Pó enamorado: E as Montanhas Ecoaram, Khaled Hosseini

Khaled Hosseini retratou o amor filial   e o Afeganistão  e arrasou as tabelas. Outono de 1952, Afeganistão. Na aldeia isolada de Shadbagh, ...

segunda-feira, dezembro 19, 2016

Don DeLillo | Os donos do fim do mundo


Em mais um romance futurista, Don DeLillo especula sobre a capacidade humana de superação do medo e da morte ou, apenas, de cada história individual. Quando a catástrofe se tornou uma canção de embalar.

Facto: chama-se Alcor Life Extension Foundation, é a líder mundial em investigação, tecnologia e conservação criónica, tem sede no deserto do Arizona e um grupo de apoiantes em Portugal (www.alcorportugal.com), visa o desenvolvimento da ciência criónica (do grego kyros, que significa «frio»), isto é, da tecnologia de preservação de corpos e órgãos humanos post mortem, com recurso a baixas temperaturas e por tempo indeterminado, até que a ciência possa redespertá-los. Neste momento, a Alcor tem a seu cargo cerca de centena e meia de corpos conservados em nitrogénio líquido. Ficção: chama-se Convergência, é um complexo/comunidade instalado num local ultrassecreto, algures entre o Quirguistão e o Cazaquistão, com a missão de preservar a vida através da crionização, e está no centro de Zero K, décimo sétimo romance de Don DeLillo (nasceu em 1936, no Bronx, descendente de imigrantes italianos). «Todos querem ser donos do fim do mundo», esclarece Ross Lockhart, multimilionário e financiador do projeto. «Tecnologia assente na fé. Eis do que se trata. Outro deus. Não muito diferente, no fim de contas, de alguns dos deuses anteriores. Só que este é palpável, é genuíno, premeia os fiéis.»
O narrador de Zero K é Jeff (Jeffrey), o filho que Ross abandonou com 13 anos e que, agora, aos 34, está de visita à Convergência, chamado a acompanhar os últimos dias da madrasta, Artis, arqueóloga, vítima de esclerose múltipla e prestes a ser encapsulada e crionizada. Circulando por corredores bordejados de portas fechadas, estranhas performances-vídeo (registando as mais diversas catástrofes naturais ou provocadas pelo homem), palestras, encontros, episódios e conversas, Jeff é aos poucos tomado pela atmosfera claustrofóbica que o rodeia (não há janelas), até perceber o peso e alcance daquela tentativa de superação do tempo e da História. Uma das «mentes fulcrais» do projeto afirma: «Isto é o futuro, este cariz remoto, esta dimensão subterrânea, oculta. Sólida, mas também esquiva, de certo modo. Um conjunto de coordenadas cartografadas do espaço. E um dos nossos objetivos é instaurar uma consciência que se funda com o ambiente.» A descrição poderia ser também aplicada à escrita de Don DeLillo, que continua a questionar todo o aparato de assimilação contemporâneo («usando o quadro todo, a cultura toda») no sentido da integração ou desintegração do ser humano. Os temas centrais mantêm-se, desde o primeiro romance, Americana, de 1971: a solidão, o anonimato, a alienação, a paranoia, a distopia, a procura de catarse, a intervenção política e artística. Permeando todos eles, o habitual tom meditativo e sombrio, um desassossego crónico e insidioso e a suspeita permanente de conspiração. DeLillo é uma «alma profética» (Martin Amis), com uma profundidade críptica.
A entrada na unidade especial Zona K, onde Ross voluntariamente se tornará, antes do tempo, um «eu puro suspenso em gelo», será o culminar de um percurso de vida criteriosamente pensado e concretizado como um desafio (desde quando inventou um nome falso ou começou a construir fortuna). «O casulo seria o derradeiro santuário das prerrogativas do meu pai», afirma Jeff. A habilidade narrativa de DeLillo contrapõe o balanço da existência de Ross à rememoração e exame de consciência feitos pelo seu filho nos dias passados na Convergência. O panorama geral do romance, especulativo e universal, apoia-se na narração muito particular da história de vida e da relação entre os dois, e de Jeff com a mãe (a cuja morte assistiu pouco tempo antes da ação do romance), abandonados por Ross. O diálogo pai-filho é o verdadeiro labirinto de Zona K, trabalhado como uma metáfora para a identidade e a viabilidade humanas. «A vida contemporânea é tão etérea. Consigo trespassá-la com um dedo espetado», diz o Monge. Na Convergência, procura-se uma alternativa, um sistema com novos significados, perceções e possibilidades, quando, afinal, o caminho da humanidade parece estar cada vez mais próximo de um fim, irreversível.
Don DeLillo é o desmancha-prazeres da (pouca) ficção contemporânea interessada em refletir de fato sobre o novo milénio. A cada livro, o grande pessimista parece-se dizer-nos de forma mais convicta que nenhum novo realismo, ficção científica ou pós-pós modernismo superará a lucidez pura a que o artista pode aceder, ao serviço da humanidade. Ainda que sem o alcance ou a densidade de outras obras (Ruído Branco, Mao II, Submundo ou O Corpo Enquanto Arte), Zero K é um clássico DeLillo, conjugação rara de ficção e reflexão, a pedir digestão lenta e com o impacto de um meteorito.

