Luc Ferry | Entrevista

segunda-feira, junho 20, 2011



Luc Ferry, defensor de um humanismo secular, professor de Ciência e Filosofia Política, ex-ministro da Educação (no governo liderado por Jean-Pierre Raffarin, entre 2002 e 2004), actual presidente-delegado do governamental Conseil d'Analyse de la Société, 57 anos. Em Portugal, saiu o seu 12º, ensaio: Famílias, Amo-vos: O Novo Espírito de Família (Círculo de Leitores/Temas e Debates). Com a mesma veemência com que defendeu, e conseguiu, a proibição dos símbolos religiosos nas escolas francesas, o filósofo mediático Luc Ferry defende agora a família. Não como quem volta atrás, diz, mas como quem adivinha a construção de novos valores humanistas que rejeitam a atomização da sociedade. Centro da democracia e do espaço público, a vida privada contemporânea funda-se no amor e, enquanto privilegiado balão de ensaio, condensa a herança da acção dos boémios, da desconstrução dos valores e entidades sacrificiais tradicionais no século XX. Na era da mundialização, o futuro parece ser, afinal, «familiar», privado e, num certo sentido, conservador.

Por que é que prefere falar de nascimento de uma nova família em vez de regresso à família?
Porque não houve um regresso à família... Há uma ideia errada, induzida pelo título (emprestado da expressão «Famílias, Odeio-vos», de André Gide), de que o meu livro trata sobretudo da família. O que me interessa é antes a ligação estranha entre o capitalismo e o nascimento do amor-paixão. Por que é que, na Europa, trocámos o casamento guiado pela razão pelo casamento por amor? O que procuro contar é como, no século XIX, a invenção do assalariado conduziu à rejeição do campo pela cidade, à emancipação do peso das tradições, a uma liberdade individual moderna e à laicicidade. Essas foram as raízes da invenção do casamento por afinidade electiva, a fonte de mudanças gigantescas na organização da vida comunitária.

Um dos mais fortes desafios contemporâneos é o confronto individual com o medo e o poder de estar só. Não crê que ele seja mais premente do que a aprendizagem e construção do amor em família?
Nós nunca estamos verdadeiramente sozinhos: há sempre alguém da família por perto. Na Idade Média, o casal estava unido pela linhagem, pela transmissão do nome ou do património. Uma das consequências mais fascinantes da troca de tudo isso pela ligação por amor - quer esta implique ou não casamento -  é a recusa de uma união falhada.

Ou seja, existem alternativas à solidão a dois e novas formas de enfrentar individualmente o fracasso.
Sim, hoje preferimos um divórcio conseguido a um casamento falhado. E são sobretudo as mulheres (que suportam pior, por exemplo, a infidelidade) a tomarem essa decisão. Mas essas novas rupturas não implicam um corte com a família, que se mantém presente.

Nestas questões, que diferenças existem entre as opções políticas europeias e as norte-americanas?
Os EUA não viveram o Antigo Regime, e isso implica grandes diferenças no plano religioso e da vida afectiva. A Europa tem um passado de casamento  forçado e de ausência de intimidade e vida privada que eles nunca experimentaram. Mas, hoje, na Europa, o casamento passou também a ser uma questão, já não da cidade, mas privada, e isso é que é novo.

No entanto, os jovens europeus preferem o «cocooning» e viver até muito tarde com os pais, enquanto os norte-americanos se afastam, até geograficamente, o mais cedo possível...
Talvez isso se deva às altas taxas europeias de desemprego e a uma consequente mobilidade reduzida. Os jovens europeus têm medo do futuro, o que condiciona a sua emancipação. Nos anos 60, o nosso principal objectivo era libertarmo-nos dos pais. O futuro estava aberto para nós e éramos totalmente intrépidos.

Para onde foi essa segurança?
O que os pais esperam hoje dos filhos é que eles sejam independentes. Mas, entretanto, o medo tornou-se a pulsão mais poderosa. Repare-se na afirmação dos movimentos ecologistas. Na minha geração, éramos completamente anti-ecológicos. Não temíamos nem a natureza, nem o sexo, nem o álcool, nem o tabaco, nem a velocidade; pelo contrário, éramos atraídos, como amantes loucos, por tudo isso. Hoje, o que temos? Jovens que fazem greve pela segurança das suas reformas...

