Pó enamorado: E as Montanhas Ecoaram, Khaled Hosseini

Khaled Hosseini retratou o amor filial   e o Afeganistão  e arrasou as tabelas. Outono de 1952, Afeganistão. Na aldeia isolada de Shadbagh, ...

quarta-feira, março 21, 2012

Booker Prize | Do lado do Sr. Barnes



Julian Barnes ganhou finalmente o Man Booker Prize, com O Sentido do Fim, recém-editado pela Quetzal, vinte e cinco anos depois da primeira nomeação, com O Papagaio de Flaubert (de 1984), esse, sim, o seu melhor livro. Qualquer um dos seus outros dois romances nomeados, England, England, de 1998, ou Arthur & George, de 2005, merecia mais a distinção. Os prémios literários têm temperamentos e não vale mesmo a pena discuti-los. Em contrapartida, há muito que o escritor inglês mereceria um prémio de outra ordem, caso ele existisse: Barnes é o mais fiel amigo do leitor, o autor menos egoísta da sua geração.

A qualidade vai rareando entre os grandes autores anglo-saxónicos sexagenários e septuagenários, quase todos contaminados por uma espécie de esquizofrenia solipsista acentuada pelo pavor da aproximação do fim (Don DeLillo e Margaret Atwood fogem à regra). Há anos que Barnes também escreve sobre o envelhecimento e sobre a morte, mas põe de lado as circunstâncias pessoais e a ansiedade daquilo-que-ainda-tenho-absolutamente-que-deixar-dito-e-só-eu-posso-dizer. Defende: “O problema quando se misturam emoções é que corremos o risco de personificar demasiado a morte. Não devemos transformá-la numa metáfora, num tipo com uma foice. […] A morte é só um processo. É apenas o fruto do trabalho de uma terrível, impiedosa e plácida burocracia, preenchendo aplicadamente a sua quota, como sempre faz”, The Oxonian Review of Books, 2008. Nas onze histórias de Mesa Limão, de 2004, com gentileza e elegância, o escritor cedeu o foco às personagens. Existe mesmo uma “mulher idosa, a caminho dos oitenta e um”, residente num lar, que o toma por derradeiro interlocutor e flirta com ele por carta. Depois da manifesta paixão de Barnes por Flaubert, brandida contra os ditames da crítica convencional, Miss Wistanley é mais uma prova de que “talvez o amor por um escritor seja a mais pura, a mais estável forma de amor” (O Papagaio de Flaubert). Quando a paixão é correspondida, o prémio é bastante alto.
Questionado sobre a sua eventual autobiografia, Barnes resumiu-a assim: “Vejamos: nascido em Leicester, estudou línguas modernas no liceu e na universidade, tornou-se lexicógrafo (logo, não tem medo das palavras), depois foi candidato a jurista (logo, não tem medo de advogados), depois tornou-se jornalista e romancista. É adepto do Leicester City (logo, não tem medo de perder)”, View From Here Magazine, 2008. Descontando alguma pose de falsa modéstia, é inegável que não estamos perante um umbiguista. Mais, Barnes assegura que a escrita é “um trabalho de autodidata, um caminho de tentativa e erro”. E que valor pode ter isso para a literatura que produz? Bastante, porque traduz uma atitude ética e teórica refrescante no panorama atual e ainda nos dá a ver coisas verdadeiramente originais e literárias.
Barnes, muito culto, divertidíssimo na ficção paródica, é um escritor sério e com bastante aversão à crítica atual. No capítulo “Os Olhos de Emma” deíulo.﷽﷽﷽﷽﷽ de Flaubert, atual. cçBastante, porque corresponde asta. es resumiu-a assim: «Vejamos: nascido em Leicester, estudou  O Papagaio de Flaubert, Geoffrey Braithwaite/Julian Barnes insurge-se contra uma crítica inglesa que acusa Flaubert de não ser realista, como Zola, por não ter construído personagens a partir da observação objetiva e, concretamente, por ter feito variar a cor dos olhos de Emma ao longo do romance. Os críticos estão amaldiçoados com a memória, por isso transformam os livros em família e assumem um tom paternalista para com os autores (troque-se críticos por escritores e autores por leitores e comprova-se o que ficou escrito em cima). Explica: “Entretanto, o leitor comum mas interessado pode esquecer: pode partir para outra, ser infiel com outros escritores, voltar a extasiar-se de novo. Na sua relação, a conjugalidade não precisa nunca de se introduzir; pode ser uma relação esporádica, mas, enquanto existe, é sempre intensa. Não há vestígios do rancor diário que se cria quando as pessoas vivem juntas bovinamente. Nunca me acontece recordar a Flaubert, com uma voz fatigada, que pendure o tapete da banheira ou que use o piaçaba. O que parece é que a Doutora Starkie não é capaz de deixar de o fazer. Olhem, apetece-me gritar: Os escritores não são perfeitos; do mesmo modo que os maridos e as mulheres não são perfeitos. A única regra infalível é que, quanto mais parecem, menos são. Eu nunca pensei que a minha mulher era perfeita. Amava-a, mas nunca me iludi. Lembro-me... Mas vou deixar isso para outra altura.”
