Luís Fernando Veríssimo & Miguel Sousa Tavares

quarta-feira, fevereiro 20, 2013


UP – DIÁLOGOS ATLÂNTICOS
Luís Fernando Veríssimo & Miguel Sousa Tavares

São ambos escritores e filhos de dois ícones da literatura em língua portuguesa. A prosa de ambos celebrizou-se na imprensa e ambos usam a ironia como arma de expressão. No trato social, um é tímido e contido, o outro, tem temperamento intempestivo. Num encontro vibrante, no lisboeta Hotel Pestana Palace, o brasileiro Luís Fernando Veríssimo e o português Miguel Sousa Tavares falaram sobre história, política, memórias pessoais, literatura e sexo. E uniram Portugal e o Brasil como símbolo de irmandade.

Luís Fernando Veríssimo
Nasceu em Porto Alegre (1936), onde ainda hoje vive, com a mulher, Lúcia. Tem três filhos. Com mais de 60 títulos editados, é um dos mais importantes escritores brasileiros da atualidade, reconhecido mestre da sátira de costumes, praticada sobretudo em crónicas na imprensa, mas também em cartoons e textos de humor, em séries de televisão, em peças de teatro e em romances bissextos. Apaixonado pelo jazz, toca saxofone, às vezes em público. Tímido, muito avesso ao contacto público, é feroz e divertidíssimo no domínio da palavra escrita. É filho do escritor Érico Veríssimo (1905-1975), um dos maiores ícones da literatura brasileira do século XX. Em «O gigolô das palavras», uma das suas crónicas mais aclamadas, defendeu: «A Gramática precisa de apanhar todos os dias para saber quem é que manda.»

Miguel Sousa Tavares
Jornalista e escritor português, nasceu no Porto (1952), onde passou a infância e a juventude e de cujo clube de futebol é um adepto ferrenho. É filho da grande poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004). Abandonou a advocacia pelo jornalismo, dirigiu revistas e firmou-se como um dos mais brilhantes e aguerridos cronistas e comentadores políticos portugueses. Após publicar livros de reportagem, crónicas e histórias de viagens, estreou-se no romance, em 2004, com Equador, sobre os últimos anos da Monarquia em Portugal e na colónia de São Tomé e Príncipe, best seller traduzido em mais de uma dezena de línguas. Tem três filhos, os seus livros para crianças integram o Plano Nacional de Leitura e é um excelente cozinheiro, dizem os felizardos que, em privado, provam os seus pratos.

UP: O filósofo e poeta português Agostinho da Silva (1906-1994), após mais de vinte anos de exílio no Brasil, dizia que «o brasileiro é o português à solta». Concorda, Luís Fernando?

LFV: Concordo um pouco. Temos a impressão de que Portugal é um país pequeno, estreito, mais restrito, e de que os portugueses falam muito rápido e, às vezes, engolem uma consoante ou outra. O brasileiro é o português com mais espaço.

UP: Em 1959, o seu pai, o escritor Érico Veríssimo, veio pela primeira vez à Europa e viajou primeiro por Portugal, em plena ditadura do Estado Novo, consigo, então com 22 anos, com a sua mãe e com o poeta Jorge de Sena. No relato que fez em Solo de Clarineta, descreve-o a si, «encolhido dentro de um sobretudo gris», escutando os grilos noturnos nas ruínas romanas de Conímbriga...

LFV: Sim, era Fevereiro, fazia muito frio e visitámos Portugal de cima a baixo. Lembro-me de que, noutra noite, num hotel de uma cidadezinha perto do Porto, ouvíamos os uivos dos lobos. Foi muito impressionante.

UP: Na época, o clima político era bem soturno e de grande revolta contra o ditador Oliveira Salazar.

LFV: O meu pai veio fazer uma série de palestras que acabaram se transformando em comícios políticos. A PIDE [polícia política] deu-se conta disso e, na segunda parte da viagem, a reação da plateia já foi mais ou menos controlada. Houve uma recepção na embaixada brasileira em Lisboa (o embaixador era Álvaro Lins), onde o general Humberto Delgado [líder do, então, principal movimento oposicionista] estava refugiado, sob asilo político, e por isso não podia aparecer. Foi tudo muito intenso.

UP: O seu pai conta que examinou consigo o problema político de todos os pontos de vista.

LFV: Apesar do clima pesado, foi uma satisfação ver a atuação do meu pai. Ele era introvertido, nada interventivo ou de grandes exposições, mas se saiu muito bem, defendendo a democracia e a liberdade de expressão, com grande tranquilidade e, ao mesmo tempo, com grande consequência política. Isso deixou-me muito orgulhoso.

MST: Portugal e o Brasil andaram quase sempre desencontrados: ou havia ditadura lá, ou havia cá. Nesses anos, já havia democracia no Brasil. Mas, quem quiser conhecer o ambiente político português dessa altura, visto por um brasileiro, deve ler Missão em Portugal, de Álvaro Lins, que foi um dos meus livros de formação política.

