Ana Vidal | A Poesia é para Comer

sábado, fevereiro 16, 2013


Agora povo agora pulso / agora pão agora poema. A estrofe é do poeta cabo-verdiano Corsino Fortes (em Do ónus de ser ao ónus de crescer ilha, da antologia Pão & Fonema) e coloca por ordem as prioridades na vida do Homem: paz, pão e poema. Ou, como escreveu Natália Correia: «Ó subalimentados do sonho! A poesia é para comer.» Foi deste último verso que nasceu o título da antologia de poesia lusófona, com conceito original e coordenação geral de Ana Vidal, que venceu o Best Food Literature Book dos Gourmand Book Award 2007 e o prémio de Melhor Livro de Literatura Gastronómica 2008, pela Academia Portuguesa de Gastronomia. Nessa altura, A Poesia é para Comer: Iguarias para o Corpo e para o Espírito era ainda um livro com capa a preto e branco, o esboço do álbum agora disponível na loja da editora Babel, em Lisboa, com boas perspetivas de distribuição alargada em Portugal, tal como já acontece no Brasil. São 250 páginas de feliz correspondência e fusão entre poemas, criações gastronómicas e obras plásticas, assinados todos por diversos criadores de todo o espaço lusófono. Tal como cada fonema diferencia o significado das palavras, também aqui cada sensação provocada no leitor confere unidade particular ao conjunto: uma festa de celebração dos prazeres subjetivos da poesia, da comida e da expressão plástica, no espaço fraterno da comunidade da língua portuguesa.
Ana Vidal, guionista, letrista, com poesia, contos e prosa poética publicada, tem um longo currículo de atividade ligada à comunicação, em jornalismo, copywriting, assessoria de imprensa e escrita criativa. Daí resulta a proposta muito bem conseguida de união de linguagens em A Poesia é para Comer, decorrente da escolha prévia, por parte da coordenadora, dos poemas (cada um com pelo menos uma referência gastronómica), dos chefs convidados (com apoio, em Portugal, da consultoria do chefe José Avillez, e, no Brasil, da curadoria da crítica gastronómica Luciana Frões) e das reproduções de obras plásticas incluídas. Assim se degustam poemas de autores tão díspares como Bocage, Ruy Belo, Clarice Lispector, Ondjaki, Adélia Prado, Fernando Pessoa, Ferreira Gullar, Cesariny, Gil Vicente ou Vinicius de Moraes e criações ou sugestões dos melhores chefs e gourmets dos dois lados do Atlântico, pontuadas por obras de Cândido Portinari, Josefa de Óbidos, Vik Muniz, Fernando Calhau, Emmanuel Nassar, Joana Vasconcelos ou Alfredo Volpi, entre muitos outros.
No pátio da sua casa em Sintra, numa conversa regada a café e chá de gengibre, Ana Vidal insiste em que «a cozinha é uma forma de alquimia». Fala do afecto pela «poesia, comida estranha» (Carlos Drummond de Andrade) e de como, no seu livro, cada poema deu origem a uma receita, com a palavra como elemento de ligação entre os dois. A refeição completa estende-se por seis capítulos: Prelúdios Inspirados (entradas), Boas Companhias (acompanhamentos), Prazeres da Carne, Presentes do Mar, Finais Felizes (sobremesas) e Néctares dos Deuses (bebidas e licores). No prefácio, o poeta Nuno Júdice apela a «saborear a língua» e a poetisa brasileira Astrid Cabral elogia «uma saudável aliança entre iguarias que costumam comparecer isoladas, como se pertencessem a mundos incomunicáveis […] o alimento concreto e o abstrato, dispostos lado a lado em receitas e poemas». A Poesia É para Comer é, pois, um desfile de luxo de 100 receitas poéticas para a fome de coisas boas na mesa e no espírito.

Quais foram as suas primeiras memórias afectivas da poesia e da cozinha?
O meu pai, Paulo Vidal, veterinário, gourmet, era também um poeta e um letrista [autor do Fado do Cavalo Russo]. A poesia veio-me pela mão dele. Entre as poesias que ele costumava dizer para mim e para os meus irmãos, lá estava a Nau Catrineta, muito ligada à nossa história épica. Na nossa casa, havia o culto da cozinha e, dos pratos com dias certos na semana que espreitávamos no tacho, lembro-me muito dos cozidos à portuguesa dos sábados e da língua de fricassé dos domingos. E lembro-me dos pastéis de massa tenra da minha mãe, aos quais um tio meu chamava «pastéis de nada com recheio de coisa nenhuma». [risos]

Os laços das pessoas com a comida, tal como com a poesia, são afectivos e muito subjetivos. O que é que unifica os vários sabores que este livro propõe?
O denominador comum são as emoções e as memórias olfactivas, visuais e de estados de espírito que podem ser despertadas no leitor. É a sensorialidade das três artes envolvidas, sendo que eu pretendia, precisamente, dar à gastronomia o estatuto de arte maior. Agostinho da Silva diz: A quem faz pão ou poema / só se muda o jeito à mão / e não o tema. Se a poesia é mais subtil, a gastronomia é uma forma de comunicação universal e muito direta, que provoca reações imediatas e intensas. A comida é uma muito forte forma de influência.

