Pó enamorado: E as Montanhas Ecoaram, Khaled Hosseini

Khaled Hosseini retratou o amor filial   e o Afeganistão  e arrasou as tabelas. Outono de 1952, Afeganistão. Na aldeia isolada de Shadbagh, ...

quarta-feira, outubro 19, 2016

John Le Carré | A verdade, agora a cores

John Le Carré escreveu uma autobiografia que não revela segredos íntimos ou de de Estado, mas é uma boa coleção de reminiscências de um ficcionista patológico.

David John Moore Cornwell (n. 1931) tinha 25 anos quando foi formalmente admitido como agente júnior do Serviço Secreto Britânico, no M15. Quatro anos depois, insatisfeito com a falta de ação naqueles serviços, o jovem caçador de espiões pediu transferência para o M16, do outro lado da rua. Do tempo no M15, guardaria sobretudo na memória as correções ortográficas anotadas nas margens dos seus relatórios pelos agentes seniores com estudos clássicos. «Nenhum editor que encontrei desde então foi alguma vez tão exigente ou teve tanta razão.» Poucos anos depois, com 33 anos, o agente reforma-se, graças ao sucesso internacional de um romance, O Espião que Saiu do Frio. Haviam nascido entretanto John Le Carré e George Smiley («o velho espião apressado»).
«A espionagem e a escrita de romances foram feitas uma para a outra. Ambas pedem um olhar atento à transgressão humana e às muitas vias para a traição.» Aos 84 anos e após a publicação de mais de 23 livros  — sobretudo histórias de espiões passadas durante a Guerra Fria (1945-1991) —, John Le Carré fez sair finalmente a sua autobiografia, projeto que tentara completar em 1979 e em 2001. A publicação recente (Outubro de 2015) de uma biografia autorizada de mais de 600 páginas pesou na vontade de contar a sua versão dos factos, mas, ainda assim, o resultado final não acrescenta muito ao trabalho do biógrafo Adam Sisman. O Túnel dos Pombos  é uma coleção de histórias e fragmentos que o próprio autor apresenta de forma despretensiosa, como registo de «incidentes isolados, autónomos, não apontando em nenhuma direção de que eu tenha consciência, contados pelo que acabaram por significar para mim e porque me alarmam, assustam ou comovem, ou porque me acordam a meio da noite e me fazem rir alto.» Na verdade, o conjunto lê-se de forma tão saborosa como os seus romances, mas sem o suspense habitual.
Talvez a única revelação autobiográfica digna desse nome sejam alguns pormenores da relação do escritor com os pais; a mãe, que o abandonou quando ele tinha cinco anos de idade («até hoje não faço a ideia de que tipo de pessoa era»), e o pai, Ronnie, um vigarista de primeira, «fantasista, preso ocasional», «viciado em teatralidade», que batia nos filhos, mas lhes assegurou uma educação de elite e, no caso de David, legou-lhe a irrequietude crónica e a arte de tecer uma história a partir do nada e «cegar as pessoas com pormenores inventados». Mirabolantes, os esquemas do pai são relatados pelo filho (que os explorou em vários enredos, sobretudo no romance mais autobiográfico, O Espião Perfeito) com ambiguidade moral (uma expressão que lhe é cara enquanto ficcionista) ou, pelo menos, sem uma censura veemente. Afinal, Ronnie foi a primeira grande personagem de David Cornwell  aka John Le Carré, a fonte de todas as perguntas e efabulações, a raiz da habilidade em mentir e imaginar: «nascido para a mentira, criado para ela, treinado para ela por um sector que mente para ganhar a vida, treinado nela como romancista».
Do ambiente na Alemanha do pós-guerra (onde assistiu, repugnado, ao branqueamento de velhos nazis) e da Guerra Fria até uma entrevista com Bernard Pivot (à conta de uma gravata emprestada) e aos encontros com vários realizadores e atores famosos (Fritz Lang, Stanley Kubric, Francis Ford Coppola ou Martin Ritt; Alec Guiness, Richard Burton, entre outros) sucedem-se múltiplas histórias reais, contadas de memória, grande parte delas vividas enquanto o romancista pesquisava para os seus livros e personagens (para quem conhece bem a obra, é curioso conhecer a fonte de várias delas).

