Leituras de Verão | Cidades com livros

sábado, julho 23, 2016

 

A fénix do Cairo

São cinco mil anos de civilização e cerca de oito milhões de corpos concentrados numa devoradora mega metrópole, a maior e mais densamente povoada de África, do Mediterrâneo e do mundo islâmico, sede da Liga Árabe e capital do Egipto. Para entender o Cairo, lendário umbigo do mundo, temos de senti-lo vibrar num cruzamento ao meio-dia, quando o barulho equivale aos noventa decibéis de um concerto de rock. O melhor guia será Max Rodenbeck, correspondente do The Economist para o Médio Oriente, habitante cairota desde os dois anos de idade.
Cairo, A Cidade Vitoriosa (de 1998) é um pessoalíssimo roteiro de informação, crítica e humor que descreve o Cairo desde o tempo dos faraós até ao presente. Em onze capítulos, contextualiza a «fluidez resistente» da metrópole «dura e inflexível» onde nasceu o mito da fénix renascida. No Cairo, assegura Rodenbeck, o gosto pelo espalhafato, pelas anedotas e trocadilhos sinaliza essa resiliência afinal permeável aos constantes reajustes sociais. Disso se faz prova também nos mais de quarenta romances de Naguib Mahfouz (1911-2006, Nobel da Literatura em 1988) e, sobretudo, na sua obra-maior, Trilogia do Cairo, a saga da família Gawwad entre as duas guerras mundiais. 
Sim, é verdade, muitas das riquezas do Cairo foram delapidadas ou desleixadas, e a própria riqueza individual não cobre mais do que quatro a cinco gerações da mesma árvore genealógica. Mas, tal como defende Rosenbeck, esta é uma «sociedade em que a vergonha é mais sentida como um fardo do que como uma culpa». Uma sociedade cuja adesão ao islamismo militante determinará o futuro do mundo árabe, segundo a controversa tese de Mary Anne Weaver, correspondente da revista The New Yorker. E, no centro, uma metrópole tradicionalista e de vanguarda que Mahfouz disse ser tão fascinante «como encontrar o amor na velhice».

«Cairo, A Cidade Vitoriosa», Max Rodenbeck, Europa-América
«Trilogia do Cairo»: «Entre os Dois Palácios» (2007), «O Palácio do Desejo» (2008), «O Açucareiro» (no prelo), Naguib Mahfouz, Civilização
«A Portrait of Egypt: A Journey Through the World of Militant Islam», Mary Anne Weaver, Farrar, Straus and Giroux

O enigma Ho Chi Minh

Marguerite Duras, furiosa narcisista, teve uma frase de marca: «A verdade está toda nos meus livros.» Uma biografia anulou-a em definitivo em 1998, dois anos após a morte da escritora. Para Laure Adler, responsável pela revelação de documentos inéditos, Duras foi uma “profissional da confissão inexacta». É somente inquestionável a paixão pela Indochina natal, manifesta inclusive numa «impregnação física», os traços asiáticos do rosto de Duras. Até aos 17 anos, quando partiu para França, foram dela «a terra das mangas, a água negra do Sul, as planícies do arroz, o rumor dos juncos no rio». Ainda o são para muitos viajantes, ali levados pelas suas ficções.
Marguerite nasceu Donnadieu, a 4 de Abril de 1914, em Gia Dinh, arredores de Saigão, hoje Ho Chi Minh, a maior cidade da República Socialista do Vietname. A explicação para a àvida busca de amor de Duras está contida em todos os seus livros, mas acima de tudo ao longo do delta do Mekong. É uma história suja de violência e traição vivida até à idade adulta, numa longa, e paupérrima, errância entre Saigão e Phnom Penh.
Nos antípodas de Duras, Norman Lewis (1908-2003), o elegante autor de livros de viagens britânico, descreveu-se como «um homem quase invisível». Da sua capacidade de apagamento perante a paisagem nasceram algumas melhores descrições da Indochina nos anos 50. Será quase impossível, hoje, para um ocidental, essa atitude de permeabilidade imparcial perante o presente pós-colonial e pós-guerra do Vietname. Em 2002, o norte-americano David Lamb, repórter veterano, tentou-a. Mas a verdade é que Ho Chi Minh, e a ex-Indochina, são ainda protagonistas de uma narrativa truncada onde a beleza e a verdade lutam com a mentira e a incompreensão.