O Sentido do Fim é um romance generoso para com o leitor e as personagens e, nisso, o temperamento de Barnes permanece sólido e anacrónico (ao contrário do seu ex-amigo Martin Amis, cuja rebeldia se foi revelando pura expressão de rivalidade, obsessão também tão contemporânea). O que se poderia perder com o resguardo emocional e autobiográfico do autor, ganha-se em distensão e segurança da prosa. Barnes continua a querer sobretudo determinar “a cada momento, em que posição [o autor] e o leitor se encontram em relação um ao outro”. Quer fazer-nos seguir ao seu lado, também apoiados pelo cavalheirismo redentor (semelhante ao de Arthur e George) da confissão do protagonista e narrador, Tony Webster. Ainda à Oxonion Review of Books, disse: “Gosto de imaginar o escritor e o leitor sentados juntos, não face a face, mas lado a lado, olhando na mesma direção, através de uma espécie de janela de café. E então, neste meu cenário, o escritor pergunta ao leitor: ‘Como é que achas que ela é? Ele parece um bocado esquisito, não? Por que é que estão os dois a discutir?’ O olhar do leitor é paralelo ao do escritor – o escritor está só um bocadinho à frente porque vislumbrou as coisas primeiro.” Neste caso, o seu sentido do fim é bem mais visionário do que a versão corrente: “A nossa vida não é a nossa vida, é só a história que contamos sobre a nossa vida. Que contamos aos outros mas - principalmente ­- a nós próprios.”
No final da adolescência, num liceu no centro de Londres onde “o darwinismo social pretensioso da classe média britânica estava sempre implícito”, Tony e os seus dois amigos inseparáveis, Colin e Alex, conhecem Adrian Finn, um rapaz alto, tímido e excecionalmente inteligente. Adrian integra o grupo e é admirado por todos (eles acham que ele é o único com “uma vida digna de romance”), mas permanece à margem do “caos hedonista” que os faz ter fome de livros e fome do sexo que não têm e, sobretudo, enaltecer o mérito e a anarquia. “Incitava-nos a acreditar na aplicação do pensamento à vida, na ideia de que os princípios deveriam guiar os atos.” Era um rapaz provocador, mas compenetrado e meditativo. Já em Cambridge, e pouco depois de, por carta, comunicar a Tony o seu envolvimento com a ex-namorada deste, Veronica, Adrian suicida-se. Para os amigos, a sua morte surge “mais paradigmática do que ‘trágica’”, uma espécie de afastamento rápido, “cravado no tempo e na história”.
Passam quatro décadas e abre-se a segunda parte do romance. Tony tem cerca de 60 anos, uma reforma simpática de um emprego inócuo como administrativo, uma filha, dois netos e uma ex-mulher com quem ainda se dá, Margaret (a mulher transparente em oposição à mulher misteriosa que fora Veronica). Antes de nos relatar que acaba de receber uma carta a informá-lo de que a falecida mãe de Veronica lhe deixou por herança quinhentas libras e o diário de Adrian, Tony recorda uma frase muito citada pelo velho amigo de escola: “A história é essa certeza que se produz no ponto em que as imperfeições da memória se cruzam com as insuficiências da documentação.” É nela que reside a chave d’O Sentido do Fim.
Julian Barnes sempre afirmou que os seus livros “contam uma história que conta a verdade”. Agora, interessa-lhe o tempo pessoal, “que é o tempo verdadeiro”, “medido na nossa relação com a memória”. Até perceber de facto esta acepção, Tony busca infrutiferamente o tempo perdido e busca corrigi-lo. O jogo de Barnes, meticulosamente planeado, é o de fazer prova literária da convicção juvenil de Tony de que “o romance trata do carácter revelado ao longo do tempo”. Em O Sentido do Fim, a revelação é estrategicamente confessional, retrospetiva e inconclusiva. O diário de Adrian poderia ser a confirmação, o testemunho, “desfazer as banais reiterações da memória”, mas dele, nós e Tony, só viremos a conhecer fragmentos. Resta-nos acompanhar a revisão do passado no presente levada a cabo por Tony. Acompanhá-lo no choque agitado entre a essência humanamente insegura e imprecisa e os paradoxos do tempo; afinal, a verdadeira matéria literária. “O carácter revela-se com o tempo? Nos romances, é claro. Mas na vida? Às vezes fico a pensar.” Seguimos de braço dado. 