Zero KDon DeLillo, (trad.) Paulo Faria, Sextante, 270 págs., 17.70 euros, ****

Jornal «i», 16-12-2016
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

sábado, dezembro 10, 2016

Patrick White | Uma chama no deserto

Tido como um monumento da literatura australiana e universal, Voss é um romance iluminado pelo clarão brilhante, mas opaco, das grandes obras modernistas.

Enquanto na pintura as formas, as cores e os materiais se sobrepunham à expressão do real, na literatura, as palavras, os ambientes, as personagens e até os objetos adquiriam vida própria, formando composições estranhas e visões distorcidas. Trabalhando a presença da visão da personagem sobre o mundo como se de um objeto a três dimensões se tratasse, o modernismo elevou a vida interior sobre a exterior e fez da reprodução da ambiguidade fundamental do eu e do comportamento humano o seu objetivo e tema principais. Em Voss, a obra-prima escrita pelo australiano Patrick White (Londres, 1912 - Sydney, 1990) em 1957, as características modernistas servem como metáfora do equipamento e companhia com os quais o explorador alemão Johann Ulrich Voss se apetrecha para se aventurar na desconhecida Austrália central. Compelido para dentro daquele país, Voss é, como Charles Marlow de O Coração das Trevas de Joseph Conrad ou o «rapaz» de Meridiano de Sangue de Cormac McCarthy, o estrangeiro que penetra no mistério indomável. A Austrália, pátria de desterrados, é o território perturbador onde «é mais fácil descartar o supérfluo e tentar o infinito» e onde se torna possível a viagem de Voss à procura do seu génio — «Serás muito provavelmente queimado, verás a tua carne arrancada dos ossos, e é provável que sejas torturado de muitas formas horríveis e primitivas, mas perceberás qual o génio que, por vezes, pensas possuir, e do qual não me dirás ter medo».
Voss baseia-se na biografia do naturalista prussiano Ludwig Leichhardt que, em meados do século XIX, realizou três expedições ao interior da Austrália (procurando percorrer o território de Brisbane a Perth) até desaparecer sem deixar rasto e sem que o seu corpo fosse jamais encontrado. O romance termina 20 anos depois, com uma festa em honra do explorador protagonista, a quem é erigida uma estátua. Logo nas primeiras páginas e depois num certo encontro na escuridão de um jardim (que podia ser o do paraíso), revelara-se uma estranha afinidade entre o seu mundo particular, «feito de deserto e de sonhos», e o universo sensível da orfã Laura Trevelyan, sobrinha do seu maior patrocinador, o Sr. Bonner. E é Laura, acompanhada por Mercy, a filha adotiva (nascida de Rose, a criada liberta), quem termina por dizer que Voss, como outros homens, tinha em si um pouco de Cristo: «Se era composto de mal juntamente com o bem lutou contra esse mal. E falhou.» Pleno de simbolismos, Voss é um longo exercício de prova de que «as palavras são somente compassivas quando livres das suas obrigações», uma missão exploratória também levada a cabo pelos modernistas.
Patrick White, Nobel da literatura em 1973 (o primeiro australiano a receber esta distinção), afirmou que escrevia sempre três versões dos seus livros: «A primeira é agonia e ninguém a perceberia. Com a segunda atinjo uma forma, mais ou menos certa... A terceira é a que ilumina de algum modo esse sofrimento.» Tão enigmática como certas passagens de Voss, esta afirmação fornece uma chave importante para a compreensão do efeito estranho que o romance provoca no leitor. A descoberta do eu como recurso estilístico abriu campo para que o escritor trouxesse o tempo e o espaço para dentro de si mesmo, como um microcosmo, misterioso e pessoal (Daniel Boorstin). A riqueza do pensamento, do que passa pela nossa cabeça num só minuto, é tão enigmática que só através do fluxo livre da escrita talvez alguma vez a alcancemos, recriando-a num outro espaço e tempo. É daí que vem a convicção de Virginia Woolf de que «nada acontece verdadeiramente até estar escrito». Ou o lamento de Laura: «Oh, Céus, se ao menos pudesse descrever em palavras simples a imensidão do conhecimento simples...» O processo de transposição do mistério para uma forma mais ou menos racional implica necessariamente insucesso e sofrimento e, segundo White, alguma forma de contrição. Voss e Laura sabem-se habitados por uma centelha rara, um vento traiçoeiro, relampejos de intuição que os aproximam ainda mais enquanto estão separados (e estão-no durante todo o romance) e apenas podem comunicar entre si por cartas e nos sonhos. «Debatemo-nos com a cartilagem e os ossos antes de nos aventurarmos a assumir a carne», escreve ele, numa carta que o velho negro Dugald rasgará em mil pedacinhos «de maus pensamentos do homem branco», antes de partir com os da sua tribo e ser absorvido por completo pelo presente.

