Pó enamorado: E as Montanhas Ecoaram, Khaled Hosseini

Khaled Hosseini retratou o amor filial   e o Afeganistão  e arrasou as tabelas. Outono de 1952, Afeganistão. Na aldeia isolada de Shadbagh, ...

quinta-feira, junho 30, 2011

Nabokov | Nas asas da borboleta


A edição por cá de grande parte da obra de Vladimir Nabokov (1899-1977) é um dos maiores legados dos vinte anos de Carlos Veiga Ferreira à frente da Teorema (em Outubro próximo, o editor apresentará os primeiros títulos da sua nova editora, a Teodelito). Regressa às livrarias o primeiro volume dos Contos Completos, de 2003 e há muito esgotados. A colectânea integral, com tradução de Telma Costa, junta aos 52 contos arrumados pelo escritor (os que ele achava merecedores da língua inglesa) outros 13, seleccionados e depois todos organizados cronologicamente pelo tradutor e filho do autor Dmitri Nabokov. Escritas entre o início dos anos 20 e meados dos 50, estas narrativas curtas representam uma amostra furta-cores da genialidade do autor de romances como Lolita, Fogo Pálido e Ada ou Ardor, tão intensa como uma trovoada, tão exuberante como as asas dos seus adorados lepidópteros (tema central do conto «O Aureliano»).
No prefácio, Dmitri Nabokov destaca a concisão e acessibilidade desta prosa contística. A par do registo para-biográfico do jovem na Rússia, do universitário em Inglaterra ou do exilado em Berlim, em França e nos EUA e da expressão de gostos curiosos como pela música, pela pintura, pelo ténis ou pelo alpinismo, «o tema talvez mais profundo, mais importante, seja ele central ou subterâneo, é a aversão de Nabokov à crueldade — a crueldade humana, a crueldade do destino».
O conto de estreia, de 1921, é assinado «Vladimir sirin» e, como indica o pseudónimo escolhido, apresenta Nabokov, essa espécie de pássaro das fábulas russas. Há um génio do bosque que se transforma em ser humano porque se perdeu na cidade de pedra. Revela-se já no escritor esse desejo muito particular de imitação do mundo, conjugando o olhar científico sobre ele (traduzido na «paixão pela precisão e pelo design complexo») com o desenho impressivo de um conto de fadas. «A dignidade cintilante de um feiticeiro torna cada frase um potencial momento mágico», aponta também o crítico John Updike. E contrapõe: «A prosa dele é festiva, embora as suas personagens estejam amaldiçoadas.» Leia-se, como exemplo, «Terror». E sigam-se as instruções um dia dadas por Nabokov aos seus alunos: «Acariciem os detalhes: os divinos detalhes!»

Contos Completos (Vol. I), Vladimir Nabokov, Teorema, 384 págs.


SOL/17-06-2011
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

sábado, junho 25, 2011

Cleópatra | rainha sem rosto

Ceópatra, Michelangelo

Logo no início, Stacy Schiff esclarece que, até hoje, nenhum retrato em pedra de Cleópatra VII se revelou fidedigno. Daí que, insiste, permaneça acertado o remoque do escritor francês André Malraux: «Nefertiti é um rosto sem rainha; Cleópatra é uma rainha sem rosto.» Mais do que desvendar os traços exactos da face, foi a vontade de dar consistência à vida e aos actos desta figura lendária o que moveu a biógrafa norte-americana (vencedora de um prémio Pulitzer por Véra, sobre a mulher de Vladimir Nabokov; autora de Saint-Exupéry; A Biography e do estudo A Great Improvisation: Franklin, France, and the Birth of America). Cleópatra, biografia datada de 2010, é mais convincente do que qualquer outro ensaio histórico sobre a última rainha do Egipto e tão cativante como qualquer abordagem ficcional. Vingando-se dos mitos, Cleópatra ressurge com toda a carne e osso da sua grandiosidade, um misto de «suprema confiança» e de «superlativos poderes de persuasão».
A riqueza substancial do que lemos deriva de um cruzamento crítico muito inteligente entre escassíssimas informações biográficas seguras, múltiplos dados históricos sobre a época e os contemporâneos e desconcertantes elementos de efabulação mítica. Só assim se torna credível que, ainda que quase sem fontes primárias, Schiff recrie a «educação esmerada» da jovem Cleópatra a partir do contexto detalhado e vivo da Alexandria do seu tempo (século I a.C.), devotada ao saber literário, à memorização e ao culto da destreza verbal, cruzando-o com referências historiográficas (Plutarco assegurou que a rainha dominava nove línguas) e a lenda sexual da mulher que, aos 21 anos, seduziu Júlio César (com o dobro da idade). Cozinhando todas as referências, subtrai-se da famosa sensualidade de Cleópatra o que se acentua da sua inteligência, verve e cultura. Talvez só uma mulher conseguisse este ajuste de contas histórico com outra mulher, uma figura tão «monstro» quanto «maravilha», cuja excepcionalidade e poder ainda hoje intimidam. Nestas páginas onde sobressai também a vivacidade do olhar da biógrafa, Cleópatra é uma mulher «senhora de si» e, finalmente, senhora de uma verdade histórica abafada por «dois mil anos de críticas desfavoráveis e prosa inflamada, de cinema e ópera».

