Ai, Aquilino! | O que ainda podemos aprender com ele

terça-feira, agosto 20, 2013



Para aprender a gostar do Aquilino Ribeiro, tive de começar pelo Cervantes e pelo Camilo. Belíssima, a sua versão para D. Quixote de la Mancha, na edição da Livraria Bertrand de 1959, com ilustrações de Gustave Doré e sinete do autor, acompanha-me desde a adolescência e é um portento de tradução. As ficções de Aquilino, li algumas na adolescência e, depois, ignorei-as durante anos, levando «às costas a opinião dos outros como uma mochila do regimento» (a expressão é dele): a prosa era barroca e cheia de palavras difíceis e descrevia um mundo anacrónico e em tudo desinteressante para a minha geração. Para quê voltar a ele? Um dia, ao ver-me a ler Amor de Perdição, a que regressei já não sei porquê, um amigo pôs-me à frente os três volumes da biografia de Camilo Castelo Branco escrita por Aquilino Ribeiro. Disse-me com veemência: «Quem goste do Camilo, tem que ler isto.» E foi a grande descoberta.
Aquilino justifica-se em nota preliminar, confirmada em cada página seguinte. A biografia de «Camilo, o filho do Sr. Manuel Botelho e de sua criada Jacinta Rosa» só podia mesmo ser um romance: O Romance de Camilo (1956). História verdadeira, sim, mas literária, porque «não é uma ladainha, nem uma lixívia; antes uma prospecção». O escritor «escavado do indivíduo» em mil páginas de fantástica capacidade de intuição, em suposições (todas convincentes), insights e reflexões sobre a obra. No final, Camilo surgiu-me inteiro, como figura humana muito plausível e com dimensão atual. Aí estava a razão para reler os romances de Aquilino. E fui dar então à Casa Grande de Romarigães. «O vento, que é um pincha-no-crivo devasso e curioso, penetrou na camarata, bufou, deu um abanão.» Assim esta crónica romanceada se me abriu em esplendor.
A melhor porta de entrada para os livros de Aquilino é dada pelo próprio nos prefácios e introduções. É ele quem melhor nos guia, se nos dispusermos à aventura. Ao colocarmos o primeiro pé dentro d’A Casa Grande de Romarigães (1957), o escritor conta-nos como, aquando do restauro desse antigo solar dos Meneses e Montenegros em Paredes de Coura, ele descobriu num pequeníssimo armário embutido na ombreira de uma janela a resma de papéis que daria o sumo ao que se dispôs a narrar. «Um romance...? Deus me livre! […] Se me saiu romance, aconteceu-me a mesma coisa que a um triste e tosco carpinteiro dos meus sítios, de quem toda a gente zombava, decerto por milagre desenfadado do Espírito Santo: estava a fazer um gamelo para o cão e saiu-lhe uma viola.»
A partir desta casa minhota, que ainda existe, e dos seus donos, Aquilino cria uma espécie de história de Portugal em vários quadros novelescos para várias épocas. Totalmente ficcionada, a narrativa tem tais capacidade evocativa e intensidade dramática que pode ser colocada ao nível do melhor Oliveira Martins. Perplexa, dei-me conta de que Aquilino Ribeiro é um grande romancista e de que ainda é possível lê-lo com prazer. Acumulei os volumes amarelecidos da Bertrand (com um design estupendo e largas margens excelentes para anotar significados), comprados em alfarrabistas [a obra completa foi também editada pelo Círculo de Leitores], e nunca mais parei.
Entretanto, esbarrei com uma preciosidade: Glossário sucinto para melhor comprensão de Aquilino Ribeiro. Datado de 1930 e hoje disponível online, foi composto pelo poeta, escritor e pedagogo Elviro da Rocha Gomes (1918-2009?), autor de obra vasta, curiosa e já esquecida. Com a sua ajuda e a de um bom dicionário, o confronto com os regionalismos e as palavras difíceis torna-se um jogo e uma descoberta. A riqueza lexical de Aquilino suscita também uma triste constatação: mostra-nos quão degradado e miserável anda o uso da nossa língua, tão afastado da noção de que «as palavras são dotadas de tantas qualidades quantas as intrínsecas ao desfrute dos cinco sentidos» que mais parece um dialecto para mero uso quotidiano e funcional.
Ultrapassada a dificuldade do primeiro contacto, percebe-se que o léxico aquiliniano tem por função tornar o texto, não mais difícil, mas o mais exato possível para «penetrar a fenomenologia das coisas». Ainda que a escolha do vocabulário possa ser apelidada de barroca, a construção das frases e das personagens é clássica e as preocupações do escritor são realistas. «O orgulho do criador estará em dar a ilusão de que [as personagens] são cópias exatas do mundo de carne e osso. […] Dois requisitos me movem quando escrevo: observância do real e originalidade.» Aquilino rejeita «o patético, o epopaico, esse colorau doce da eloquência». Quer provar: «Tudo o que seja diminuir a asa é dificultar o voo. A arte é uma hipertensão.» Modela «em carne viva e na estufa fria». A escrita, toda sensual nas descrições do mundo natural, revela-se bem seca e justa, sem artifícios a descrever «de indivíduo em indivíduo, como a abelha quando forrageia o pólen». O estilo e fantasia de Aquilino são em tudo próprios, não devem nada a ninguém, e só isso já chegaria para o transformar numa vitrina da língua e de bem escrever.
A dificuldade da prosa de Aquilino revela, afinal, que esta possui um lado misterioso e desafiante. Que alegria é reencontrar expressões usadas pelos nossos pais ou avós e o país de que eles nos falavam. Mesmo quando, para meu grande repúdio, o escritor defende que «Portugal cooperou na obra geral da civilização com bons serviços; salvou a Europa ariana do semitismo» (prefácio ao ensaio Os Avós dos Nossos Avós, de 1943), mostra-se um homem da sua época (quando ainda era possível um homem de esquerda ser antissemita), na qual imediatamente nos coloca. Então, percebi: a grande virtude e atualidade de Aquilino é dar-nos um mundo que já está morto, tremendamente vivo.