Este livro acabou por só ser possível graças a apoios angariados no Brasil...
Depois da primeira edição, modesta, em 2007, esta edição de luxo foi viabilizada, sim, pela muito eficaz lei do mecenato brasileira e por uma equipa, à exceção de mim, inteiramente brasileira. Por isso aumentei a proporção de poetas brasileiros incluídos.

Qual era o seu principal objetivo?
Antes de mais, através da gastronomia, que está muito na moda, trazer novos leitores para a poesia, muitas vezes envolta numa aura de inacessibilidade. E proporcionar também o contrário: levar as pessoas que vivem enfurnadas nos seus olimpos literários até ao universo da cozinha.

Como é que foi a adesão dos vários criadores convidados a participar?
Só tive três nãos: os do artista plástico Pedro Cabrita Reis, do chefe Vítor Sobral e de um novo poeta português, quase desconhecido [o livro inclui vários criadores mais ou menos desconhecidos, nele integrados com a mesma visibilidade do que os consagrados]. De resto, a adesão foi entusiástica.

Para os chefs a quem propôs que criassem receitas a partir dos poemas selecionados, este deve ter sido um desafio insólito...
Tudo começou e partiu dos poemas. Creio que todos se sentiram lisonjeados com a proposta. E houve um grande empenho, já que todos eles têm muito pouco tempo disponível, também porque são, hoje em dia, considerados e tratados como estrelas. E, na verdade, a generalidade deles são muito mais do que cozinheiros. São pessoas muito completas, como por exemplo, o Nuno Dinis [atual chef executivo da York House, em Lisboa], que também pinta, compõe e escreve.

Mas existe, de facto, essa lógica de estrelato...
... e que há de passar...

Sim, talvez, mas que é hoje uma realidade que pode até ofuscar a capacidade de avaliação dos novos chefs e da nova cozinha que criam. Este livro permite, aliás, avaliar a capacidade de resposta de cada um.
Há muito embuste na cozinha hoje em dia, mas também existe muito talento. Este livro propôs um teste de criatividade aos chefs convidados e, portanto, apelava a essas construções e desconstruções do que era tradicional. Ao mesmo tempo, tanto com a indisciplina como com o excesso de criatividade de alguns deles, houve que chegar a consensos, na difícil engenharia que foi toda a conjugação e equilíbrio do livro. Mas esta foi, de facto, uma prova dos nove. Acho que todos passaram na qualidade técnica dos pratos. Na resposta ao desafio, variaram muito. E daí também se vê a qualidade, a maturidade e o grau de cultura que têm para além do exercício da cozinha.

O leitor pode fazer essa prova, executando estas receitas?
Pode, embora algumas sejam complicadas, também porque parte delas são já receitas consagradas do chef em questão [é o caso de José Avillez, que contribui com estrelas da sua ementa, como A horta da galinha dos ovos de ouro ou Cascais à beira-mar]. Há sensibilidades muito distintas, o que tornou o processo muito divertido.

Como é que avalia hoje a cozinha portuguesa, cujo consumo se reabilitou neste momento de crise?
Como a cozinha mediterrânica está nos tops, puxámos pelos nossos galões e estamos a voltar aos valores tradicionais, como o uso do azeite. Hoje, come-se muito bem e muito mal em Portugal.

Onde?
Muito boa cozinha tradicional, numa infinidade de restaurantes baratos e de tascas, pelo país fora. Muito boa cozinha inovadora, nos restaurantes de cozinha de autor. Estamos muito bem em termos de cozinha tradicional, embora tenha de existir cuidados para não se servir como tal uma coisa que já nada mesmo tem que ver com ela. Outro dia, serviram-me, por exemplo, bacalhau com queijo da serra, uma brutalidade calórica e gastronómica... Acho que não vale tudo como inovação.

Reclama quando não gosta?
Quando está mal feito, reclamo e mando para trás...

... o que não é hábito muito português.
Pois não. Pior: o português come tudo e depois reclama no fim... [risos] e perde a autoridade. Acho que deve haver uma crítica construtiva à comida, onde quer que ela seja servida, mesmo que seja por um guru da cozinha, cuja autoridade hoje dificilmente é contestada. Falta-nos mais e melhor crítica do consumidor e profissional. itic﷽﷽﷽﷽﷽﷽uma crja servida, mesmo que seja perante um guru da cozinha, cuja autoridade hoje dificilmente e a sua poesia nro, cad´Na verdade, pode-se passar sem a poesia, mas não se pode passar sem comer. A cozinha, como a poesia ou as artes plásticas, permite, a quem faz e a quem saboreia, um voo da imaginação e da memória. Conjugá-las neste livro foi, em muitos casos, estabelecer uma rede de cumplicidades e encontrar várias sintonias de emoções.

Revista EPICUR /2012
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

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