«Marguerite Duras, Uma Biografia», Laura Adler, Quetzal
«Vietname Now: A Reporter Returns», David Lamb, Public Affairs (2002)
«A Dragon Apparent: Travels in Indo-China», Norman Lewis, Eland (1951)

 
Istambul, recordação e miragem

De Eminönü, o coração da velha cidade murada de Constantinopla, para Üsküdar, o subúrbio densamente povoado onde se espremem meio milhão de habitantes da actual Istambul anatólia. Pelo meio, o Bósforo do Corno de Ouro, unindo as duas extremidades de dois continentes e faces opostas da mesma cidade. «O habitante de Eminönü que vai a Üsküdar, diz: “Vou à Ásia” e, na volta: “Regresso à Europa.” Às vezes, as frases repetem-se duas vezes por dia.» Quem o narra é o escritor e crítico literário francês Daniel Rondeau. E só mesmo ele conseguiria resumir num episódio vivo e actual a essência da cidade. Em 2002, esquadrinhou-a com um olhar culto e inesperado.
Do cais de Karaköy, onde hoje (tirar) desembarcam os desempregados russos e romenos e as «Natachas» que logo se prostituirão ali perto, nas ruas do antigo bordel. Do pôr-do-Sol estonteante do Café Pierre Loti, na colina dos mortos, a sete quilómetros de caminhada ao longo da muralha, a antiga cerca de Teodósio. Rondeau abre-nos Istambul. Não lhe interessa muito a figura de Atatürk, o construtor da nova Turquia, mas essa encontramo-la inteira na biografia «definitiva» de Andrew Mango. Nem tanto a magia oitocentista do Império Otomano, captável nas cartas da erudita embaixatriz inglesa Mortley Montagu.
Rondeau é o guia do presente. No entanto, para apreender o carácter central de Istambul, o hüzün (melancolia), é preciso ler Orhan Pamuk (n. 1952), o irreverente filho de uma abastada família burguesa caída em declínio, Nobel da Literatura em 2006. Os romances de Pamuk e, sobretudo, o estupendo ensaio memorialista que, em 2005, dedicou à sua adolescência em Istambul, estão cheios dessa forma de ver a vida simultaneamente em negativo e em positivo. Istambul hüzün, como duas margens do mesmo rio.

«Istambul», Daniel Rondeau, Europa-América (2002)
«Istanbul: Memories and the City», Orhan Pamuk, Faber and Faber/ Knopf / Gallimard/ Debolsillo
«The Turkish Embassy Letters», Lady Mary Mortley Montagu, Virago Press
«Voyage en Orient», Gerard de Nerval, Folio
«Atatürk», Andrew Mango, John Muray Publishers (1999)

Mumbai, cidade máxima

Já em 1990, V. S. Naipaul insistia que era ali, em Mumbai, capital do estado de Maharashtra, que todo o progresso social indiano se concentrava sob a forma de fluxos de multidões e de motins. Em 2005, o jornalista e escritor indiano Suketu Mehta apelidou-a de «Cidade Máxima», no homónimo livro de memórias, reportagem e análise socio-política que lhe valeu o universalista Prémio Kiriyama e a nomeação para o Pulitzer. Em três ou quatro décadas de aposta no desenvolvimento económico, Mumbai, a «Boa Baía» (Bombaim) onde os portugueses desembarcaram há quinhentos anos, tornara-se o epicentro do boom da Índia. Mehta e Naipaul (Nobel da Literatura em 2001) registaram essa mudança, convictos de que a diversidade humana é a maior força e talvez a maior causa do sucesso democrático indiano.
Em três livros para 26 anos de experiência como visitante incansável na escuta dos indianos, Naipaul caminha do pessimismo para o optimismo. Sempre perito em estragar festas, destrói de vez a ideia romântica da Índia que recebera dos seus antepassados hindus (emigrados para Trinidad e Tobago no século XIX) e que ainda se conserva nos três volumes do colonial dicionário geográfico The Gazetteer, de 1909. Exceptuando durante a luta pela independência, talvez nem como mito tenha alguma vez existido essa Índia-como-uma-só-comunidade-e-identidade.
Hoje, nos estúdios de Bollywood, nos gabinetes ministeriais e nas sedes de partido, nos feios arranha-céus, nos bairros de lata ou nos minúsculos T1 para famílias inteiras, Mumbai é a Índia em movimento. Lendo Naipaul ou Mehta, conhecêmo-la através de um prisma de identidades particulares. Reflexo de como as melhorias económicas, a educação e a politização fizeram renascer lealdades de região, religião, clã ou casta. E geraram novas e imparáveis correntes de reivindicação, conflito e progresso.

