Eça de Queirós e Os Maias por Carlos Reis no ciclo «Nós e os Clássicos». Amanhã, quarta-feira, às 19 h, na Livraria Almedina no Atrium Saldanha. Venham, venham...
Karl Marx, o intelectual mais influente dos tempos modernos, nunca pôs os pés numa fábrica, nunca pagou à sua criada, fumava e bebia imenso e, para cúmulo, detestava lavar-se. Enquanto escrevia O Capital, a extrema falta de higiene íntima provocou-lhe furúnculos no rosto, nas nádegas e no pénis. Leon Tolstoi, o mestre das descrições da Natureza, apostado na regeneração do homem e da sociedade, foi um egocêntrico snob, cruel e infantil, e, durante anos, um viciado em jogo e prostitutas. Jean-Paul Sartre, o papa do existencialismo, pregou a acção, mas nunca fez nada efectivo pela Resistência francesa. A feminista Simone de Beauvoir, com quem não se quis casar, apoiou-o sempre como chauvinista predador de alunas, amantes e «adoptadas». Norman Mailer serviu-se da vida privada como forma de autopromoção pelo escândalo, defendeu a violência contra as inibições sociais e respondeu a um ralhete da segunda mulher com várias punhaladas de canivete nas costas e no abdómen. Casos para dizer, como Ezra Pound, que «uma pessoa tem o direito de esperar uma trivial decência, mesmo da parte de um poeta»? Afinal, que importância tem o conhecimento da vida privada de um intelectual para a compreensão e legitimidade da sua obra ou afirmação pública? Respondem João Pereira Coutinho, Lídia Jorge, Maria Filomena Mónica, Miguel Esteves Cardoso, Pedro Mexia e Teresa Rita Lopes.
O ponto de partida para a discussão é Intelectuais, ensaio lançado em 1988 em Inglaterra e agora traduzido pela Guerra & Paz. O autor, Paul Johnson (n. 1928, historiador e jornalista), define-o como um livro de «análise da credibilidade moral e crítica que determinados intelectuais [seculares] bastante conhecidos podem ou não ter para dar conselhos à humanidade e indicar-lhe a forma de comportamento mais correcta». São doze as vítimas principais, com direito a capítulos isolados: de Rousseau, Shelley, Marx ou Ibsen a Tostoi, Hemingway, Brecht, Bertrand Russell e Sartre. No final, sob o título «Fuga da Razão», Johnson alinha ainda referências a George Orwell, Norman Mailer ou Fassbinder. Após mais de 400 páginas de verrinosa, mas bem documentada, exploração dos mais sórdidos aspectos da vida privada deste desfile de notáveis, conclui: «[Os intelectuais] não só devem ser mantidos bem distantes dos círculos de poder, como devem ser objecto de especial suspeita sempre que se oferecem para dar conselhos colectivos.»
O escritor Miguel Esteves Cardoso (MEC) é cabal. Costuma ler, e agradam-lhe, as crónicas de Johnson nos jornais ingleses, reconhece-o como «o único contemporâneo que sabe escrever a metro - e bem», elogia os seus ensaios históricos sobre o Judaísmo e os Estados Unidos da América, mas Intelectuaisnão passa de um livro preguiçoso e reaccionário.«É desprezível e filisteu, feito para dizer mal do não-pictórico; do não-óbvio; do arriscado; do novo. Johnson é um homem culto nas coisas de salão, mas selvático nas coisas da arte.» Como ex-alinhado à esquerda, convertido ao conservadorismo, Johnson não é, ele próprio, um caso exemplar de coerência moral ou política. As farpas que lança a Marx, recorrendo a referências a furúnculos e filhos enjeitados, exemplificam bem uma «necessidade terrível de destruir», de matar o pai. Mas, apesar de ter sido escrito por um anti-modernista feroz, Intelectuais põe o dedo numa das feridas da contemporaneidade: para que servem os intelectuais?
Formados pelo racionalismo do século XVIII e pelo positivismo do século XIX, os intelectuais substituíram o clero como consciência crítica e propositiva da sociedade. Maîtres à penser, generalistas das ideias, utopistas, empenhados, foram sempre, se considerados fora das categorias corporativo-académicas, «uma figura ambígua, pouco concreta, fugidia, sociologicamente difícil de determinar» (João de Almeida Santos-JAS, em Os Intelectuais e o Poder, Fenda, 1999). Hoje, perdido o poder unificador da Razão enquanto «filtro da vida em sociedade», eles vêem modificadas, difusas ou mesmo perdidas, as suas funções e mandatos legitimadores.
A escritora Lídia Jorge chega a declarar o quase total desaparecimento dos intelectuais. A substituí-los no seu papel de porta-voz privilegiado, estarão talvez uns poucos comentadores ou cronistas da área política. O trono, esse, foi entretanto ocupado pelas «figuras públicas, uma criação dos meios audiovisuais». «Uma tirada bem aplicada de um boieiro pode valer mais, para fazer passar uma razão, do que a de um catedrático», um filósofo ou um escritor, hoje afastados do lugar mediático, «aquele onde se existe no mundo contemporâneo».
A ideia de que «todos os homens são filósofos» (Gramsci) e a laicização integral da vida moderna, deixou os intelectuais «tocar no fundo» (JAS). Paradoxalmente, a redução da sua margem de intervenção pública é proporcional ao aumento da supremacia dos saberes especializados. Explica o professor universitário, jornalista e comentador político João Pereira Coutinho: «A desvantagem [da especialização] está na incapacidade dos intelectuais de hoje de terem um visão de conjunto sobre o homem e a natureza humana. Como diria um velho filósofo inglês, Michael Oakeshott, ninguém combate ditadores com um conhecimento detalhado da balança de pagamentos...» Talvez por isso os intelectuais, eles mesmos, se tenham afastado da praça pública, recuando para o silêncio, a utopia ou o protesto surdo e ressabiado. Ao radicalismo da acção empenhada, sobreveio a melancolia. Ainda assim, atenção, «muitas vezes aquilo a que se chama cobardia [do intelectual] não passa de uma hesitação perante realidades em conflito quando se desconhece uma parte da situação» (Lídia Jorge). Nem clérigo, nem revolucionário, entalado entre o pensamento e a acção, o intelectual desceu à terra. Que é como quem diz, ao inferno dessa «terra de ninguém e de todos que é o limiar da diferença e da identidade» (JAS).
A própria palavra, «intelectuais», esboroou-se até desembocar, muitas vezes, numa entoação pejorativa. Para ilustrar esta evidência, nada melhor do que a pequena história, aqui introduzida pela poetisa, dramaturga e ensaísta Teresa Rita Lopes. «Uma vez, em Paris, há anos já, quando os automóveis ditos dois cavalos ainda rolavam, fui alvo de uma chacota por parte de um passante: “Ah, ces intellectuels!” De facto, nessa altura, enquanto os operários ostentavam magníficas “voitures”, os “intellectuels”, mesmo endinheirados, gostavam de circular em carros destes, em fato-macaco.»
