Arturo Pérez Reverte | A batalha do riso

quinta-feira, janeiro 27, 2011


Napoleão Bonaparte, vulgo o «Anão Maldito», o «Pequeno Cabo», o «Petit Cabrão», com o óculo incrustado sob uma sobrancelha, contempla a batalha do topo da colina de Sbodonovo. «Estava ali tal como nas estampas coloridas, tranquilo e frio como a mãe o pariu.» Sonha com a glória da Campanha da Rússia, ainda que, por entre o fumo, descortine a devastação do flanco direito do confronto. Daqui a pouco irá aperceber-se de que, ali, por entre a mancha azul de «feridos e mortos a granel», marcham agora, imperturbáveis na direcção dos canhões russos, os 400 soldados do Batalhão 326 de Infantaria de Linha. São antigos prisioneiros espanhóis alistados à força na Grande Armée dos «anfansdelapatri» e preparam-se para desertar. À distância, tomando-os por heróis, o imperador da França envia em seu socorro uma carga de cavalaria.
O episódio histórico data de 1812. A transposição ficcional, narrada por um soldado anónimo, desbragada de ironia e argúcia, faz o miolo de A Sombra da Águia, pequeno folhetim que Arturo Pérez-Reverte publicou, em 1993, no El País. Não é a melhor, nem a mais ambiciosa ficção do escritor espanhol, mas é uma delícia de leitura. Uma prova condensada da eficácia do seu objectivo: «apagar os limites entre história e ficção até ser incapaz de distinguir o real do imaginado.»
Pérez Reverte (n. Cartagena, 1951), ex-correspondente de guerra, ocupa desde 2002 uma cadeira da Real Academia Española, confortavelmente sentado sobre a glória da série de romances do seu Capitão Alatriste (publicada pela Asa), uma aventurosa recriação do século XVII espanhol ao jeito 'actualizado' de Alexandre Dumas, com vários milhões de cópias vendidas, traduções em 34 países. Em Espanha, cujo meio literário é bem menos preconceituoso do que o português, muitos pares consideram-no o grande contador de histórias da sua geração, exímio a esgrimir a língua e a transformar exigente material documental (quer trate do confronto espanhol com os Aztecas, das campanhas napoleónicas, da batalha de Trafalgar, de caçadores de tesouros ou da Guerra dos Balcãs) em grande ficção sobre a condição humana e a noção de Pátria. A Sombra da Águia mostra-o bem a vencer a batalha de descrever com crueza crítica o absurdo da guerra e do heroísmo histórico através de um riso mordaz, cativante para leitores de todas as idades.

A Sombra da Águia, Arturo Pérez-Reverte, Porto Editora, 120 págs.

SOL/ 18-09-2009
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

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