«A meio da vida, eu estava a ficar gordo e preguiçoso e a viver à custa de um fundo de experiência passada que estava a esgotar-se. Chegara o momento de abordar mundos não familiares», confidencia. Assim, muitas vezes à boleia de repórteres de guerra e correspondentes (que lhe emprestaram também a coragem), o escritor correrá mundo à procura de histórias, da rendição de Phnom Penh (onde pela primeira vez lhe apontaram uma arma) à eleição pluripartidária no Congo Oriental, em 2006. A parte mais interessante de O Túnel dos Pombos reúne relatos destas aventuras e de extraordinárias personagens reais mais ou menos conhecidas: da ativista humanitária Yvette Pierpaoli a Yasser Arafat (que cheira a pó de talco Johnson’s e com quem ele dança o dabke numa passagem de ano) à ativista alemã radicalizada Brigitte, ao dissidente Andrei Sakharov, ao chefe mafioso russo Dima, Rupert Murdoch, ao ex-chefe do KGB Vadim Bakatin, ao agente russo Issa Kostoev, ao poeta exilado Joseph Brodsky, ao presidente italiano Francesco Cossiga, a Margaret Tatcher, ao espião Nicholas Elliott (que discorre sobre Kim Philby) ou a Thomas, senhor da guerra congolês. Do contacto com todos eles e das notas em caderninhos que foram depois escrupulosamente aproveitadas para a escrita, sempre à mão, dos romances, Le Carré diz que contou agora a verdade, se não toda, aquela que melhor serviu à ficção, uma verdade disfarçada, sim, onde necessário, mas nunca conscientemente falseada. Afinal, «a verdade real reside, se reside algures, não nos factos, mas nos matizes». O Túnel dos Pombos  dá-nos uma boa conta deles.

O Túnel dos PombosJohn Le Carré, Dom Quixote, 382 págs., 18.90 euros


Jornal Sol, 07-10-2016
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

quinta-feira, outubro 06, 2016

Rebecca West | Alemanha, país zero


Enquanto assistia aos julgamentos de Nuremberga, Rebecca West procurava sinais de uma paz e de uma justiça que o fim da guerra ainda não fizera chegar. A História ao vivo nunca é como a que ficará escrita nos livros.
O ano de 1945, a hora zero (Stunde nul) como lhe chamaram os alemães, havia sido celebrado em todos os jornais como o do fim da guerra, mas, na verdade, seria em Nuremberga, no ano seguinte, que as forças ocupantes procurariam julgar e enterrar os demónios, à vista de todos e de vez. Cerca de 325 correspondentes de órgãos de informação de 23 países diferentes acotovelaram-se desde o primeiro minuto para acompanhar as sessões hora a hora, dia a dia, até que, dado o carácter percursor daquele tribunal internacional e as decorrentes disciplina de ferro, complexidade e morosidade dos trabalhos em curso, todos haviam sido abatidos pelo tédio. Rebecca West (1892-1983), famosa repórter e ficcionista inglesa, havia sido enviada a Nuremberga pela revista norte-americana The New Yorker e, no décimo mês do julgamento, era já peremptória: «A sala de audiências era a cidadela do aborrecimento. Todos os que se encontravam na sua esfera de ação eram presa do mais extremo tédio. […] O símbolo de Nuremberga era o bocejo. […] Para todos os que ali estavam, sem exceção, aquele era um lugar de sacrifício, de aborrecimento, de dores de cabeça, de saudades de casa.» O desmantelamento da máquina da guerra acompanhava aos poucos os esforços da máquina da paz e da justiça, mas no epicentro da transição, revelavam-se particularidades que a História apagaria e que só um olhar presente, mais atento e mais crítico, conseguiria registar; um olhar suficientemente estático mas desperto para verificar a verdadeira velocidade e intensidade das mudanças. Foi o caso do olhar de Rebecca West, plasmado em três textos escritos entre 1946 e 1954 sobre o mais famoso julgamento de todos os tempos e agora publicados pela Relógio d’Água, com o título Estufa com Ciclâmenes. A par, por exemplo, de registos de Alfred Döblin ou W. G. Sebald, trata-se de um retrato raríssimo da Alemanha no imediato pós-guerra.