Mas, o que distingue um intelectual de qualquer outro homem e cidadão? Apenas a sua obra? A sua opinião? Ou, também, os reflexos cruzados entre as duas e a sua vida privada? «Os intelectuais, tal como os artistas em geral, são pessoas com mau carácter», alerta Pedro Mexia, crítico literário, poeta, cronista, bloguista, actual director interino da Cinemateca Portuguesa. De onde lhe vem a convicção? «Da experiência de contacto pessoal e da leitura de biografias.» Quase sem excepção, são gente com «maus hábitos», assegura MEC. Como na anedota: para quê ir para o Céu, se no Inferno é que estão as pessoas interessantes?
Por se posicionar originalmente «à margem [crítica] da Igreja, tida por obscurantista ou intolerante» (Pereira Coutinho), o intelectual secular aliou a ética à estética, e afirmou-se como «moralista da acção». No entanto, como defende Lídia Jorge, cedo se percebeu que «esse clérigo sem mancha, naturalmente, deveria ter algumas nódoas escondidas». «Retroactivamente, terá imensas, será só procurar com minúcia e perseverança». Ou talvez baste olhar a História à vista desarmada, como o faz Pereira Coutinho: «Essa crítica às instituições estabelecidas nem sempre foi extensível a outros tipos de absolutismo, a começar, desde logo, pelo despotismo iluminado. Isso deve-se à forma insensata como o intelectual secular deificou a Razão, acreditando que ela, e só ela, teria o papel definitivo na condução das sociedades humanas a um estado de perfeição terrena. Deu no que deu, e logo no século XVIII, quando a Revolução Francesa começou a devorar os seus filhos.»
Em Intelectuais, é inegável a intenção do autor, profundamente católico. Fala em «credibilidade moral» e dispara por aí contra as discrepâncias entre os vícios privados e as públicas virtudes dos intelectuais. O princípio, garante MEC, «é abjecto». «Os intelectuais, como os poetas, são pessoas que produzem pensamentos, e os pensamentos devem ser considerados como pensamentos. Não existe nada mais sublime do que a filosofia política. Por isso é que Marx é bonito; porque nos ensina como nos devemos dar bem uns com os outros. Comparar a filosofia política com a vida privada é uma falácia. Corresponde ao ódio ao intelectual por parte de alguém que não é capaz de ler a obra ou de se confrontar com o sublime.» Desenterrar a vida dos grandes pensadores ou artistas criadores, conclui, «é sempre, e não passa, de pura bisbilhotice».
«A credibilidade moral de um intelectual é zero», diz a socióloga Maria Filomena Mónica, licenciada em Filosofia, doutorada em Sociologia, com extensa bibliografia ensaística publicada. E justifica: «A capacidade para se distinguir entre o Bem e o Mal é diversa da aptidão para se discorrer sobre física quântica, proferir uma conferência sobre Hegel ou escrever um ensaio sobre Durkheim.» Mas, insiste-se, é possível separar, por exemplo, a obra de um escritor da sua biografia? Sim, mas não totalmente. Veja-se o caso de Eça de Queirós, de quem a investigadora assinou uma reveladora biografia (Eça de Queirós, Círculo de Leitores/Quetzal, 2000). «A análise de um texto não deve ser feita como se de uma bíblia se tratasse», porque «a obra é escrita por um ser de carne e osso, com um trajecto, com emoções e com manias». Já não faz sentido, garante Maria Filomena Mónica, abordar em absoluto a obra como entidade autónoma, como o defendeu, nos anos 20 e 30, um movimento em que se incluíam T.S. Eliot e Cleanth Brooks, depois adoptado em França, por oposição ao Marxismo. Relativizar os casos e as abordagens, parece ser o mote, num momento em que é generalizada a consciência de que a obra e a vida de um autor se desenvolvem e exprimem em planos diferentes.
«A obra, à partida, tende a ser uma transfiguração, essa é a sua essência», assegura Lídia Jorge. «Há obras geniais repassadas de humanidade, saídas da mão de criadores a quem não se pode confiar durante uma hora o nosso animal de estimação, e há artistas boas pessoas que não conseguem fazer uma obra que vá além do sofrível. Entre uma e outra espécie, existe uma variedade de combinações infinitas.» Até pode ser, como Teresa Rita Lopes advoga, que a pessoa do grande criador não seja, em geral, digna da sua obra. E que da vida de muitos dos grandes, dos maiores, como Ovídio, Homero ou Shakespeare, não se conheça mesmo nada; e seja melhor assim (MEC). Mas há excepções, e o exemplo de Fernando Pessoa prova-o sem dúvidas.
Teresa Rita Lopes é um dos mais prestigiados investigadores pessoanos. No início, dedicou-se apenas à obra. Nessa altura, e de acordo com as convicções da sua geração de investigadores, o seu fascínio pelo poeta foi ensombrado pelo incómodo de se julgar Pessoa como um reaccionário. Hoje, conta: «Só mais tarde, quando me enfronhei na arca, vi que era mentira. Que até tinha denunciado “o sovietismo direitista do Estado Novo”. Que tinha escrito ao Presidente da República para demitir Salazar – a quem chamou “seminarista da contabilidade”, “aldeão letrado” e outros mimos assim. Que tinha ameaçado os reaccionários, gritando-lhes mesmo: “Amigos reaccionários: em guarda!” De descoberta em descoberta, apeteceu-me escrever-lhe a biografia [que está neste momento a finalizar].» No caso de Pessoa, garante, faz sentido falar de «vida-obra» ou «obra-vida». Até porque, se o poeta modernista se declarou incompetente para a vida («a sua certidão de óbito é toda na negativa: não casou, não teve filhos, não deixou bens»), os heterónimos que criou viveram intensamente por ele. «Essas vidas sonhadas também fazem parte da sua vida. E, curiosamente, expurgam-na catarticamente do que a sua, a do pacato cidadão, poderia ter tido de censurável. No “Poema em linha recta”, Álvaro de Campos exibe as suas “vergonhas”, financeiras e tudo. Noutro diz que “a alma humana é porca como um ânus”. Na “Ode Marítima” exibe o seu masoquismo e o seu sadismo. No “Opiário” fuma ópio na esteira do poema. Ora Pessoa, na sua própria pessoa, pôde assim não ser drogado, nem sádico, nem masoquista nem desonesto financeiramente. Pelo contrário, foi o que se chama uma “pessoa respeitável” – todos os testemunhos o dizem – e os escritos vão-nos informando de que sempre pugnou pelos direitos humanos, desde rapaz, já em Durban: foi contra as potências colonizadoras, Inglaterra e, mais tarde, o Portugal salazarista (escreveu várias vezes que não precisávamos das colónias para nada). Foi, sempre antibelicista (não só no “Menino de sua Mãe”). E, acreditando no que dele disse o seu discípulo Adolfo Casais Monteiro, foi o espírito mais livre que ele conheceu.»
