilmente o riso como uma apreensão tensa.
Nikolai, o «russo mais estranho na Rússia» (Nabokov), nasceu em 1809 na Ucrânia, à data pertença do Império Russo. Filho de um antigo oficial cossaco, entendia que uma narrativa épica devia iluminar um herói e, em torno dele, todo um povo, ambos poeticamente inflamáveis, como faíscas na lenha seca. São prova disso as ficções folclóricas incluídas na coletânea de contos Mírgorod, de 1935, e, em especial entre elas, o conto Tarass Bulba, o cossaco, transformado, em 1942, em novela. Estes dois textos acabam de ser publicados pela E-Primatur, com tradução do russo por Maria Vassilieva.
Em Tarass Bulba, Nikolai Gogol compõe uma homenagem ao heroísmo dos seus antepassados, o que justifica a aura de artificialidade evocativa e colorida que envolve as figuras centrais: o velho líder guerreiro Tarass Bulba Tarass e os seus dois filhos, Ostap e Andrii. Veja-se, por exemplo, como este último se deixa inebriar pela música da guerra: «Ignorava o significado de ponderar, calcular ou medir com antecedência as suas forças e as dos outros. Encontrava nas batalhas um raivoso êxtase e encantamento: via-se-lhe como que uma embriaguez, naqueles minutos em que uma pessoa perde a cabeça, quando aos seus olhos tudo corre e voa: voam cabeças com estrondo, caem por terra os cavalos, e ele avança, como que embriagado, sob o assobio das balas e no esplendor dos sabres, distribuindo golpes sem se importar com os que recebia.»
Tarass, Ostap e Andrii têm o sangue frio dos cossacos, cuja expressão facial era tão imperturbável que nem os bigodes se moviam. Segundo Gogol, este povo havia brotado do seio russo «pela chama das desgraças». Guerreiros e guardiões dos postos fronteiriços, eram nómadas independentes ou camponeses fugidos ao domínio dos senhores feudais e instalados nas terras selvagens na parte sudeste da Europa, mais precisamente naquilo a que se chamou a Pequena Rússia, a região de fronteira (U Krajina) com os tártaros e os otomanos. Possuíam o «hábito desregrado do feitio russo» e uma bravura totalmente destemida. A época da ação de Tarass Bulba é o rude século XVI, o cenário é a estepe e o enredo acompanha a revolta, junto ao rio Dniestr, dos cossacos zaporójianos (da Zaporígia) contra a República das Duas Nações, confederação entre a Polónia e a Lituânia que, então, dominava esse território que é hoje a Ucrânia. Após massacrarem polacos e judeus com extraordinária brutalidade, os cossacos juraram fidelidade a Moscovo, em troca de uma autonomia que nunca foi totalmente respeitada ou assegurada.
Em Cossacos, Novela do Caúcaso, Tolstoi explicita «o amor à liberdade, ao ócio, à pilhagem e à guerra» como principais traços de carácter deste povo. Ressalta também a sua bárbara misoginia e o seu desprezo por todos os outros seres humanos. Está tudo muito bem expresso em Tarass Bulba, bem como um antissemitismo desprezível, na origem provável de muito do que de ignóbil se virá a passar no leste europeu.
No texto original, de 1935, Gogol é claramente pró-ucraniano. Na segunda versão, bem mais extensa, de 1942, claramente pró-russo (nessa altura da vida, assume-se como um autocrata e abandona as antigas ideias liberais). As duas versões ilustram a dualidade ideológica e nacionalista do escritor, a sua pertença simultânea e indiscernível às duas culturas e países que ainda hoje o disputam com fervor.
Mas o conto/novela de Gogol é muito mais do que descrições de crueldade, mística de grupo ou bravura, discursos inflamados de líderes guerreiros e cenas heroicas de batalhas; contém uma difusa inspiração bíblica. Durante um cerco a uma cidade polaca, Andrii, apaixonado pela filha do líder inimigo, trai os seus e passa-se para as fileiras contrárias (a descrição do percurso de acesso à cidade tem traços surrealistas). Atraído para uma emboscada, Andrii é levado à presença do seu pai, que exclama, impassível, antes de o matar: «Fui eu quem te trouxe ao mundo e serei eu quem dele te vai tirar!» E, depois, em frente do corpo sem vida: «Que bom cossaco poderia ter sido!» Na cena da execução de Ostap (Tarass assiste, disfarçado, entre a assistência polaca) ou na descrição final da obstinação e do sacrifício de Tarass sobressai a moldura de libelo nacionalista («Mas haverá no mundo chamas, torturas e forças capazes de vencer a força russa?»), mas ainda assim, e apesar da rigidez da psicologia das personagens, Tarass Bulba é uma leitura histórica e literariamente importante.


