David Grossman | Entrevista
quarta-feira, julho 06, 2016
David
Grossman: «Sou uma pessoa secular, muito, muito judia.»
David
Grossman costuma dizer que não aceita considerar a sua vida interior e criativa
como uma zona de guerra. Mas foi nos despojos da Shoá, do conflito
israelo-palestiniano e do luto por um filho morto no comando de um tanque de
combate que o escritor encontrou as palavras mais fortes e inventivas. Capazes
de vencer o silêncio e atravessar o tempo, como só o faz a grande literatura.
David
Grossman, nascido em Jerusalém em 1954, é um dos quatro gigantes da literatura
israelita [a par de Amos Oz, Aharon Appelfeld e Avraham B. Yehoshua). Filho de
um condutor de autocarros que se converteu em bibliotecário, em criança e
adolescente encontrou nas histórias de Sholem Aleichem e de Franz Kafka um escape
para a solidão. Cumpriu os quatro anos de serviço militar, durante os quais
conheceu a sua futura mulher, formou-se em filosofia e trabalhou na rádio
nacional durante duas décadas, até se demitir por ter sido impedido de noticiar
a declaração de independência do Estado da Palestina (1988).
Ativista
político, desencantado com a política sionista, tornou-se uma das vozes mais
fortes de apelo à reconciliação num país que de «Estado das vítimas» se
transformou em interlocutor ensurdecido pelo ódio e pela suspeita perante o
inimigo. Com os seus romances e ensaios (ver caixa), Grossman compôs um panorama
único de Israel desde a sua fundação, quando à noite as ruas ainda se enchiam
de gritos dos sobreviventes da Shoá, até à atualidade, quando o bruaá cosmopolita
e artístico procura sobrepor-se à experiência radical da perda e da violência.
Do shtetl
do leste europeu até Israel contemporâneo, passando pelo cenário de assimilação
norte-americano, talvez a única caraterística comum a todos os autores de literatura
judaica seja o conflito latente entre a afirmação individual do autor e a
fidelidade à memória e à pertença a uma tradição. Concorda?
Essa
tensão foi uma constante ao longo de toda a história dos judeus e tornou-se
premente desde o século XVIII e o Iluminismo Judaico [movimento Haskalá;
determinou o estudo crítico moderno dos textos fundadores, a assimilação no
mundo secular europeu, o aparecimento de movimentos políticos de emancipação, o
renascimento do hebraico e a divisão do judaísmo asquenazi em diversos
movimentos religiosos e denominações; dele surgiu a cultura judaica secular,
que privilegia a história e a identidade como elementos
unificadores, em detrimento da religião]. Nesse contexto, Israel representa
um desafio particular: é uma sociedade moderna, sofisticada, virada para o
futuro, mas, ao mesmo tempo, alberga muitos fundamentalismos e
conservadorismos, um enorme peso dado à religião. Como conciliar tudo isto? Não
conseguiremos resolver estas contradições enquanto não tivermos a paz. Porque,
quanto mais desesperadas se sentem as pessoas, mais elas se viram para a
religião, sobretudo nas suas manifestações mais herméticas. É um círculo
vicioso. Quanto menos paz tivermos, mais fanatismos teremos, o que, por sua
vez, compromete qualquer solução secular de compromisso.
O que é que Israel retira hoje do judaísmo?
Há
grupos que retiram apenas os elementos mais beligerantes e racistas. Mas também
há outros que querem absorver de facto a pluralidade e a iluminação contidas no
judaísmo. Eu sou uma pessoa secular, muito, muito judia. Sinto uma fortíssima
pertença ao judaísmo.
Que se traduz em quê?
Na
maneira como vejo o mundo, no meu humor, na afinidade que sinto com o destino
judaico, com a Shoá, com a língua hebraica. É algo muito emocional; pertenço ao
judaísmo tal como pertenço à minha família. Escolhi viver em Israel porque é
ali que o judaísmo está mais presente, em todas as suas contradições e facetas.