Miguel Esteves Cardoso admira incondicionalmente a obra de Samuel Beckett, Thomas Bernhard ou Ezra Pound. São os seus escritores-fétiche, os seus ídolos. Daí que, na condição de fã, queira saber tudo sobre eles, biografia e marginália incluídas. «Mas faço-o como as pessoas lêem a Caras», garante. O essencial, «bisbilhotice» à parte, não deixa nunca de ser «a obra, a obra e a obra». Mas, recentre-se entretanto a questão nos «intelectuais». Pereira Coutinho distingue neles os estetas (os escritores) e os moralistas, «que se apresentam com exigências de verdade sobre os outros». No caso destes últimos, «a vida da criatura é importante», já que pode pôr em causa a sua «autoridade moral» e, com ela, «a sua autonomia estética». Na base, está a convicção de que a estética não pode ser totalmente desligada da ética: «Se fosse totalmente independente, como os estetas radicais defendem, correríamos sérios riscos de elogiar a belíssima arquitectura dos campos de extermínio nazis.» Pedro Mexia acorre, afirmando: «O caso dos intelectuais não é muito diferente do dos políticos, quanto à possibilidade de a sua vida privada poder impugnar as ideias apresentadas ou defendidas em público. A vida privada é sempre irrelevante, excepto em casos de hipocrisia flagrante.» Matéria explosiva, esta. Paul Johnson escarafunchou na ferida, vêmo-la agora bem aberta.
No debate recente sobre o referendo relativo à lei do aborto, Lídia Jorge defendeu publicamente a despenalização. Fê-lo como cidadã, com os argumentos que tinha para oferecer, e não «como intelectual». Em casos assim, acrescenta, «não [lhe] parece que funcione a ideia de notoriedade, mas de utilidade»: «É uma maneira de escrever o tempo de outra forma.» Em determinados momentos e debates, «as pessoas relacionadas com o conhecimento e as artes clássicas ainda têm sido chamadas a prestar contas da sua consciência em público». Jamais se deverá confundir isso com a obra, ainda menos com a vida privada. Essa mistura, afirma a escritora, «é detestável, boa apenas para as histórias de cordel».
François Mauriac escreveu: «Não podemos dominar a nossa obra senão na medida em que dominarmos a nossa vida.» A tomar a afirmação como válida e numa sociedade em estado de «adormecimento videocrático» (JAS), as dificuldades são acrescidas. Como separar a exposição e afirmação pública de um intelectual do homem por detrás dela ou da personagem pública que criou para si mesmo? Pedro Mexia é peremptório: «A construção de uma figura pública é absolutamente necessária para não se ser engolido e, também, como auto-protecção. É preciso ter um boneco, um avatar. Masnão é um boneco real; é um boneco; ou, quando muito, é as duas coisas ao mesmo tempo.» Não se confunda, pois, o Pedro Mexia do blogue ou das crónicas com o Pedro Mexia privado. « Por razões mais estéticas do que éticas, não há ficção nas minhas crónicas. Costumo dizer que em público falo sobre a minha vida íntima, mas não sobre a minha vida privada. Escrevo sobre factos anedóticos e triviais, especulações, divagações e emoções íntimas e intimistas, porque não são só minhas; toda a gente as tem. Coisas confessionais, datas, factos ou nomes reais? Isso, jamais.»
Maria Filomena Mónica fê-lo, na sua biografia, Bilhete de Identidade: Memórias 1943-1976, publicada pela Quetzal em 2005. Expor publicamente dados biográficos privados, seus e em relação com outros, teve consequências negativas na sua vida privada e académica, revela hoje. É-lhe difícil identificar qual a dimensão mais incómoda ou controversa da publicação do livro. As críticas, diz, «chegaram[-lhe] só indirectamente – de forma covarde». Mauriac poderia responder: «Cada palavra escrita é a pincelada onde se reconhece todo o pintor.» Mas saberemos mesmo mais sobre Marx conhecendo-lhe os furúnculos? A opinião é unânime: com certeza que não.
— Estás a precisar de um corte de cabelo - comentou o Chapeleiro. Há já muito tempo que fitava a menina com grande curiosidade, e foi a primeira coisa que disse.
— Devias aprender a não fazer reparos pessoais — disse Alice, um tanto bruscamente — É uma grande falta de educação.
O Chapeleiro abriu muito os olhos ao ouvir estas palavras, mas limitou-se a inquirir:
— Porque é que um corvo se parece com uma secretária?
«Vá lá, parece que agora vamos divertir-nos um bocado!», pensou Alice. «Ainda bem que começaram com as adivinhas.»
— Penso que consigo achar uma resposta — acrescentou ela, em voz alta.
— Então devias dizer o que pensas — continuou a Lebre de Março.
— E digo — apressou-se Alice a responder —... pelo menos, penso o que digo... é a mesma coisa, sabes?
— Não é nada a mesma coisa! —protestou a Lebre de Março — Ora, nesse caso também podias dizer que «Vejo o que como» é a mesma coisa que «Como o que vejo»!
— E bem podias dizer — acrescentou a Lebre de Março — que «Gosto do que tenho» é a mesma coisa que «Tenho o que gosto»!
—Bem podias dizer — intrometeu-se o Arganaz, que parecia falar a dormir — que «Respiro enquanto durmo» é a mesma coisa que «Durmo enquanto respiro»!
— Para ti é a mesma coisa — lembrou o Chapeleiro, posto o que a conversa esmoreceu, e o grupo fez um minuto de silêncio, enquanto Alice pensava em tudo o que se podia recordar acerca de corvos e secretárias, e que não era muito.
in Alice no País da Maravilhas, tradução (excelente) de Margarida Vale de Gato, Relógio D'Água
«Jovem heroína de Alice no País das Maravilhas (1865) e Alice Através do Espelho (1871), contos para crianças de Lewis Carroll. De certo modo projectada num universo fantástico, Alice, não é, afinal, mais do que uma rapariguinha inglesa educada no culto das boas-maneiras e que observa, imperturbável, as singularidades dos outros, desde que estas não contrariem os seus próprios interesses. A pequena Alice do livro adora os animais. Não espanta, pois, que o seu sonho seja quase só habitado por animais humanizados. Embora não lhes seja insensível, as crianças interessam-lhe pouco. É preciso fazê-la sair do mundo real para que se perca numa outra realidade, a do sonho e da lenda. Contudo, e apesar disso, ela sabe «que, para regressar à realidade, bastar-lhe-ia abrir os olhos». Mas por quê abri-los, se, desde que os mantenha fechados, lhe aparece um outro mundo e muito mais divertido? Este mundo que Alice descobre não é propriamente um reino de fábula, mas antes uma longa viagem deliberada até ao país do «sem-sentido». Todavia, nesta aventura, ela permanece de cabeça fria. Clarividente, segue apaixonadamente o jogo sem jamais se deixar levar totalmente por ele. As múltiplas transformações sofridas pelo seu corpo - ora gigante, ora anã - não chegam a assustá-la: despertam a sua curiosidade e, até certo ponto, divertem-na. O fundo da natureza de Alice é uma confiança ingénua e inabalável.»
Citação incompleta e tradução muito livre da entrada «Alice/de Carroll», no Dictionnaire des Personages, Laffont-Bompiani.
Quando se mata, morre-se? Não. Renasce-se. Porque, na verdade, não fui eu quem morreu há pouco, quando senti o primeiro coice a atingir-me no ombro. O dedo não parou de dar ao gatilho, duas, três, mais vezes. Os olhos não pararam de ver enquanto os corpos se erguiam ou tombavam por entre a névoa. Os ouvidos não pararam de ouvir.