LER/ Janeiro 2012
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

terça-feira, março 06, 2012

Diálogos sobre a Ciência e o Homem - Primo Levi e Tullio Regge


Em diálogo, o químico Primo Levi e o físico Tullio Regge fundem ciência e biografia.
Em 1984, o químico e escritor Primo Levi e o físico Tullio Regge encontram-se na casa deste último, em Turim, para gravar três conversas sobre a ciência e o mundo. Regge tem 53 anos, Levi tem 65 e falecerá três anos depois, em 1987, no que ainda se questiona ter sido um suicídio ou um acidente. O pequeno volume Diálogo sobre a Ciência e os Homens reproduz o essencial do encontro informal entre os dois, uma homenagem póstuma de Regge ao mais famoso sobrevivente-testemunha de Auschwitz, também um homem de ciência possuidor de «uma curiosidade omnívora sobre tudo».
Na introdução, datada de 1989, Regge esclarece que, ao longo da conversa, foram privilegiados os seus assuntos prediletos porque ele mesmo se conteve em questionar Levi sobre Auschwitz. A certa altura, Levi estendeu o braço e ficou visível o número tatuado no pulso. Esse foi um dos poucos momentos em que, brevemente, foi referida a experiência como prisioneiro. Mas Regge revela a surpresa com que leu o livro de memórias O Sistema Periódico (Gradiva), de 1975, no qual Levi associa várias personagens-personalidades reais (entre elas, um químico nazi alemão, chefe de um campo de concentração) a elementos químicos específicos. E é, de facto, no testemunho de uma fusão entre a realidade da ciência, da vida e da ficção que consiste também o interesse deste livro.
Empolgado, Primo Levi diz que «pôr alguma coisa no seu devido lugar» é a aventura mental comum ao poeta e ao cientista. Conta como, em criança, assistia ao crescimento dos cristais numa lamela como se visse um filme. Explica que é do contacto com «uma química “baixa”, quase culinária» que lhe vêm a «precisão e concisão» na escrita, «uma vasta coleção de metáforas» e uma grande paciência. Aos 65 anos, desenha no computador e diverte-se como uma criança. Tullio Regge assegura que, «se pudesse reencarnar, escolheria ser músico». Dois homens conversam sobre a importância do hebraico ou do latim, as origens familiares, o ensino da ciência e a rebeldia da vocação científica, o encontro com grandes génios, a teoria do campo unificado, os limites entre ciência, ficção científica e metafísica ou o futuro do homem no espaço. Levi e Regge em diálogo mostram como a ciência contaminou toda a sua biografia.

Diálogo sobre a Ciência e os Homens, Primo Levi e Tullio Regge, Gradiva, 106 págs.

SOL/ 17-02-2012
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)