José Cardoso Pires | Ars moriendi: um riso branco

segunda-feira, março 11, 2013


Que não se procure nada e se ache tudo e que, para tal, José Cardoso Pires seja lido e não contado, catorze anos após a sua morte. O «modo josé», substantivo, sempre foi avesso ao indirecto. Talvez, como o «pavor do ridículo literário», isso fosse nele um reflexo do «nojo» que sempre sentiu pela pequena burguesia, de que, aliás, descendia. Independente, pois, aos coices com o barroco, a redundância, o equívoco e o medíocre, primos direitos da genuflexão e do salamaleque. Leiam-no nos dezassete livros que deixou. Bastam-se para falar de dignidade e esforço no ofício da escrita, de uma procura teimosa de «conta justa, pincelada sem alarde». Foi para isso que ele os corrigiu até à exaustão, se o deixassem, ia até à boca da impressora. Aqui, segue-se o exemplo humano, confrontado com a commedia della paura, uma pega de caras da morte concretizada por uma razão trocista.
O escritor fuma, a pensar ao espelho, a «ver para lá» e a «ver para trás» e a duvidar-se («E Agora, José?», 1977). Nessa altura tem 52 anos,  mulher (Maria Edite Pereira, enfermeira, casam em 1954, num «coup de foudre»; será até ao fim o «Esquilo» sem medo que o protege na retaguarda), duas filhas, uma casa ao lado de uma igreja que detesta (S. João de Brito, Alvalade), em breve terá uma outra, só para escrever como gosta, num isolamento obstinado, em silêncio, virado para o mar (Caparica). A revolução foi há pouco, e o romance-maior, O Delfim («uma crítica feroz ao saudosismo português», disse-o ele) está escrito. Depois de ter sido - fôlego - comissionista de drogaria, apontador de cais, praticante de piloto sem curso expulso em apenas sete meses, agente de vendas, correspondente de inglês, intérprete de uma companhia de aviação, «copy-writer» de publicidade (fonte para Alexandra Alpha, a protagonista do romance homónimo que motivava nele um «particular orgulho»), editor, jornalista, cronista, professor universitário de Literatura Portuguesa e Brasileira, Cardoso Pires, com dez livros publicados, vive só da escrita. Ao espelho, José, «um gato escaldado por cinquenta anos de água benta que mia dobrado a adivinhar a chuva», pergunta: «De resto quem te ouve? Quem dá crédito à tua liberdade?»
Uns anos antes, a morte apagada e solitária do amigo Alves Redol fê-lo lamentar «um remorso do tempo» no país injusto que não escuta os seus escritores, intrínsecos «animais incómodos». Em vários textos (reunidos em Dispersos 1, Dom Quixote) insurgiu-se contra a glória que é «sol dos mortos e não dos vivos», contra a «estratégia do requiem», o «elzevir necrológico». Mal sabes, agora, José, quando te questionas sobre quem te ouve, que virás a ser um dos escritores portugueses mais celebrado em vida, com o reconhecimento e os prémios nacionais mais importantes, e o único em tão estreita, e sarcástica, comunicabilidade com o tempo que será capaz de escrever sobre a morte própria, a fazer-lhe figas como os gatos.
Ao espelho, o escritor rememora e futura («o mal é esse»). Está em todos os seus livros, essa particular manipulação das coordenadas temporais e a busca de «um tempo português» («O Tempo Dentro de Nós», Diário de Lisboa, 6.5.1970). O «jogo do tempo» é crucial, por exemplo, para a «perspectiva exterior a ela própria» em O Delfim, que ele disseca numa brilhante «Visita à Oficina; O Texto e o Pre-Texto», em 1971-72. Na Gafeira, que «tresanda a penumbra funerária», o tempo é circular e «inventa[-se] quotidianamente para iludir a morte», tal qual o trabalho da escrita. Na oficina de Cardoso Pires, o tempo recusa a vida percorrida «de bloco-notas na mão», é antes feito da selecção da memória «das coisas, dos seres, dos cheiros» que permite a realidade objectiva e os sentimentos. É tempo sem Deus, tempo honesto, suado (dirá a Alexandre Pinheiro Torres: «o que se escreve sem esforço ninguém o lerá com gosto»), responsável, individual, em aproximação contínua ao que António Lobo Antunes, um dos dois ou três amigos íntimos do escritor, definiu como um «núcleo impartilhável de vida, cheio de sombras e recessos, que as tuas personagens nos traziam como que por acaso, no desleixo vigiado sem o qual a elegância não existe» (crónica «Para José Cardoso Pires, ao ouvido», Público, 24.1.1999). Numa cartada de mestre, esse tempo, que só tarde o libertou da pena censurada, pediu-lhe, por fim, uma memória da desmemória, um De Profundis, Valsa Lenta em discurso directo. Caso sério de tradução para literatura da ausência das próprias palavras (este, uma espécie de auto-censura involuntária).
