Pó enamorado: E as Montanhas Ecoaram, Khaled Hosseini

Khaled Hosseini retratou o amor filial   e o Afeganistão  e arrasou as tabelas. Outono de 1952, Afeganistão. Na aldeia isolada de Shadbagh, ...

sexta-feira, abril 05, 2013

Dana Spiotta | Destruir a prova

 


A 4 de Abril de 1967, em NY, Igreja de Riverside, Martin Luther King, afirma: «Se a alma da América morrer totalmente envenenada, no seu atestado de óbito constará: “Vietname”.» O movimento antiguerra massificara-se e muitos ativistas (sobretudo jovens) advogam o recurso à ação direta, pacífica ou violenta e ilegal, como única forma de combate eficaz contra uma política tida também por violenta e ilegal. Alguns, passam à prática radical, com atentados bombistas. Três décadas mais tarde, vários deles vivem ainda na clandestinidade, após complexas reinvenções de si mesmos. É o caso de Mary (agora Louise) e de Bobby (agora Nash), protagonistas de Destruir a Prova, da norte-americana Dana Spiotta. A ação do romance cobre três décadas (1972 a 2000) e sustenta o que Louise diz agora ao seu filho de 15 anos, Jason: «Não podes olhar para o que fizemos em abstrato.»
Finalista do National Book Award em 2006, Destruir a Prova é um poderoso testemunho sobre as formas de contestação juvenil nos anos 70 e na atualidade. Explora as perspetivas de várias personagens em processos de afirmação e busca de identidade e acentua que todas elas recusam instintiva ou racionalmente o sistema. Hoje, ex-líderes ativistas como Tom Hayden condenam em absoluto o uso da violência e justificam atos passados situando-os em «tempos ferozmente violentos e explosivos». Entretanto, deram lugar aos revoltados pós-modernos, miúdos suburbanos e iconoclastas que, segundo Nash (acolhe-os e aos seus encontros na livraria progressista onde trabalha), se intitulam «experimentadores e não organizam manifestações nem protestos, mas experiências». Talvez só mesmo a música ou o cinema se mantenham como formas de contracultura transversais a várias gerações (como em Louise e Jason) e daí o seu valor documental. Dana Spiotta sugere-o logo no título original, Eat the Document, colhido no documentário homónimo no qual Bob Dylan registou a sua lendária digressão, com os Hawks, pelo Reino Unido, em 1966. Destruir a Prova documenta o que é sentir-se e estar à margem. 

Destruir a Prova, Dana Spiotta, Quetzal, 320 págs., 17.70 euros

SOL/ 22-03-2013
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)