LFV: Ele era também um excelente crítico literário.

MST: Era um embaixador à maneira antiga, quando as coisas ainda não eram multilaterais e o embaixador representava o país e era a testemunha privilegiada no local. Foi uma época de ouro da diplomacia, na qual o Brasil sempre teve uma grande tradição.

UP: Érico Veríssimo, por exemplo, referia um antepassado português que, 150 anos antes, partira para o Brasil, para explicar por que se sentia «em casa» em Portugal. Sem essa raiz familiar, o que une de facto portugueses e brasileiros?

LFV: A nossa história, desde os Descobrimentos, e a nossa língua. Se bem que a gente, às vezes, tende a dizer, como alguém disse sobre a Inglaterra e os EUA, que são dois países divididos pela mesma língua. [risos]

UP: O Miguel visitou o Brasil pela primeira vez, aos 25 anos. Sentiu-se à solta?

MST: Eu ia mesmo com espírito de Álvares Cabral. No avião, quando apareceu a costa do Brasil, tentei imaginar-me no alto da gávea de uma caravela. O meu primeiro impacto com o país foi com o bafo quente, mal se abriu a porta do avião, no Rio. Era Dezembro, Verão no Brasil, e o cheiro a verde entrou por mim adentro, até hoje. Não concordo que o brasileiro seja um português à solta. O brasileiro é um cruzamento de várias coisas, irrepetível, e que só existe ali mesmo. Por isso é que o Brasil é tão fascinante. Agora, o melhor dos portugueses, se calhar, revelou-se no Brasil. Ali, a colonização portuguesa foi muito boa. Os brasileiros  depreciam os colonos do princípio do século XX, mas para trás, por exemplo na colonização da Amazónia, o que encontramos é a fidalguia portuguesa, os melhores portugueses - a elite do país. No final, até mandámos para o Brasil a Corte, o Estado...

UP: E a biblioteca real...

MST: Mandámos tudo. O melhor de Portugal foi para o Brasil e, em minha opinião, devia lá ter ficado. O grande erro histórico do D. João VI e do [seu filho] D. Pedro IV [primeiro monarca do Império do Brasil] foi terem regressado a Portugal. A capital do império português devia ter-se mantido no Brasil e hoje seríamos qualquer outra coisa, estranha, numa reescrita da história.

UP: Luís Fernando, tem um palpite do que teria acontecido?

LFV: Seria, sem dúvida, uma história melhor do que foi. Uma história inventada, melhor do que a real.

MST: O Luís Fernando falou da Inglaterra e dos EUA, mas esses dois países combateram, tiveram uma guerra de independência. A independência do Brasil foi pacífica...

LFV: ... é sempre uma questão familiar.

MST: De certa forma, é como aqueles casamentos que acabam por um detalhe e as pessoas ficam a vida inteira a pensar: que estupidez, por que é que este detalhe nos separou? E, se o casamento não tivesse acabado?

UP: O Luís Fernando escreveu numa crónica que «quem domina o controlo remoto da televisão, domina o casamento». [risos] As suas crónicas são de costumes, sobre as fissuras num espaço familiar. Hoje, que papel tem a crónica no Brasil?

LFV: Por uma razão inexplicável, a crónica pegou no Brasil, com muito público. Alguns dos nossos melhores escritores só escreveram este género híbrido entre literatura e jornalismo. E foi sempre uma crónica de costumes, ainda que, durante um certo período, bastante política.

UP: Disse uma vez que, no Brasil, a ironia não funciona por escrito porque há uma reverência para com a palavra impressa. Na verdade, você detona tudo isso porque desafia a palavra.

LFV: É, eu tento. A ironia não basta ser escrita, tem que ser lida com ironia. E é curioso isso porque o brasileiro usa muito a ironia no comportamento individual, trivial. E, no entanto, na crónica, a ironia tem que ser explicada: atenção, isto é ironia...

UP: ... o que arruina a piada. Em Portugal, Miguel, é o contrário, não é? A piada fácil quotidiana é muito bem sucedida, mas, por exemplo, até na crónica política, substituímos o humor pela ironia.

MST: Nós temos muito jeito para a ironia, nenhum para o humor. Não há nada mais triste do que o Carnaval português, por exemplo.
Em contrapartida, uma boa crónica é um relato fiel de um espaço e do tempo que passa, quer ela seja lida agora ou daqui a dez anos. A crónica é uma pequena história que conta uma grande história. Do ponto de vista narrativo, é das coisas mais difíceis de fazer. Os grandes romances aparecem de cem em cem anos. No intervalo, escrevem-se excelentes crónicas que, todas juntas, dão um grande retrato do tempo.

UP: O Luís Fernando começou a escrever ficção tarde, tem quatro romances publicados, mas nunca foi atrás do grande romance.