Todas as semanas, desde há 25 anos, faço o que os judeus fizeram ao longo da
sua história: na companhia de duas pessoas, leio a Bíblia, com a ajuda de uma
lupa, estudo-a e discuto-a. É frequente essas serem as horas mais
significativas da minha semana.
Revelando o quê?
O
modo como fomos criados enquanto povo. A personalidade dos nossos pais
fundadores: Jacó, Abraão, Isaac. Como eles estão presentes na política atual. A
forma como definimos a nossa diferença em relação aos outros, tornando-a indecifrável
por eles. Por vezes, a maneira como desejamos sentir-nos únicos, excomungados,
entrincheirados na nossa cultura e na nossa maneira de ver o mundo.
Tal qual como numa injoke [anedota perceptível apenas pelo grupo que a cria e sobre o
qual versa]?
Sim,
sim. Quando leio a Bíblia, exponho-me à luz cristalina da linguagem bíblica.
Aprendo muito com as histórias e as personagens da Bíblia. De facto, sou muito
judeu, e muito israelita também.
Mais um do que outro?
Não
quero sequer decidir o que sou mais: se judeu, se israelita. Faço parte daquela
realidade tão tempestuosa e escolhi viver ali, apesar de ter tido muitas
oportunidades, e muito tentadoras, de me instalar no exterior. Quero viver a
minha vida num sítio com relevância para mim. Consigo descodificar os códigos
de Israel e dos israelitas, mesmo quando eles me esfrangalham os nervos. Em Israel,
fazem-se coisas terríveis.
Acha que, se as compreender, consegue
transformá-las?
Não
sei se consigo transformá-las, mas pelo menos identifico a raiz de certos
comportamentos. Quero viver uma vida relevante e Israel dá-me essa
oportunidade, mesmo se tantas vezes me enfureço com as atitudes do governo, do
exército, das comunidades civis, dos fundamentalistas.
O problema não será ver-se Israel como o
fim da diáspora e não como uma etapa de um caminho que prossegue?
Sabemos
que qualquer fim é sempre o início de outra coisa! Israel está em permanente
contato com a diáspora. Israel não é um fim; é apenas um veículo para que os
judeus possam viver uma vida normal, da qual foram privados nos últimos dois
mil anos. É curiosa a sua pergunta. Na verdade, muitos chamam a Israel a Terra
Prometida, mas o correto é Terra Sempre Prometida. Trata-se de uma promessa
permanente, nunca atingida.
Quando acabei de reler Ver: Amor, fiquei a pensar num paradoxo: o realismo não é suficiente
quando se escreve sobre situações extremas. Passou-se assim com a literatura
sobre a Shoá. Após a primeira geração de escritores-testemunhas, as gerações
seguintes tiveram de recorrer à imaginação, para colorir as primeiras imagens a
preto e branco.
Não
creio que colorir seja um bom termo.
Em Ver: Amor, usei o realismo mágico,
não para colorir, mas para analisar a situação sob um outro ponto de vista. O
romance corresponde a quatro tentativas muito diferentes de escrever sobre a
Shoá: do realismo de Momik à corrente de consciência e realismo mágico de
Bruno, ao registo quase teatral da relação entre Wasserman e Niegel e, no
final, ao estilo enciclopédico ou semi-científico. Havia uma quinta parte, da
qual desisti, porque senti que quatro eram suficientes para mostrar a
impossibilidade de escrever sobre a Shoá. Sabemos que vamos falhar, mas temos de
continuar a tentar. Por vezes, penso que olhar para a Shoá assemelha-se a olhar
diretamente para o sol.
La Rochefoucault disse que «para o sol e
para a morte, não se olha de frente».