Cleópatra, Stacy Schiff, Civilização, 400 págs.


SOL/ 09-06-2011
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segunda-feira, junho 20, 2011

Luc Ferry | Entrevista



Luc Ferry, defensor de um humanismo secular, professor de Ciência e Filosofia Política, ex-ministro da Educação (no governo liderado por Jean-Pierre Raffarin, entre 2002 e 2004), actual presidente-delegado do governamental Conseil d'Analyse de la Société, 57 anos. Em Portugal, saiu o seu 12º, ensaio: Famílias, Amo-vos: O Novo Espírito de Família (Círculo de Leitores/Temas e Debates). Com a mesma veemência com que defendeu, e conseguiu, a proibição dos símbolos religiosos nas escolas francesas, o filósofo mediático Luc Ferry defende agora a família. Não como quem volta atrás, diz, mas como quem adivinha a construção de novos valores humanistas que rejeitam a atomização da sociedade. Centro da democracia e do espaço público, a vida privada contemporânea funda-se no amor e, enquanto privilegiado balão de ensaio, condensa a herança da acção dos boémios, da desconstrução dos valores e entidades sacrificiais tradicionais no século XX. Na era da mundialização, o futuro parece ser, afinal, «familiar», privado e, num certo sentido, conservador.

Por que é que prefere falar de nascimento de uma nova família em vez de regresso à família?
Porque não houve um regresso à família... Há uma ideia errada, induzida pelo título (emprestado da expressão «Famílias, Odeio-vos», de André Gide), de que o meu livro trata sobretudo da família. O que me interessa é antes a ligação estranha entre o capitalismo e o nascimento do amor-paixão. Por que é que, na Europa, trocámos o casamento guiado pela razão pelo casamento por amor? O que procuro contar é como, no século XIX, a invenção do assalariado conduziu à rejeição do campo pela cidade, à emancipação do peso das tradições, a uma liberdade individual moderna e à laicicidade. Essas foram as raízes da invenção do casamento por afinidade electiva, a fonte de mudanças gigantescas na organização da vida comunitária.

Um dos mais fortes desafios contemporâneos é o confronto individual com o medo e o poder de estar só. Não crê que ele seja mais premente do que a aprendizagem e construção do amor em família?
Nós nunca estamos verdadeiramente sozinhos: há sempre alguém da família por perto. Na Idade Média, o casal estava unido pela linhagem, pela transmissão do nome ou do património. Uma das consequências mais fascinantes da troca de tudo isso pela ligação por amor - quer esta implique ou não casamento -  é a recusa de uma união falhada.

Ou seja, existem alternativas à solidão a dois e novas formas de enfrentar individualmente o fracasso.
Sim, hoje preferimos um divórcio conseguido a um casamento falhado. E são sobretudo as mulheres (que suportam pior, por exemplo, a infidelidade) a tomarem essa decisão. Mas essas novas rupturas não implicam um corte com a família, que se mantém presente.

Nestas questões, que diferenças existem entre as opções políticas europeias e as norte-americanas?
Os EUA não viveram o Antigo Regime, e isso implica grandes diferenças no plano religioso e da vida afectiva. A Europa tem um passado de casamento  forçado e de ausência de intimidade e vida privada que eles nunca experimentaram. Mas, hoje, na Europa, o casamento passou também a ser uma questão, já não da cidade, mas privada, e isso é que é novo.

