Norman Mailer | A infância de Hitler

segunda-feira, janeiro 17, 2011


Para muitos, Norman Mailer, apesar de 59 anos de uma carreira inscrita na história da literatura norte-americana, não passa de um monstro de prosápia e exibicionismo. O seu deslumbramento consigo mesmo começou logo após o sucesso do romance de estreia («Os Nus e os Mortos», 1948) e levou-o ao limite de se declarar apto para desafiar o legado de Dostoievski, Marx, Joyce, Freud, Stendhal, Tolstoi, Proust, Faulkner ou Hemingway (em «Advertisements for Myself», de 1959,  considerado pela crítica um dos seus três melhores livros, a par de «Os Exércitos da Noite», 1968, e «O Canto do Carrasco», 1979).
Acrescente-se uma biografia vertiginosa, que inclui episódios como o apunhalamento da segunda das suas seis mulheres, uma candidatura falhada a «mayor» de Nova Iorque ou a campanha pela libertação de um assassino (Jack Abbott). E destaque-se que Norman Kingsley Mailer, nascido em 1923 em New Jersey, depois criado como judeu de classe média em Brooklyn,  já abordou quase todos os temas (de guerra, sexo e crime a Jesus Cristo, de Marilyn Monroe ao boxe). Sem medo de se expor, o escritor preza acima de tudo aquilo que entende ser a verdade. Nos seus livros, onde a realidade histórica serve uma tese ou um enredo, os conceitos de bem e de mal são esventrados até ao limite, com limpidez e comiseração. O que leva leitores e críticos a amá-lo ou a odiá-lo, com poucos matizes  intermédios.
Às livrarias portuguesas chega agora «O Fantasma de Hitler» («The Castle in the Forest») o novo romance, publicado em 2006 após dez anos de silêncio. A figura central é o ditador Adolf Hitler, que Mailer aborda a partir das raízes da sua personalidade na infância e na ascendência familiar.
O narrador é um demónio que, até ao final da Segunda Guerra, ocupou o corpo de Dieter, um oficial de uma secção especial das SS. Incumbido de determinar se o Führer era «um incestuário em primeiro ou em segundo grau», Dieter vai mais longe nas investigações. Através delas, o relato do demónio esmiuça a biografia dos avós e sobretudo do pai de Hitler, o brutal Alois Schicklgruber.
Nem sentimental, nem judicativo, Mailer mergulha a fundo no universo do monstro que fez eclodir a banalidade do mal no século XX. Fá-lo a partir da trivialidade da condição humana dos seus familiares, e com a audácia permitida apenas a um monstro da literatura.

O Fantasma de Hitler, Norman Mailer, 460 págs.

SOL/ 08-09-2007
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

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