Pó enamorado: E as Montanhas Ecoaram, Khaled Hosseini

Khaled Hosseini retratou o amor filial   e o Afeganistão  e arrasou as tabelas. Outono de 1952, Afeganistão. Na aldeia isolada de Shadbagh, ...

terça-feira, janeiro 24, 2012

Os Melhores de 2011




Contos Carnívoros, Bernard Quiriny, Ahab Edições
Ferrugem Americana, Philip Meyer, Bertrand
Vida e Destino, Vassíli Grossman, Dom Quixote
Americana, Don DeLillo, Relógio D’Água
Crítica da Razão Cínica, Peter Sloterdijk, Relógio d’Água
O Mapa e o Território, Michel Houellebecq, Objectiva
Hoje Preferia Não Me ter Encontrado, Herta Müller, Dom Quixote
Liberdade, Jonathan Franzen, Dom Quixote
A Questão Finkler, Howard Jacobson, Porto Editora
Viver no Fim dos Tempos, Salvoj Zizec, Relógio D’Água

E ainda:

Némesis, Philip Roth, D. Quixote
O Progresso do Amor, Alice Munro, Relógio D'Água
Cleópatra, Stacy Schiff, Civilização
O Sentido do Fim, Julian Barnes, Quetzal
A Noite das Mulheres Cantoras, Lídia Jorge, Dom Quixote
O Retorno, Dulce Maria Cardoso, Tinta-da-China
As Luzes de Leonor, Maria Teresa Horta, Dom Quixote
As Teorias Selvagens, Pola Olioxarac, Quetzal

Rodrigo Lacerda | à espera



De manhã muito cedo, um homem, uma mulher e a filha de cinco anos estão sentados na cafetaria de uma estação rodoviária. Aguardam a partida da camioneta que os levará de volta à cidade do interior de onde o casal viera há anos para a cidade grande. O homem foge das consequências públicas de um escândalo de corrupção e acredita que, longe, no espaço natal, ainda podem reconstruir a fantasia de uma família feliz. A mulher não quer deixar para trás os sonhos de ascensão na cidade nova e é assombrada pelas ameaças do amante. A miúda quer apenas levar um gato consigo. Nas poucas horas desta espera, decide-se o futuro dos três. Outra Vida, segundo romance do brasileiro Rodrigo Lacerda, finalista dos prémios Jabuti e Portugal Telecom, surpreende pela economia de espaço e de tempo narrativos se comparada com a amplitude do retrato das personagens. Com poucas pinceladas, mas certeiras, uma mão segura e traço muito fluente, Lacerda deixa-nos espreitar por dentro a relação de um casal em crise profunda. A arte maior do romancista é dar espaço à existência autónoma de cada personagem, tratando com subtileza e cuidado as razões e as raízes dos sentimentos e opções de cada um.
Rodrigo Lacerda (n. 1969), escritor e editor paulista, levou oito anos a apurar este romance. Desse apuramento terá surgido o despojamento final, concentrado no osso de cada movimento interno das personagens, almofadado pela memória de situações passadas. Outra Vida lê-se bem e muito rapidamente e não é só um retrato ‘photomaton’ de um banal rompimento de projeto comum entre duas pessoas. Na verdade, tal como defende a mulher, apenas uma coisa parece contrariar hoje em dia essa banalidade: «A única prova de honradez que ainda se pode exigir [um do outro], por enquanto, é o amor aos filhos. O resto virou pó.» No centro, está a criança e os laços de cada um com ela. Mas a corrosão afetiva do casal é mais grave do que a corrupção real. A mulher é praticamente incapaz de sentimento maternal; o homem está ingenuamente preso a um ideal romântico. De modo imparcial, através de um narrador que é uma «terceira pessoa próxima» (técnica do «discurso indireto livre»), Lacerda dá espaço e dignidade a cada um dos dois pontos de vista. A humanidade do resultado tem traços de poesia.

Outra Vida, Rodrigo Lacerda, Quetzal, 168 págs.