 
Aquilino Gomes Ribeiro, nascido a 13 de Setembro de 1885 em Sernancelhe, concelho do Carregal, estreia-se aos 21 anos (1907), com o folhetim A Filha do Jardineiro. Até à morte, a 27 de Maio de 1963, em Lisboa,  são cinquenta anos de vida literária, meio século durante o qual produz obra extensa e escapa a escolas ou movimentos literários. Apenas os romances urbanos (o «estudo do casal lisboeta dos nossos dias» em Mónica, de 1939, e O Arcanjo Negro, de 1947), muito datados, o aproximam, pela negativa, dos seus contemporâneos na mesma linha. São os seus piores legados, de leitura penosa e indigesta, a par do registo autobiográfico em Um Escritor Confessa-se (póstumo, 1974) ou na novela Domingo de Lázaro (em Estrada de Santiago, 1922). Nestes últimos, o escritor pinta-se em versão unidimensional e levou-me a perguntar como é que alguém tão inteligente pode ter de si próprio uma ideia tão narcísica, megalómana e infantil. Contudo, nada disto turva a evidência: quando escreve sobre o campo, Aquilino Ribeiro torna-se um titã.
Ao tratar do que conhece, das Terras do Demo, das encostas beirãs, dos contrafortes da Serra, Aquilino adopta uma perspetiva social, mas sem sombra de agenda política ou centelha de moralismo ou narcisismo. É da ordem do milagre que tenha escapado ao neorrealismo. A sua visão sobre o mundo rural é dotada de uma voz absolutamente singular. Ele é, em simultâneo, um romancista, um etnógrafo, um etnólogo, um estudioso de costumes, um filósofo e um ambientalista avant la lettre. Não é um psicologista, mas, com duas pinceladas, ergue uma personagem e dá-lhe vida própria.
Colocadas ao serviço de um grande poder de observação e de simpatia para com as personagens, as suas narrativas não possuem protagonistas, antes exibem uma vasta e vívida galeria de seres humanos. Destaca os mais fracos, mas nunca distingue bons e maus. O povo rural surge como é: muitas vezes feio e capaz de más ações. Aquilino não o idealiza ou forja para corresponder a um ideal socialista. Até no romance Volfrâmio (1943), sobre a febre do «oiro preto» que, durante a Segunda Guerra, «brotou das terrinhas safras do Norte mais laja que húmus, mais serra que plaino», ou em Quando os Lobos Uivam (1958, proibido pela censura), sobre a florestação dos baldios nos anos 50 (para abastecer as novas indústrias de celulose e madeiras), o escritor aborda a corrupção e o conflito dos povos serranos perante os interesses estrangeiros dando a todos e respectiva argumentação a mesma importância e dignidade. E ainda que seja um declarado republicano, maçónico, da Carbonária, conspirador político e esquerdista e tenha abandonado o seminário por expulsão, retrata, por exemplo, os padres, os seus dilemas da carne ou a sua relação com os bens terrenos, sem dramas morais e com grande capacidade de compreensão. A observação direta e o desejo de compor quadros completos e imparciais leva-o a deitar mão a todos os recursos da linguagem e a todas as perspetivas. Quer ser «preciso sem ser precioso». Mas como o consegue?