No entanto, os jovens europeus preferem o «cocooning» e viver até muito tarde com os pais, enquanto os norte-americanos se afastam, até geograficamente, o mais cedo possível...
Talvez isso se deva às altas taxas europeias de desemprego e a uma consequente mobilidade reduzida. Os jovens europeus têm medo do futuro, o que condiciona a sua emancipação. Nos anos 60, o nosso principal objectivo era libertarmo-nos dos pais. O futuro estava aberto para nós e éramos totalmente intrépidos.

Para onde foi essa segurança?
O que os pais esperam hoje dos filhos é que eles sejam independentes. Mas, entretanto, o medo tornou-se a pulsão mais poderosa. Repare-se na afirmação dos movimentos ecologistas. Na minha geração, éramos completamente anti-ecológicos. Não temíamos nem a natureza, nem o sexo, nem o álcool, nem o tabaco, nem a velocidade; pelo contrário, éramos atraídos, como amantes loucos, por tudo isso. Hoje, o que temos? Jovens que fazem greve pela segurança das suas reformas...

Greves pelo futuro. E uma desculpabilização «humanista» do medo?
Ao mesmo tempo, os jovens têm um amor pelo amor inédito na História. Eles procuram o grande amor e encaram até mesmo a infidelidade como um, condenável, sinal de fracasso. O humanismo de hoje já não é de todo o das Luzes. O século XX desconstruiu todos os valores tradicionais para que entrássemos na era do consumo. Nesse sentido, os boémios contestatários foram o instrumento privilegiado da expansão do capitalismo, graças à anulação do rosto tradicional do sagrado. Todos os motivos de sacrifício e de guerra desapareceram. Na Europa, já ninguém está disposto a morrer por deus, pela pátria ou pela revolução, motivações que, no século XX, provocaram tantos milhões de mortos e oprimidos. Os meus amigos dos anos 60 que continuam a dizer que as utopias desse tempo é que eram boas não passam afinal de uns velhos parvos. Porque o que vivemos agora não é o desencantamento do mundo, mas sim uma revolucionária sacralização do ser humano, que habita os jovens e que irá mudar tudo: a política, a moral, a literatura e a metafísica.

Milan Kundera defendeu que passámos tanto tempo ocupados a pensar na imortalidade que nos esquecemos de pensar na morte. Podemos dizer que passámos tanto tempo a pensar no casamento que nos esquecemos do amor. E, no entanto, hoje, a afirmação inversa também faz sentido.
Nada a fazer: a invenção do casamento por amor é a invenção do divórcio. Atenção que o casamento burguês era inseparável da instituição do bordel e de uma vida em família minada por segredos e mentiras. É inegável que, no século XX, a família se tornou algo incomparavelmente melhor, também para as crianças.

Sim, mas outro sintoma actual é o medo que os adultos têm das crianças...
Se há coisa de que nunca tive medo, é das crianças!

Nem como ministro, nem como pai?
Jamais. Posso ter medo por elas, mas nunca delas. Podemos dizer que o lugar ocupado pelas crianças tem uma importância absurda...

No seu livro, fala aliás das virtudes da responsabilidade não recíproca do amor dos pais pelos filhos. Mas a questão não é sabermos como responsabilizar as crianças e fazer delas cidadãos?
A base da educação na Europa é cristã, judia e grega; o que conta é, por esta ordem, o amor, a lei e o contacto com as obras. A imensa ilusão da pedagogia dos anos 60 foi a de que é preciso primeiro motivar as crianças, para depois as fazer trabalhar. Na verdade, a motivação só vem depois do esforço que o trabalho exige. Os pais e educadores de hoje têm é de aprender a dizer «não» e, no sentido judaico, impor a lei. Têm de aceitar que não é preciso explicar tudo: algumas regras «são assim porque são assim». A grande novidade é que a transmissão (judaica) da obrigação, dos limites, é agora motivada pelo amor (cristão). Temos de nos forçar a sermos autoritários e de forçar as crianças, porque as amamos.

Nos anos 60, o amor devorou a lei?
Toda a esquerda se apercebe agora de que se enganou redondamente nessa área. E que é urgente reinventar a autoridade.

