Philip Marlowe | Um chui à antiga

segunda-feira, julho 07, 2014

Philip Marlowe nasceu num mundo onde 
a honestidade passou de moda. Mas a honra, não

Hard-boiled: escaldado. É curioso que tenha sido o mais inglês dos grandes autores norte-americanos (estudou num colégio londrino) aquele que firmou a única escola literária exclusiva dos EUA. Raymond Chandler publicou a primeira história policial num pulp magazine aos 44 anos e o primeiro romance, À Beira do Abismo, aos 51. Antes disso, ascendeu numa companhia de petróleo, de contabilista a vice-presidente, até ser despedido, acusado de alcoolismo e assédio sexual. Quando criou o detective Philip Marlowe, estava na pior, mas mantinha uma muito clara noção de dignidade e perfeccionismo. Traduzido para literatura, isso significava profundidade de foco em vez de velocidade, personagem em vez de acção, sagacidade em vez de suspense. Foi com esta massa que moldou um novo herói, sem nenhuma das qualidades heróicas tradicionais, mas realmente humano.
À Beira do Abismo é o melhor cartão de visita de Marlowe, um dos duros, misantropo, o justiceiro da era do crime organizado e das veleidades cínicas e assassinas de Los Angeles. Mal entra na mansão do velho milionário Sternwood, vítima de chantagem e prestes a contratá-lo, o detective exibe o seu humor descarado. «Sou sabujo», diz. Ao longo de sete romances rendilhados, esta sabujice desconcertante aliar-se-á a uma apurada percepção do absurdo, compondo a solidão melancólica de um idealista, cheio de incertezas, até à máxima amargura.
Marlowe será sempre superior aos rodriguinhos dedutivos britânicos: «Não sou nenhum Sherlock Holmes nem nenhum Philo Vance e não espero percorrer uma pista que a Polícia já percorreu.» Herdou a sua inteligência directamente do coldre do cowboy, onde repousa, pronto a disparar, um certo código de honra, instintivo e inevitáanic﷽﷽﷽﷽﷽﷽riguinhos dedutivos brit requer muito talento e ituir um caso a partir davel. Chandler definiu em The Simple Art of Murder os seus ditames teóricos: distanciamento afectivo, plausibilidade, «autêntico sabor da vida», violência, discurso comum e um herói redentor. Com Philip Marlowe, «um homem completo e um homem comum, mas também um homem extraordinário», criou uma fórmula rara de crueza e lirismo, com pancadaria a sério, mortos com história e um orgulho que dispensa a piedade. Páginas a milhas de «crimes a cheirar a magnólia» feitos para agradar a senhoras velhinhas. Um realismo escaldado.

À Beira do Abismo, Raymond Chandler, Porto Editora, 240 págs., 15.50 euros 

SOL 20/06/2014
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

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