Já tinha escurecido e estava a ficar mais frio. A chuva parara e uma brisa suave e quente remexia as folhas. Isso foi antes. E imediatamente depois. No meio, apenas um som ruidoso de mais, intenso de mais, repercurtindo-se para lá do embate nos corpos, nas árvores e no solo, projectando-se até ao céu. Era o som que se elevava, não os clarões da trajectória cruzada das balas ou da chuva de granadas-de-mão ou dos morteiros 82 a rebentarem nas copas dos imbondeiros. Era o som que, em torno de mim, suspendia os gestos na rapidez de cada ataque e de cada esquiva. Era o som que furava as nuvens e as obrigava a apartarem-se. Eu ouvia-o algures cá dentro, estilhaçando cada célula e cada nervo e transformando-se num desejo imparável de matar. Um. Dois. Três. MAIS! Uma ladainha, um refrão dos meus nervos, um monstro a devorar-me o cérebro: pim pam pum, cada bala mata um…
Os corpos em frente eram apenas bonecos de corda desarticulados pelas minhas mãos. Mãos cruéis de criança curiosa. Agora um braço, PIM! Agora uma perna, PAM! Agora uma cabeça, PUM! Agora eu, cada vez mais forte, cada vez mais possante, montado a galope no cavalo de pau da G3 a escoicear no meu ombro. Eu e a minha vontade elástica de disparar o medo e de o rebentar por dentro, com um estrondo suficientemente forte, suficientemente igual ao que me estoirava os ouvidos antes de se perder dentro de mim. Eu, cada vez mais vivo. Eu, sozinho, embriagado de mim mesmo, a avançar por entre um emaranhado de árvores nuas e corpos desfeitos. Eu, com as amarras cortadas. Eu, decidido a matar tudo o que estava fora de mim. Eu, a ir até ao fim.
Quando se mata, ensurdece-se. E há vozes vindas de longe e de perto que chocam entre si, confundidas pela ausência de palavras e pela inutilidade dos gritos. Por isso é impossível dizer a morte se não respondendo-lhe com um som igual, desabitado e surdo. Um gorjeio cru como o rebentar de um cérebro em borbotos de sangue, miolos e cabelos: Morre!
MORRE! Quero que sejas só a sombra que em frente vejo diluir-se como a chuva dissolve a terra e a faz cheirar a bicho. Quero ser eu o bicho que mata, o bicho que sobrevive, percebes? PERCEBES? Não importa se tu também tens um brinquedo como o meu e mo apontas a mim no escuro. PUM! Não me importa se corres para mim de peito aberto e gritas: «Bala não mata! Bala não mata!» Vais saber a verdade; a tua cabeça é um berlinde que os meus dedos disparam com um tiro só. PUM! Vês agora? Eu sou o bicho mais rápido, o bicho mais forte, o bicho que já não vê, só ouve. ESCUTA. A morte é como o bater do coração que sentimos a latejar nos membros todos, um coração do tamanho da parada, com forma de bicha pirilau a avançar pela mata e pronta a estrebuchar às guinadas, enrolada sobre si mesma, a esconjurar a «Pátria Amada» na berma de uma picada qualquer. «Porra p'ra esta merda, nunca mais despacham isto!» Eu só quero acabar isto e espetar o focinho da espingarda na terra e renascer abraçado a ela como a um brinquedo que mais ninguém tem. Embalá-la em silêncio enquanto eles não chegam. Somos só nós dois os naúfragos neste mar de mortos. Não há mais ninguém.
Vamos brincar a «ver quem fica morto mais tempo» e perde quem abrir os olhos. Agora eu. E o meu dedo-gatilho, encostado à têmpora e pronto a atirar. Só mais uma vez. PUM. Uma bala encurralada dentro de mim e eu capaz de rir à gargalhada. Capaz de morrer a rir. Uma bala a estraçalhar-me as entranhas com dentadas metálicas, enraivecida por não encontrar a saída. Uma bala só, cumpridora: pim pam pum, cada bala mata um… Isso foi depois. No meio, era o meu dedo no gatilho a disparar a morte aos coices, a distribuí-la à vez. Quem quer mais? TOMA! Estás morto. E não vale levantares-te de novo, eu não páro. Eu estou mais vivo do que nunca e ninguém me pára. Quando se mata, renasce-se.
MORRE!
Eu fico. E continuarei a ser. Um dia, longe da náusea deste cheiro a tédio, a sangue, a pólvora e a medo, descerei do cavalo e a noite estará calma e a ficar fria, só com uma brisa suave e quente a remexer as folhas e nem isso chegará para abafar o silêncio. Um silêncio definido e seco, cacimbado. Límpido e inteiro como eu e o meu corpo. Então sim, terei matado e morrerei.
Mas, para já, escavo o meu abrigo com a baioneta da espingarda. Vou ser eu mesmo a abrir a minha cova, a disparar o «coup de grâce». Eu sou o meu próprio caixão. Quando se mata, fica-se sem nada e parte-se sozinho. Sou um miúdo com os bolsos furados. Espalhei os tesouros enquanto marchava no pó.
Como o que resta da ração de combate, lata de anchovas ainda mais apimentada pelas formigas, maning bom! Não procuro nada, não quero encontrar nada. Não tenho nada que me prenda aqui, a este buraco de nada no meio de mapa nenhum. Um jornal A Bola de há um mês, limpo o cu nas tácticas nacionais. A garganta a uivar de sede. Na cabeça, o sol a pino. Deixem-me só seguir. AFASTEM-SE! Quero andar até as minhas pernas explodirem. Deixem-me em paz. Por favor, deixem-me em paz. Já não jogo mais. Para mim, a guerra acabou. Eu serei um dos vossos troféus, não me importo. Desde que me deixem sair daqui. DEIXEM-ME IR! Suplico.
Foi ainda há pouco e eu lembro-me. Aos solavancos no unimogue, abrimos pela noite como traças à procura da luz. Os tugas que arrumaram os turras. Trazemos connosco o Sesimbra e o Américo já cadáveres desarticulados e o Sousa está mais p'ra lá do que p'ra cá, tem o bucho aberto num buraco do tamanho de um punho. Mas vingámo-los bem. Somos os «filhos da Pátria» que deram cabo dos «filhos da puta». Adeus mãe, até ao meu regresso. Vim de matar e morrer. Sou bravo e valente, um homem crescido. Mas queria a tua mão a afagar o meu cabelo. Sentar-me ao teu colo e enterrar o meu rosto nas tuas mamas quentes. Morder os teus mamilos e sorver leite a saber a sangue. Deitar-me na camarata contigo.
NÃO VÁS! Quero morrer e matar de prazer. Eles não sabem nada, não vão saber. Que te vou fazer um filho para o império. Semear em ti uma emboscada, uma bomba-relógio. Eu sou mais eficaz do que uma mina. Estou a rebentar de seiva, mais esganado que os cães. De gatas, imploro-te: Não vás... De que serve este membro na minha mão, a minha arma? A pátria a latejar neste pedaço de carne, toda contida nesta tesão de raiva. Vou cair sobre ti como numa «queda-na-máscara», as pernas flectidas para amortecer o impacto. Cheiras a bicho e és a minha mãe preta. Vais pôr fim à minha guerra quando eu te ocupar toda com a minha pulsão de morte. Vou-te encher de mim e fazer estoirar esta cova opaca onde me escondi. VEM!