Então, é preciso disciplinar a esquerda?
A direita sempre foi pela punição e a esquerda pela prevenção e pela pedagogia. Essas noções estão em mudança. A esquerda é cada vez mais republicana, ou seja, autoritária e ciente do valor da lei.

E cada vez menos libertária...
Está a libertar-se do lado libertário dos 60, que fez ceder a esquerda republicana. A esquerda libertária impeliu conquistas extremamente positivas, hoje adquiridas. Por exemplo, a condição feminina mudou mais em 50 anos do que em 500. Esses foram os efeitos óptimos da desconstrução levada a cabo pelos boémios. Aceitá-lo não implica que sejamos nostálgicos ou que deixemos de festejar o fim do patriotismo e do revolucionarismo.

O que mudou no papel cívico, público de um filósofo?
No século XX, a Filosofia acompanhou o vanguardismo desconstrutivista. Esse desconstrutivismo foi, aliás, o que atraiu os norte-americanos para a filosofia francesa e o que os libertou do racismo e do sexismo, as duas maiores catástrofes americanas. Mas a Europa segue agora caminho para encarar a Filosofia como ela sempre foi: pública.

E mediática?
Os discípulos abarrotavam as escolas gregas. Rousseau era tão conhecido que as pessoas o paravam na rua. Voltaire era celebérrimo e Kant enchia salas com audiências de toda a espécie. Saímos do período infernal durante o qual o vanguardismo implicou, por essência, um corte da Filosofia com o público. A desconstrução foi necessária, mas hoje é preciso dizer que Nietzsche ou Heidegger são grandes filósofos comparados com esses epígonos  absolutamente desinteressantes que são Derrida ou Foucault. Existem já filósofos, de direita ou de esquerda, com um verdadeiro projecto filosófico, que não passa simplesmente pela desconstrução. Agora é tempo de construir, também no espaço público. Assistimos a uma genial emergência de um humanismo herdeiro do casamento por amor. Não sei como se vai organizar o futuro, mas ele será, com certeza, não desencantado, mas sim apaixonante.


LER/ Setembro 2008
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

quarta-feira, junho 15, 2011

ANTERO DE QUENTAL | Cavaleiro andante



Eduardo Lourenço formulou a pergunta em 1986, num dos ensaios de Fernando Pessoa, Rei da Nossa Baviera (recém-reeditado pela Gradiva). Será Antero de Quental (1842-1891), como Camões ou Pessoa, «apenas um alibi cultural, o tio da América que enriqueceu fora de nós e nos povoa a mente de textos sem relação alguma com a nossa cultura média ou o nosso destino colectivo»? Por que motivo não foi o «suicida das ilhas atlânticas» convidado para o nosso panteão? Recebido com positivismo ou «positividade oportunista», ficou-se pelo molde o programa não-escrito de Antero para «ligar Portugal com o movimento moderno», o realismo e um certo humanismo europeu. E ainda que, por exemplo, João Gaspar Simões defenda que essa ausência de programa completo foi condição para a Geração de 70 ter cumprido, como «actor e vítima», um «parricídio cultural» (Lourenço), Antero não passa hoje de um cometa fulgurante, cujo rasto se dilui no esquecimento.
Reeditou-se recentemente, pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda em parceria com a Câmara Municipal de Ponta Delgada, a Fotobiografia de Antero de Quental, de Ana Maria Almeida Martins, com material iconográfico inédito acrescentado à primeira edição, de 1986. Acompanha-se a vida e obra de Antero por ordem cronológica e através de imagens (impressionantes, os registos da fisionomia complexa e intensa do poeta), contextualizadas por telegráficas legendas explicativas e, sobretudo, por uma excelente escolha de reprodução de ensaios, poemas ou correspondência. A par dos fundamentais «Bom-Senso e Bom Gosto – Carta ao Ex.mo Senhor A. F. de Castilho» (1865), «Causas da Decadência dos Povos Peninsulares» (1871, a primeira das cinco Conferências Democráticas do Casino), «Considerações Sobre a Filosofia da História Literária Portuguesa» (1872) ou «Tendências Gerais da Filosofia» (1890), surgem textos pouco conhecidos, mas reveladores. Entre eles, estão «A Influência da Mulher na Civilização» (1861), «A Indiferença em Política» (1862), o patriótico «O Infante D. Henrique» (1866) ou o primeiro ensaio filosófico, «O Sentimento da Imortalidade», de 1865.
Fotobiografia de Antero de Quental talvez contribua para recuperar a atenção para o orador brilhante, polemista, co-fundador do Partido Socialista Português, filósofo e espiritualista, um sonetista de excepção hoje excluído dos programas de ensino. Não só por isso, estas 400 páginas com boa impressão, bem mereciam melhor colagem de lombada e mais do que o fraquíssimo esforço de divulgação que a Imprensa Nacional faz dos seus livros. Ao que parece, o «positivamente deslocado» Antero continua, como o descreveu Gomes Leal, a ser «como uma grande águia fulva que tivessem encarcerado num capoeira».

