Prosa solta

segunda-feira, janeiro 25, 2010



Aracne 

Não sei quanto tempo laborei no erro. Estava de tal forma entregue à certeza de que em paz terminaria o trabalho antes do cair da noite que já mal olhava para a trama. Os dedos corriam maquinalmente sobre os fios de seda e, a estes, deixava-os eu completar sozinhos o desenho, convencido de que seguiam o rumo para o qual os manobrava. Fizera os mesmos gestos as mesmas mil vezes e confiava em que, então como em todos os dias de todos os meses e de todos os anos anteriores, eles se converteriam no resultado esperado: na mesma face ingénua da mesma rapariga triste, com longos cabelos castanhos, pele rosácea, finos lábios carmim e profundos olhos azuis, cortados pelo negro da pupila e pelo branco do reflexo da luz.
Fechara as janelas para abafar os sons da rua, acendera os paus de incenso e começara a meditação no exacto minuto em que voltara a sentar-me e em que os dedos puxaram de novo as meadas. Há já algum tempo que sonhava com este momento em que, sozinho na oficina, conseguiria alienar-me do automatismo dos gestos através do acto simultâneo de meditação.
Confesso que estava ansioso por experimentar a nova fórmula, ansioso por me dispor, tranquilo, a dar-lhe início. Metta Bhãvanã, ou do Amor Universal. Tinha lido e relido as instruções na caixa do incenso e seguia-as agora com afinco. Primeiro a respiração: lenta e profunda. Depois o pensamento: o mais fixo possível. «A minha mente está limpa de todas as impurezas, maldades, inimizades e sofrimento. O meu coração está cheio de amor e paz.» Nova pausa para respiração profunda. E novo esforço de visualização. Agora, na pessoa mais querida — a minha mãe — recebendo todo o meu pensamento de carinho, paz e amor. Pausa. Respiração. Via agora distintamente a face de «um conhecido do qual não gostamos nem deixamos de gostar” — a porteira Dona Rosa — e esforçava-me por lhe enviar o mesmo pensamento de carinho, paz e amor. Pausa para rectificar as meadas de seda e a lançadeira e para respirar profundamente. Não precisei de fechar os olhos para me lembrar de «alguém de que não gostamos, que nos é desagradável, por quem sentimos mesmo um certo rancor». Não precisei de muito para ver o Sr. Aníbal, o patrão, sorrindo enquanto coçava os pêlos do peito e se banhava no mar de pensamentos de perdão, amor, paz e compreensão que empenhadamente eu lhe enviava. A imagem sugeriu-me nova respiração e novo pensamento de divino amor, agora dirigido a todos os seres do planeta, sem discriminação alguma. Terminei a tarefa com um sorriso, ainda mais porque chegara ao último fio, à última linha. Eu mesmo estava inundado de paz, bendizendo tudo e todos à minha volta, quando retirei a tapeçaria do rolo e me dispus a admirá-la.
Foi o meu estado de placidez o que provavelmente me impediu de desmaiar, quando, frente aos meus olhos, se desenrolou a imagem. Cruzada com o mesmo rosto ingénuo da mesma rapariga triste, uma teia de finos fios de seda quase transparentes percorria todo o painel numa intricada rede de raios e espirais. No centro, duas pupilas negras olhavam-me com uma doce expressão de terror, que tomei como a minha, juntando-lhe a estupefacção com que observei os meus dedos dormentes, julgando-os incapazes de libertar os fluidos que, no meu corpo, sabia-o já, se haviam segregado em seda.
Agora tenho a certeza de que cabe apenas aos deuses tecer a perfeição do amor entre os homens, as coisas e os bichos, frágil e forte como a teia de uma aranha. E que dele só vemos a mesma face ingénua e triste.

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