Greves pelo futuro. E uma desculpabilização «humanista» do medo?
Ao mesmo tempo, os jovens têm um amor pelo amor inédito na História. Eles procuram o grande amor e encaram até mesmo a infidelidade como um, condenável, sinal de fracasso. O humanismo de hoje já não é de todo o das Luzes. O século XX desconstruiu todos os valores tradicionais para que entrássemos na era do consumo. Nesse sentido, os boémios contestatários foram o instrumento privilegiado da expansão do capitalismo, graças à anulação do rosto tradicional do sagrado. Todos os motivos de sacrifício e de guerra desapareceram. Na Europa, já ninguém está disposto a morrer por deus, pela pátria ou pela revolução, motivações que, no século XX, provocaram tantos milhões de mortos e oprimidos. Os meus amigos dos anos 60 que continuam a dizer que as utopias desse tempo é que eram boas não passam afinal de uns velhos parvos. Porque o que vivemos agora não é o desencantamento do mundo, mas sim uma revolucionária sacralização do ser humano, que habita os jovens e que irá mudar tudo: a política, a moral, a literatura e a metafísica.

Milan Kundera defendeu que passámos tanto tempo ocupados a pensar na imortalidade que nos esquecemos de pensar na morte. Podemos dizer que passámos tanto tempo a pensar no casamento que nos esquecemos do amor. E, no entanto, hoje, a afirmação inversa também faz sentido.
Nada a fazer: a invenção do casamento por amor é a invenção do divórcio. Atenção que o casamento burguês era inseparável da instituição do bordel e de uma vida em família minada por segredos e mentiras. É inegável que, no século XX, a família se tornou algo incomparavelmente melhor, também para as crianças.

Sim, mas outro sintoma actual é o medo que os adultos têm das crianças...
Se há coisa de que nunca tive medo, é das crianças!

Nem como ministro, nem como pai?
Jamais. Posso ter medo por elas, mas nunca delas. Podemos dizer que o lugar ocupado pelas crianças tem uma importância absurda...

No seu livro, fala aliás das virtudes da responsabilidade não recíproca do amor dos pais pelos filhos. Mas a questão não é sabermos como responsabilizar as crianças e fazer delas cidadãos?
A base da educação na Europa é cristã, judia e grega; o que conta é, por esta ordem, o amor, a lei e o contacto com as obras. A imensa ilusão da pedagogia dos anos 60 foi a de que é preciso primeiro motivar as crianças, para depois as fazer trabalhar. Na verdade, a motivação só vem depois do esforço que o trabalho exige. Os pais e educadores de hoje têm é de aprender a dizer «não» e, no sentido judaico, impor a lei. Têm de aceitar que não é preciso explicar tudo: algumas regras «são assim porque são assim». A grande novidade é que a transmissão (judaica) da obrigação, dos limites, é agora motivada pelo amor (cristão). Temos de nos forçar a sermos autoritários e de forçar as crianças, porque as amamos.

Nos anos 60, o amor devorou a lei?
Toda a esquerda se apercebe agora de que se enganou redondamente nessa área. E que é urgente reinventar a autoridade.

Então, é preciso disciplinar a esquerda?
A direita sempre foi pela punição e a esquerda pela prevenção e pela pedagogia. Essas noções estão em mudança. A esquerda é cada vez mais republicana, ou seja, autoritária e ciente do valor da lei.

E cada vez menos libertária...
Está a libertar-se do lado libertário dos 60, que fez ceder a esquerda republicana. A esquerda libertária impeliu conquistas extremamente positivas, hoje adquiridas. Por exemplo, a condição feminina mudou mais em 50 anos do que em 500. Esses foram os efeitos óptimos da desconstrução levada a cabo pelos boémios. Aceitá-lo não implica que sejamos nostálgicos ou que deixemos de festejar o fim do patriotismo e do revolucionarismo.

O que mudou no papel cívico, público de um filósofo?
No século XX, a Filosofia acompanhou o vanguardismo desconstrutivista. Esse desconstrutivismo foi, aliás, o que atraiu os norte-americanos para a filosofia francesa e o que os libertou do racismo e do sexismo, as duas maiores catástrofes americanas. Mas a Europa segue agora caminho para encarar a Filosofia como ela sempre foi: pública.

E mediática?
Os discípulos abarrotavam as escolas gregas. Rousseau era tão conhecido que as pessoas o paravam na rua. Voltaire era celebérrimo e Kant enchia salas com audiências de toda a espécie. Saímos do período infernal durante o qual o vanguardismo implicou, por essência, um corte da Filosofia com o público. A desconstrução foi necessária, mas hoje é preciso dizer que Nietzsche ou Heidegger são grandes filósofos comparados com esses epígonos  absolutamente desinteressantes que são Derrida ou Foucault. Existem já filósofos, de direita ou de esquerda, com um verdadeiro projecto filosófico, que não passa simplesmente pela desconstrução. Agora é tempo de construir, também no espaço público. Assistimos a uma genial emergência de um humanismo herdeiro do casamento por amor. Não sei como se vai organizar o futuro, mas ele será, com certeza, não desencantado, mas sim apaixonante.


LER/ Setembro 2008
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

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