Pó enamorado: E as Montanhas Ecoaram, Khaled Hosseini

Khaled Hosseini retratou o amor filial   e o Afeganistão  e arrasou as tabelas. Outono de 1952, Afeganistão. Na aldeia isolada de Shadbagh, ...

quinta-feira, setembro 15, 2016

Alexander von Humboldt - Isto anda tudo ligado


Alexander von Humboldt foi o primeiro a olhar a terra como um organismo vivo e interdependente e a alertar para a mão destrutiva do Homem sobre ela. Uma biografia recupera-o como herói de aventuras e da ciência.

«A natureza, em toda a parte, fala ao homem com uma voz [que é] familiar à sua alma.» Colocada hoje em destaque, esta frase com toques new age passa despercebida ou é associada, talvez, a uma promoção qualquer de terapias alternativas ou à defesa do Urso Rosa ou do Tigre da Malcata. Alexander von Humboldt escreveu-a algures em 1800, resumindo uma inédita valorização das sensações e da reação emocional para a observação e estudo dos fenómenos naturais. Influenciado por Kant e por Goethe, o naturalista alemão foi o primeiro a defender a terra como uma cadeia unificada e animada por forças interativas, logo vulnerável à intervenção humana nociva (é considerado o pai do ambientalismo), uma rede de vida cuja compreensão depende obrigatoriamente de uma «impressão do todo». Humboldt revolucionou a forma como vemos o mundo natural ao ponto de a clareza e clarividência dos seus ensinamentos apagarem o seu nome da História. Em 2015, A Invenção da Natureza: As aventuras de Alexander von Humboldt, herói esquecido da ciência resgatou-o do esquecimento e conquistou o Costa Biography Award, o mais importante prémio para este género.
Quando faleceu, em 1859, nas vésperas do nonagésimo aniversário, era o segundo homem mais famoso do mundo (a seguir a Napoleão). Centenas de rios, cidades e outros locais haviam sido nomeados em sua honra, cerca de 5000 cartas eram-lhe dirigidas por ano, o seu nome era familiar por todo o globo e um anatomista alemão havia mesmo requisitado o seu crânio para análise aturada (ao que ele ainda respondeu: «preciso da minha cabeça por mais algum tempo, mas mais tarde terei todo o gosto em lha ceder»). Centenas de milhares de pessoas compuseram a procissão de um quilómetro e meio que acompanhou o carro fúnebre através de Berlim, empunhando bandeiras pretas. Nos EUA, os jornais noticiaram o fim da «era Humboldt». Graças à biografia escrita por Andrea Wulf, torna-se fácil percebermos hoje o protagonismo deste viajante científico excepcional, cujas ideias e abordagem multidisciplinar ainda podem ser tidas como proféticas. 

 
Um colega testemunhou que ele era capaz de «percorrer a cadeia de todos os fenómenos do mundo ao mesmo tempo» e Goethe, grande companheiro de debate, explicou que «em oito dias a ler livros não se conseguia aprender tanto como aquilo que ele nos oferece numa hora». O essencial do retrato de Humboldt composto por Andrea Wulf (nasceu na Índia, cresceu na Alemanha e hoje vive em Inglaterra) advém da consulta da sua correspondência e de múltiplos registos pessoais. Optando por traçar mini-retratos de várias grandes figuras por ele influenciadas, como Charles Darwin, Thomas Jefferson, Simón Bolívar, Henri David Thoreau, George Perkins Marsh, Ernst Haeckel ou John Muir (dedica a estes três os capítulos finais), a historiadora acentua o valor do legado holístico e interdisciplinar de Humboldt, a sua ligação excecional da ciência à arte ou à política (foi anti-esclavagista e anti-colonialista).
Dissolvidos numa narrativa viva (são raras, e pouco extensas, as citações do próprio), os dados mais ínfimos sobre a vida, ideias e viagens de Humboldt são inteligentemente integrados para sustentar, sem folclore, uma grande ideia de e sobre o protagonista. Wulf segue de muito perto o herói, mas para nos dar uma perspetiva completa de um caminho de descoberta, experiência e registo. No mesmo parágrafo, explica-nos que o naturalista «achava difícil encontrar um método racional para estudar o que o rodeava» e que, nos cinco anos fundamentais de viagem pela América do Sul, os seus baús se encheram tão depressa que «tiveram de encomendar mais resmas de papel para pressionar as suas plantas e, por vezes, encontravam tantos espécimes que mal conseguiam levá-los para casa».
 
