Goncourt 2013 | Pierre Lemaitre

terça-feira, julho 22, 2014

Pierre Lemaitre: «Os soldados regressados foram recebidos como leprosos»

«Albert alistara-se numa guerra sthendaliana e dera consigo numa matança prosaica e bárbara que, durante cinquenta meses, provocou um milhar de mortos por dia.» Albert Maillard, de origens modestas, é um dos dois protagonistas de «Até nos Vermos lá em Cima», de Pierre Lemaitre, vencedor do Goncourt 2013 e agora editado pela Clube do Autor. Na frente de combate, no final da Grande Guerra, Edouard Péricourt, um pintor, filho da alta burguesia, salva Albert de morrer soterrado, mas perde metade do rosto. Os dois soldados viverão o imediato pós-guerra juntos em Paris, num tempo dominado pelo luto, por homenagens frustes e negociatas macabras (como o «escândalo dos cemitérios», um caso de caixões de madeiras de quinta categoria, demasiado pequenos e com identidades trocadas). Pierre Lemaitre (n. 1951), antes conhecido como especialista do policial francês, explica porque criou este requiem da guerra, em celebração da emoção e da amizade.

Logo após o anúncio do Goncourt, foram muito salientadas as suas raízes no género polar, considerado comercial e menor. Isso incomodou-o?
De todo. Estou ciente dos preconceitos envolvidos, mas eu mesmo reivindiquei essa origem. Sabe, estou em muito boa companhia: Georges Simenon, Jean Vautrin [Goncourt 1989]...

No romance, refere que «uma guerra mundial nunca era mais do que uma tentativa de homicídio generalizada à escala de um continente». As estratégias do policial mantêm-se...
O meu principal desafio era a ignorância generalizada sobre esta guerra, que provocou 40 milhões de mortos, feridos, viúvas e órfãos, o equivalente à população total da França em 1914. Queria que os meus leitores vivessem o sentimento de injustiça que acompanhou o regresso dos soldados. Por isso, a minha estratégia foi, antes de mais, levá-los até à frente de combate.

Porquê um protagonista homossexual (Edouard)?
Queria uma personagem trágica e, para isso, precisava de um motivo plausível para uma oposição forte entre um pai e um filho, no início do século XX. A homossexualidade pareceu-me uma opção evidente: prática do ponto de vista narrativo e útil do ponto de vista social. Fora de certos círculos sociais restritos, mantém-se ainda hoje como um problema e uma fonte de injustiças.

Por seu turno, Albert é uma personagem dramática. O romance segue regras clássicas, mas a estratégia de ligação ao leitor é realista. Como é que conjugou emoção e técnica?
A literatura é uma máquina de descodificação do mundo. Mas o seu principal instrumento não é a teoria, a razão ou a abstracção: é a emoção. Fazer compreender algo ao leitor implica criar emoções, positivas ou negativas. O meu maior desafio técnico consiste em pôr o texto ao serviço da emoção que quero transmitir... Contudo, é impossível não falhar, dada a imprevisibilidade da reacção do leitor. Fazer-se entender através da emoção é dificílimo e, neste aspecto, a estratégia realista, muito assente em arquétipos, surge como a mais eficaz.

Porquê escrever sobre o imediato pós-guerra?
Nas múltiplas abordagens à Primeira Guerra, aquilo a que se chama hoje a «saída da guerra», entre 1918 e 1922, tem sido uma espécie de ângulo morto. É um momento pouco conhecido, durante o qual todos tiveram de aprender a viver com a paz. Segundo Freud, fazemos o luto de algo que amámos. Ali, houve que fazer o luto de algo detestável.

No caso francês, ao entusiasmo inicial seguiu-se a barbárie do combate e, por fim, o sentimento de vitória. Talvez por isso não se permitiu aos combatentes contarem as suas histórias...
O entusiasmo morreu rapidamente nas trincheiras e na lama. Os soldados voltaram extenuados. O mais cruel é que os jornais lhes prometeram honras e compensações, mas eles foram, afinal, recebidos como se fossem leprosos.

O seu livro mostra o fim de uma certa épica social e o modo como a burguesia lucrou com a guerra. Foi intencional a aproximação a A Grande Ilusão, de Jean Renoir?
Sim, até porque, se Renoir não o tivesse usado, esse título seria o ideal. [ri] Esta guerra, a última tradicional e primeira moderna, coincidiu com o advento do capitalismo [exemplificado pela família Péricourt e satélites]. Constatei-o de facto quando, durante quatro anos, imergi nos jornais da época [disponibilizados online pela Bibliothèque nationale de France] e naquele quotidiano.

François Hollande optou por não reabilitar os 740 soldados franceses condenados pela justiça militar e fuzilados em 1914-18. É possível saldarem-se de vez as contas com uma guerra?
Quando o passado foi muito doloroso, essa pacificação é muito lenta. No caso dos fuzilados, as mentalidades estão muito mais avançadas do que o governo e o discurso político – o que, aliás, é uma constante em França. De qualquer forma, a consciência social já compreendeu o que se passou com aqueles homens e já os reabilitou: essa é a verdadeira paz que pode ser feita com uma guerra.

O actual momento francês é derrotista?
Os franceses estão muito deprimidos e prontos para cair nos braços da extrema direita, por falta de perspectivas, de vontade e de fé. A falta de memória, devida à (des)educação dos mais jovens como indivíduos empregáveis e não como cidadãos responsáveis, pode lançar a França numa aventura terrífica. Perante tudo isto, a literatura francesa porta-se bem... Sobretudo porque já percebeu que para dar a entender e a viver o mundo é preciso voltar a criar personagens e a contar histórias.

SOL / 11-07-2014
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

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