Agatha Christie | Cacos e risos

domingo, fevereiro 13, 2011



Em 1930, Agatha Christie (1890-1976) estava divorciada há três anos e já era uma autora reconhecida. Tinha 40 anos, adorava viajar e, em Ur, na Mesopotâmia, conheceu Max Wallowan, um jovem arqueólogo com 25 anos. Ele perguntou-lhe: «Tens alguma coisa contra viver com um homem cuja profissão é desenterrar mortos?» E ela respondeu: «De todo, eu adoro cadáveres!» Durante os 45 anos seguintes, Agatha acompanhou o segundo e derradeiro marido em todas as suas expedições arqueológicas anuais no Médio Oriente, tornando-se, ao tempo, uma das mulheres mais conhecedoras nesta área (no Museu Britânico e no Museu de Alepo exibem-se artefactos descobertos, catalogados e restaurados pelos dois). Na Síria, com o subtítulo Conta-me Cá Como Vives, é o relato diarístico e autobiográfico da estadia do casal naquele país. Sai agora na colecção da Tinta da China dedicada a livros de viagens. É um livro despretensioso e muito divertido.
Esqueçam os 89 romances e 21 peças de teatro assinados por Lady Christie, embora alguns dos melhores tenham sido produzidos durante temporadas da escritora na Síria. Na Síria foi escrito em Londres, em plena Segunda Guerra, como homenagem a «algo imperecível» e «um exercício de amor». Lê-se, no epílogo: «Porque eu amo aquela terra fértil e tranquila e as suas gentes simples, que sabem rir e desfrutar a vida; que são ociosas e alegres, e que têm dignidade, boas maneiras e um grande sentido de humor, e para quem a morte não é terrível.» A filha, Rosalind Christie Hicks, explicou que o segredo desta paixão foi Agatha entender como os sírios viviam e nunca ter procurado interferir no seu modo de vida.
«Isto não é um livro profundo», adverte no início. Como crónica «inconsequente» e «sinuosa», Na Síria é, antes, uma delícia de leitura. O olhar de Agatha mostra-se sagaz, divertido, tão disponível para a surpresa, sem choque, com os detalhes do quotidiano (e neste livro há muitos, inusitados) como com as descobertas feitas nos 'tell' (amontoados de escombros). Há caras e logísticas, hábitos e temperamentos, novos e velhos, todos curiosos, ratos e pulgas, tendas, indigestões, pantomimas, cacos e risos. E há sobretudo uma bonomia a anular o choque com a diferença e o desconhecido, tratados como verdadeiras preciosidades.

Na Síria, Agatha Christie, Tinta da China, 285 págs.
SOL/ 23-07-2010
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

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