David Vann | Entrevista

segunda-feira, outubro 03, 2011



Prémio Médicis em 2010, A Ilha de Sukkwan, novela do norte-americano David Vann, exorciza pela ficção a memória violenta do suicídio do pai.

Quando David Vann, o escritor, tinha 13 anos, o pai (um dentista, apaixonado por armas, pela caça e pela pesca) convida-o para passar um ano com ele no Alasca, onde o rapaz nascera (na Ilha de Adak), mas de onde partira para a Califórnia após o divórcio dos pais. David recusa o convite. Pouco depois, o pai suicida-se, com uma bala na cabeça, ao telefone com a sua segunda mulher. O trauma autobiográfico ensombra a vida de David, hoje com 45 anos. Desde os 19, ele procurou libertar-se e transformá-lo em ficção. O resultado, a colecção de histórias Legend of a Suicide, concluída em 1999, terá de esperar mais dez anos pela aprovação de um editor e pela aclamação geral da crítica norte-americana e internacional, em 2009.
Extraída do conjunto e agora editada pela Ahab, a novela A Ilha de Sukkwan é um grande drama clássico, cujo cortante suspense advém da tensão entre a vida e a morte, entre pai e filho. Durante doze meses, isolados do mundo, numa ilha selvagem no Sul do Alasca, coberta por cerrada floresta virgem, Jim e Roy, pai e filho, tentam construir uma cabana, uma relação entre os dois e, no caso do pai, uma razão de vida. A experiência irá tornar-se uma terrível e comovente luta pela sobrevivência, à qual o filho não resiste, suicidando-se. Com excelente captação dos ambientes interior e exterior das suas personagens, David Vann dá um novo significado às expressões paisagem agreste e ficção-verdade.

O Alasca ainda é uma espécie de paraíso perdido?
É muito importante para os americanos imaginarem que, no Alasca selvagem, ainda podem descobrir o seu lado bom. São ideias que vêm dos grandes poetas românticos ingleses, mas que também se ligam com o mito de uma nação construída por pioneiros que enfrentaram a adversidade e quebraram as fronteiras.

Mas, no seu livro, a natureza funciona como uma metáfora para a tragédia.
Sim, é neutra, não tem significado em si mesma. As personagens é que a impregnam de sentido. O que acontece dentro do pai é terrível: o desespero a caminho do suicídio, a culpa por ter arruinado dois casamentos, a dependência da segunda mulher, tudo isto...

... contagia o ambiente?
A paisagem funciona como um espelho amplificador, e torna-se aterrorizadora, ela mesma. Nesse sentido, o Alasca é um palco ideal para o drama.

É essa a sua técnica: ancorar o enredo numa fusão entre as duas paisagens, a interna e a externa.
Estar sempre a voltar à descrição da paisagem é o meu método, sim, mas é espontâneo e, de algum modo, verdadeiro e até mítico. Porque o Alasca representa as minhas memórias de infância, a criação do meu mundo interno mais profundo.

Essa é, aliás, a corrente da literatura americana dos seus autores de eleição: William Faulkner, Cormac McCarthy, Tobias Wolff ou Annie Proulx...
Liga-se também com Melville e Hawthorne e com os naturalistas. Com uma tradição narrativa vivida, digamos assim. Como a de alguém, neto e filho de caçadores, habituado a ouvir contar histórias durante a caça. Por isso, as histórias estão sempre ligadas a um espaço concreto, do qual nem elas, nem o autor se podem separar. Talvez isso seja o mais interessante no processo de escrita: a capacidade de incorporar e tornar coeso algo que é, ao mesmo tempo, estranho e familiar.

Como a sua biografia trágica com o seu pai neste A Ilha de Sukkwan. Foi intencional a transformação, a meio do livro, do suicídio real do pai no suicídio ficcional do filho?
Na verdade, eu estava num veleiro, no meio do oceano, algures perto do Havai, com o computador sobre os joelhos, balançando ao sabor das ondas. Há dias que dormia muito pouco e tinha os sonhos mais incríveis e paranóicos, porque me parecia que estava a repetir a vida do meu pai, tornando-me marinheiro e velejador e, talvez, naufragando. Atraído pela maldição do suicídio dele, eu ia destruir a minha vida no mar e juntar-me ao destino dele. Curioso, nunca falei nisto numa entrevista.

Não havia ilhas de fuga...
[ri] Não, não havia. E, de repente, surgiu-me a surpreendente ideia do suicídio do filho. Toda a pressão sobre as personagens as encaminhava para aí, mas eu não dei conta até a cena surgir, assim, de repente. Às vezes, o escritor é mesmo o último a saber o que vai acontecer.

Essa troca de papéis pode ser lida como uma vingança e uma redenção suas.
Sim, e demorei anos a percebê-lo. A certa altura, tornou-se claro que era uma espécie de vingança psicológica contra o facto de ter carregado durante tanto tempo um sentimento de culpa pelo suicídio do meu pai. Eu nunca quis escrever um livro que assustasse o leitor. A única razão por que descrevo o cadáver do filho com tanto detalhe é porque nunca cheguei a ver o cadáver do meu pai. O inconsciente recriou as memórias. Só quinze anos após ter escrito o livro é que percebi que se tratava também de uma forma de redenção. De facto, eu tentei trazer o meu pai de volta, não o deixando morrer na minha memória. O romance é como uma longa carta para ele. É tão simples que se torna patético. Ao longo de todo o livro, o que eu queria era dizer ao meu pai que o amava e que isso devia ter sido suficiente para o impedir de partir.

É como se o próprio autor estivesse a fazer uma auto-psicanálise selvagem ao longo deste enredo e é isso que o torna mais perturbador.
Isso é verdade também para a surpresa com que a acção dramática, a paisagem e a relação com  a terra natal vão surgindo, interligados, até ao clímax. A perda de controlo e a instabilidade por parte do pai, que chora e geme à noite e não encontra uma fuga para o seu sofrimento, contamina tudo. E o rapaz é, obviamente, incapaz de o compreender, de o confortar e, no limite, de o salvar e de se salvar. A maior violência da história vem desta aberrante inversão de papéis. São os pais quem deve proteger e cuidar dos filhos pequenos, nunca o contrário.

A Ilha de Sukkwan, David Vann, Ahab Edições, 182 págs.

SOL - 22/07/2011
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

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