Thomas Bernhard | O palco e o esterco

terça-feira, maio 27, 2014


Thomas Bernhard recria a infância e adolescência numa «sociedade da morte»: 
a Aústria do fanatismo nazi e religioso.

Thomas Bernhard escreveu a última peça, Heldenplatz  (Praça dos Heróis), para assinalar os 50 anos da anexação da Áustria pelas tropas de Hitler, então festejada por 250 mil pessoas na praça em frente do Burgtheater. Em 1988, em cena naquela mesma sala, alguém gritaria: «Existem mais nazis hoje em Viena do que em 1938!» Dias antes da estreia, um grupo de protesto despejou um monte de esterco em frente do teatro; na noite da estreia, a vaia durou quase uma hora. Três meses depois, o escritor cometeu suicídio assistido. Em testamento, interditou a publicação ou representação futuras da sua obra na Áustria.
Saem agora, reunidos num só, os cinco volumes autobiográficos de Thomas Bernhard (A Causa, A Cave, A Respiração, O Frio, Uma Criança, publicados entre 1975 e 1982). É lá que está a raiz desta relação complexa, assumida pelo escritor, assim: «O passado do Império dos Habsburgo é o que nos enforma. No meu caso, é
talvez mais visível do que noutros. Manifesta-se numa espécie de amor-ódio pela Áustria que é a chave para tudo o que escrevo.»
O cenário é o da infância e adolescência, no final e pós-Segunda Guerra. Estamos em Salzburgo, a cidade «aniquiladora do homem criativo», um «solo de morte arquitectónico-arquiepiscopal-estúpido-nacional-socialista-católico», onde as pessoas têm um «fundo inteiramente inimigo». Thomas vive no internato dirigido pelo sádico nazi Grünkranz (depois troca-se o retrato de Hitler por um crucifixo e surge o «Tio Franz»), nas grutas de abrigo anti-aéreo (onde se morre de asfixia ou de medo), numa cave-refúgio, como aprendiz de comerciante. A cronologia distende-se até aos 18 anos e ao sanatório, onde uma pleurisia degenera em tuberculose, a doença que vitima a mãe e o avô (única figura de amor) e de que o escritor sofrerá toda a vida.
Bernhard retrata, sob o olhar parcial de adulto pessimista (nunca «falsificando», diz), a evolução de um «eu» ou «ele», traumatizado e literário. Um humor cru, satírico, se não trágico, perpassa o ritmo frásico, tão singular. A densidade emocional do relato é proporcional à sua importância histórica. Este é um «palco doido» onde todas as figuras são Bernhard, desde pequeno na sombra da doença, da morte e do medo: um «desmancha-prazeres».

SOL 28-03-2014
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

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