Camille Paglia | O outro sexo

domingo, novembro 28, 2010


«Personas Sexuais», finalmente traduzido em Portugal, reavalia radicalmente a representação da sexualidade humana na arte ocidental desde a Antiguidade e, como tal, pertence ao cânone das  obras-choque do século XX. Porque é passível de provocar azias várias, e também porque tem quase 700 páginas repletas de remissões em espiral, é desaconselhada a quem não retiram prazer inexcedível do exercício crítico de pensar. Em 1990, a edição de estreia, «Personas Sexuais: Arte e Decadência de Nefertiti a Emily Dickinson» (em nove anos recusada por sete editoras), lançou aquilo que os intelectuais norte-americanos passaram a temer como «o furacão Camille».
Professora Associada de Humanidades no Philadelphia College of Performing Arts, Camille Paglia, 60 anos, nova-iorquina, filha de imigrantes italianos, é hoje uma das mais destacadas filósofas sociais. Em 1995, a revista «Playboy» apresentou-a como uma «antifeminista feminista, anti-homossexual lésbica e antiliberal liberal». Paglia cultivou esta postura com a eficácia de um estilizado «rottweiller académico» e tornou-se uma explosiva alquimista na fusão teórica de sexo, arte e literatura. Principais lemas: «a bissexualidade deveria ser a norma universal», «a liberdade e a revolução sexuais são ilusões modernas», «o feminismo traiu as mulheres, alienou o homem e a mulher e substituiu o diálogo pelo politicamente correcto» ou «a melhor arte resulta apenas de egos mutilados».
Segundo os detractores, Paglia é uma pedante exibicionista. Talvez, mas as suas mensagens neoconservadoras (como «a religião e o casamento são historicamente as melhores defesas contra o caos») afastam-se de modo radical da autocomplacência, o vírus mais nefasto da contemporaneidade. Em «Personas Sexuais», como em «Vampes e Vadias» (Relógio d’Água, 1997), Paglia é uma subversiva iconoclasta que arrasa muitos dos enquistamentos teóricos que turvam a cultura. Num voo de falcão, disseca as várias «personas» que encarnaram na «personalidade» da cultura ocidental a luta demoníaca, pagã ou mesmo sádica, entre natureza e sexo, entre a mulher (identificável com a natureza) e o homem (detentor do poder da representação). Porque, para ela, «a arte é a forma a tentar acordar do pesadelo da natureza».

Personas Sexuais, Camille Paglia, Relógio D’Água, 692 págs.

SOL/ 22-12-2007
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

Pode Também Gostar de Ler

0 comentários