Humboldt perseguiu cada um dos fios da teia da vida, a 6000 dos 6300 metros de altitude do equatorial vulcão inativo Chimborazo, nas profundezas da floresta tropical (onde se deliciava com o coro dos macacos, procurando distinguir as contribuições das várias espécies) ou nas plantações coloniais junto ao lago venezuelano Valencia, onde primeiro se apercebeu do efeito devastador das desflorestações, tal como na siberiana estepe de Barada, dizimada pela epidemia de antraz, confirmou o impacto ambiental da agricultura intensiva. Atento às diferenças e semelhanças entre as coisas que via, mais do que à sua classificação, concluiu que os «poderes orgânicos trabalham incessantemente» e a vida pulsa por todo o lado. Isso mesmo tentou reproduzir (foi o primeiro divulgador científico com impacto  transversal e universal) numa proto-infografia, um desenho de 90 por 60 centímetros representando o Chimborazo em corte transversal e toda a variedade e riqueza da rede de vida que o compunha. A biografia de Andrea Wuld reprodu-lo também a ele, Alexander von Humboldt, assim, detalhado e completo, uma «fonte que nunca secou».

A Invenção da Natureza
Andrea Wulf
Temas e Debates / Círculo de Leitores
568 págs., 22.20€

SOL | 30-07-2016
© Filipa Melo (Reprodução integral interdita sem autorização prévia)

quinta-feira, setembro 08, 2016

Svetlana Alexievich - A Guerra Não Tem Rosto de Mulher

 
Apertem o coração em punho

Svetlana Alexievich inaugurou um género novo, o «romance de vozes», com uma história feminina do conflito russo-alemão de 1941-45, composta após sete anos de pesquisa e a colagem de testemunhos de mais de 200 mulheres ex-combatentes. Este é um dos mais terríficos e sensíveis registos de guerra, capaz de fazer chorar ou vomitar até os generais.

«Ai, meninas, a guerra é mesmo sórdida... Vista com os nossos olhos. Olhos de mulher... É ainda mais horrenda. Por isso não nos questionam...» Algumas tinham pouco mais de 15 anos («fui combater tão nova, que durante a guerra até cresci»). Cortaram-lhes as tranças (ficava só um pequeno topete), formaram-nas, deram-lhes fuzis, muitas vezes maiores do que elas, encaminharam-nas para o combate, para os serviços e os hospitais militares. Elas partiram felizes por irem defender a Pátria. Nas unidades do Exército Vermelho ou integradas nos destacamentos partisans, mataram e viram matar e morrer. «Amigas, sequem as lágrimas. Apertem o coração em punho.» Presenciaram e viveram os mais cruéis, os mais desumanos atos de violência. Endureceram.
Depois? A guerra acabou e mandaram-nas calarem-se. Muitas regressaram às suas aldeias e as famílias enxotaram-nas; traziam medalhas e honras, mas vinham desonradas por terem estado com os homens na frente. Já não sabiam usar vestidos, andar de saltos, pintar os lábios, várias delas haviam mesmo deixado de menstruar e outras, apesar de terem pouco mais de 20 anos, tinham o cabelo todo branco. Quatro décadas mais tarde, uma delas disse: «Vou-te explicar: recordar é terrível, mas não recordar é mais terrível ainda.» E outra: «Sim, vencemos, mas a que preço? A que terrível preço?»

Quase um milhão de mulheres soviéticas participaram na Grande Guerra Patriótica, desempenhando todas as profissões militares, e foram depois silenciadas sobre as suas experiências e o seu contributo para a gloriosa Vitória. No final dos anos 1970, uma jovem jornalista, natural de Minsk, capital da Bielorrússia, seguiu o rasto das ex-combatentes e registou mais de 500 encontros com elas. A seleção e súmula tratada do testemunho de cerca de 200 dessas vozes escutadas por Svetlana Alexievich chama-se A Guerra Não Tem Rosto de Mulher e é um documento histórico e literário de importância maior. Acaba de chegar às livrarias portuguesas, pela Elsinore (400 págs., 20.99 euros).
Rejeitada pelos editores soviéticos e só editada aquando da perestroika, em 1985, a primeira edição do livro teve uma tiragem de dois milhões de exemplares e inaugurou o projeto literário Vozes da Utopia, que a autora dedicou à história moral do «homo sovieticus». Compõem-no: As Últimas Testemunhas: cem histórias nada infantis (1985, memórias de quem era criança na Segunda Guerra; a editar pela Elsinore em 2018), Rapazes de Zinco (1989, relatos de veteranos e mães de combatentes soviéticos na Guerra do Afeganistão; a editar pela Elsinore em 2017), Encantados pela Morte (1993, sobre suicídios motivados pela queda do regime soviético), Vozes de Chernobyl: história de um desastre nuclear (1997, Elsinore) e O Fim do Homem Soviético: um tempo de desencanto (2013, Porto Editora). Por estes cinco «romances de vozes» e pela criação de um novo género literário de não-ficção, «feito de vozes reais e confissões, testemunhos e evidências documentais», Svetlana Alexievich ganhou o Prémio Nobel da Literatura em 2015.