«Eu» transformado «noutro alguém». Na manhã de 12 de Janeiro de 1995, à pergunta de cartilha «Como te chamas?», José responde: «Parece que é Cardoso Pires.» Internado de urgência no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, é-lhe diagnosticado um acidente vascular cerebral (AVC) de gravidade acentuada, provocado por um coágulo de sangue que se alojara na zona nobre do cérebro, o hemisfério direito. Durante oito dias, embotada a memória, em estado de afasia, o escritor despersonaliza-se, «tudo sem angústia, como quem preenchesse o tempo numa serenidade terminal». Entretanto, um telex da agência Lusa descreve o seu estado clínico como correspondendo a uma «morte cerebral»; ele chamar-lhe-à depois «branca e amável», «branca e nula». Ironia, assenta-lhe certeira uma das frases que mais gostava de citar: «A notícia da minha morte foi um exagero.» (Mark Twain)
Com­pe­li­do talvez por aqui­lo a que os téc­ni­cos cha­mam «sín­dro­ma de Lá­za­ro», em 1997, Car­do­so Pi­res es­cre­ve De Pro­fun­dis, Val­sa Len­ta. O resultado é o registo literariamente inclassificável de uma ex­pe­riên­cia de quase-mor­te e da posterior recuperação total das capacidades cognitivas e discursivas. Sendo a maior (e mais instintiva?) proeza técnica do escritor, uma competição desenfreada entre o Eu e o Outro de si (a primeira e a terceira pessoas verbais), o livro exibe a condição humana na mais crua luta pela sobrevivência e na mais profunda simbiose com o poder da imaginação. Para uma morte branca, ao espelho, José convoca uma escrita de uma brancura iluminada: «essa escrita branca foi sempre o meu sonho, uma escrita despojada, uma escrita substantiva tanto quanto possível» (entrevista a Maria Teresa Horta, Diário de Notícias, 11.7.1997).
No prefácio, o neurologista João Lobo Antunes explica por que é «intrigante» este caso clínico, um «testemunho impressionante de como o génio criativo floresce no sofrimento». Perante a morte, o escritor portou-se como um marialva («Hemigway disse: “[A morte] é mais uma Puta.” É isso. Pena que a definição não seja minha.» - entrevista de Maria Leonor Nunes, JL, 21.5.1997). Frente a frente com ela, José, descarado, ri, com as suas gargalhadas pequeninas, inesperadas e nada católicas. Serra à força na tragédia um teatrinho recortado de comédia negra, e põe a navegar à bolina uma (des)razão surrealista.
Durante, após De Pro­fun­dis, Val­sa Len­ta, Cardoso Pires regressa ao tempo. Nunca o que possa existir para lá do tempo, mas sim: Quanto tempo mais, José? Como num jogo de miúdos, quanto tempo mais queres tu?, as mãos cerradas à espera de acertarem quando se abrirem. A preocupação é ontológica, de encontrar um caminho para terra incógnita, sem dor, sem humilhação e sem metafísicas. Entre 1996 e 1997, conversamos por várias vezes sobre a morte. O que fica dessas conversas é o caso humano, sui generis, p’rás urtigas com a literatura, que só servirá para que ainda publique um «requiem» a Lisboa, como se navegasse, como se navegasse, «ancorado à cidade que [o verá] partir» (Lisboa, Livro de Bordo, 1997).
Diz: «A morte faz parte do cerco da vida. (…) Não há imortalidade. Morremos e morre tudo, não existe mais nada.» Aos 71 anos, agnóstico («a minha mãe era uma católica fervorosa e, por isso, fui criado numa igreja um pouco de campanário: aliás de onde saíram muitos agentes da Pide...»), Cardoso Pires despreza a Igreja, que é apenas «uma entidade desmitificada, uma força social». A vitória sobre a morte até pode ter surgido como «um milagre», mas um milagre da Ciência, pela qual passou a sentir um fascínio «quase infantil, quase idiota», e um feito de médicos como João Lobo Antunes, «grandes na sua profissão, ligados à humanidade e ao coração e, ao mesmo tempo, com um humor criativo». Preocupa-o o medo físico do fim («Não quero que me mantenham à tona deste planeta a fazer figuras tristes»), rejeita os balanços de vida («até porque não me convinha fazê-los»), escuda-se com «a ironia da morte».