Tenho um caixão à minha espera e é muito apertado para mim. Um rectângulo de merda, plantado à beira do mar. Quatro paredes caiadas de negro, com o retrato de um homem impotente na parede. Injectou-nos ar nas veias, insuflou-nos com o orgulho nacional. «Quais forem as dificuldades que se nos deparem no nosso caminho, os sacrifícios que se nos imponham para vencê-las, não vejo outra atitude a tomar que não seja a decisão de continuar.» Rapidamente e em força. Portugal! Portugal! Angola é nossa! Angola é nossa! ANGOLA É NOSSA! Que importa se a mata grunhe: Upa! Upa! Upa! Viva! Viva! Viva! Preparem as espingardas. Eles afiam as catanas com limas. Havemos de nos encontrar no meio da mata, no centro do anel de fogo. Vou espetar a tua cabeça numa estaca. Depois de jogar à bola com ela. Exibir-te à beira da estrada como aquele que não ressuscita. Estás morto, mortinho da Silva. Entrei no nicho do deus zumbi a cavalo da «reacção operacional». A cavalo de mim. Eu sou uma vala aberta e o meu nome é Portugal. VEM!
O nevoeiro chegou de mansinho. Esta é uma guerra sem quartel. Mucondo, Quicundo e Muxaluando... Quixico, Quipedro. Zala é já aqui e o Sagrado Coração de Maria continua connosco. Temos uma bandeira para içar. Portugal! Portugal! Portugal! Ainda sonho com o calor, colado à nuca como um escarro. Sinto a mata a vomitar-me, as espinheiras a rasgar-me os braços e a cara. Este é um ângulo morto, e eu um estilhaço em fragmentação. Uma bisca lambida no meio do nada. Os meus olhos viram tudo, não os consigo arrancar. Já não leio o terreno em frente, estou em posição de rajada e não sei para onde atirar. Escuta só, não mexas o dedo no gatilho. Agarra! Agarra! Agarra! As botas batem no chão duro. A malta enfia-se nas valas. Cheira a urina e a fezes. Havemos de os vingar. Vai ser um ataque de mão. Agora. AGORA!
Mãe?! És tu, a costurar noite fora? É a minha mortalha o que coses? És tu que rezas no escuro? Calou-se o matraquear e posso ouvir-te melhor. Quando se morre, sabe-se. Tu sabes o que eu vim cá fazer. Diz-me. Eu não me mexo, juro. Não me mexo. JURO! Quero ficar aqui quietinho, o corpo moldado na lama, só mesmo a olhar para ti. Deram-me um cavalo manco e as esporas cravadas em mim. Mãe, venho de matar e morrer. Eles estão mesmo a chegar. Não os deixes fechar-me os olhos. Vou ficar aqui quietinho, só mesmo a olhar para ti. E para as nuvens à desfilada. Ordem-unida.
Quando se mata, morre-se? Não. Renasce-se. Porque, na verdade, não fui eu quem morreu há pouco, quando senti o primeiro coice a atingir-me no ombro. O dedo não parou de dar ao gatilho, duas, três, mais vezes. Os olhos não pararam de ver enquanto os corpos se erguiam ou tombavam por entre a névoa. Os ouvidos não pararam de ouvir.
Já tinha escurecido e estava a ficar mais frio. A chuva parara e uma brisa suave e quente remexia as folhas. Isso foi antes. E imediatamente depois. No meio, apenas um som ruidoso de mais, intenso de mais, repercurtindo-se para lá do embate nos corpos, nas árvores e no solo, projectando-se até ao céu. Era o som que se elevava, não os clarões da trajectória cruzada das balas ou da chuva de granadas-de-mão ou dos morteiros 82 a rebentarem nas copas dos imbondeiros. Era o som que, em torno de mim, suspendia os gestos na rapidez de cada ataque e de cada esquiva. Era o som que furava as nuvens e as obrigava a apartarem-se. Eu ouvia-o algures cá dentro, estilhaçando cada célula e cada nervo e transformando-se num desejo imparável de matar. Um. Dois. Três. MAIS! Uma ladainha, um refrão dos meus nervos, um monstro a devorar-me o cérebro: pim pam pum, cada bala mata um…
Os corpos em frente eram apenas bonecos de corda desarticulados pelas minhas mãos. Mãos cruéis de criança curiosa. Agora um braço, PIM! Agora uma perna, PAM! Agora uma cabeça, PUM! Agora eu, cada vez mais forte, cada vez mais possante, montado a galope no cavalo de pau da G3 a escoicear no meu ombro. Eu e a minha vontade elástica de disparar o medo e de o rebentar por dentro, com um estrondo suficientemente forte, suficientemente igual ao que me estoirava os ouvidos antes de se perder dentro de mim. Eu, cada vez mais vivo. Eu, sozinho, embriagado de mim mesmo, a avançar por entre um emaranhado de árvores nuas e corpos desfeitos. Eu, com as amarras cortadas. Eu, decidido a matar tudo o que estava fora de mim. Eu, a ir até ao fim.
Quando se mata, ensurdece-se. E há vozes vindas de longe e de perto que chocam entre si, confundidas pela ausência de palavras e pela inutilidade dos gritos. Por isso é impossível dizer a morte se não respondendo-lhe com um som igual, desabitado e surdo. Um gorjeio cru como o rebentar de um cérebro em borbotos de sangue, miolos e cabelos: Morre!
MORRE! Quero que sejas só a sombra que em frente vejo diluir-se como a chuva dissolve a terra e a faz cheirar a bicho. Quero ser eu o bicho que mata, o bicho que sobrevive, percebes? PERCEBES? Não importa se tu também tens um brinquedo como o meu e mo apontas a mim no escuro. PUM! Não me importa se corres para mim de peito aberto e gritas: «Bala não mata! Bala não mata!» Vais saber a verdade; a tua cabeça é um berlinde que os meus dedos disparam com um tiro só. PUM! Vês agora? Eu sou o bicho mais rápido, o bicho mais forte, o bicho que já não vê, só ouve. ESCUTA. A morte é como o bater do coração que sentimos a latejar nos membros todos, um coração do tamanho da parada, com forma de bicha pirilau a avançar pela mata e pronta a estrebuchar às guinadas, enrolada sobre si mesma, a esconjurar a «Pátria Amada» na berma de uma picada qualquer. «Porra p'ra esta merda, nunca mais despacham isto!» Eu só quero acabar isto e espetar o focinho da espingarda na terra e renascer abraçado a ela como a um brinquedo que mais ninguém tem. Embalá-la em silêncio enquanto eles não chegam. Somos só nós dois os naúfragos neste mar de mortos. Não há mais ninguém.
Vamos brincar a «ver quem fica morto mais tempo» e perde quem abrir os olhos. Agora eu. E o meu dedo-gatilho, encostado à têmpora e pronto a atirar. Só mais uma vez. PUM. Uma bala encurralada dentro de mim e eu capaz de rir à gargalhada. Capaz de morrer a rir. Uma bala a estraçalhar-me as entranhas com dentadas metálicas, enraivecida por não encontrar a saída. Uma bala só, cumpridora: pim pam pum, cada bala mata um… Isso foi depois. No meio, era o meu dedo no gatilho a disparar a morte aos coices, a distribuí-la à vez. Quem quer mais? TOMA! Estás morto. E não vale levantares-te de novo, eu não páro. Eu estou mais vivo do que nunca e ninguém me pára. Quando se mata, renasce-se.
