Kim Young-ha | Tenho o Direito de Me Destruir

domingo, março 09, 2014


O suicídio por encomenda pode ser um negócio lucrativo? 
Kim Young-ha diz que sim, pelo menos na Coreia do Sul.

Duas mortes assistidas eencia﷽﷽﷽﷽﷽ero fatalespma espal.You. pela  Young-hanacionalreana )._____________________________________________________________s o ano fica garantido. Ao narrador e protagonista, anónimo, de Tenho o Direito de Me Destruir, basta-lhe pesquisar, identificar e concretizar os desejos mórbidos de dois clientes, saudáveis mas acometidos por um tédio-desespero fatal. Passa o resto do tempo a escrever sobre cada caso, a viajar e a cultivar-se (é apaixonado pela expressão da energia assassina na pintura).
«Só há duas maneiras de ser um deus: através da criação ou do assassínio.»  Ele cumpre-as bastante bem, a julgar por este seu relato, sobre dois gémeos (Kim e C) apaixonados por uma prostituta viciada em chupa-chupas (Judite/Se-yeon), uma performer que nunca deixa que registem a sua imagem (Mimi) ou uma chinesa que não pode beber água.
Aos dez anos de idade, Kim Young-ha sofreu uma intoxicação com gás carbónico e perdeu toda a memória retrógrada. Estudou Gestão em Seul e foi detetive da polícia militar, antes de se estrear, em 1996, com Tenho o Direito de Me Destruir, e se tornar a coqueluche da literatura sul-coreana. Hoje, comparam-no a Kafka, Camus ou Sartre, que é como quem diz que trabalha uma forma de ficção existencialista bastante estranha ao ocidente (que a trata até como ficção científica), mas tão cativante quanto em Murakami.
Tenho o Direito de Me Destruir possui uma mistura rara de sensibilidade e estranheza, compaixão e cinismo. Neste romance curto, a atração pela morte é como o desejo de lamber o metal de uma faca, ácido mas vibrante. Kim é taxista e venera o deus da velocidade ao ponto de ficar com os olhos raiados de sangue. C já só consegue ver a realidade enquadrada por um ecrã de vídeo. Judite ou Mimi são musas eróticas, no limite da solidão. O quotidiano é patético (de pathos-clímax-excessivo), sem qualquer escapismo sentimental.
Em 2011, houve 30 suicídios por dia na Coreia do Sul e os índices de infelicidade na juventude eram os mais altos do mundo. O choque da tradição com a competitividade mais feroz produzira uma sociedade histérica, mas totalmente destemida. Em Tenho o Direito de Me Destruir, explora-se esse limite. O suicídio é assistido por um profissional e a arte e a morte surgem do desespero, não do medo. São realidades lúcidas, nunca absurdas. Pelo meio, há apenas borboletas mortas.

Tenho o Direito de Me Destruir, Kim Young-ha, Teorema, 135 págs., 11.61 euros

SOL/ 28-02-2014
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

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