Patrick White criou um painel vivo, estacionado em Sidney ou em movimento através do coração da Austrália, procurando descrever um país que nunca se deixará submeter por completo ao aborígene ou ao colono e que sempre conterá um deserto implacável, capaz de sugar todos os Voss «obcecados pelo seu sonho de distância e com o futuro». O tempo do romance é o tempo da expedição à natureza psicológica e espiritual de cada personagem: do poeta secreto Frank Le Mesurier, o simplório Harry Robarts, o ornitólogo Palfreyman, o bêbado Turner, o jovem proprietário Ralph Angus, o condenado liberto Judd, caráter oposto ao de Voss, dos aborígenes Jackie e Dugald aos habitantes do círculo social de Potts Point, Sydney. Na gruta ou no deserto, comparáveis à impenetrabilidade e ao vazio da alma humana (onde se revelam as verdades mais profundas), o estilo de White assume-se mais críptico e elíptico, por vezes quase incompreensível, como o são as palavras em alemão que Voss dirige aos nativos ou as almas desaparecidas e representadas por pinturas nas grutas. A vastidão das distâncias e a paisagem hostil são metáforas poderosas da solidão espiritual humana. Após o dilúvio, saídos da gruta, os homens percorrem pastagens líricas até reentrarem no deserto redentor. «A região diabólica, inicialmente plana, depressa irrompeu em barrancos tortuosos, não particularmente profundos, mas suficientemente íngremes para esforçar as costas dos animais que tinham de os atravessar, e desgastar os corpos e os nervos dos homens com o movimento frenético que tal acção envolvia. Não havia como evitar o caos fazendo um desvio.» Só lhes resta conservar a esperança.

