Chico Buarque | A vida num segundo

domingo, janeiro 16, 2011



Em frente de um pelotão de fuzilamento, Benjamim Zambraia recorda toda a sua vida num segundo. Há um filme que desfila na venda dos olhos, «as imagens ricocheteando no bojo do seu crânio». Ex-modelo fotográfico, Benjamim acredita que, desde a adolescência, tudo o que faz é registado por uma câmara invisível. Ele é o herói do segundo romance, homónimo, do músico e dramaturgo paulista Francisco Buarque de Hollanda (n. 1944, vulgo Chico Buarque), datado de 1994 e adaptado ao cinema, em 2004, sob direcção da brasileira Monique Gardenberg. Um romance com uma inventividade muito particular, a do tom e estilo de narração simbólica e cruamente lírica que deram a Chico Buarque dois prémios Jabuti (com a estreia, Estorvo, em 1991, e Budapeste, 2003) e o colocam hoje, sem dúvidas, entre os melhores autores brasileiros (sobretudo, depois de Leite Derramado, o último romance, de 2009, aquele com ideia e estrutura mais depuradas).
A história de Benjamim «chicoteia a esmo» quando trata do seu passado com Castana Beatrix, paixão antiga, menina rica tornada militante política, morta em condições misteriosas. Corrói-o ainda a culpa neste desfecho. Daí que entre numa busca obsessiva de memória e redenção assim que conhece a jovem corretora Ariela Masé, extremamente parecida com Castana. O narrador esclarece: «Naquilo que temos por reminiscências talvez esteja um destino que, com jeito, poderemos arbitrar, contornar, recusar, ou desfrutar com intensidade redobrada.» Como numa espiral, Benjamim vê-se desfilar como um duplo num filme onde, quase no presente, procurou corrigir o passado. Confuso? Sim, um pouco, e ainda mais se juntarmos os movimentos paralelos das outras personagens (entre elas, o candidato Alyandro, «companheiro xipófago [siamês] do povo»).
Mas esse é um dos charmes do escritor Buarque: a capacidade de criar estranheza enquanto descreve os movimentos cruzados, dispersivos e desorientados das personagens nos tempos e no espaço da brutalista e enigmática realidade da moderna sociedade urbana brasileira. O passado, as raízes, o subúrbio, a injustiça social, o crime, o amor, a política, todos os elementos se reúnem num sentimento opressivo quase físico. Buarque cria uma imagética e um ritmo muito particulares; quase uma canção desesperada.

Benjamim, Chico Buarque, Dom Quixote, 167 págs.

SOL/ 18-06-2010
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

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