An Area of Darkness, V. S. Naipaul, Vintage (1964)
India, A Wounded Civilization, V.S. Naipaul, Vintage (1977)
India: A Million Mutinies Now, V.S. Naipaul, Vintage (1990)
Maximum City: Bombay Lost and Found, Suketu Mehta, Vintage (2004)
The Gazetteer of Bombay City and Island (3 vols), S. M. Edwardes, Cosmo

Pequim de proibida a olímpica

Tem a forma de um dragão e é o maior e mais avançado aeroporto do mundo. Sob o lema «Nova Pequim, Grandes Olimpíadas», ficou pronto para, em Agosto de 2013, receber os dois milhões de visitantes, entre eles dezasseis mil jornalistas estrangeiros, esperados para os XXIX Jogos Olímpicos. De boca escancarada e olhos no tecto aerodinâmico do edifício central destes 1,3 milhões de metros quadrados dedicados à aviação, é difícil não exclamarem: «Pequim já não é Pequim.»
Em percentagem, são muito poucos os chineses que podem sequer aspirar a uma visita ao novo aeroporto. No entanto, a capital da superpotência emergente que resultou da recente «ascensão pacífica» prossegue imparável a sua marcha para o futuro, e de costas cada vez mais voltadas ao passado. Daí a importância da edição, em 2007, do primeiro livro em inglês que traça a história de Pequim dos primórdios até à actualidade.
Beijing: From Imperial Capital to Olympic City, escrito por três professores de História, Língua e Literatura chinesas nos Estados Unidos, sinaliza a progressiva destruição dos vestígios históricos. Em Pequim, a transformação do passado em plástico espectáculo turístico coincide hoje com a construção de uma nova metrópole, assente no dinheiro e no comércio. Más notícias para os apaixonados da China milenar e dinástica, que ainda assim lhe poderão dar vida através das memórias do professor norte-americano David Kidd (1927-1996). Apaixonado pela cultura e modos de vida ancestrais, suprimidos no final dos anos 40 pela revolução maoísta, Kidd foi um dos melhores intépretes do eclipse da velha Pequim.

Historias de Pekín, David Kidd, Libros del Asteroide
Beijing: From Imperial Capital to Olympic City, Lillian M. Li, Alison Dray-Novey e Haili Kong, Palgrave Macmillan

São Francisco, arco-íris dot-com
Destino: São Francisco, norte do Estado de Califórnia, Estados Unidos da América, à margem do Pacífico. Se vai à procura de sinais radicais da pulsão sexual libertária e da contra-cultura dos anos 50 até 70, mais vale ler alguns romances de Jack Kerouac, o papa dos beatniks, inspirado a doses cavalares de benzedrina e escrita compulsiva. Hoje, em São Francisco é até proibido fumar ao ar livre, em parques municipais e áreas recreacionais. E, se persiste em levar uma flor no cabelo, não se esqueça de levar também um computador portátil e um preservativo no bolso. São Francisco foi abalada nos 80 pela SIDA, um violento desmancha-prazeres. Mas, na mais progressista e radical metrópole da América, os encontros homossexuais continuam a ser uma das maiores atracções. E, esses, combinam-se agora pela internet, honrando os anos de ouro da década de 90, quando a economia da cidade conheceu um surto graças à indústria da informática. São Francisco hoje é make safe love dot.com, pois claro.
Sobre o berço e evolução do movimento reivindicativo homossexual e, em concreto, sobre o quotidiano do Castro, o primeiro bairro-gueto gay do mundo, escreve o cronista e activista Armistead Maupin. Está tudo na sua série «Histórias da Cidade», primeiro publicadas, em 1974, no jornal local The Pacific Sun e depois multiplicadas em ficção. Para um retrato mais recuado, e pitoresco, da cidade, procurem-se os textos jornalísticos de Mark Twain, escritos entre 1864 e 1870, na sua fase «oeste», a do início de carreira. Não está lá, e não é credível, mas é a piada mais contada em São Francisco. Sobre a cidade, Twain teria dito, de modo lapidar: «O meu mais frio Inverno foi um Verão passado em São Francisco.»