Profundamente original, Patrick White influenciou decisivamente todas as gerações seguintes de autores australianos (David Malouf e Peter Carey tornaram pública a sua dívida para com ele; o primeiro dedicou-lhe até o libreto de uma ópera), mas é hoje quase ignorado pelos leitores europeus. Voss, narrativa simbólica, acompanha uma história de amor e a tentativa épica de um homem (Voss) em imaginar-se divino, quando, afinal, a sua salvação reside na possibilidade de se perder no deserto. O combate de Voss e Laura contra a arrogância e a fragilidade que os definem num primeiro momento acompanha a revelação progressiva da sua verdadeira natureza. O seu casamento (Laura aceita por carta a proposta feita por Voss) é uma ilusão, tão imaterial e ilusória como as palavras que dirigem um ao outro ou a sua «filha», Mercy. A plenitude atingida através do sacrifício (da cadela, do pássaro, do cavalo, de Le Mesurier) e do sofrimento é uma forma de auto transcendência, que prescinde de Deus. Sobre Laura, diz-se logo no início: «Já em menininha se mostrara algo céptica, talvez devido ao tédio: sufocava com a penugem da fé. Acreditava contudo, de modo palpável, na madeira, com os reflexos que nela se reproduziam, e na clara luz do dia, e na água. Ainda hoje em dia reflectia fanaticamente num qualquer problema matemática só pela excitação que lhe proporcionava, para assim o solucionar e conhecer.» Voss é, igualmente, uma expedição, modernista, em rutura com todas as relações óbvias com os objetos comuns da nossa experiência, à procura de uma corrente de consciência que reproduza as composições invulgares do pensamento humano. Ou, como confessará a Menina Laura Trevelyan: «O conhecimento nunca foi uma questão de geografia. Antes pelo contrário: inunda todos os mapas existentes. O verdadeiro conhecimento talvez surja apenas da tortura no país da mente.»

Voss, Patrick White, E-Primatur, 489 págs., 19.90 euros, *****

Jornal «i», 28-11-2016
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

domingo, dezembro 04, 2016

Riad Satoouf | Um miúdo loiro no Médio Oriente


Durante a infância passada na Líbia e na Síria, o desenhador francês Riad Sattouf foi educado para ser um «árabe do futuro». Visto pelos seus olhos de criança, esse mundo muçulmano dos anos 1980 é uma caricatura brutal.

Quando lhe perguntam a que ponto se sente francês ou árabe, Riad Sattouf responde que se sente mais... cartunista. Mas, em 2011, quando já era um autor de banda desenhada e realizador conhecido, o fato de ter de superar muitos entraves para ajudar alguns dos familiares sírios a se refugiarem da guerra civil em França fê-lo desejar escrever sobre as suas origens. Nasceu daí o projeto de novelas gráficas O Árabe do Futuro: ser jovem no Médio Oriente, nas quais relata a infância na Líbia e na Síria e a adolescência em França, exclusivamente a partir da memória pessoal e na perspetiva do protagonista homónimo. Em Portugal, o primeiro volume (que cobre entre 1978 e 1984) saiu no ano passado e o segundo (1984-1985) chegou às livrarias há pouco; o terceiro está previsto para Setembro de 2017, todos editados pela Teorema.
Filho de pai sírio (sunita, adepto do pan-arabismo progressista, obcecado com a educação dos árabes, estudou História Contemporânea na Sorbonne, graças a uma bolsa do governo francês) e mãe francesa (da Bretanha), Riad Sattouf (hoje com 38 anos) nasceu em Paris, mas cresceu na Líbia (em Trípoli, entre os dois e os quatro anos) e depois na Síria (na aldeia natal do pai, até aos sete anos). O trânsito peripatético entre as culturas francesa e muçulmana colocou-o muito cedo à margem das outras crianças, num estado de solidão que, garante, o impulsionou a tornar-se desenhador. Na Líbia e na Síria, os hábitos ocidentais e os cabelos compridos, «de um loiro platinado, espesso e sedoso» valeram-lhe ser apontado como «yehudi» (judeu, «O» pior inimigo à época, odiado visceralmente por todos); em França (onde passa férias com a avó e onde se formará em Animação) foi sempre o tipo árabe com um nome esquisito (em francês, o seu apelido assemelha-se a «sa touffe», associado ao sexo feminino). Vítima de bullying, Riad tornou-se um observador apurado, muito apto na descrição de ambientes, personagens e sensações — assumem particular importância os sons, as cores (azul e vermelho nas páginas sobre a França, amarelo para a Líbia e carmim para a Síria) e os cheiros (o cheiro a suor maternal da avó síria e o cheiro a perfume da avó francesa, o cheiro a urina das multidões líbias, entre muitos outros).


