Michael Chabon | Judeus com espadas

quinta-feira, fevereiro 03, 2011



Peripécias e perigos vários, a acção a acentuar as qualidades do herói. A ficção de aventuras homenageia a imaginação como escape à vida real. Associada desde o século XIX ao entretenimento popular, é ainda hoje um género fértil e rentável. Nas últimas décadas, Arturo Pérez-Reverte incentivou a sua reabilitação em Espanha, conquistando a crítica mais elitista. É semelhante o reconhecimento recém-atribuído ao norte-americano Michael Chabon (n. 1963) que se estreou com o que chama de «naturalismo de fim-de-século» e desembocou no folhetim de aventuras. Nos dois, destaca-se uma escrita elegante, rigor e verosimilhança na construção de um enredo enérgico e um uso muito pródigo, mas astuto, da metáfora.
Em 2001, Chabon ganhou o prémio Pulitzer com A Liga da Chave Dourada: As Espantosas Aventuras de Kavalier & Clay. Cavalheiros da Estrada, recém-chegado às livrarias, é um romance curto e foi primeiro publicado, em 15 capítulos, na New York Times Magazine. Como a narrativa negra e de detectives O Sindicato dos Polícias Iídiches (também de 2007 e editado pela Casa das Letras), nasceu do prazer de Chabon em criar histórias alternativas sobre a judeicidade. No primeiro caso, o escritor imaginou que Roosevelt, em 1939, destinara para os judeus um território provisório no Alasca. Em Cavalheiros da Estrada, viaja até 950 a.C., o Cáucaso e a Kazharia, reino de turcomenos que adoptaram o judaísmo.
Nesta terra sombria, «um aventureiro judeu com amor próprio não se deixaria apanhar sem a sua espada ou o seu machado de guerra». O romance era para se chamar «Judeus com Espadas». A ligação salienta a «longa tradição de aventura judaica» porque a história destes dois protagonistas também é feita de errância, poliglotismo, perseguição e glória. São eles os trapaceiros, ladrões e mercenários judeus Amram (gigante africano cujos deuses são «a gorda sorte e a escanzelada desventura») e Zelikman (franco escanzelado e melancólico, «curandeiro por natureza e herança»). Cabe-lhes escoltarem Filaq, o príncipe khazar que tenta recuperar o trono. Chabon, em longas frases trabalhadas e boa gestão de estranhezas e surpresas do leitor, escreve, afinal, sobre a aventura máxima de «seguir-se a estrada do destino de cada um com as intrusões habituais da violência e da graça».

Cavalheiros da Estrada, Michael Chabon, Casa das Letras, 175 págs.

SOL/ 30-07-2010
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

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