Dizem-lhe: «Está com um óptimo aspecto.» Responde, sem pontos de exclamação, antes uma monotonia escarninha: «Pois, não estou morto.» Humor negríssimo, iluminado entre ruínas, a lembrar o diálogo a duas máscaras daqueles dois homens-corvos no quarto do hospital, «dois passarões arruinados, a agredirem-se e sem consciência de que se refugiam no humor para fugir ao medo que têm da morte». José tem a certeza de que Satanás se farta de rir com estes dribles, se calhar até foi ele que lhe deu o neologismo, «simoso», a arma pronta para designar todos os objectos, tudo à volta, sem vulto, nulo: «Desligava-me das coisas porque sabia que só era capaz de as fixar durante alguns segundos. Aceitava o mundo com um fatalismo transigente.»
A doença foi «um desmaio súbito», um sono misterioso por que passou e do qual saiu «como um tipo que põe o sujeito e o predicado numa frase, pára a meio e depois regressa para lhe colocar o complemento». Regressou à vida com a sua fúria felina de fixar o território, num encantamento agradecido, «como se estivesse bêbado, imensamente grato a um mundo que me parece absolutamente maravilhoso». Em pouco tempo, estava de novo a ver para lá («Pá, lava-me essas rugas. Riscam o espelho.») Um tipo resiste e marra e escoiceia, «esse é [também] o modo josé de rosnar a vida». Um tipo tem é que se documentar, estar preparado. Avaliar e golpear a memória.
Era hábito nas pesquisas, e quanto à morte não seria diferente. Cardoso Pires começa por semear referências, bibliografia, recortes, espalha-os pelo caos cifrado do escritório da casa de Alvalade. Partilha o que foi o início da viagem, uma citação de Rainer Maria Rilke: «Oh Senhor, dai a cada um a sua própria morte! Aquela que provenha da vida, em que conheceu amor, sentido e desespero.» Está num ensaio que oferece porque os sublinhados que fez nele são uma chave para aquilo que também ele defende. O livro chama-se How We Die (Cómo Morimos, nesta tradução espanhola, da Alianza Editorial, de 1995) e foi escrito em 1993 por Sherwin B. Nuland (SBN), professor de Cirurgia e História da Medicina na Universidade de Yale, registo de experiências de quase-morte.
Cardoso Pires destaca, em sintonia com a linha de pensamento de Nuland, a risco fluorescente: «Sinto mais curiosidade pelo microcosmos do que pelo macrocosmos; interessa-me mais como vive um homem do que como morre uma estrela, como uma mulher abre caminho pelo mundo do que como um cometa cruza os céus. (…) O mistério que me fascina é o da condição humana, não o da condição do cosmos. (…) Nada me agradaria mais do que uma prova da existência [de Deus], assim como de uma bem-aventurada vida futura. Mas, por desgraça, não vejo qualquer indício dela na experiência de quase-morte.» O escritor fizera, ele mesmo, essa «marcha de sonâmbulo iluminado» (De Profundis). E concluíra que o ars vivendi é o ars moriendi (SBN), sem intermediários, transitivos ou reflexos.
Insiste: o instrumento para a arte de morrer é a dignidade, acima de tudo. Quem por ela cortou a vida a direito, tem direito a morrer com ela («Não há maior dignidade na morte do que a da vida que a precedeu», SBN). Admira os médicos que asseguram aos seus doentes uma morte fácil, acompanhada, lúcida, mesmo com recurso à eutanásia ou ao suicídio assistido. Num documentário, dirigido por Clara Ferreira Alves e emitido em 1998, assegura: «A Medicina não anda cá só para curar, anda a ajudar a matar também, é fundamental. Por isso é que eu tenho uma grande admiração pela eutanásia, eu tenho um grande respeito pela morte ajudada, e um grande desprezo pelos tais heróis do sacrifício.»  José Cardoso Pires morre a 26 de Outubro de 1998, após mais de três meses de coma profundo provocado por uma paragem cardíaca e respiratória. De certeza que, a essas 2h30 da madrugada, um anjo sobrevoou a cidade: «Era louro e de asas vermelhas e tinha um belo rosto triangular em nada semelhante ao dos querubins de igreja. Planou em lentas e tranquilas curvas por cima dos arranha-céus e das praias que contornavam a cidade, percorrendo-os com a sua sombra.» (Alexandra Alpha).
Um tipo livre, o Pires, sem peneiras, amante de universos marginais, tinha de acabar numa história rara, com uma geometria misteriosa como a que desejou às suas personagens. A história é a de José, um homem que escreve colado ao seu tempo, regista a identidade de um país sem cor, autofágico e fechado, depois perde ele próprio a identidade num passe que afinal lhe abre a desmistificação do processo maior, o da morte. Distinguem-no lucidez, independência e coragem e, sobretudo, o riso, um riso branco até contra a morte, que «é sonho e esquecimento» (SBN). De resto, e agora: quem te ouve, José? Quem dá crédito à tua liberdade? E José responde, de profundis, com a sua voz cava: «Disse e vivi, Acta est fabula

LER / Outubro 2008
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

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