Vladimir Nabokov | Espiral de cor em bola de vidro

quinta-feira, outubro 01, 2015




Fala, Memória, a autobiografia de Nabokov, é um supremo exercício literário. 
Só comparável em importância às Confissões de Santo Agostinho ou de Rousseau.
Nada de paixões por reflexos em fontes ou de madalenas mergulhadas no chá. Para Vladimir Nabokov (1899-1977), uma autobiografia honesta e perene nasce, não de um gesto egocêntrico ou narcótico, mas de um ato «excêntrico»: o de moldar um conteúdo individual a uma forma impessoal e artística. Para ser verdadeira, a criação autobiográfica deve, antes de mais, tomar a rememoração como exercício técnico de procura, exploração e análise de «sendas ou correntes temáticas» nas regiões mais remotas da vida passada. Segundo este método, a retrospecção é uma tentativa de transformar uma evidência numa conclusão.
No apêndice-posfácio, ou 16º capítulo, escrito em 1950 para a autobiografia Fala, Memória (publicada e várias vezes revista e reescrita entre 1951 e 1967, com vários títulos, entre eles  Evidência Conclusiva), Nabokov faz-se passar por um crítico e dedica à obra uma pseudo-recensão. Assim, ele (que odiava as teorias de Freud) deixa claro que, nestas memórias, o jogo e intenção é «projetar o seu eu mais precioso, no quadro que compõe»;  projetar-se enquanto tema para si próprio, cindir-se a si mesmo. Esclarece: «Uma vez determinado, este ou aquele tema é seguido ao longo dos anos. À medida que se desenvolve, conduz o autor a novas regiões da vida. O padrão diamantino da arte e os músculos de uma memória sinuosa combinam-se num movimento livre e flexível e produzem um estilo que parece deslizar por entre as ervas e as flores até à pedra quente e lisa sobre a qual exibirá o fulgor dos seus anéis.» Não é à toa que, para muitos críticos e leitores, este é o mais elegante e mais artístico de todos os livros de memórias alguma vez escritos.
Talvez o segredo da beleza e mestria de Fala, Memória esteja no facto de ser uma das mais poderosas homenagens ao poder da sensibilidade de uma criança, aqui traduzido numa acumulação de detalhes rememorados com extrema exactidão pelo adulto.  É deles e da sua busca e aperfeiçoamento metódicos que nasce a perfeição da forma deste livro. «A imaginação, suprema delícia do imortal e do imaturo, devia ser limitada», defende o escritor. Sim, a literatura nasce do poder de observação. Paradoxalmente, este aumenta em proporção à posição distanciada do observador e à riqueza do objeto observado. Nesta perspetiva, o caso de Nabokov é único: a passagem para a idade adulta dá-se com a perda violenta (do pai, da pátria, de fortuna, privilégios e poder) e o distanciamento radical e definitivo (o exílio) da riqueza paradisíaca de um «passado perfeito». Esta cisão será o tema central desta autobiografia e a raiz do seu método.
Fala, Memória, dedicado pelo escritor à sua mulher (a judia russa Véra; a quem corresponde um enigmático «tu» que surge de repente no texto), partiu de um primeiro texto escrito em francês e publicado numa revista parisiense em 1933. Nabokov juntou-lhe onze capítulos (escritos em inglês, para publicação na revista New Yorker, entre 1948 e 1950) para abranger o período compreendido entre 1903 (quatro anos de idade) e 1918, ou seja, entre a infância e adolescência idílicas nos domínios de uma família russa aristocrática, culta e liberal e a estadia na Crimeia, em fuga aos bolcheviques. Os  três restantes capítulos (Partisan Review  e  Harper’s Magazine, entre 1949 e 1951) cobrem o exílio em Cambridge, Berlim e Paris, até à partida para a América em 1940.
Nabokov não chegará a escrever a continuação de Fala, Memória, anunciada no prefácio de 1966, como Continua a Falar, Memória. A última ficção que publica antes de morrer é Look at the Harlequins! (1974), uma desconstrução autobiográfica (resposta crítica à biografia Nabokov: His Life in Part, de Andrew Field), onde a paródia surge a partir da criação de um narrador-duplo-biógrafo: Vadim Vadimovich (VV). A obra de Vladimir Nabokov conclui-se, assim, não num fechamento em círculo, mas como uma espiral aberta, premonitoriamente observada, analisada e descrita em Fala, Memória. Assim: «A espiral é um espiritualizado círculo. Na forma espiral, o círculo [da vida?] desenrascado, intacto, deixou de ser vicioso; foi posto em liberdade.  […] Uma espiral de cor numa pequena bola de vidro, ora aqui está como vejo a minha própria vida.»
LER Maio 2013
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

Pode Também Gostar de Ler

1 comentários