Ceridwen Dovey | O Barbeiro, o Chef e o Artista

quinta-feira, janeiro 13, 2011



Entre o mar das novidades editoriais surgidas no final de 2008,  chamada de atenção para um romance excepcional. Foi com este «O Barbeiro, o Chef e o Artista» (com o título original «Blood Kin») que a antropóloga sul-africana Ceridwen Dovey (n. 1980) se estreou na ficção em 2007. Lançado em simultâneo no mercado de língua inglesa e com direitos vendidos em tempo recorde para cerca de 14 países, o romance cativou de imediato a crítica, surpresa com a sua originalidade temática e estilística.
Com apenas 197 páginas, «O Barbeiro, o Chef e o Artista» é uma proeza de argúcia e simplicidade. O enredo parte de um golpe de estado ficcional, na sequência do qual são feitos prisioneiros o barbeiro, o «cozinheiro-chef» e o retratista do Presidente deposto. Durante o tempo da ficção, eles serão mantidos juntos em cativeiro, num palacete afastado da cidade (a Residência de Verão presidencial), sob vigilância de guardas, às ordens de um Comandante. Construída como um prisma e dividida em três partes, a narrativa, engenhosa, parte da sucessão de capítulos-relato da perspectiva particular das três personagens centrais (e, no final, de outras suas satélite) sobre os acontecimentos presentes e passados. Embora o tom do livro apresente características comuns nestes relatos, cada um deles expõe uma sensibilidade particular. No centro, estão sempre as relações de poder, manifestas na sexualidade e em situações onde se fundem a subserviência e a cumplicidade.
A expressão é do escritor e jornalista Fernando Dacosta e resume a essência tratada por Ceridwen Dovey: «a volúpia do poder». Ambição, corrupção e luxúria em doses q.b.  Sensibilidade estética segura e precisa, quer se trate de sustentar que o cabelo, a comida ou a auto-imagem são extensões da verdade existencial de cada um, ou se explorem os bastidores de maquinações políticas. Como numa casa-prisão de vidro, as personagens vão-se gradualmente «libertando» e cedendo às pulsões mais inconfessáveis e subversivas. Em nome da sobrevivência? Também. Mas, sobretudo, como manifestação de um poder brutal, revelador de todo o ser humano, e que Ceridwen expõe com a delicadeza radical de um cirurgião. Kafka ou Orwell não desdenhariam andar por estas páginas, nem a surpresa final que elas reservam para o leitor.

O Barbeiro, o Chef e o Artista, Ceridwen Dovey
Civilização, 197 págs.

SOL/ 31-01-2009
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

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