Ludmila Ulítskaia | Consciência à russa

quinta-feira, outubro 13, 2011






«Os médicos são sacerdotes caídos», afirma-se em Caso Kukótski, de Ludmila Ulítskaia (n. 1943). O romance foi premiado em 2001 com o prestigiado Booker-Open Rússia e acaba de sair pela Relógio d’Água, traduzido por Nina Guerra e Filipe Guerra. Ulítskaia, bióloga e geneticista de formação, estreou-se na ficção aos 40 anos e é hoje um dos mais populares ficcionistas russos, a sua obra apontada como difícil, mas muito considerada pelo esforço de inovação estilística. Ulístkaia é também conhecida pelas atividades humanitárias e pela publicação da sua correspondência com o bilionário Mikhail Khodorkovski, preso desde 2003 e emblema da oposição da antiga oligarquia a Vladimir Putin. Caso Kukótski é um bom exemplo de como, divergindo da defesa de Putin de uma conciliação patriótica dos russos com a sua história, Ulítskaia esgravata o passado. Desta vez, toma como símbolo do período estalinista a perseguição aos geneticistas, juntando a política à luta entre religião e ciência.
O que Nina Guerra afirma sobre os clássicos russos — «São fáceis de ler, muito difíceis de compreender» — aplica-se bem a Ulítskaia. Caso Kukótski conta a saga da família do cirurgião e ginecologista Pável Kukótski (descendente de uma linhagem de médicos), desde o final da Segunda Guerra até à atualidade. Pável possui o dom da «intravisão», capacidade de perscrutar a olho nu o interior do corpo humano. Apesar de ser «um homem de Estado», é um defensor incondicional da liberalização do aborto, o que o afastará da sua amada mulher, Elena, ou da humilde criada Vassilissa, e o tornará um alcoólatra. Ao adoptar a filha de Elena, Tânia, e, mais tarde, Toma, a órfã de uma mulher vítima de aborto clandestino, Pável procura construir uma família na qual o afecto e a razão se sobreponham à ligação de sangue.
Caso Kukótski explora precisamente os conflitos entre os valores morais e da família, o determinismo biológico e as instituições sociais. O misticismo está também presente, sobretudo na críptica segunda parte. Como nos casos dos sonhos e da demência progressiva de Elena ou da sexualidade, da maternidade e da recusa ética da ciência por Tânia, Ulítskaia questiona a liberdade social a partir da dimensão individual e do problema da consciência, tão caro à grande literatura russa.

Caso Kukótski, Ludmila Ulítskaia, Relógio D’Água, 380 págs.
SOL/ 19-08-2011
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

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