Exercício de rememoração ou autoanálise sem filtros, mas também sem nostalgia, O Árabe do Futuro insere-se na linha autobiográfica de Persépolis, de Marjane Satrapi (sobre crescer no Irão de Komeini) ou Mourir, partir, revenir, memórias da libanesa Zeina Abirached. Nos últimos anos, o enfoque deste tipo de registo gráfico no ponto de vista picaresco da criança ou do adolescente abriu novas possibilidades de representação de realidades, conflitos e traumas históricos. Oferecendo uma perspetiva individual e alternativa do quotidiano num certo Médio Oriente, Satrapi, Abirached e Sattouf conquistaram quase de forma unânime o público e a crítica. No caso de O Árabe do Futuro, é a sinceridade ingénua do protagonista que lhe permite afirmar, por exemplo, enquanto olha os retratos do líder espalhados por toda a parte: «Eu gostava menos do Assad que do Kadafi. Era menos bonito, menos atlético. Tinha uma testa desproporcionada e um ar um pouco aldrabão. Os seus olhos não se viam bem.»


Riad Sattouf, descrito como um sujeito reservado e esquivo que nunca foi ativista de causa nenhuma a não ser a da estranheza do olhar infantil ou adolescente sobre o mundo, foi o único cartunista de origem árabe na equipa da Charlie Hebbdo entre 2004 e 2014 (saiu meses antes do atentado de Janeiro de 2015), onde publicou a série semanal La vie secrète des jeunes, composta por cenas photomaton por ele testemunhadas nas ruas e nos transportes de Paris. Atualmente assina a série Les cahiers d’Esther, no Le Nouvel Obs, a partir de histórias reais do quotidiano de uma miúda francesa de 10 anos. O seu trabalho nunca foi provocatório em relação ao mundo árabe, mas, ainda que sem julgamento político, a fórmula narrativa de O Árabe do Futuro permite-lhe dar a ver uma realidade social quase totalmente desconhecida pelos ocidentais e onde impera a violência, a sujidade, a penúria e o fanatismo.
Raid e a família moram num apartamento (de uma assoalhada, sem chave) e comem a comida (por vezes, só bananas) disponibilizados pelo Estado das massas populares árabes líbias. A mãe perde o emprego como locutora de rádio porque desata a rir ao ler um texto oficial em que se diz que Kadafi irá matar «o filho de um cão do Reagan». As crianças brincam com armas e passam o tempo a bater-se (com gosto) umas às outras. As casas, cheias de rachas, nunca são concluídas, de modo a evitar o pagamento de impostos. Na Síria, Raid vê, pela janela do apartamento, uma mulher a estender roupa na corda, à chuva, enquanto pousa um bebé no chão de cimento, puxando-o depois por uma perna e cobrindo-o de beijos. Ali perto, outros vizinhos espancam um burro (é constante a violência sobre os animais). O irmão bebé come baratas. As mulheres comem os restos da refeição dos homens. Os professores espancam os alunos com sadismo. Uma mulher é assassinada porque engravidou fora do casamento (os assassinos ficam impunes). Em traços negros e cenário colorido, pleno de anedotas e fait divers, o pequeno Raid assiste a tudo, dividido entre a ambiguidade do que vê e a adoração pelo pai, um professor universitário instruído, mas racista, belicista e cada vez mais fanatizado, com quem em adulto ele cortará relações. O Árabe do Futuro retrata um sonho passado (o do pan-arabismo paterno), com imagens de um quotidiano de pesadelo, onde as personagens se salvam pelo humor e pelo absurdo.

O Árabe do Futuro, Riad Sattouf, Teorema, 158 págs., 19.90 euros

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SOL 10-11-2016
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)