MORRE!
Eu fico. E continuarei a ser. Um dia, longe da náusea deste cheiro a tédio, a sangue, a pólvora e a medo, descerei do cavalo e a noite estará calma e a ficar fria, só com uma brisa suave e quente a remexer as folhas e nem isso chegará para abafar o silêncio. Um silêncio definido e seco, cacimbado. Límpido e inteiro como eu e o meu corpo. Então sim, terei matado e morrerei.
Mas, para já, escavo o meu abrigo com a baioneta da espingarda. Vou ser eu mesmo a abrir a minha cova, a disparar o «coup de grâce». Eu sou o meu próprio caixão. Quando se mata, fica-se sem nada e parte-se sozinho. Sou um miúdo com os bolsos furados. Espalhei os tesouros enquanto marchava no pó.
Como o que resta da ração de combate, lata de anchovas ainda mais apimentada pelas formigas, maning bom! Não procuro nada, não quero encontrar nada. Não tenho nada que me prenda aqui, a este buraco de nada no meio de mapa nenhum. Um jornal A Bola de há um mês, limpo o cu nas tácticas nacionais. A garganta a uivar de sede. Na cabeça, o sol a pino. Deixem-me só seguir. AFASTEM-SE! Quero andar até as minhas pernas explodirem. Deixem-me em paz. Por favor, deixem-me em paz. Já não jogo mais. Para mim, a guerra acabou. Eu serei um dos vossos troféus, não me importo. Desde que me deixem sair daqui. DEIXEM-ME IR! Suplico.
Foi ainda há pouco e eu lembro-me. Aos solavancos no unimogue, abrimos pela noite como traças à procura da luz. Os tugas que arrumaram os turras. Trazemos connosco o Sesimbra e o Américo já cadáveres desarticulados e o Sousa está mais p'ra lá do que p'ra cá, tem o bucho aberto num buraco do tamanho de um punho. Mas vingámo-los bem. Somos os «filhos da Pátria» que deram cabo dos «filhos da puta». Adeus mãe, até ao meu regresso. Vim de matar e morrer. Sou bravo e valente, um homem crescido. Mas queria a tua mão a afagar o meu cabelo. Sentar-me ao teu colo e enterrar o meu rosto nas tuas mamas quentes. Morder os teus mamilos e sorver leite a saber a sangue. Deitar-me na camarata contigo.
NÃO VÁS! Quero morrer e matar de prazer. Eles não sabem nada, não vão saber. Que te vou fazer um filho para o império. Semear em ti uma emboscada, uma bomba-relógio. Eu sou mais eficaz do que uma mina. Estou a rebentar de seiva, mais esganado que os cães. De gatas, imploro-te: Não vás... De que serve este membro na minha mão, a minha arma? A pátria a latejar neste pedaço de carne, toda contida nesta tesão de raiva. Vou cair sobre ti como numa «queda-na-máscara», as pernas flectidas para amortecer o impacto. Cheiras a bicho e és a minha mãe preta. Vais pôr fim à minha guerra quando eu te ocupar toda com a minha pulsão de morte. Vou-te encher de mim e fazer estoirar esta cova opaca onde me escondi. VEM!
Tenho um caixão à minha espera e é muito apertado para mim. Um rectângulo de merda, plantado à beira do mar. Quatro paredes caiadas de negro, com o retrato de um homem impotente na parede. Injectou-nos ar nas veias, insuflou-nos com o orgulho nacional. «Quais forem as dificuldades que se nos deparem no nosso caminho, os sacrifícios que se nos imponham para vencê-las, não vejo outra atitude a tomar que não seja a decisão de continuar.» Rapidamente e em força. Portugal! Portugal! Angola é nossa! Angola é nossa! ANGOLA É NOSSA! Que importa se a mata grunhe: Upa! Upa! Upa! Viva! Viva! Viva! Preparem as espingardas. Eles afiam as catanas com limas. Havemos de nos encontrar no meio da mata, no centro do anel de fogo. Vou espetar a tua cabeça numa estaca. Depois de jogar à bola com ela. Exibir-te à beira da estrada como aquele que não ressuscita. Estás morto, mortinho da Silva. Entrei no nicho do deus zumbi a cavalo da «reacção operacional». A cavalo de mim. Eu sou uma vala aberta e o meu nome é Portugal. VEM!
O nevoeiro chegou de mansinho. Esta é uma guerra sem quartel. Mucondo, Quicundo e Muxaluando... Quixico, Quipedro. Zala é já aqui e o Sagrado Coração de Maria continua connosco. Temos uma bandeira para içar. Portugal! Portugal! Portugal! Ainda sonho com o calor, colado à nuca como um escarro. Sinto a mata a vomitar-me, as espinheiras a rasgar-me os braços e a cara. Este é um ângulo morto, e eu um estilhaço em fragmentação. Uma bisca lambida no meio do nada. Os meus olhos viram tudo, não os consigo arrancar. Já não leio o terreno em frente, estou em posição de rajada e não sei para onde atirar. Escuta só, não mexas o dedo no gatilho. Agarra! Agarra! Agarra! As botas batem no chão duro. A malta enfia-se nas valas. Cheira a urina e a fezes. Havemos de os vingar. Vai ser um ataque de mão. Agora. AGORA!
Mãe?! És tu, a costurar noite fora? É a minha mortalha o que coses? És tu que rezas no escuro? Calou-se o matraquear e posso ouvir-te melhor. Quando se morre, sabe-se. Tu sabes o que eu vim cá fazer. Diz-me. Eu não me mexo, juro. Não me mexo. JURO! Quero ficar aqui quietinho, o corpo moldado na lama, só mesmo a olhar para ti. Deram-me um cavalo manco e as esporas cravadas em mim. Mãe, venho de matar e morrer. Eles estão mesmo a chegar. Não os deixes fechar-me os olhos. Vou ficar aqui quietinho, só mesmo a olhar para ti. E para as nuvens à desfilada. Ordem-unida.
Richard Zimler conversa na Comunidade de Leitores Almedina/Saldanha, hoje, quarta-feira, às 19h, sobre Os Anagramas de Varsóvia, o romance mais recente. Venham, venham...
1 When still a child, make sure you read a lot of books. Spend more time doing this than anything else.
2 When an adult, try to read your own work as a stranger would read it, or even better, as an enemy would.
3 Don't romanticise your "vocation". You can either write good sentences or you can't. There is no "writer's lifestyle". All that matters is what you leave on the page.
4 Avoid your weaknesses. But do this without telling yourself that the things you can't do aren't worth doing. Don't mask self-doubt with contempt.
5 Leave a decent space of time between writing something and editing it.
6 Avoid cliques, gangs, groups. The presence of a crowd won't make your writing any better than it is.
7 Work on a computer that is disconnected from the internet.
8 Protect the time and space in which you write. Keep everybody away from it, even the people who are most important to you.