 

Rebecca West, como quase todos os outros correspondentes estrangeiros, estava alojada num palacete nos arredores de Nuremberga, ex-propriedade de uma família de industriais bávaros «com um belo historial de distinção académica e de serviço público» depois manchado pela ligação às elites nazis. Numa estufa escondida nos jardins desse «conto de fadas alemão», um jardineiro perneta (Rebecca acentua que o governo nazi não se esforçou por enterrar os seus mortos nas cidades bombardeadas ou por providenciar próteses aos seus soldados mutilados na frente de combate), e apenas ajudado por uma rapariguinha, cultivava ciclâmenes que, apesar da rígida proibição vigente, comercializava com grande sucesso. Tal como neste exemplo, a repórter inglesa acentua características típicas dos civis alemães: o espírito industrioso, a confiança no poder do trabalho, um estoico sentido do dever, a paixão pela produtividade. Encontra-as patentes na margem de um riacho, onde um citadino pratica exercício apaixonadamente («ainda tinha o seu corpo, ainda tinha aquele músculo estomacal decerto notável, ainda mantinha o seu eu único») ou em Berlim, onde os escombros dos prédios incendiados ou recém-demovidos são removidos por mulheres de idade: «os cabelos grisalhos caindo hirtos como cordões de botas emoldurando os seus rostos curtidos, os corpos uma mescla de ossos e coisas amarrotadas como um guarda-chuva mal enrolado, as mãos quase tão ossudas como as suas ferramentas de trabalho.» Interpreta-as em Nuremberga, em 1946, ou na Berlim dividida dos anos 50, onde, diz-se, muitos  berlinenses compreenderão por fim o que é o totalitarismo.
Na sala do tribunal, em Nuremberga, ao tédio juntava-se a excentricidade de algumas regras e normas de segurança (incapazes, ainda assim, de impedir o suicídio de Göring na véspera da execução), «a doença da uniformidade que atacara os acusados durante o julgamento» e os havia vencido, a evidência da excessiva delicadeza e postura de nostra culpa dos conquistadores (uma armadilha que «pode bem ser considerad[a] a coisa mais importante que aconteceu em Nuremberga») e das diferenças de comportamento entre as forças ocupantes (evidenciando-se, por exemplo, a sovinice dos ingleses, a generosidade dos americanos, a alienação dos franceses e a ferocidade gélida dos russos). Atenta a cada detalhe, exímia na recriação de ambientes e posturas, acutilante, West é peremptória: «O problema de Nuremberga era ser tão manifestamente parte da vida tal como esta é vivida. O tribunal era parte integrante das estranhas coisas que aconteceram na sua periferia; e estas já eram suficientemente estranhas.»
O maior feito de Nuremberga é termos todos ficado a saber, «sem a menor dúvida», o que fizeram aqueles dezoito homens que ali foram julgados: «Nenhuma pessoa letrada pode agora alegar que aqueles indivíduos fossem outra coisa que não abcessos de crueldade.» E, no entanto, o legado de Nuremberga é muito mais complexo do que isto («Na verdade, a sala de audiências era um tanque atulhado de equívocos até à borda») e a repórter deixa-o bem claro quando se refere, por exemplo, à satisfação com que muitos recebem a notícia do suicídio de Göring ou à iniquidade do sistema de execução da pena de morte («nunca houve acontecimento legal que fedesse tanto a ilegalidade» e Nuremberga não foi exceção). Profundamente político, o legado do testemunho de Rebecca West é, por sua vez, único e denso, uma janela aberta no muro da perspectiva convencional e uniformizada sobre a época em questão. A dado ponto, salientando a capacidade da Alemanha para reerguer a sua indústria no pós-guerra, ela escreve: «Os alemães prestaram-nos um serviço ao livrarem-nos da culpa do nosso pecado contra os refugiados.» E, mais uma vez, a sua clarividência dá que pensar, apontando para que «o argumento político mais decisivo do nosso tempo não será lido em livros, será vivido».


Estufa com Ciclâmenes, Rebecca West, Relógio d'Água, 162 págs., 15 euros


Jornal «i» 03-10-2016
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)