Michel Onfray | A fraude Freud

domingo, março 03, 2013




Em 2012, Michel Onfray (n. 1959) teve destaque em todos os meios de comunicação e círculos de discussão intelectual franceses e tornou-se um filósofo best seller. Afrontara um dos pilares da cultura ocidental e, por isso, aclamaram-no como destruidor de dogmas ou criticaram-no e vilipendiaram-no a ponto de o conotarem com Hitler. Em causa, o ensaio Le Crépuscule d’une Idole, recém-lançado por cá, com o título Anti-Freud, baseado em ampla pesquisa e veemente argumentação. As conclusões  de Onfray, na sua maioria apoiadas por citações do próprio Freud, pretendem ser cabais: a Psicanálise é, não uma descoberta, mas sim uma invenção, sustentada pela ambição doentia e pelos quase maquiavélicos poderes de efabulação, autopromoção e manipulação do seu criador. Sigmund Freud (1856-1939) foi um arcaísta, anti-existencialista, ganancioso, mitómano, misógino, insensível à pobreza e aos seus próprios pacientes. Sim, ele introduziu a intimidade e revalorizou o poder da palavra no pensamento ocidental, mas extrapolou os seus fantasmas pessoais para o mundo inteiro. A sua ciência não passa de uma fraude, da ordem do xamanismo e da alucinação colectiva, alheia a qualquer princípio científico.
Onfray, filho de trabalhadores pobres, educado numa escola-orfanato católica, encontra na leitura de Nietzsche a fuga para uma adolescência triste e violenta. Professor de Filosofia, graças a ensaios como Tratado da Ateologia, A Política do Rebelde ou Teoria do Corpo Amoroso, ganha fama como filósofo iconoclasta e polémico, ateu militante, hedonista materialista e provocador. Em 2002, cria a Universidade Popular de Caen, onde põe em marcha formas não convencionais e solidárias de ensino e prática da filosofia. Os seus ciclos de conferências atraem milhares. Decide ministrar um deles sobre Freud, autor que estudara no período formativo e ensinara durante anos. Entretanto, lê a obra coletiva e polémica Le Livre Noir de la Psychanalise, lançada em 2005. Decide ler na íntegra os textos de Freud, a correspondência, as biografias e os ensaios das correntes histórica e revisionista. Fica aterrado com o que descobre e, mais uma vez, na esteira de Nietzsche, decide «filosofar com o martelo». Anti-Freud, agradável de ler, bem argumentado, é o livro de um boxeur. Dificilmente o olhar sobre a génese da Psicanálise – alerta: que deve ser destrinçada da evolução das práticas clínicas – voltará a ser o mesmo.

Anti-Freud, Michel Onfray, Objectiva, 645 págs., 29 euros


SOL / 22-02-2013
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

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