Tarass Bulba, Nikolai Gogol, E-Primatur, 245 págs., 17.90 euros

Jornal «i» 05-06-2017
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

domingo, dezembro 25, 2011

Vassili Grossman | Todos ou só um


Vida e Destino, de Vassili Grossman sai finalmente em Portugal. 
É um dos maiores testemunhos literários sobre o totalitarismo no século XX.
Quase 900 páginas e nem um esboço de sorriso ou de conforto; antes, espanto, indignação, repulsa, empatia ou até mesmo um choro condoído. Vida e Destino é uma leitura difícil, mas, até à última página, indispensável. Das florestas do norte até ao rio Volga, nos bunkers de Stalinegrado, nos cubículos dos refugiados moscovitas em Kúbiechev ou em Kazan, na frente, nas trincheiras, nos hospitais de campanha, nos campos correcionais e nos campos de concentração, no gueto, nos vagões da morte, dentro da câmara de gás, nos laboratórios científicos de Moscovo, no gabinete de Estaline, na floresta por onde passeia um Hitler solitário. Entre Setembro de 1942 e Abril de 1943, estivemos lá. Connosco, caminharam entre a «vida passada» e a consumação de um destino individual e coletivo cerca de 160 personagens, todos ligados por algum fio à família de Aleksandra Vladimirovna, química no laboratório da fábrica de sabão de Kazan, e do cunhado, o cientista Víktor Pávlovitch (Strum), repudiado pelos seus pares. Vida e Destino, do judeu ucraniano Vassili Grossman, é uma das mais esclarecedoras leituras sobre as atrocidades do século XX. Uma obra-prima épica por fim traduzida do russo para o português (por Nina Guerra e Filipe Guerra), comparável em fôlego e minúcia a Guerra e Paz, de Tolstói, em profundidade a A Condição Humana e Eichmann em Jerusalém, de Hannah Arendt, em denúncia a Se Isto É um Homem, de Primo Levi.
Vassili Grossman nasceu em 1905, na cidade de Berdítchev, a «capital judia» da Ucrânia. Filho de um engenheiro e de uma professora de francês, ambos judeus emancipados, estudou engenharia química, mas acabou por tornar-se jornalista e escritor. No início da Segunda Guerra, isento do serviço militar, mas como correspondente do jornal militar russo Krasnaya Zvezda, cobre as batalhas de Moscovo, Stalinegrado, Kursk e Berlim. Será um dos primeiros repórteres a testemunhar a libertação dos campos de extermínio (de Treblinka e Majdanek – o seu artigo «O Inferno de Treblinka» servirá de prova nos julgamentos de Nuremberga).
Logo no final da guerra, Grossman é encarregado pelo governo de escrever um livro negro das perseguições aos judeus soviéticos, mas rapidamente percebe que o projeto não é para levar avante. Em 1961, a casa do escritor é assaltada por agentes do KGB, que apreendem anotações, documentos vários, manuscritos recém-concluídos de Vida e Destino (a denúncia fora feita pelo editor da revista para onde enviara um original) e até mesmo as fitas da máquina de escrever. Mikhail Suslov, líder ideológico do Politburo, comunica-lhe que aquele romance não verá a luz do dia nos três séculos seguintes. O dissidente Grossman apela em vão junto de Nikita Krushchev. Em 1964, morre, em Moscovo, vítima de cancro. Dez anos depois, em 1974, um dos dois originais sobreviventes de Vida e Destino é microfilmado pelo poeta Semion Lípkin. O físico nuclear Andrei Sákharov e o humorista Vladimir Voinovich conseguem fazê-lo sair do país e o romance é publicado em vários países, em 1980. Em 1988, é finalmente publicado na Rússia de Gorbatchev, 24 anos após a morte do autor.
Sequência do romance Por uma Causa Justa (sem tradução portuguesa), Vida e Destino expressa um total desencantamento com as lideranças soviéticas desde a revolução de 1917 e possui uma forte base autobiográfica. Como o personagem Anna Semiónovna, a mãe do escritor foi uma das 20 mil vítimas do pogrom de 15 de Setembro de 1941 em Bérditchev (o filho escreve por ela uma terrível carta de despedida). Como Evguénia Nikoláevna, a mulher de Grossman foi perseguida devido às posições políticas do seu primeiro marido. Como Víktor, Grossman assistiu à progressão do medo e do sistema vil da denúncia em nome da «confiança do partido». Como ele, procurou guiar-se pelo melhor que foi dado ao ser humano: «agir segundo a sua consciência».
Vida e Destino, cujo centro é a batalha de Stanilegrado, testemunha com ferocidade o mito da Grande Guerra patriótica, o élan de amor à pátria («é a guerra do povo, é a guerra sagrada...») que justificaria os 27 milhões de mortos russos na Segunda Guerra e, depois, serviria o generalíssimo Estaline e a instrumentalização da ortodoxia. Grossman denuncia, sobre tudo, uma «enorme submissão humana». Um traço novo? Não. «Esta submissão revela o aparecimento de uma nova e terrível força que influenciava as pessoas»: a superviolência dos sistemas totalitários. Capaz de vencer até a inextinguível aspiração humana à liberdade e à peculiaridade, «o verdadeiro e eterno sentido da luta pela vida».
Agindo segundo a sua consciência, o homem torna-se único, «irreplicável como tudo o que é vivo». Por isso, no campo de concentração, o velho bolchevique Mostovskói questiona um sentimento claro e definido: «entre os nossos sou nosso, entre os estranhos sou estranho». Liss, oficial alemão e teórico das SS, dir-lhe-á: «Quando nos olhamos na cara, um ao outro, olhamos não só para uma cara odiosa, mas também para o espelho. Nisto consiste a tragédia da época.» Enquanto o sentimento de individualidade enfraquece, o sentimento de destino cresce. Grossman prova-o em parágrafos burilados todos com o mesmo desvelo na descrição da vida e do destino de cada personagem.
No presente da guerra, cada um encontra-se com o seu próprio passado, revive-o, mima-o e ama-o. Alguns já não vivem, existem só, como «não-filhos do tempo», são executados como meras «figuras». Outros sentem «uma sensação de desamparo na tundra da vida». É quase insuportável a descrição dos massacres, da morte do pequeno David e de Sófia, de mãos dadas na câmara de gás, ou de Liudmila sangrando de dor sobre a campa do filho Tólia. Na verdade, a fatalidade do século XX foi, tal como Grossman defendeu, a de que «todo o inconciliável se conciliou». Impossível esquecer.