9 Don't confuse honours with achievement.
10 Tell the truth through whichever veil comes to hand – but tell it. Resign yourself to the lifelong sadness that comes from never being satisfied.
Sentenças finais: Will Self The writing life is essentially one of solitary confinement - if you can't deal with that you needn't apply.
1 litro de leite; 1 chávena de café de arroz; 4 gemas; sal; acúçar a gosto (cerca de 250g); canela
Escolhe-se o arroz [carolino], mas não se lava. Leva-se o arroz a abrir com 2,5 dl de água e um pouco de sal. Quando a água do arroz tiver evaporado, adiciona-se o leite e deixa-se cozer. Entretanto, misturam-se as gemas com o acúçar e, fora do lume, juntam-se ao arroz. Leva-se novamente ao lume só para cozer as gemas. Forra-se um cesto com um guardanapo [de pano branco, de preferência com rebordo bordado] e deita-se lá dentro o arroz-doce [sem medos, é para isso mesmo que servem as máquinas de lavar roupa ; )) ], depois de se ter deixado arrefecer um pouco. Enfeita-se com canela, desenhando corações, letras ou traços.
In Cozinha Tradicional Portuguesa, Maria de Lourdes Modesto
Proust et Céleste, de Christian Péchenard (La Table Ronde) é um livro sobre a relação de Marcel Proust com a sua governanta, Céleste Albaret. Entre 1913 e 1922, ela servirá com uma dedicação de escrava este «marido de substituição», encafuado num quarto insonorizado, e será o seu único elo com o exterior. No início da Primavera de 1922, o ano da morte, ele diz-lhe: «Uma grande notícia. Esta noite pus a palavra FIM [no La Recherche]. Agora já posso morrer.» Céleste foi a mãe de substituição de Proust: dedicada, paga, incapaz de qualquer intimidade física, que curioso.
“Como o grã-cã conquistou o reino de Magi (do Mangi)
É verdade que na província de Eumagi (do Mangi) era senhor Fafur (Facfur), o qual era, depois do grã-cã, o maior senhor do mundo e o mais poderoso em riquezas e em gente. Mas não são pessoas de armas, porque se tivessem sido bons homens de guerra, nunca teriam perdido a sua terra: porque as suas terras estão todas rodeadas de águas muito profundas e não se entra lá através de pontes. De modo que o grã-cã mandou lá um barão que se chamava Baia Anasa (Baian Cincsan), o que quer dizer «Baia (Baian) cem olhos»; e isto aconteceu nos anos Domini MCCLXXIII. E o rei do Umagi (do Mangi) soube através da astrologia que a sua terra nunca se perderia, a não ser por um homem que tivesse cem olhos. E foi Baia (Baian) com muita gente e com muitos barcos, que lhe levaram homens a pé e a cavalo e chegou à primeira cidade de Lumagi (do Mangi) e os habitantes não se lhe quiseram render. Depois foi às outras até às seis cidades e deixava-as; porque o grã-cã mandava-lhe muita gente atrás; e é esse o grã-cã que hoje reina. Ora acontece que este tomou também essas seis cidades pela força e depois tomou tantas que ficou com doze; depois foi à cidade capital de Magi (Mangi) que se chama Quisai (Chinsai), onde se encontrava o rei e a rainha. Quando o rei viu tanta gente teve tanto medo que partiu da terra com muita gente e com mil embarcações e foi para o Mar Oceano e fugiu para as ilhas. E a rainha ficou defendendo-se o melhor que podia. E a rainha perguntou quem era o chefe do exército. Foi-lhe dito: «Chama-se Baia (Baian) cem olhos.» E a rainha recordou-se da profecia de que acima falámos: imediatamente se rendeu a terra e imediatamente se renderam a Baia (Baian) todas as cidades do Magi (Mangi).”
In “As Viagens de Marco Polo”
“As cidades e os olhos. 1 .
Os antigos construíram Valdrada nas margens de um lago com casas todas varandas umas em cima das outras e ruas altas que fazem assomar à água os parapeitos em balaustrada. Assim o viajante ao chegar vê duas cidades: uma direita sobre o lago e uma reflectida de pernas para o ar. Não existe nem acontece coisa numa Valdrada que a outra Valdrada não repita, porque a cidade foi construída de modo que todos os seus pontos fossem reflectidos pelo seu espelho, e a Valdrada na água contém não só todas as estrias e os remates das fachadas que se elevam por cima do lago, mas também o interior das casas com os tectos e pavimentos, a perspectiva dos corredores, os espelhos dos armários.
Os habitantes de Valdrada sabem que todos os seus actos são ao mesmo tempo esse acto e a a sua imagem especular, a que pertence a especial dignidade das imagens, e esta sua consciência proíbe-os de se abandonarem por um só instante ao acaso e ao esquecimento. Mesmo quando os amantes dão voltas aos corpos nus pele contra pele procurando a maneira de se colocarem para terem um do outro maior prazer, mesmo quando os assassinos empurram a faca para dentro das veias negras do pescoço e quanto mais sangue grumoso jorrar mais afundam a lâmina que desliza entre os tendões, não é tanto o seu unir-se ou trucidar-se que importa quanto o unir-se ou o trucidar-se das suas imagens límpidas e frias no espelho.
O espelho ora aumenta o valor às coisas, ora o nega. Nem tudo o que parece valer muito por cima do espelho consegue resistir quando espelhado. As duas cidades gémeas não são iguais, porque nada do que existe ou acontece em Valdrada é simétrico: a cada rosto e cada gesto respondem do espelho um rosto ou um gesto inverso ponto por ponto. As duas Valdradas vivem uma para a outra, olhando-se continuamente nos olhos, mas não se amam.”
In “As Cidades Invisíveis”, Italo Calvino
“Por muitas vezes, nos dias, nos meses, nos anos que se seguiram, pensei que a única explicação possível para tão estranha ocorrência era a forte probabilidade de ter trazido dentro de mim o grande olho da casa da Ribeira Quente. Ou de ele ter vindo comigo, por iniciativa própria, para se abrir à noite, sempre que eu fechava os meus olhos. Tal como acontecera quando a minha mãe cerrara os dela e, nesse exacto momento, se abrira para me deixar sair. Do escuro para a luz. De dentro para fora.
Alinhadas e referidas as convicções anteriores, não sem uma nota suave de incredulidade, convém notar que foi por causa delas que me pareceu também evidente que era uma dádiva suprema poder sonhar todas as noites. Devia, pois, concentrar os meus esforços nessa vivência, fazendo-a preceder de incansáveis tarefas diurnas de preparação. Para que pudesse fruir mais e mais cada esboço de imagem, de luz e de cor, os meus sentidos deveriam estar em permanente estado de vigília, alerta e absorção.
A casa nova, com todos os seus recantos, contornos, volumes, saliências, cheiros e sons inexplorados, apresentava-se-me agora não como o inferno assustador das primeiras horas, mas antes como um paraíso transbordante de sensações virgens e por isso facilmente conversíveis em sonho. Como fruto das minhas explorações, rapidamente juntei à cartilha de sensações da casa velha, por esta ordem e nomenclatura, um Pan-Óptico de Cheiros, uma Galeria de Prismas Tácteis, um Esferímetro de Sons, uma Câmara de Sabores e um Refractómetro de Feixes Luminosos. Graças a eles, os meus sonhos foram-se gradualmente apurando, num atordoante desafio de esboços de imagens com cheiro, som, peso, tamanho, medida, variações de temperatura, sombras e, luxo dos luxos, inefáveis transparências.