SOL/ 13-01-2012
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

sábado, janeiro 14, 2012

Per Olov Enquist | o rei vai louco



Viagem à corte da Dinamarca no romance histórico quase perfeito de Per Olov Enquist.

O rei, a rainha e o médico real. Christian VII, a sua mulher Caroline Mathilde, irmã de Jaime III de Inglaterra, e o alemão Johann Friedrich Struensee. O louco, a que não tem medo de nada e o «revolucionário de gabinete», iluminista. «Aqueles três.» O sueco Per Olov Enquist (n. 1934) juntou-os de novo num romance notável, datado de 1999 e recém-editado pela Ahab: A Visita do Médico Real. No estilo cunhado  como «históricodocumentarista», Enquist relata a «era Struensee» (1770-1772), uma revolução fora de série, mas de curta vigência, no feudal, puritano e apodrecido reino da Dinamarca.
Em 1766, com 16 anos, Christian é coroado. Graças a uma educação de chicote, é um rapaz esguio e sensível, ora em espasmos, ora em delírio, ora em choro, ora em fúria destruidora. Obcecam-no culpas e castigos, o papel que a graça de Deus o encarregou de representar. Louco, talvez esquizofrénico, pensa e age por deixas, mas, capaz de lucidez vibrante, corresponde-se com Voltaire. Quando o livre-pensador Struensee entra ao seu serviço, o rei torna-se dependente dele, ao ponto de lhe entregar o governo do reino e o leito da rainha. Todavia, «desejar a rainha era tocar na morte». O idílio amoroso e reformador durará cerca de três anos, até um golpe palaciano do maquiavélico Guldberg condenar Struensee à morte, por tentativa de regicídio, Caroline à expulsão do reino, Christian a uma animalesca servidão a Guldberg e a Dinamarca a um regresso à «decência pietista».
Enquist é merecidamente um dos nomes-chave das letras escandinavas. Para ele, a História é a escolha das pessoas entre o que elas querem ver: a escuridão e a luz. A agilidade, a ironia, o tom direto do narrador, a justeza das imagens, a poderosa identidade emocional das personagens, tudo resulta num casamento quase perfeito entre o registo documental e o da ficção. Vemos Christian,  sobre a cama,  a brincar ao «jogo do rei e da corte ridícula» com os seus dois fiéis companheiros: um cão e um pajem negro. Assistimos ao sexo transcendente entre a rainha e Struensee – as descrições são sublimes. Conhecemos a raiz dos 632 decretos revolucionários de Struensee. Conhecemos como, por momentos, se abriu uma fenda na história e um homem colocou « uma alavanca por baixo da casa do mundo».

A Visita do Médico Real, Per Olov Enquist, Edições Ahad, 393 págs.
SOL/06-01-2012


© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

terça-feira, janeiro 10, 2012

V. S. Naipaul | Sangue e mato


V. S. Naipaul ainda lidera os grandes intérpretes da turbulência do Terceiro Mundo.

Onze anos após a primeira publicação pela Dom Quixote, a tradução de José Vieira Lima para A Curva do Rio, uma das obras emblemáticas de V. S. Naipaul, regressa às livrarias, agora pela Quetzal, que inicia a edição da obra completa do autor. Pode ser um romance de um certo olhar estrangeiro sobre a realidade da África pós-colonial a experimentar a independência, e até um olhar muito criticado por chefes de fila como Chinua Achebe ou Nadine Gordimer. Contudo, Naipaul, Nobel da Literatura em 2001, é não só uma voz moral na denúncia das sequelas da opressão no Terceiro Mundo, mas sobretudo um finíssimo artesão em língua inglesa de paisagens sociais com a delicadeza de uma renda de bilros. A Curva do Rio, de 1979, tem o alento de um clássico e, como notou John Updike, resulta da destreza literária e das reflexões humanistas de  «um espírito tolstoiano».
Vidiadhar Surajprasad Naipaul nasceu em 1932 em Trinidad, nas Caraíbas, descendente de indianos, mas estudou em Oxford, como bolseiro, a partir dos 17 anos. Sempre recusou a autovitimização e cedo brandiu com ferocidade uma bandeira: os povos oprimidos são os responsáveis pelo seu futuro e pela escrita do seu passado. Ou como descreve Salim, protagonista de A Curva do Rio, descendente de muçulmanos (abastados e de origem indiana) da costa leste, ao se instalar como comerciante numa cidade num país sem nome, no interior, na verdadeira África: «Nunca escrevemos a nossa história. […] Se foi a Europa que nos deu alguma ideia da nossa história, foi também a Europa, creio, que nos ensinou a mentir. […] Nós continuávamos a viver como sempre tínhamos vivido: cegamente.» Nesta sua «longa jornada para abraçar a vida» e o amor, cerca de seis anos na curva do rio, Salim assistirá, e nós com ele como observadores alienígenas, à devolução a si mesmo de um mato simbólico manchado de sangue que sonha com a paz e uma identidade própria para, depois, cair no caos e na corrupção e expelir golfadas de raiva à mistura com estrangeiros como ele (que seguem para uma Europa «egoísta, mesquinha, ameaçadora»). Em 2012, a Quetzal reeditará Uma Casa para Mr. Biswas, de 1961, e lançará o mais recente (e trigésimo) livro de Naipaul: o ensaio The Masque of Africa: Glimpses of African Believe, de 2010.

A Curva do Rio, V. S. Naipaul, Quetzal, 416 págs.
Sol/ 04-11-2011


© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

segunda-feira, janeiro 02, 2012

Virginia Woolf | Nas ondas de Rachel




«Nada acontece verdadeiramente até estar escrito», disse Virginia Woolf  (1882-1941) a Nigel Nicolson,  filho da sua amiga (e amante) Vita Sackville-West. A convicção fê-la escrever desde muito pequena, com entrega, convencida de que, tal como a irmã Vanessa seria uma grande pintora, ela tornar-se-ia a grande escritora entre os Stephens, uma «família intelectual, muito nobre de nascimento num sentido livresco» (ensaio Eu Sou Snobe?). Em 1915, aos 33 anos, Virginia cumpriu o sonho com a edição da primeira obra de ficção, A Viagem.
Trabalhado até à exaustão, o romance imitava os retratos sem definição exacta dos rostos que, entretanto, Vanessa criava na tela. Virginia descobrira «uma linguagem corporal sem rosto» (Nicolson), a aplicação do modernista método stream of consciousness (fluxo de consciência), a recriação no papel da livre, espontânea e anárquica torrente interna de pensamento, sensações e memórias de cada personagem. Para estas pouco mais de 400 páginas de profundo esteticismo e agudíssima percepção, a escritora transferia também as experiências de infância ou com o grupo Bloomsbury, o trauma da perda da mãe e de uma meia-irmã (aos 13 e aos 15 anos – a mãe da protagonista, Rachel, morre quando ela tem 11), depois o da morte do pai (aos 22 anos) e de cíclicas depressões e perturbações mentais (que culminam no suicídio, aos 59 anos).



Viajamos pelo interior de Rachel Vinrace, aos 24 anos, enquanto esta viaja até à América do Sul num navio do seu pai, seguindo uma rota de aprendizagem, habitada por diversas caricaturas eduardianas e por um sentimento de sensível e angustiada estranheza feminina do mundo, central em toda a obra de Woolf. Com o título inicial de Melymbrosia, acredita-se que a escrita do romance acompanhou e reproduz, ela mesma, a maturação intelectual da autora (em 1981, Louise DeSalvo publicou uma recriação do texto de 1912, prévio a extensas revisões). Mais acessível do que as obras-primas posteriores sobretudo pela fluência e justeza dos diálogos, A Viagem introduz já a personagem de Mrs. Dalloway e lê-se como espantosa arqueologia do génio de Woolf. Repete Rachel: «É a maneira como dizemos as coisas que importa, não acha, e não as coisas em si?»

A Viagem, Virginia Woolf, Editorial Presença, 410 págs.

SOL/ 26-06-2011
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)