Pesará talvez sobre ele a pseudo-contradição de, com veemência tão cega quanto o seu adversário Castilho, ter procurado desmantelar o sentimentalismo e o ultra-romantismo, para por fim ser apontado como o nosso maior poeta romântico. Mas Antero de Quental é um homem em pleno conflito entre o agir e o pensar, entre um idealismo objectivo e desejo de justiça (herdados de Hegel e Proudhon) e a reivindicação do sentimento subjectivo, até mesmo de um ideal de santidade. O criador de Raios de Extinta Luz e Odes Modernas resulta num utópico romântico, por via da «biografia espiritual mais dramática da literatura portuguesa» (definição do ensaísta Óscar Lopes) transposta por fim para sonetos maiores que exprimem uma ansiedade vaga e frustrada.

 

Em 1866, com 24 anos, Antero, herdeiro de um velho morgadio açoriano, confidencia a um amigo: «A natureza em mim é conservadora; só o espírito é que é revolucionário.» O poeta, formado em Direito, acaba de entrar para a Imprensa Nacional, como aprendiz de tipógrafo. Põe a valer a sua acção prática na luta pela dignificação do trabalho. Pouco depois, em Paris, voltará a vestir o fato de operário para sentir o pulsar do realismo revolucionário de Proudhon. De regresso a Portugal, prossegue a vontade fogosa de dirigir subversivamente aquela que, em proporção, pode ser considerada uma das mais ricas gerações de intelectuais portugueses. Mas o país, o «porco adormecido» de que fala Eça de Queirós, deixa-o a pregar sem sucesso «uma liberdade de consciência que poucos reclamavam e uma revolução que só na sua alma existia» (Lourenço). Os vencidos da vida só se tornarão vencedores para as gerações da República.
Antero de Quental suicida-se aos 49 anos. Vítima de «uma devoção dramática a um sentido democrático-social da vida» (Lopes) e de uma doença maníaco-depressiva profunda que nem mesmo Charcot conseguiu diagnosticar. Às duas, sacrifica a obra poética. Destruirá, antes de terminado, o seu «Programa dos trabalhos para a geração nova». E a sua solar «voz das multidões» converte-se apenas no grito ensimesmado de «O Palácio da Ventura»: «Com grandes golpes bato à porta e brado: / Eu sou o vagabundo, o Deserdado... / Abri-vos, portas d’ouro, ante meus ais! // Abrem-se as portas d’ouro, com fragor... / Mas dentro encontro só, cheio de dor, / silêncio e escuridão – e nada mais!»