No volume de novelas Casa do Escorpião (1963), um dos últimos livros publicados em vida, encontrei entretanto uma ficção de pasmar. O burriqueiro e o seu burro conta como o Lúcio Samarreiro desenvolve com o seu Fagulha um caso de... amor. O autor bem avisara na dedicatória que o volumeencia﷽﷽﷽﷽﷽or e dependcom uma ficç quando escrevo: doce da existitar mçfuncionale, a Beira, Terrasuando a ediç e tosoc carpinteirência~encia é todo ele dedicado a personagens estigmatizadas e que aquele «teatrinho» é movimentado «sob os auspícios, pois, do bicho que morde e dá a ferroada, com as naturais circunstâncias». A opção dá que pensar e esclarece talvez a maior virtude do fulgor aquiliniano
À mesma conclusão terá chegado o investigador e filósofo Leonel Ribeiro dos Santos (no âmbito do projeto Filosofia e Arquitetura da Paisagem da Universidade de Lisboa): Aquilino «criou uma nova escrita, não com a subversão da norma contemporânea, mas pela reestruturação do seu corpo morfológico com um vocabulário vernáculo, que nos conduz às primitivas representações da relação entre o ser humano e a natureza». Parte essencial da lava que dá dimensão às suas personagens rurais vem da sensualidade como celebração do sexo e da vida ligada a um lado pagão. Aí nasce também «uma ética antiquíssima que a luta pela sobrevivência e o conhecimento empírico da vida moldaram contraditoriamente». Indo às origens da vida camponesa, Aquilino aproxima-se de um magma original e, para o copiar do natural, fala com uma escrita própria.
Ao fim de uma dúzia de livros lidos, Aquilino Ribeiro, já meu, comprova-se profundamente original. E, depois, alguém conhece outro escritor português capaz de afirmar o seguinte?: «A saudade, lexicamente, está entendido que é o diamante negro dos portugueses; psiquicamente não vale um pataco mais que a saudade de qualquer outro europeu.» [Os Avós dos Nossos Avós] O que o português não tem, diz ele, é «grande gosto pela vida». Alguns acreditam que Portugal se salva do seu fado-destino pelo fado-canção: «É poético, mas pouco compensador. […] Supor que uma cantiga possa encerrar a psique de um povo é o mesmo que procurar num copo de água a imagem do mar.» Por esta e por outras audácias e lucidezes, Aquilino conquistou e merece um espaço só seu.
Quanto àqueles que, posta toda esta argumentação, o rejeitam ou teimam em ignorá-lo, respondo-lhes com o troco que o próprio deu aos críticos. É urgente ler Aquilino. Essa é a «verdade verdadinha […] que, nestes tempos tão astrais como latrinários, trazem emporcalhada, de toda a sujice de que são capazes, os sectários de credos batidos em brecha, os parvajolas de ideias feitas, os sucateiros das letras que desbastam o papel almaço, e certa ordem de coleópteros, como os que rolam a maçã camiliana [e a aquiliniana]. Destinados a estes, que vieram tão desasadamente benzer ao meu quintal, tenho ali uns alfinetes de entomologista, com que conto pregá-los nas páginas dos Aboborões, a espernear das quatro feias patas, ventre ao léu, para edificação daqueles que se dispõem a aprender a zoologia da nossa terra».

LER/ Maio 2013
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

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