Bernardo Santareno | Os que escolheram o bacalhau

sexta-feira, julho 22, 2016


 
Bernardo Santareno testemunhou a crueza e a violência da pesca bacalhoeira portuguesa no Atlântico Norte, o avesso de um regresso lendário do país ao mar.
«No meio do mar (um homem sozinho no seu dóri!) há um silêncio estranho, musical e ciciado: o silêncio dum Olhar longínquo e intenso. É um silêncio doloroso, quase feliz...» Entre outras experiências que viveu a bordo dos navios bacalhoeiros portugueses, o escritor e médico Bernardo Santareno (pseudónimo de António Martinho do Rosário, 1920-1980) descobriu o silêncio do mar alto. Um silêncio que suspende tudo e obriga o homem a entrever o seu próprio nascimento ou a sua própria morte. Um silêncio épico, fundador e terrível. Nos mares mais violentos e traiçoeiros, os do Atlântico Norte, ele foi escutado por gerações de portugueses que integraram a Frota Branca portuguesa (ativa durante meio século, até 1974), cumprindo a tradição familiar ou escolhendo o bacalhau para se safarem à mobilização para a Guerra do Ultramar.
Poucos testemunhos existem ainda hoje que rompam a «membrana ideológica» (Álvaro Garrido) com que o Estado Novo revestiu a condição e a vivência dos pescadores-marinheiros portugueses na faina do bacalhau. Logo em 1957, Bernardo Santareno rasgou este silêncio com a peça A Promessa, regressando ao tema em 1959 em dois documentos excecionais: a peça O Lugre e o seu único título em prosa, Nos Mares do Fim do Mundo. Este último, escrito em registo diarístico e de crónica de viagens, foi agora reeditado pela E-Primatur, em edição ilustrada, acrescentada de dois textos, provavelmente autocensurados pelo autor. Num deles, «Responsabilidade», Santareno escreve: «Claridade: Quero terminar esta viagem mais puro, mais harmónico, mais seguro.»

 
No prefácio, o historiador Álvaro Garrido esclarece que são desconhecidos os motivos que levaram Bernardo Santareno a embarcar como médico no arrastão David Melgueiro, em 1957, depois no navio-motor de pesca à linha Senhora do Mar e no navio-hospital Gil Eannes, em 1958. Num dos primeiros textos de Nos Mares do Fim do Mundo, o autor, revelando o seu profundo catolicismo, diz: «Como Jesus lavando os pés aos apóstolos, assim eu queria servir esta gente.» Pelos mares da Terra Nova e da Gronelândia, assiste e participa no quotidiano dos pescadores, terminando por chamar-lhes «tipos perfeitos da raça». Junto deles encontra perfis humanos cuja autenticidade supera a heroicidade empolada pelo discurso oficial e ideológico. Próximo das estéticas do simbolismo e do realismo social, regista com detalhe «todos os aspetos da vida» a bordo, os movimentos e as práticas, os sotaques, as dinâmicas coletivas, a rotina violenta de trabalho, mas também as sensibilidades, as crenças e fantasias individuais e o enfrentamento solitário da força do mar ou do destino. Muitas vezes, descreve tipos e situações caricatas, noutras compõe quadros quase crísticos, de profunda poesia ou profunda solidariedade para com os homens da companha, «a carne pisadinha dos pobres».
Obra única na literatura portuguesa, Nos Mares do Fim do Mundo é, como Peregrinação de Fernão Mendes Lopes, um documento esclarecedor e desmistificador sobre os «Mais Rijos Navegadores do Mundo» (Alan Villiers). Com grandes subtileza psicológica e capacidade dramática, Bernardo Santareno relata o que vê, o que sente, o que faz e o que ouve. Ele esteve lá, onde os homens postos sozinhos «frente ao infinito», em silêncio, pescaram o bacalhau nas mais duras condições de que há memória. Não deixem de ler este livro.

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Nos Mares do Fim do Mundo, Bernardo Santareno, E-Primatur, 245 págs., 17.90 euros


Jornal “i” | 18-04-2016
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

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