Ler/Setembro 2009

quinta-feira, junho 09, 2011

Thomas Mann | Os Buddenbrook



O romance abre com o relato de um lauto jantar na nova residência dos Buddenbrook, donos de uma próspera empresa de cereais. Após inesquecíveis desfile de personagens e sucessão de «comida boa e pesada, servida em pesada baixela de prata, acompanhada de um vinho excelente e pesado», o menino Christian, de sete anos, «tão parecido já com o pai [o jovem cônsul Thomas Buddenbrook] que se tornava ridículo», sente-se «mal como o diabo». Acudindo-lhe, o doutor Grabow perscreve a dieta rigorosa de asa de pombo e uma fatia de pão francês. Ao transcrever os seus pensamentos, o escritor judeu alemão Thomas Mann (1875-1955) abre a elegante crítica social no seu primeiro romance, Os Buddenbrook, iniciado aos 21 anos e editado aos 26, em 1901.
Grabow esboça «um sorriso indulgente, com um quê de melancolia à mistura», e pensa que não será ele a mudar «os hábitos de vida de todas aquelas famílias de comerciantes bem sucedidos, abastados e instalados na vida». Christian, como os seus pai e avô, terá uma vida sedentária, intercalada com a desgustação de pratos pesados e selectos que, por fim, talvez lhe causem uma morte inesperada. Era essa a impositiva ordem natural das coisas daquele mundo e nada parecia abalá-la. E, no entanto... suceder-se-ão cerca de 600 páginas, quatro gerações e meio século de transtornos sociais e internos no «livro da família» dos Buddenbrook, no norte da Alemanha.
Recém-editado em excelente tradução de Gilda Lopes Encarnação, Os Buddenbrook é um portentoso documento histórico (sobre a transição de século e padrões sociais) e literário (sobre a transição do realismo novecentista para o simbolismo e o existencialismo). No posfácio, a tradutora pergunta-se por que ainda interessará ao leitor do século XXI. E aponta no percurso de Thomas e dos irmãos  Buddenbrook a tensão central em Mann: «a oscilação contrapontística entre a realidade burguesa, pragmática e implacável, e a vida, mais profunda, do espírito.» Em Os Buddenbrook, saboreia-se a complexidade e o tom algo passado temperados pela objectividade realista e poderosa imagética de Mann. Hanno, o alter ego do autor, simboliza a procura de verdade pela arte contra os atávicos valores burgueses. Uma luta datada, mas ainda sem conclusão.


 
Os Buddenbrook, Thomas Mann, Publicações Dom Quixote, 638 pág.

SOL/ 03/06/2011
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

quarta-feira, junho 01, 2011

Don DeLillo | Parar no deserto



Minimizar toda a acção, parar o tempo e fixar o ponto ómega, o momento final em que, tal como o predisse Teillard de Chardin, todas as consciências se fundirão numa só, no seu mais elevado nível de aperfeiçoamento. Podia ser o mote do décimo quinto romance de Don DeLillo (n. 1936), Ponto Ómega, editado em 2010 e que valeu ao autor o Prémio PEN/Saul Bellow de carreira. Mas a ficção de DeLillo não se compraz com motes, juízos, fórmulas ou conclusões. Este é mais um exemplo da profundidade críptica e estimulante de um dos mais complexos romancistas de ideias da actualidade. Em foco, como sempre, o sonho americano em negativo.
DeLillo ocupa-se desta vez da guerra no Iraque e da especulação neo-conservadora que espaldou a governação Bush. Durante dois anos, o intelectual Richard Elster serviu essa função no Pentágono, conceptualizando uma «guerra em haiku», essência das essências. Agora, aos 73 anos, em retiro no deserto do Arizona, dedica-se a meditar nos «momentos submicroscópicos», no «tempo cego», na dependência americana de violência e capitulação, na morte e no sentido da vida. Ao seu lado, o jovem realizador Jim Finley (narrador) sonha documentar a existência deste homem num único plano-sequência, glosando a concentração total atingida numa instalação-vídeo: a projecção do filme Psycho, de Hitchcock, distendida até durar um dia inteiro. Pelo meio, surge a filha de Elster, para desaparecer misteirosamente no auge da atracção entre ela e Jim. Distensão e suspensão marcam os compassos da narrativa, uma espécie de sinfonia dodecafónica de especulações filosóficas, virtuosas descrições e composições de densa tensão psicológica.
Talvez seja curioso ler em simultâneo as pouco mais de cem páginas de Ponto Ómega e as quase oitocentas do recém-editado Submundo, romance datado de 1997, um portento de justaposição de histórias, com fundo de basebol, energia nuclear e Guerra Fria. Pelo caminho, DeLillo não mudou nada na ambição desmedida de detonar as conspirações paranóicas nos subterrâneos do mundo. De volta a um encontro decisivo no deserto, reduziu-o entretanto ao núcleo do átomo narrativo e da enorme energia visual e cerebral da sua escrita. Aqui, o ponto ómega é um ambiente exterior e interior onde «cada momento perdido é a vida».

Ponto Ómega, Don DeLillo, Sextante, 128 págs.

SOL/ 25-03-2011
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)