Os Subterrâneos e Pela Estrada Fora, Jack Kerouac, Relógio D’Água
Histórias de São Francisco, Novas Histórias de São Francisco, Mais Histórias de São Francisco e Outras Histórias de São Francisco, Armistead Maupin, Gótica
Roughing It, Mark Twain, University of California Press


Metro São Petersburgo, paragem Literatura
Ainda se escuta nestas ruas o «guincho ignóbil» (Gorki) das personagens de Fiódor Dostoiévski ou o frufru do roçagar dos vestidos de Anna Karénina pela calçada. À frente da estátua equestre de Pedro, o Grande, podemos perder a vergonha e declamar apaixonadamente o poema que lhe dedicou Puchkín, ou antes «We shall meet again, St. Petersburg» de Ossip Mendelstam. Esta é «a cidade mais abstracta e intencional do mundo» (Dostoiévski). Uma nostalgia alucinatória, impressa na perspectiva única dos ensaios «A Guide to the Renamed City» e «In Room and a Half», do seu filho exilado, Joseph Brodsky (Nobel da Literatura em 1987). Em São Petersburgo, tudo é passado, museu vivo e literatura.
Apesar do esplendor monumental de séculos, a antiga capital czarista nunca se esqueceu de que foi construída sobre pântanos. Está escrito no seu bilhete de identidade, pleno de simbolismos, histórias urbanas, lendas populares, e elementos surreais. Hoje, os cadernos subterrâneos da cidade têm os mesmos traços complexos da nova sociedade russa.
Ingrid Bengis, ensaísta e ficcionista nova-iorquina descendente de emigrantes russos, presenciou o colapso da União Soviética em São Petersburgo. Em livro, a sua experiência é a de imersão numa «catastroika» imprevisível. A ingénua apaixonada pela arte e cultura russas que chegara à cidade em 1990, mudou ela mesma num tumulto até à partida, em 1996. Bengis insiste que São Petersburgo nunca permitiria que ali se escrevessem «livros calmos e sem grandes questões». O dela, é uma excelente abordagem a «um certo sentido de destino» que define a cidade.

Less Than One, Joseph Brodsky, Farrar, Strauss and Giroux (1986)
Metro Stop Dostoevsky: Travels in Russian Time, Ingrid Bengis, North Point Press, (2003)

Distorcer Sidney
A tese pretende fazer justiça e provar «como os portugueses descobriram e cartografaram secretamente a costa da Austrália e da Nova Zelândia 250 anos antes da chegada do Capitão Cook». Em 2007, o jornalista anglo-australiano Peter Trickett chamou-a para subtítulo de Para Além do Capricórnio, recém-editado pela Caderno. Mas o que é que isso nos dá mais a conhecer da «Ilha de Ouro» de Marco Polo ou da Sydney actual? Nada. Apenas prova que a História — e, nela, as cidades - nos reserva surpresas nos antípodas das nossas certezas. O que já é muito.
Ao rodar 90º uma metade de um dos mapas do Atlas Vallard (de 1547), Trickett encontrou as costas leste e sul da Austrália cartografadas com tal detalhe que, a partir delas, se desenhariam à escala «as pistas do actual aeroporto» de Sydney. Produto, garante, dos desenhos do navegador Cristovão de Mendonça, aportado na Baía de Botany em 1522, a mando ultra-secreto de D. Manuel I. Uma descoberta tão surpreendente como a do protagonista de «O Cágado», de Almada Negreiros, que, à procura do dito, escava o planeta até aos antípodas, para por fim descobrir o bicho na primeira pazada que deu. Foi o que aconteceu a Peter Carey, em 30 Dias em Sydney (da excelente colecção «O Escritor e a Cidade», Bloomsbury/Asa).
Peter Carey (n. Melbourne, 1943) é duplo vencedor  do Booker Prize e um fantástico contador de histórias. Viveu em Sydney aos 40 anos e regressou 27 anos depois, em 2001, após se ter fixado nos Estados Unidos. Na cidade de arenito que ele primeiro achara «rasca, degenerada e degradada», e em encontros únicos com os seus habitantes, irá testar preconceitos e paradoxos. Com ele, na inigualável Baía de Botany, também nós percebemos que, às vezes, o vento secreto de uma cidade sopra do lado mais inesperado.

30 Dias em Sydney: Um Relato Incrivelmente Distorcido, Peter Carey, Asa (2001)
Para Além de Capricórnio, Peter Trickett, Caderno
As Viagens de Marco Polo, Europa-América
Oscar e Lucinda, Peter Carey, Dom Quixote (1988)
A Verdadeira História do Bando de Ned Kelly, Peter Carey, Dom Quixote (2000)


Tânger, porquê?
 