Vida e Destino, Vassili Grossman, Publicações Dom Quixote, 855 págs.

SOL/ 16-12-2011
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

quinta-feira, outubro 13, 2011

Ludmila Ulítskaia | Consciência à russa






«Os médicos são sacerdotes caídos», afirma-se em Caso Kukótski, de Ludmila Ulítskaia (n. 1943). O romance foi premiado em 2001 com o prestigiado Booker-Open Rússia e acaba de sair pela Relógio d’Água, traduzido por Nina Guerra e Filipe Guerra. Ulítskaia, bióloga e geneticista de formação, estreou-se na ficção aos 40 anos e é hoje um dos mais populares ficcionistas russos, a sua obra apontada como difícil, mas muito considerada pelo esforço de inovação estilística. Ulístkaia é também conhecida pelas atividades humanitárias e pela publicação da sua correspondência com o bilionário Mikhail Khodorkovski, preso desde 2003 e emblema da oposição da antiga oligarquia a Vladimir Putin. Caso Kukótski é um bom exemplo de como, divergindo da defesa de Putin de uma conciliação patriótica dos russos com a sua história, Ulítskaia esgravata o passado. Desta vez, toma como símbolo do período estalinista a perseguição aos geneticistas, juntando a política à luta entre religião e ciência.
O que Nina Guerra afirma sobre os clássicos russos — «São fáceis de ler, muito difíceis de compreender» — aplica-se bem a Ulítskaia. Caso Kukótski conta a saga da família do cirurgião e ginecologista Pável Kukótski (descendente de uma linhagem de médicos), desde o final da Segunda Guerra até à atualidade. Pável possui o dom da «intravisão», capacidade de perscrutar a olho nu o interior do corpo humano. Apesar de ser «um homem de Estado», é um defensor incondicional da liberalização do aborto, o que o afastará da sua amada mulher, Elena, ou da humilde criada Vassilissa, e o tornará um alcoólatra. Ao adoptar a filha de Elena, Tânia, e, mais tarde, Toma, a órfã de uma mulher vítima de aborto clandestino, Pável procura construir uma família na qual o afecto e a razão se sobreponham à ligação de sangue.
Caso Kukótski explora precisamente os conflitos entre os valores morais e da família, o determinismo biológico e as instituições sociais. O misticismo está também presente, sobretudo na críptica segunda parte. Como nos casos dos sonhos e da demência progressiva de Elena ou da sexualidade, da maternidade e da recusa ética da ciência por Tânia, Ulítskaia questiona a liberdade social a partir da dimensão individual e do problema da consciência, tão caro à grande literatura russa.

Caso Kukótski, Ludmila Ulítskaia, Relógio D’Água, 380 págs.
SOL/ 19-08-2011
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)