LFV: Talvez eu não me tenha aventurado por existir essa obra importantíssima do meu pai, especialmente O Tempo e o Vento, que é a história romanceada do Rio Grande do Sul. A crónica, como género indefinido, dá muita liberdade ao autor...

MST: Mas uma boa crónica nunca é leviana, tem sempre um objetivo muito preciso, quer trate de política, de comida, do quotidiano ou até de sexo.

UP: O Miguel costuma dizer que na ficção portuguesa se escreve muito mal sobre sexo. No Brasil, o sexo é vivido e escrito de maneira diferente, não é?

LFV: Acho que há mais liberdade. Talvez o clima e o facto de, em vários sentidos, ser um país carnavalesco, propicie isso.

MST: Também há sexo em Portugal; não é só no Brasil! E, se existe, tem que ser escrito. A dificuldade é escrevê-lo de uma forma que soe natural.

UP: Luís Fernando, o seu pai descomplicou muito a literatura brasileira, ligando-a mais à cidade e ao quotidiano. Ele deu-lhe a ler literatura portuguesa?

LFV: O primeiro livro para adultos que li foi Caminhos Cruzados, escrito pelo meu pai. Estava escondido lá em casa, justamente porque tinha cenas fortes de sexo. Eu li muito pouco de literatura portuguesa na fase formativa porque cresci nos EUA e fui praticamente alfabetizado em inglês. Mas o meu pai era um grande leitor do Eça de Queirós. Naquele momento, a literatura brasileira era sobretudo regional, muito influenciada por Portugal, Espanha e França. O pai foi um dos primeiros escritores brasileiros a escrever sobre a temática urbana, influenciado pela literatura anglo-saxónica, bem mais informal. Mas também teve um peso grande nele a literatura cosmopolita, irónica, do Eça.

UP: Miguel, a sua mãe [a poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen] deu-lhe a ler literatura brasileira?

MST: Ela fez-me primeiro viajar pelo Brasil, através do relato das suas impressões de viagem. Depois, havia uma grande estante, onde íamos buscar o que queríamos, segundo um critério engraçado. O Jorge Amado, por exemplo, que era considerado meio inconveniente, estava na prateleira mais alta. Só quando nós lá chegássemos sem banco, é que podíamos lê-lo. Na minha formação, foi muito importante ler Érico Veríssimo e, sobretudo, O Tempo e o Vento. Depois de já ter ido 47 vezes ao Brasil, tenho uma grande dívida para comigo mesmo, que é a de ainda não conhecer o Rio Grande do Sul. Sonhei muitas vezes com o melhor pequeno-almoço do mundo, que seria como Érico o descrevia: chá mate e carne grelhada.
Foi muito importante para mim começar a ler a nossa língua, escrita de outra maneira. Depois, cresci também com a poesia brasileira. Era fascinante a maneira como aquele português, muito oral, soava nos meus ouvidos. Ha um ﷽﷽﷽﷽﷽ma~us ouvidos. guEra fascinante a a grande poetisa brasileira, amiga de grandes poetas brasileiros como o JoFrança____á um poema dá um poema da minha mãe, em que ela escreve que, quando Helena Lanari [mecenas e figura destacada entre a beautiful people do Rio nos anos 60] dizia «coqueiro», o coqueiro ficava muito mais vegetal. O fascínio deve ser mútuo: é uma coisa linda ouvirmos falar a nossa língua com outros sotaque, dicção e sintaxe. A diversidade, também neste caso, une-nos.

UP: Segundo o Luís Fernando, «deviam ter aproveitado a reforma ortográfica para substituir o chapeuzinho [^] por algo mais moderno».

MST: Eu discordo: adoro o chapéu! Faz-me imensa falta.

LFV: Quanto ao acordo, quem vai perder mais é o português de Portugal.

MST: Sem chapeuzinho, o «pêlo» fica «pelo» caminho. [risos]

UP: Luís Fernando, a que é que lhe soa o português de Portugal?

LFV: A mulher portuguesa falando fica cheia de charme...

UP: Isso é encanto pela mulher portuguesa!
[risos]

MST: É curioso, porque os homens portugueses são fascinados por ouvir as mulheres brasileiras. Não há língua mais sexy do que o português falado por uma brasileira...

UP: Chegámos portanto a um encontro oceânico de primeira ordem!
[mais risos]

MST: Mas não queiram fundi-las nunca: a mulher portuguesa e a brasileira. Aí, não há acordo possível.

UP: Vejam só: quando, em 1808, a corte do D. João VI chega ao Rio, os brasileiros esperavam ver lindas damas saindo das caravelas. Mas, elas saem todas esfarrapadas, e carecas, por causa dos piolhos ao longo da viagem! Esse talvez tenha sido o primeiro mal-entendido no contacto entre os dois povos, quando olharam de verdade um para o outro.

LFV: É, o olhar entre os dois foi sempre ou idealizado ou caricaturado. Mas isso está morrendo. Estamos cada vez mais unidos, essa é a verdade.

UP / Dezembro 2012
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

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