Vassili Grossman | Todos ou só um

domingo, dezembro 25, 2011


Vida e Destino, de Vassili Grossman sai finalmente em Portugal. 
É um dos maiores testemunhos literários sobre o totalitarismo no século XX.
Quase 900 páginas e nem um esboço de sorriso ou de conforto; antes, espanto, indignação, repulsa, empatia ou até mesmo um choro condoído. Vida e Destino é uma leitura difícil, mas, até à última página, indispensável. Das florestas do norte até ao rio Volga, nos bunkers de Stalinegrado, nos cubículos dos refugiados moscovitas em Kúbiechev ou em Kazan, na frente, nas trincheiras, nos hospitais de campanha, nos campos correcionais e nos campos de concentração, no gueto, nos vagões da morte, dentro da câmara de gás, nos laboratórios científicos de Moscovo, no gabinete de Estaline, na floresta por onde passeia um Hitler solitário. Entre Setembro de 1942 e Abril de 1943, estivemos lá. Connosco, caminharam entre a «vida passada» e a consumação de um destino individual e coletivo cerca de 160 personagens, todos ligados por algum fio à família de Aleksandra Vladimirovna, química no laboratório da fábrica de sabão de Kazan, e do cunhado, o cientista Víktor Pávlovitch (Strum), repudiado pelos seus pares. Vida e Destino, do judeu ucraniano Vassili Grossman, é uma das mais esclarecedoras leituras sobre as atrocidades do século XX. Uma obra-prima épica por fim traduzida do russo para o português (por Nina Guerra e Filipe Guerra), comparável em fôlego e minúcia a Guerra e Paz, de Tolstói, em profundidade a A Condição Humana e Eichmann em Jerusalém, de Hannah Arendt, em denúncia a Se Isto É um Homem, de Primo Levi.
Vassili Grossman nasceu em 1905, na cidade de Berdítchev, a «capital judia» da Ucrânia. Filho de um engenheiro e de uma professora de francês, ambos judeus emancipados, estudou engenharia química, mas acabou por tornar-se jornalista e escritor. No início da Segunda Guerra, isento do serviço militar, mas como correspondente do jornal militar russo Krasnaya Zvezda, cobre as batalhas de Moscovo, Stalinegrado, Kursk e Berlim. Será um dos primeiros repórteres a testemunhar a libertação dos campos de extermínio (de Treblinka e Majdanek – o seu artigo «O Inferno de Treblinka» servirá de prova nos julgamentos de Nuremberga).
Logo no final da guerra, Grossman é encarregado pelo governo de escrever um livro negro das perseguições aos judeus soviéticos, mas rapidamente percebe que o projeto não é para levar avante. Em 1961, a casa do escritor é assaltada por agentes do KGB, que apreendem anotações, documentos vários, manuscritos recém-concluídos de Vida e Destino (a denúncia fora feita pelo editor da revista para onde enviara um original) e até mesmo as fitas da máquina de escrever. Mikhail Suslov, líder ideológico do Politburo, comunica-lhe que aquele romance não verá a luz do dia nos três séculos seguintes. O dissidente Grossman apela em vão junto de Nikita Krushchev. Em 1964, morre, em Moscovo, vítima de cancro. Dez anos depois, em 1974, um dos dois originais sobreviventes de Vida e Destino é microfilmado pelo poeta Semion Lípkin. O físico nuclear Andrei Sákharov e o humorista Vladimir Voinovich conseguem fazê-lo sair do país e o romance é publicado em vários países, em 1980. Em 1988, é finalmente publicado na Rússia de Gorbatchev, 24 anos após a morte do autor.
Sequência do romance Por uma Causa Justa (sem tradução portuguesa), Vida e Destino expressa um total desencantamento com as lideranças soviéticas desde a revolução de 1917 e possui uma forte base autobiográfica. Como o personagem Anna Semiónovna, a mãe do escritor foi uma das 20 mil vítimas do pogrom de 15 de Setembro de 1941 em Bérditchev (o filho escreve por ela uma terrível carta de despedida). Como Evguénia Nikoláevna, a mulher de Grossman foi perseguida devido às posições políticas do seu primeiro marido. Como Víktor, Grossman assistiu à progressão do medo e do sistema vil da denúncia em nome da «confiança do partido». Como ele, procurou guiar-se pelo melhor que foi dado ao ser humano: «agir segundo a sua consciência».
Vida e Destino, cujo centro é a batalha de Stanilegrado, testemunha com ferocidade o mito da Grande Guerra patriótica, o élan de amor à pátria («é a guerra do povo, é a guerra sagrada...») que justificaria os 27 milhões de mortos russos na Segunda Guerra e, depois, serviria o generalíssimo Estaline e a instrumentalização da ortodoxia. Grossman denuncia, sobre tudo, uma «enorme submissão humana». Um traço novo? Não. «Esta submissão revela o aparecimento de uma nova e terrível força que influenciava as pessoas»: a superviolência dos sistemas totalitários. Capaz de vencer até a inextinguível aspiração humana à liberdade e à peculiaridade, «o verdadeiro e eterno sentido da luta pela vida».
Agindo segundo a sua consciência, o homem torna-se único, «irreplicável como tudo o que é vivo». Por isso, no campo de concentração, o velho bolchevique Mostovskói questiona um sentimento claro e definido: «entre os nossos sou nosso, entre os estranhos sou estranho». Liss, oficial alemão e teórico das SS, dir-lhe-á: «Quando nos olhamos na cara, um ao outro, olhamos não só para uma cara odiosa, mas também para o espelho. Nisto consiste a tragédia da época.» Enquanto o sentimento de individualidade enfraquece, o sentimento de destino cresce. Grossman prova-o em parágrafos burilados todos com o mesmo desvelo na descrição da vida e do destino de cada personagem.
No presente da guerra, cada um encontra-se com o seu próprio passado, revive-o, mima-o e ama-o. Alguns já não vivem, existem só, como «não-filhos do tempo», são executados como meras «figuras». Outros sentem «uma sensação de desamparo na tundra da vida». É quase insuportável a descrição dos massacres, da morte do pequeno David e de Sófia, de mãos dadas na câmara de gás, ou de Liudmila sangrando de dor sobre a campa do filho Tólia. Na verdade, a fatalidade do século XX foi, tal como Grossman defendeu, a de que «todo o inconciliável se conciliou». Impossível esquecer.

Vida e Destino, Vassili Grossman, Publicações Dom Quixote, 855 págs.

SOL/ 16-12-2011
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

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