Foster Wallace | Uma piada infinita

quinta-feira, fevereiro 07, 2013


Pesem bem o que têm pela frente quando A Piada Infinita, de David Foster Wallace (1961-2008), chega às livrarias portuguesas: um quilo e meio de peso para 1198 páginas, um labirinto não-cronológico de personagens e linhas narrativas, ação passada na América e num futuro próximo indeterminado, 338 notas (arrumadas no final) que poderiam ser capítulos e é-mesmo-necessário-ler, e, pairando sobre todo o texto, a aura mítica que une o suicídio do autor (doente depressivo grave durante mais de 20 anos) ao epíteto de génio revolucionário e maior escritor norte-americano da sua geração e do final do século XX. Juntem, em torno deles, autor e livro, um fenómeno viral de referência literária ou de moda pseudoliterata e de name dropping (menção sem conteúdo), alimentado pelo marketing editorial e, na sua base teórica, por uma certa crítica e pelos autores da escola de Wallace (entre eles, Zadie Smith e os grandes amigos do escritor: Jonathan Franzen, Donald Antrim ou Jeffrey Eugenides, a quem chamava «os rapazes brancos»). E respirem fundo.
Se mesmo assim se aventurarem à leitura, fica a sugestão prática: guilhotinem o livro para que o possam ler por partes, dispensando tendinites. Se insistirem em mantê-lo intacto, separem pelo menos a parte das notas ou assinalem-na de forma a poderem consultá-la a qualquer momento. Reservem largos meses para esta leitura e façam-na com um lápis e um bloco de notas à mão. Preparem-se para, mesmo assim, no final, não apreenderem senão uma pequena parte desta proposta literária extravagante. Feitas as apresentações, eis Infinite Jest, cujo título os dois tradutores portugueses (a tradução, levada a cabo intensivamente durante oito meses, é notável), Salvato Telles de Menezes e Vasco Telles de Menezes, pai e filho, traduziram para A Piada Infinita.
No Ato V, cena I de Hamlet, o príncipe monologa sobre a morte, enquanto segura na mão a caveira de Yorick, um falecido bobo da corte. No início do monólogo, exclama: «Helás, pobre Yorick! Eu conheci-o bem, Horácio: um sujeito com infinita piada (infinite jest) […]» Sim, foi de Shakespeare que Foster Wallace recolheu o título da sua obra-prima. E é também aí que começa a mitificação deste livro e do seu criador, porque, suprema e triste ironia simbólica, quando o lemos, é como se segurássemos nas mãos a caveira que albergou a fonte do legado que ele nos deixou após uma morte trágica (por enforcamento, depois de múltiplas tentativas de tratamento químico, por internamento e até com choques electroconvulsivos).
A Piada Infinita, lançado em 1996, é um romance sobre depressão e várias outras desordens mentais e físicas, sobre família, consumos compulsivos, drogas, indústria do entretenimento, terrorismo e agências de segurança e mil outros subtemas explorados pelo autor com a minúcia de um pesquisador de nanoparticulas. As personagens multiplicam-se a partir da família Incandenza, sobretudo do que pode ser considerado o protagonista, Harold (Hal), que (como Foster Wallace o foi) é um jovem jogador profissional de ténis, «potencialmente sobredotado em matéria de ténis e léxico», cuja degradação mental acompanhamos até ao final do livro. A segunda figura principal, apresentada em flashback, é James, pai de Hal, a quem a família chama «Ele Mesmo», doutorado em Física Ótica, fundador da Academia de Ténis de Enfield (central no romance, a par da Ennet  House, o centro de recuperação de tóxico e álcool-dependentes onde Hal será internado), realizador (de Infinite Jest), alcoólatra, que se suicida (colocando a cabeça dentro do micro-ondas) aos 54 anos. Infinite  Jest é o nome do misterioso filme de entretenimento que, em cinco tentativas, James criou e cujo visionamento é de tal forma cativante e viciante que bloqueia a capacidade de ação dos espetadores – um grupo separatista quebequence procura obter a desaparecida cópia mestra do filme, para o usar em atos terroristas contra os EUA.

 
«Wallace é um barroco, um gongórico», defende Salvato Telles de Menezes, que destaca A Piada Infinita como o mais difícil e o mais bem sucedido desafio na sua carreira de quarenta anos de tradução. A cada personagem, o autor conferiu uma figura e uma personalidade distinta, minuciosamente explorada em termos psicológicos, e um discurso distinto, que é seguido ou imitado, na sua forma, pelo narrador, sempre que se refere a cada uma delas. Neste aspecto, a tradução, portuguesa, muito fluida, torna-se uma espécie de cocriação. O estilo de Wallace caracteriza-se pelo radical arrojo na composição, na gramática e na linguagem (incorpora muito jargão e terminologia técnica; reproduz estruturas gramaticais incorretas e até erros ortográficos; há frases que duram três páginas; os títulos dos capítulos integram nomes de produtos), na minúcia (prodigiosa e obsessiva) da descrição e nos temas centrais: sátira ao mundo mediatizado e mercantilizado e à era da depressão, sátira ao modo como a natureza e pureza (também química) originais das personagens se perverteu e devido a que forças destrutivas, sátira à ironia, compondo um detalhado inferno que evoca a potência sugestiva do de Dante. 
Na verdade, para lá dos intricados enredos, que o autor desenvolve por vezes repetindo-se (o que ajuda o leitor), encontram-se no subtexto do romance múltiplas alusões literárias, a cuja compreensão total só um especialista conseguirá aceder. Foster Wallace tinha 33 anos quando A Piada Infinita foi publicado. Diz Salvato Telles de Menezes: «É notável e quase inexplicável como, tão jovem, reuniu uma tão brutal extensão de conhecimentos literários, que só pode resultar de ter lido os livros originais, a fundo.» Até à morte, o escritor continuou a escrever, deu aulas de escrita criativa e publicou reportagens jornalísticas e ensaios brilhantes. A sua bibliografia é composta por três coletâneas de contos, nove livros de não-ficção (três deles póstumos) e dois romances, um deles, The Pale King, póstumo, inacabado e finalista do Pulitzer Prize 2012.
David Foster Wallace definia o que fazia como «ficção apaixonadamente moral», o que o aproxima dos existencialistas. Escrevia na senda de Thomas Pynchon, mas preferia dizer que era na de Don DeLillo. Salvato Telles de Menezes defende: «O modelo narrativo do livro é Dickens e Moby Dick, mas descortinam-se também, sobretudo na estrutura da frase, influências da literatura russa clássica ou da literatura francesa do século XX. Wallace quis laborar numa transferência do pós-modernismo para o pós-pós-modernismo, uma ruptura feita de uma forma, em simultâneo, irónica e profundamente depressiva.» Por tudo isto, A Piada Infinita é um desafio ao qual poucos leitores conseguem aceder por completo, mas um feito extra-ordinário, que ficará na história da literatura.

A Piada Infinita, David Foster Wallace, Quetzal, 1198 págs., 27.70 euros

SOL/ 16-11-2012
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

Pode Também Gostar de Ler

0 comentários