Don DeLillo - Um Livro Por Dia

segunda-feira, outubro 11, 2010


A tecnologia do pesadelo

Manipulações tóxicas e medo da morte. Don DeLillo uniu-os num romance de culto.

Don DeLillo, romancista nascido no Bronx há 73 anos, com 14 romances editados, é um dos principais ficcionistas pós-modernos. Desde 1971, e a estreia com Americana, e sempre com a América por epicentro, DeLillo exibe uma curiosa capacidade retroactiva ou premonitória de análise irónica de algumas das mais simbólicas catástrofes contemporâneas. Sai agora Ruído Branco, de 1985, narrado e protagonizado por Jack Gladney, pai de cinco filhos, professor universitário de Estudos Hitlerianos em Blacksmith, pequena cidade na América do Norte atingida por uma nuvem de gás tóxico, resultante de um acidente industrial.
Após a edição do mais recente O Homem em Queda (sobre o 11 de Setembro) e antes da publicação agendada para breve de Submundo (de 1997, a Guerra Fria por cenário), a Sextante propõe um romance de culto para os críticos mais sarcásticos da cultura popular norte-americana. Ruído Branco nasceu de uma reflexão sobre como «a culpa do homem ao longo da História e nas correntes do seu próprio sangue tem sido complicada pela tecnologia, essa morte que, diaria e manhosamente, se vai infiltrando nas nossas vidas».
A técnica mantém-se: DeLillo coloca o quadro doméstico das personagens ao serviço da revelação de uma qualquer tese conspirativa (por exemplo, o assassinato de John F. Kennedy, em Libra, ou um filme gravado no bunker de Hitler, em Cão em Fuga, ou a ameaça terrorista, em Mao II). Sobre Ruído Branco paira o medo da morte (no qual anedoticamente competem o protagonista e a sua mulher, Babette), o combate entre a racionalidade, a alienação, a histeria tecnológica e científica, a cultura e o consumo de massas. Babette é cobaia de uma droga que interage com os neurotransmissores cerebrais. Vítima de contaminação radioactiva, Jack Gladney tem os dias contados. Um dos seus filhos pequenos chora ininterruptamente durante sete horas. Mas serão estes fenómenos mais insólitos, ou menos reveladores da omnipresença da morte, do que a observação de seres humanos obscenamente obsesos que passeiam a sua «febre de gula» pelos supermercados norte-americanos? Em Ruído Branco, DeLillo mostra-se um excelente cronista das paranóias reais e auto-especulativas da América intoxicada por «uma disposição obsessiva sem alvo definido».

Ruído Branco, Don DeLillo, Sextante, 399 págs.


SOL/31-12-2009
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

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