 

«A guerra é uma experiência demasiado íntima. E tão infinita como uma vida humana..» Para Alexievich, que se intitula «historiadora da alma», o desafio era dar voz ao protagonista concreto de um tempo (passado) e de uma experiência concreta, mas captar nele os sentimentos e o sofrimento (pedra-de-toque dos seus grandes mestres russos: Dostoiévski, Tolstoi e Tchékhov), lapidar dele a «trepidação da eternidade» e assim «unir a fala da rua e a da literatura». No primeiro prefácio de A Guerra Não Tem Rosto de Mulher, explicou: «[Quis] escrever um livro sobre a guerra de modo que a guerra provoque náuseas e que a própria ideia dela seja repugnante. Demente. Que faça vomitar até os próprios generais».
Como inspiração, a escritora apoiou-se no livro que mais a marcou após concluir a sua formação em Jornalismo: Sou da Aldeia Incendiada (1977), assinado por Janka Bryl, Vladzinik Kalesnik e Ales Adamovich (que se tornaria o seu principal mentor). Nele, o relato dos incêndios das aldeias bielorussas pelos nazis (de que há também registos impressionantes em A Guerra Não Tem Rosto de Mulher) parte do discurso na primeira pessoa de múltiplas testemunhas, que os autores editaram o mínimo possível e fundiram com elementos esparsos da sua autoria. Svetlana interessou-se de imediato por esta técnica de registo da história oral. Comprou um gravador, partiu à procura de depoimentos sobre a migração do campo para a cidade (de que resultou um primeiro manuscrito, não editado) e apurou lentamente a justaposição de testemunhos transcritos e a sua seleção, edição e compilação final, sem apoio de cronologias ou outros elementos contextuais. Nasceu assim o «romance de vozes» ou «romance-oratório» (Ales Adamovich), um romance-painel de vozes anónimas, reais, registo inédito do passado quotidiano na primeira pessoa vivida, sem heróis, personagens ou esqueleto narrativo. A história do «pequeno grande homem» apanhado nas malhas da grande História.

Perfeitamente adaptado ao tema da ascensão e queda da utopia soviética, o novo género de gravação e registo literário de testemunhos anónimos desenvolvido por Svetlana Alexievich afirma-se igualmente como anti-ficção, porque valoriza a experiência individual em detrimento da efabulação literária ou do mito coletivo. Neste registo, de livro para livro de Vozes da Utopia, revela-se o complexo processo psicanalítico por que passaram os habitantes da ex-URSS na conquista de uma identidade individual (e original, nesse sentido), ao invés da crença cega no valor da Pátria e do sofrimento em nome dela e de um destino épico.
Em A Guerra Não Tem Rosto de Mulher, este resgate de voz própria é uma missão plenamente assumida pela autora. Tendo crescido na sombra da morte e da guerra, entre vozes e choros das mulheres da aldeia, cujo sofrimento trágico e enigmático a assustava e fascinava, Svetlana quis escrever a história feminina da guerra. Uma guerra feminina, com cores, cheiros, iluminação, espaço de sentimentos e palavras próprias, uma guerra onde «não há heróis nem proezas incríveis, mas tão-só as pessoas ocupadas na sua atividade humana e simultaneamente desumana». Quarenta anos após regressar da frente, uma mulher diz: «Pergunte-me: o que é a felicidade? Respondo: é encontrar alguém com vida entre os mortos.» Acrescentamos: e deixar esse alguém falar.

Jornal «i», 05-09-2016
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)