Patrick White | Uma chama no deserto

sábado, dezembro 10, 2016

Tido como um monumento da literatura australiana e universal, Voss é um romance iluminado pelo clarão brilhante, mas opaco, das grandes obras modernistas.

Enquanto na pintura as formas, as cores e os materiais se sobrepunham à expressão do real, na literatura, as palavras, os ambientes, as personagens e até os objetos adquiriam vida própria, formando composições estranhas e visões distorcidas. Trabalhando a presença da visão da personagem sobre o mundo como se de um objeto a três dimensões se tratasse, o modernismo elevou a vida interior sobre a exterior e fez da reprodução da ambiguidade fundamental do eu e do comportamento humano o seu objetivo e tema principais. Em Voss, a obra-prima escrita pelo australiano Patrick White (Londres, 1912 - Sydney, 1990) em 1957, as características modernistas servem como metáfora do equipamento e companhia com os quais o explorador alemão Johann Ulrich Voss se apetrecha para se aventurar na desconhecida Austrália central. Compelido para dentro daquele país, Voss é, como Charles Marlow de O Coração das Trevas de Joseph Conrad ou o «rapaz» de Meridiano de Sangue de Cormac McCarthy, o estrangeiro que penetra no mistério indomável. A Austrália, pátria de desterrados, é o território perturbador onde «é mais fácil descartar o supérfluo e tentar o infinito» e onde se torna possível a viagem de Voss à procura do seu génio — «Serás muito provavelmente queimado, verás a tua carne arrancada dos ossos, e é provável que sejas torturado de muitas formas horríveis e primitivas, mas perceberás qual o génio que, por vezes, pensas possuir, e do qual não me dirás ter medo».
Voss baseia-se na biografia do naturalista prussiano Ludwig Leichhardt que, em meados do século XIX, realizou três expedições ao interior da Austrália (procurando percorrer o território de Brisbane a Perth) até desaparecer sem deixar rasto e sem que o seu corpo fosse jamais encontrado. O romance termina 20 anos depois, com uma festa em honra do explorador protagonista, a quem é erigida uma estátua. Logo nas primeiras páginas e depois num certo encontro na escuridão de um jardim (que podia ser o do paraíso), revelara-se uma estranha afinidade entre o seu mundo particular, «feito de deserto e de sonhos», e o universo sensível da orfã Laura Trevelyan, sobrinha do seu maior patrocinador, o Sr. Bonner. E é Laura, acompanhada por Mercy, a filha adotiva (nascida de Rose, a criada liberta), quem termina por dizer que Voss, como outros homens, tinha em si um pouco de Cristo: «Se era composto de mal juntamente com o bem lutou contra esse mal. E falhou.» Pleno de simbolismos, Voss é um longo exercício de prova de que «as palavras são somente compassivas quando livres das suas obrigações», uma missão exploratória também levada a cabo pelos modernistas.
Patrick White, Nobel da literatura em 1973 (o primeiro australiano a receber esta distinção), afirmou que escrevia sempre três versões dos seus livros: «A primeira é agonia e ninguém a perceberia. Com a segunda atinjo uma forma, mais ou menos certa... A terceira é a que ilumina de algum modo esse sofrimento.» Tão enigmática como certas passagens de Voss, esta afirmação fornece uma chave importante para a compreensão do efeito estranho que o romance provoca no leitor. A descoberta do eu como recurso estilístico abriu campo para que o escritor trouxesse o tempo e o espaço para dentro de si mesmo, como um microcosmo, misterioso e pessoal (Daniel Boorstin). A riqueza do pensamento, do que passa pela nossa cabeça num só minuto, é tão enigmática que só através do fluxo livre da escrita talvez alguma vez a alcancemos, recriando-a num outro espaço e tempo. É daí que vem a convicção de Virginia Woolf de que «nada acontece verdadeiramente até estar escrito». Ou o lamento de Laura: «Oh, Céus, se ao menos pudesse descrever em palavras simples a imensidão do conhecimento simples...» O processo de transposição do mistério para uma forma mais ou menos racional implica necessariamente insucesso e sofrimento e, segundo White, alguma forma de contrição. Voss e Laura sabem-se habitados por uma centelha rara, um vento traiçoeiro, relampejos de intuição que os aproximam ainda mais enquanto estão separados (e estão-no durante todo o romance) e apenas podem comunicar entre si por cartas e nos sonhos. «Debatemo-nos com a cartilagem e os ossos antes de nos aventurarmos a assumir a carne», escreve ele, numa carta que o velho negro Dugald rasgará em mil pedacinhos «de maus pensamentos do homem branco», antes de partir com os da sua tribo e ser absorvido por completo pelo presente.

