México DF | Droga de Balas

segunda-feira, janeiro 24, 2011


Primeira página do primeiro capítulo e o detective Edgar Mendieta, conhecido como ‘o Canhoto’, avisa: «A modernidade de uma cidade mede-se pelas armas que troam nas suas ruas.» A cidade onde o som das balas não dá descanso ao toque ‘Cavalaria’ no telemóvel de Mendieta é México DF (Distrito Federal), capital dos Estados Unidos Mexicanos, a 12ª economia mundial, minada pela violência. O romance chama-se Balas de Prata, é o terceiro do ficcionista mexicano Élmer Mendoza e saiu há pouco pela Quetzal. Em 2008, deu-lhe o Prémio Tusquets e lugar entre os autores da chamada ‘narcoliteratura’ latino-americana.
Mendieta é um depressivo, como tantos outros desses míticos lobos solitários da literatura policial americana, magoado pela perda do amor da sua vida, produto de uma cultura misógina e crente de que «o ser humano é corrupto por natureza». Todavia, Mendieta é um detective ‘moderno’ e, como tal, faz psicoterapia com o Dr. Parra, aprende a lidar com ‘gadgets’ electrónicos, e lê boa literatura (Juan Rulfo incluído, claro), e ouve boa música (algo passada, é certo, mas razoável), e não prega moral nem sequer deseja, de facto, corrigir os desvios do mundo. Não é tanto nele que Mendoza se revela interessante, ainda que o contraste entre o desnorte interno e a capacidade de observação da personagem apoie a técnica de enfoque do autor: dispersiva, sustentada pela velocidade dos capítulos curtos e pelo salto entre registos no mesmo parágrafo, sobrepondo diálogos sem a pontuação convencional, cruzando memórias, monólogos, descrições, acção.
Balas de Prata abre com o homicídio (incluindo uma bala de prata, castração e corte da língua) de Bruno Canizales, um reputado advogado, activista ‘new age’, praticante de travestismo e sexualmente ambíguo. Não será dispiciendo ele ser filho de um potencial candidato à Presidência, bem como o universo das suas ex-namoradas: uma, suicida e, outra, filha do líder do cartel mexicano. A unir tudo no ritmo despretensioso de um bom policial, descobrimos vários outros cadáveres e a mitologia do narcotráfico e da corrupção mexicana, sobretudo a «parte lúgubre de uma cidade decadente». Balas de Prata retrata uma certa face épica mexicana que agora não é mais do que uma narrativa crivada de balas, onde «os assassinos são os únicos que não possuem aptidão para a tristeza».

Balas de Prata, Élmer Mendoza, Quetzal, 239 págs.
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

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