Michel Houellebecq - Goncourt 2010

terça-feira, novembro 23, 2010


O vírus Houellebecq

Ao quinto romance, La Carte et le Territoire (sem editor português), Michel Houellebecq ganhou o Goncourt 2010. Por fim, a selectíssima república das letras francesa rendeu-se ao mais incómodo autor francês contemporâneo (sete votos contra dois). Talvez porque, logo em 1998, aquando do segundo romance (Partículas Elementares), a crítica e os agentes internacionais aprenderam a soletrar o seu apelido. Houellebecq (lê-se 'uélebéq') foi o primeiro escritor francês em muitas décadas a atingir reacção mundial. Os dois romances seguintes (Plataforma, 2001, A Possibilidade de uma Ilha, 2005 - cujo passe de editora o tornou um homem rico) alargaram o impacto, mas, tal como Partículas, não passaram da nomeação para o Goncourt. Entretanto, ficaram famosas algumas convicções houellebecquianas: «o Islão é a religião mais idiota do mundo», «o materialismo é incompatível com o amor» ou «sou 100% a favor da prostituição». Hoje exilado no parque natural espanhol de Almería (viveu na costa irlandesa, entre 2000 e 2002), Houellebecq,  52 anos, já comentou a atribuição: «É uma sensação esquisita, mas estou muito contente. As pessoas que lêem pouco, mas compram o último Goncourt, vão poder ler-me. Espero não as desapontar.»
Nascido na ilha francesa de Reunião, Michel Houellebecq (pseudónimo de Michel Thomas), pouco amado pelos pais (um guia de montanha e uma anestesista), foi criado em França pela avó paterna. Estudou agronomia e, após anos de desemprego, o primeiro casamento-divórcio (do qual nasceu o único filho) e alguns internamentos psiquiátricos, tornou-se programador informático e funcionário da Assembleia Nacional Francesa. Extensão do Domínio da Luta, o primeiro romance (1994) contém elementos autobiográficos, descreve a frustração afectiva e sexual de um sujeito «80% normal» e motivou a criação de uma revista (Perpendiculaire), dedicada ao «depressionismo». Quando surgiu Partículas Elementares, o romance-boom, Houellebecq já tinha um programa definido: «Sou um realista que exagera um bocadinho» (Paris Review), um «chato» que glorifica a ciência, anula a religião e o casamento e insiste na imutabilidade do carácter moral de uma pessoa.
La Carte et le Territoire é referido como a sua obra menos provocatória. Jed Martim, artista famoso pela manipulação de mapas da Michelin, contacta um certo Houellebecq para lhe servir de modelo e prefaciar a exposição de arranque. O romance inclui, a meio, uma trama policial e termina com o atroz assassinato de Houellebecq. Nada a ver com os temas genéricos de Partículas (obsessão e frustração sexuais e manipulação genética) Plataforma (turismo sexual) ou A Possibilidade de uma Ilha (seitas e clonagem)? Tudo a ver.
Houellebecq insiste na evidente contradição entre a vida moderna e uma vida afectiva satisfatória. É um mestre a veicular ideias reaccionárias de direita sob a capa de deduções lógicas de esquerda. Odeia o legado liberalista da revolução dos anos 60. Apelidado de «Baudelaire dos supermercados» e várias vezes acusado de plágio, adora referir marcas e objectos de consumo actuais, os advérbios, as repetições e «os insultos apologéticos que habitualmente só se fazem em privado». Responde às acusações de niilismo, cinismo, misoginia e racismo afirmando-se como ateísta político e profeta da actual solidão humana. Houellebecq diz-se um mero observador, mas é um agitador. O Goncourt acaba de o tutelar.

SOL/ 12-11-2010
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

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