Patrick White criou um painel vivo, estacionado em Sidney ou em movimento através do coração da Austrália, procurando descrever um país que nunca se deixará submeter por completo ao aborígene ou ao colono e que sempre conterá um deserto implacável, capaz de sugar todos os Voss «obcecados pelo seu sonho de distância e com o futuro». O tempo do romance é o tempo da expedição à natureza psicológica e espiritual de cada personagem: do poeta secreto Frank Le Mesurier, o simplório Harry Robarts, o ornitólogo Palfreyman, o bêbado Turner, o jovem proprietário Ralph Angus, o condenado liberto Judd, caráter oposto ao de Voss, dos aborígenes Jackie e Dugald aos habitantes do círculo social de Potts Point, Sydney. Na gruta ou no deserto, comparáveis à impenetrabilidade e ao vazio da alma humana (onde se revelam as verdades mais profundas), o estilo de White assume-se mais críptico e elíptico, por vezes quase incompreensível, como o são as palavras em alemão que Voss dirige aos nativos ou as almas desaparecidas e representadas por pinturas nas grutas. A vastidão das distâncias e a paisagem hostil são metáforas poderosas da solidão espiritual humana. Após o dilúvio, saídos da gruta, os homens percorrem pastagens líricas até reentrarem no deserto redentor. «A região diabólica, inicialmente plana, depressa irrompeu em barrancos tortuosos, não particularmente profundos, mas suficientemente íngremes para esforçar as costas dos animais que tinham de os atravessar, e desgastar os corpos e os nervos dos homens com o movimento frenético que tal acção envolvia. Não havia como evitar o caos fazendo um desvio.» Só lhes resta conservar a esperança.

Profundamente original, Patrick White influenciou decisivamente todas as gerações seguintes de autores australianos (David Malouf e Peter Carey tornaram pública a sua dívida para com ele; o primeiro dedicou-lhe até o libreto de uma ópera), mas é hoje quase ignorado pelos leitores europeus. Voss, narrativa simbólica, acompanha uma história de amor e a tentativa épica de um homem (Voss) em imaginar-se divino, quando, afinal, a sua salvação reside na possibilidade de se perder no deserto. O combate de Voss e Laura contra a arrogância e a fragilidade que os definem num primeiro momento acompanha a revelação progressiva da sua verdadeira natureza. O seu casamento (Laura aceita por carta a proposta feita por Voss) é uma ilusão, tão imaterial e ilusória como as palavras que dirigem um ao outro ou a sua «filha», Mercy. A plenitude atingida através do sacrifício (da cadela, do pássaro, do cavalo, de Le Mesurier) e do sofrimento é uma forma de auto transcendência, que prescinde de Deus. Sobre Laura, diz-se logo no início: «Já em menininha se mostrara algo céptica, talvez devido ao tédio: sufocava com a penugem da fé. Acreditava contudo, de modo palpável, na madeira, com os reflexos que nela se reproduziam, e na clara luz do dia, e na água. Ainda hoje em dia reflectia fanaticamente num qualquer problema matemática só pela excitação que lhe proporcionava, para assim o solucionar e conhecer.» Voss é, igualmente, uma expedição, modernista, em rutura com todas as relações óbvias com os objetos comuns da nossa experiência, à procura de uma corrente de consciência que reproduza as composições invulgares do pensamento humano. Ou, como confessará a Menina Laura Trevelyan: «O conhecimento nunca foi uma questão de geografia. Antes pelo contrário: inunda todos os mapas existentes. O verdadeiro conhecimento talvez surja apenas da tortura no país da mente.»

Voss, Patrick White, E-Primatur, 489 págs., 19.90 euros, *****

Jornal «i», 28-11-2016
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

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