Sabedoria e êxtase. O compositor e escritor Paul Bowles (1910-1999) encontrou os dois em Tânger. Impossível ir à capital da região marroquina de Tetouan e ignorar a sombra do norte-americano que, desde 1947 e até à morte, «abraçou o deserto como um santo cristão abraça o seu martírio» (Edmund White). Tânger e Marrocos de Bowles estão fixadas por ele em mil páginas ficcionais (cortar de viagem) e diarísticas, nos mil registos da música e das narrativas locais que compilou como chaves da cultura marroquina.
Em 1987, no primeiro livro de viagens que dedicou à cidade, Daniel Rondeau tornou-se o arauto da associação hoje óbvia entre Tânger e Bowles. Por ali tinham antes passado, para visitar o casal Paul e Jane e em prospecção criativa, Truman Capote, Tennessee Williams ou Gore Vidal, nos anos 50 e 60, os beats Allen Ginsberg e William S. Burroughs. Todos atraídos pelo homem que sabia «beijar a mão de condessas e falar com os elefantes» (Rondeau) ou pela cidade que o adoptara? A dúvida é inevitável logo à chegada de barco, depois da travessia do Estreito de Gibraltar. A vista feia e agressiva parece a séculos de distância do quadro «de um azul pálido, alcandorad[o] entre muros castanhos contra densos jardins» que a romancista Edith Warthon descreveu em 1917.
Nos livros, Tânger permanece o local de todas as promessas. Na realidade, talvez seja o espaço de todas as mentiras. Rondeau concluiu, em 1997, que cada vez mais se torna um «subúrbio de ângulos afiados». Só mesmo indo lá se comprova por que é que, desde sempre, esta porta de Roma, término das caravanas ou antecâmara da Hégira, «deu a volta à cabeça» dos estrangeiros.

Memórias de um Nómada, Paul Bowles, Assírio & Alvim (Autobiografia)
Tânger e Outros Marrocos, Daniel Rondeau, Europa-América (1997)
Tanger, Daniel Rondeau, Quai Voltaire (1987)
Em Marrocos, Edith Warthon, Europa-América
My Tangier, Daniel Blaufuks, Difusão Cultural (1991)
The Tangier Diaries: 1962-1979, John Hopkins, Cadmus Editions


Veneza, água e tinta
Proust enalteceu-a a partir dos ensaios críticos de John Ruskin, como «lugar elevado da religião da Beleza». O diplomata e escritor francês Paul Morand (1888-1976) mostra-a como a última cidade do último país a oferecer-se como «espectáculo gratuito», herança dos Romanos. Veneza é a cidade mais cara de Itália, mas os seus prazeres não custam quase nada. As ruas, as pontes, são como «palácios sem tecto». A pé, em passos que deslizam como a água, por entre «edifícios com nostalgia de barcos». De gôndola, os sons com uma profundidade que parece vir do fundo, como um eco. Morand diz que os canais de Veneza são negros como tinta; usada por Shakespeare em Otelo e O Mercador de Veneza, nas memórias de Giacomo Casanova, por Henry James ou Thomas Mann ou Hugo Pratt.
Venises, de Morand, é um raro testemunho de viagem. Autobiográfico e poético, descreve «uma união sem nuvens» do autor com a cidade, do início do século XX até 1970. «O mérito destas páginas, é terem sido vividas; o seu conjunto é uma colecção privada, talvez mesmo o meu museu secreto; cada uma delas representa um dia, um minuto, um entusiasmo, um fracasso, uma hora decisiva ou uma hora perdida.» Ao leitor, a revisitação desses momentos, longe da turba dos turistas, jamais no Verão.
Assediada por milhões de invasores, Veneza dos venezianos é um local quase sem crime. Sem sangue. A não ser nas páginas da norte-americana Donna Leon (n.1942), a autora de policiais (todos editados pela Presença) que, desde 1992, adoptou a cidade do comissário Guido Brunetti. Culto e com uma vida familiar feliz, Brunetti é tão pouco convencional como a excelente visão sociológica que nos dá de Veneza: uma realidade cultural que o turismo está a afundar.

«Venises», Paul Morand, Gallimard (1970)
«Morte no La Fenice», Donna Leon, Presença (1992)
«O Mercador de Veneza» e «Otelo», Shakespeare, Europa-América
«História da Minha Fuga das Prisões de Veneza», Giacomo Casanova, Antígona
«Retrato de Uma Senhora», Henry James, Relógio D’Água
«A Morte em Veneza», Thomas Mann, Relógio D’Água
«Corto Maltese: Fábula de Veneza», Hugo Pratt, Meribérica

Ler 2012
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

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