Se hoje consigo contar tudo isto com uma ordem e uma lógica, se não fiéis, pelo menos verosímeis, já me é de todo impossível explicitar qual o momento em que o dia e a noite se fundiram num só e passei a sonhar acordada. Se me ficar pela solução mais fácil, posso situá-lo nessa primeira fracção de segundo em que adormeci na casa nova. De qualquer forma, trata-se de um pormenor de somenos importância. Tantas vezes cheguei à conclusão de que sonho porque vivo e vivo porque sonho, que já não faz qualquer sentido procurar conhecer a génese desta bifurcada evidência. Talvez o sonho seja hereditário e tenha a forma de um olho. Que nos olha de cima, apreendendo-nos como nessa ilusão óptica a que, aposto que inadvertidamente, demos o nome de irradiação: preto no branco, branco no preto. Hoje sei: só é cego quem não quer ver.”
Pedro Tamen apresenta o «seu» Proust de Em Busca do Tempo Perdido. Para a semana, no dia 11, quinta-feira, às 19h, na livraria Almedina Saldanha, no ciclo Nós e os Clássicos. Estivemos ontem a preparar a sessão. E rimos de um comentário à margem do crítico Harold Bloom, para quem o Em Busca é um grande tratado sobre o ciúme sexual. Reza assim: «Para Swann, o amor morre, mas o ciúme mantém-se vivo durante mais algum tempo. […] Swann fica preso, pois no cosmo de Proust não se pode dizer 'Adeus, Odette, perdoo-te tudo quanto te fiz' (à maneira americana) ou 'Deixar de estar apaixonado é uma das maiores experiências humanas; parece que se vê o mundo com novos olhos' (à maneira anglo-irlandesa).» Como será o ciúme à maneira portuguesa, pergunto eu? Talvez «Não és meu, não és de mais ninguém», um divórcio litigioso ou seis facadas no coração... Sem retrospecções ou contemplações.
Quando eu morrer voltarei para buscar / os instantes que não vivi junto ao mar. Sophia de Mello Breyner Andresen
Havia um gesto largo como a quilha de um barco. E uma luz de oiro que o guiava entre o azul. Trazia-me dentro dele, entre os seus braços. Embalava-me a voz, transportando o mundo como uma revelação. E só em mim concentrava todas as paragens, os vários portos que, passando, descobríamos.
Consigo sem esforço imaginar-me nos braços da minha mãe. Faço-o muitas vezes. Acolhe-me um som distante de risos, mas provavelmente tudo acontecia em silêncio. Imagino a voz rompendo-o, e era a nossa. Impossível distingui-la. Continuo hoje à procura desse silêncio feito de vogais abertas e vocábulos curtos. Um som límpido como um espelho, aberto como a casa sobre o mar. Um som que era a aragem doce que lhe despenteava os cabelos, deixando-os cobrir o meu rosto e resguardá-lo da violência da luz do dia.
Tinha mãos de areia a minha mãe. Sentia-as quentes e suaves deslizando sobre mim. Contornavam-me, separavam-me do mundo onde, aí sim, o vento já rangia, abrindo as portas, espalhando as cinzas e as sombras sobre os retratos, esvaziando os armários. Nada disso eu sabia ainda, suspenso da queda. Suportado por gestos de espanto, em segredo.
Com mãos de areia, construíamos castelos. E, das ameias, espreitávamos tudo, guiados pela espuma das ondas e pelo brilho das estrelas. Límpido, quase branco, e esguio, o nosso caminho estava lá ao longe recortado. Sabíamos. Conhecíamos juntos a espessura das coisas e, no entanto, os nossos dedos não as tocavam, ocupados a tocar-nos um ao outro. Não tenho explicações, ainda hoje. Quero desconhecer uma verdade que não seja essa, e era a nossa.
Por muito tempo o rosto dela foi só um sol que fugia de repente, uma alvorada que eu descobria todos os dias. E, nele, os olhos limpos eram como os meus, faróis a evitar as fúrias, soberanos sobre a calmaria. Lembro bem o olhar da minha mãe, azul como essa calma lenta e profunda que amaciava as rochas. Sentados nelas, descobríamos navios sobre a seda de água dos nossos olhos, embarcávamos e partíamos. Em tantas paragens encontrámos ouro, as pedras mais preciosas que havia, e tesouros maiores: flores, mel e fruta. Nunca mais recolhi com as minhas mãos tanta riqueza, nem os meus olhos as viram em parte alguma. Estão todas guardadas na casa à beira-mar, encerradas em baús onde o vento não entra e que hoje já não sei abrir. Perdi as chaves, à proa dos navios. Deitei-as ao mar e, sem saber, a minha mãe recolheu-as todas lá no fundo, onde faz frio e os olhos estão fechados.
Mas, então, o tempo era ainda um infinito. De tantas viagens regressámos no mesmo instante, a casa à nossa espera, sobre as rochas. Desenhámos juntos nas paredes as palavras. Aprendi-as de cor no seu silêncio, na melodia suave com que me embalava. E nos sonhos estava ela, branca e linda, num rumor de tempo antigo e mundo novo.
Tudo estava algures ancorado dentro de mim. A minha mãe soltava amarras como sílabas, navegando pela casa adormecida. E era como um vento que corria, unindo-as e desfazendo-as, espantadas, atirando-as contra os móveis que assistiam, impávidos, à luta desenfreada. A casa era agora o sono e o palco aberto, eu dormia como quem assiste à tempestade, nos braços de uma mãe aconchegado. Tomara eu saber hoje com que fórmulas secretas eu aprendi as palavras que já antes conhecia. Treinei-as uma a uma, em redor dela. E a casa éramos nós que a construímos. De mim já não me separava nada.
Tem uma luz febril esta memória. E logo se enche de reflexos e me traz de volta à praia onde num tempo nos inventámos assim, a casa atravessada pelas marés.
Vem comigo a minha mãe. Caminhamos com passos curtos como as pegadas das gaivotas.
Escritora, crítica literária, jornalista | Trabalhei e trabalho, como jornalista, editora ou autora, em diversos projetos na imprensa e na televisão. Orientei a mais antiga comunidade de leitores portuguesa durante nove anos. O meu primeiro romance, Este É o Meu Corpo, lançado em 2001, foi publicado em dez países. Os meus contos podem ser lidos em diversas antologias nacionais e internacionais (a última delas, Granta Portugal nº7/Junho 2016). Em 2012, coordenei a antologia Asas sobre a América (Almedina), em 2016, publiquei o livro de reportagem Os Últimos Marinheiros (FMSS) e, em 2017, publiquei Dicionário Sentimental do Adultério (Quetzal). Atualmente, assino crítica literária nos jornais Sol e «i» e na revista Ler, coordeno a primeira pós-graduação portuguesa em Escrita de Ficção (Universidade Lusófona), faço tutoria de escrita e pertenço ao conselho diretivo da Fundação Dom Luís I.