Enfim, Sr. Joyce | Dublinenses

segunda-feira, fevereiro 18, 2013


É sabido que, para compor a Dublin do emblemático 16 de Junho de 1904 de Ulisses, James Joyce (1882-1941) se muniu da edição desse ano do Thom’s Directory, diretório de todos os imóveis residenciais e comerciais da cidade e respetivos proprietários. Em 1922, quando publica esta que é a sua obra-prima (a par do mais audaz desafio modernista, Finnegans Wake, de 1939), o escritor tem 40 anos e defende que, se algum dia a sua cidade natal for destruída, poderão reconstruí-la tijolo a tijolo a partir do seu romance. Contudo, a habitar as ruas, casas e pubs, o leitor encontrará sempre o linguajar dos dublinenses, a verdadeira fonte do paradoxo joyceano de simplicidade e complexidade, exterioridade e interioridade. Como o escritor explicou a Djuna Barnes: «Eles estão todos aqui, os grandes faladores, eles e as coisas que eles esqueceram».
Ulisses, traduzido no Brasil por Antônio Houaiss em 1966 e, a partir deste, em Portugal, por João Palma-Ferreira (em 1989), terá, em breve, uma nova tradução portuguesa, assinada por Jorge Vaz de Carvalho. Antes, para entender a composição joyceana de obsessiva atenção aos detalhes exteriores e à vida interior das personagens, há que ler as primeiras obras. Para tal, a editora Relógio D’Água presta louvável serviço, naquela que é já a mais importante iniciativa editorial de 2012. Em Janeiro (de 2012), com tradução de Paulo Faria, saiu o semiautobiográfico Retrato do Artista quando Jovem, romance de formação, editado em 1916, e onde nasce Stephen Dedalus, o alter ego do autor, também presente em Ulisses. Em Fevereiro do mesmo ano, com tradução e prefácio de João Almeida Flor, surgiu a edição bilingue de Música de Câmara, o livro da estreia em 1907, coligindo 36 curtos poemas-baladas de amor, numa antologia batizada, segundo o autor, a partir do som da urina a cair num penico (chamber pot). Chega agora (Junho de 2012) às livrarias, com tradução de Margarida Periquito, Dublinenses, 15 contos de retrato naturalista das gentes de classe média e baixa de Dublin, trabalhado como «um espelho bem polido», na sua «escrupulosa vulgaridade», e publicado em 1914.

 
Desde os 19 anos que Joyce procura «arrancar o segredo da vida» e cunhar para si mesmo um «imponente poder impessoal», como aquele que, em carta, elogia a Henri Ibsen. Mas, só aos 32 consegue editar Dublinenses, durante oito anos recusado por 15 editores devido à audácia das referências nacionalistas, sexuais e morais. A ler como um painel mimético da diversidade com que a vida, a corrupção, a paralisia e a morte se exprimem no dia-a-dia da cidade, Dublinenses é a obra mais acessível de Joyce. Nela, assiste-se ao seu treino de todos os sentidos ao serviço do ponto de vista de cada personagem, uma fala iluminada num caminho da infância para a adolescência e a maturidade, em episódios decisivos de vida pública ou interna ou da história moral de um país.

Dublinenses, James Joyce, Relógio d’Água, 192 págs., 14 euros.

SOL/ 15-06-2012
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

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