Cleópatra | rainha sem rosto

sábado, junho 25, 2011

Ceópatra, Michelangelo

Logo no início, Stacy Schiff esclarece que, até hoje, nenhum retrato em pedra de Cleópatra VII se revelou fidedigno. Daí que, insiste, permaneça acertado o remoque do escritor francês André Malraux: «Nefertiti é um rosto sem rainha; Cleópatra é uma rainha sem rosto.» Mais do que desvendar os traços exactos da face, foi a vontade de dar consistência à vida e aos actos desta figura lendária o que moveu a biógrafa norte-americana (vencedora de um prémio Pulitzer por Véra, sobre a mulher de Vladimir Nabokov; autora de Saint-Exupéry; A Biography e do estudo A Great Improvisation: Franklin, France, and the Birth of America). Cleópatra, biografia datada de 2010, é mais convincente do que qualquer outro ensaio histórico sobre a última rainha do Egipto e tão cativante como qualquer abordagem ficcional. Vingando-se dos mitos, Cleópatra ressurge com toda a carne e osso da sua grandiosidade, um misto de «suprema confiança» e de «superlativos poderes de persuasão».
A riqueza substancial do que lemos deriva de um cruzamento crítico muito inteligente entre escassíssimas informações biográficas seguras, múltiplos dados históricos sobre a época e os contemporâneos e desconcertantes elementos de efabulação mítica. Só assim se torna credível que, ainda que quase sem fontes primárias, Schiff recrie a «educação esmerada» da jovem Cleópatra a partir do contexto detalhado e vivo da Alexandria do seu tempo (século I a.C.), devotada ao saber literário, à memorização e ao culto da destreza verbal, cruzando-o com referências historiográficas (Plutarco assegurou que a rainha dominava nove línguas) e a lenda sexual da mulher que, aos 21 anos, seduziu Júlio César (com o dobro da idade). Cozinhando todas as referências, subtrai-se da famosa sensualidade de Cleópatra o que se acentua da sua inteligência, verve e cultura. Talvez só uma mulher conseguisse este ajuste de contas histórico com outra mulher, uma figura tão «monstro» quanto «maravilha», cuja excepcionalidade e poder ainda hoje intimidam. Nestas páginas onde sobressai também a vivacidade do olhar da biógrafa, Cleópatra é uma mulher «senhora de si» e, finalmente, senhora de uma verdade histórica abafada por «dois mil anos de críticas desfavoráveis e prosa inflamada, de cinema e ópera».

Cleópatra, Stacy Schiff, Civilização, 400 págs.


SOL/ 09-06-2011
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

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