Charles Dickens - Um Livro Por Dia

terça-feira, outubro 05, 2010


Sr. Pickwick, muito prazer

No Livro do Desassossego, Fernando Pessoa/Bernardo Soares, um dos maiores fãs desta obra de Charles Dickens, diz: «Ter já lido os Pickwick Papers é uma das maiores tragédias da minha vida. (não posso voltar atrás e lê-los pela primeira vez.)» Uma tragédia, de facto, porque se trata de uma excepcional leitura-imersão-revelação de incidentes, tipos, carácteres e exercícios de linguagem. Tal como no título do capítulo XVI, trata-se de uma experiência «tão rechead[a] de aventuras que não se pode resumir». Mais, ler este romance intemporal, escrito por Dickens aos 24 anos para sair em folhetins semanais entre Abril de 1836 e Novembro de 1837, significa diversão, espanto e prazer em estado puro. Significa também que Dickens não foi superado como mestre de «uma arte em que os contos de fadas são contados como se fossem sagas de realismo social» (Harold Bloom). Recém-editados pela Tinta-da-China, a abrir uma colecção de escolhas do humorista Ricardo Araújo Pereira e numa criativa, mas rigorosa tradução do texto integral por Margarida Vale de Gato (Henrique Lopes de Mendonça assinara outra, integral, em 1898; Mário Domingues, uma parcial, em 1953), Os Cadernos de Pickwick são a chave-de-ouro para reabilitar por cá o valor canónico do autor oitocentista.
Logo nas primeiras páginas, é apresentado como «imortal» pelo secretário que lhe organiza postumamente as actas, notas e diários, ou seja, a matéria e o motor da narrativa. Samuel Pickwick, o pomposo, calvo e pançudo presidente perpétuo, lidera a Sociedade Correspondente do Clube Pickwick numa série de viagens de observação da vida na província. Acompanham-no o Sr. Tupman, apaixonado mas pouco galã, o Sr. Snodgrass, muito poético mas nada poeta, e o Sr. Winkle, sumidade em recreação e destreza mas pouco dotado para o desporto. Pickwick, estrela da sucessão de peripécias, sarilhos e figuras mirabolantes, é o arquétipo das personagens dickensianas, ou, como lhe chamou Chesterton, «o Ulisses da comédia». Serve-lhe para atingir este estatuto o aparecimento do criado Sam Weller. Hilariante de tão pintas e tão inglês, ele é o Pancho que faltava para, de burguês diletante, Pickwick passar a Dom Quixote, heróico e bondoso perdedor.
Os Cadernos de Pickwick não é de todo um livro inocente. Nas histórias com vários narradores e protagonistas que vão entremeando as satíricas e picarescas aventuras pickwickianas, Dickens homenageia o gótico, e inaugura-se na crítica social. Com Pickwick, herói ou caricatura, surge o riso entre sombras negras, um estranho e incómodo realismo que entretém.

Os Cadernos de Pickwick, Charles Dickens, tradução de Margarida Vale de Gato, Tinta-da-China, 935 págs.

LER/Fevereiro 2010
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

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