Lev Tolstoi: a arte da raposa

quinta-feira, novembro 07, 2013

 

Para Tolstoi, se a arte não serve para transmitir sentimentos, não pode ser compreendida e não serve para nada. Uma tese ingénua, mas ainda desconcertante. Aos 50 e poucos anos, Lev Nikolaevitch Tolstoi está no auge das suas faculdades. E, no entanto, quando o crítico russo mais respeitado daquele tempo, o amigo Vladimir Stasov, elogia Anna Karenina, ele diz-lhe: «Garanto-vos que essa coisa vil já não existe para mim. [...] Era escritor, e todos os escritores são vãos e invejosos – eu, pelo menos, era um escritor desse tipo.» Recém-convertido, Tolstoi adopta um estilo de vida austero, compõe salmos, prega moral e condena, por exemplo, Fausto, de Goethe, como «o pior dos lixos». Esta «revolução espiritual» (explicada em Uma Confissão) não impede que escreva mais ficção (como a obra-prima Hadji Murat), mas encaminha-o para a produção de tratados morais, filosóficos e de exegese bíblica. É neste contexto que, em 1898, aos 70 anos de idade, escreve O Que É a Arte?, ensaio de reflexão sobre a estética, recém-editado pela Gradiva.
Primeiro dirigido ao Journal of Philosophy and Psychology, mas, por influência da mulher, Sofia, antes incluído nas obras completas, O Que É a Arte? nasce após quinze anos de reflexão em torno de uma pergunta: «A arte em todas as suas formas está no limite, por um lado, do que é praticamente útil e, por outro, de tentativas falhadas de fazer arte. Como separa-la﷽﷽﷽﷽﷽﷽esta pergunta:e. es iology tempo, o seu uçondena, por exemplo, ı Fausteare____________________________________________á-la de uma coisa e de outra?» Numa resposta apaixonada, Tolstoi percorre as principais teses estéticas e a arte sua contemporânea (esteticista, simbolista, decadentista). Rejeita a teoria da arte como imitação (representativista) e propõe uma outra abordagem: a arte deve ser a expressão dos sentimentos humanos (base da teoria expressivista, desenvolvida por R. G. Collingwood). Num estilo simples e direto, em vinte capítulos sem título, procura uma definição, uma função (moral e social) e um valor para a criação artística.
Pelo caminho, Tolstoi argumenta como um moralista ingénuo e radical. «As grandes obras de arte são grandes porque são acessíveis e compreensíveis a todos» ou «o artista do futuro, cuja felicidade é a maior divulgação das suas obras, nem sequer compreenderá como é possível fazer o seu trabalho em troca de uma remuneração» são algumas de muitas convicções que o tempo provou serem absurdas. Tolstoi perde a razão e o tino quando rejeita, por atacado, obras de Sófocles, Eurípedes, Ésquilo, Aristófanes, Dante, Tasso, Milton, Shakespeare, todo o Rafael ou Miguel Ângelo («com o seu absurdo Juízo Final»), todo o Bach, os Ibsens, os Liszts, os Berliozes, os Brahms, os Richard Strausses, etc., «e toda a enorme massa de inúteis imitadores destes imitadores». Ainda assim, consegue divertir-nos, porque mantém alguma atualidade, quando critica a crítica, o ensino artístico e os gostos das elites ou justifica a recusa de manifestações artificiais, incompreensíveis ou falsificadas da arte. Ataca em pormenor poemas de Baudelaire, Mallarmé ou Verlaine ou obras da última fase de Beethoven («monstruosas» porque criadas por um surdo, incapaz de as aprimorar em condições) e é hilariante a narrar um serão passado com parte da tetralogia wagneriana O Anel do Nibelungo ou a descrever os resultados desastrosos de quando «uma dama (já falecida), não muito inteligente mas muito civilizada, ayant beaucoup d’acquis [com grande experiência de vida]» o chamou para ouvir um romance escrito por ela. Na verdade, os exemplos a que recorre são uma das bases de uma doutrina sem dúvida bem intencionada, mas demasiado singela.
No essencial, Tolstoi sustenta que a arte serve para exprimir uma emoção que o artista experimenta pela primeira vez (antes, ela era-lhe desconhecida) e para despertar emoção semelhante no público, ao qual é transmitida sem artificialismos. O artista exprime emoções particulares, individuais, pelo que lhe é exigido que seja livre, claro e sincero. Sendo um fenómeno de contágio e uma forma de comunhão, a arte deve converter a «consciência religiosa comum das pessoas» em sentimento. Logo, ética, religião e estética têm de andar de mãos dadas. A tarefa colossal da estética de inspiração cristã é a supressão da violência. O propósito máximo de Tolstoi é o de desviar a arte «do caminho errado [decadente, perverso e corruptor] pelo qual enveredou». No seu caso, implicou que rejeitasse a solipsista primeira parte da sua obra: Anna Karénina  ou Guerra e Paz.
O grego Arquíloco disse: «A raposa conhece muitas coisas, mas o ouriço sabe uma grande coisa.» A partir desta distinção, Isaiah Berlin defendeu: «Tolstoi era por natureza uma raposa, mas acreditava ser um ouriço; as suas capacidades e os seus feitos eram uma coisa, e as suas crenças, e por conseguinte a sua interpretação da sua própria obra, outra; e consequentemente os seus ideais conduziram-no, e a todos conquistados pelo seu génio de persuasão, a uma sistemática interpretação errada do que ele e outros faziam ou deviam fazer. […] O conflito entre o que era e aquilo em que acreditava surge-nos hoje tão evidente como na sua visão da história, a que dedicou algumas das suas páginas mais brilhantes e paradoxais» (Russian Thinkers). Melhor escritor do que pensador ou profeta, Tolstoi foi minado por um conflito interno entre os sistemas de valores público ou privado, individual ou colectivo. Tentou provar que a vida contida nas obras de artistas das classes privilegiadas (ou ao serviço delas) era uma experiência artificial, em tudo ininteligível em termos universais porque oposta, por exemplo, à autenticidade do canto das mulheres do povo ou à genuinidade do dia-a-dia dos mujiques russos. O primitivismo defendido por Tolstoi e a sua crença na emoção sincera e genuína são hoje anacrónicos. Todavia, a sua defesa da inspiração própria e do sentimento experimentado pelo artista como principais propriedades da arte e a sua crítica à arte-entretenimento e ao artificialismo das elites artísticas mantêm desconcertante oportunidade.

LER / Junho 2013
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

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