É
belíssima a frase. É algo que eu sinto. De uma forma muito forte... Senti-o
enquanto escrevia sobre a Shoá e senti-o ao escrever Até ao Fim da Terra [ensombrado pela morte do filho, Uri Grossman,
de 20 anos, abatido por um míssil do Hezbollah, em Agosto de 2006, poucas horas
antes do cessar-fogo entre Israel e o Líbano]. Há coisas para as quais não
podemos olhar de frente porque nos cegam. Ainda assim, porque sou escritor,
tenho de olhar para elas. Essa é a principal missão de um escritor: não fugir à
radiação ardente da Shoá ou de um luto pessoal...
O escritor que escreve sobre a Shoá tem de
aceitar que jamais conseguirá dizer tudo e que jamais será completamente
compreendido pelos outros.
Concordo.
E, no entanto, os dois, escritor e leitores, terão sido parceiros na tentativa
humana de compreender algo. Não tentaram evitá-lo ou negá-lo. Assumiram esse
fardo e toda a tristeza nele envolvida e tentaram olhar a Shoá nos olhos. Foi
por isso que escolhi pôr Momik no início do livro, apesar de essa ter sido a
última parte a ser escrita. Senti que precisava de captar o modo como uma
criança tenta entender a Shoá. Porque, mesmo se formos adultos e tivermos lido
todos os livros, visto todos os filmes, estudado todas as abordagens
históricas, subsistirá sempre uma pequena parte de nós que, tal como acontece
com as crianças, é incapaz de compreender.
Estamos dentro da radiação, mas não
conseguimos dar-lhe uma forma?
Perante
as perguntas principais, somos crianças indefesas, mesmo que sejamos adultos. Como
é que alguém foi capaz de fazer uma coisa assim?
É inegável que pensar a Shoá é um fardo
muito particular. Mas não acha que, num certo sentido, é também um ato que
envolve algum masoquismo? Escarafunchamos na tristeza e no horror, como se
sofrêssemos de uma espécie de síndroma do sobrevivente (Elie Wiesel disse: «Estou
vivo, logo sou culpado»), e não conseguimos parar. Quanto mais percebemos que não
conseguimos compreender, mais obcecados ficamos.
É
verdade. Haverá sempre quem explore esse lado masoquista... Pode-se abusar de
tudo, e também da Shoá. Mas... [silêncio longo] Não há «mas»! Penso que existem
três formas de tentar superar este fardo. Uma, é a via científica: procurar
compreender como aconteceu. A outra é a das memórias dos sobreviventes. A
terceira é a via da arte. Ora, haverá cada vez menos sobreviventes e a via
científica extinguir-se-á em breve (são conhecidos praticamente todos os factos
que havia para conhecer). A expressão artística será a principal forma de gerar
empatia nas gerações futuras em relação à Shoá.
Em Ver:
Amor, Bruno sente uma espécie de rebelião que o expulsa de si mesmo,
enquanto Momik encara a perda como uma forma de resgate de si mesmo. Trata-se
do mesmo movimento paradoxal: de tentativa de libertação e de resgate...
...
de esquecimento e de rememoração, de pertença e de exclusão. Há um momento em Falling Out of Time [de 2014, ainda não
editado em Portugal] em que o pai enlutado se pergunta como poderá um dia recordar-se
sem sofrer. Como separar a memória da dor? A questão coloca-se tanto no luto
individual como no luto coletivo. Outra questão é: como recordar sem ficar
paralisado pelas memórias? E como esquecer, no sentido de deixar ir? Como esquecer sem matar os que já morreram e como
lembrar sem morrer por causa disso?
Neste último romance, parece ter encontrado
a resposta na poesia.
Uma
das personagens do livro diz: «A poesia é a linguagem do meu luto.» Foi o que
aconteceu comigo. Não o planeei, não o preparei, mas de repente passei da prosa
à poesia, instintivamente. A poesia era de facto a forma mais precisa para descrever
o que eu sentia. Não me pergunte porquê. Não sei responder. A minha mulher tem
uma teoria: diz que a poesia está mais próxima do silêncio. Gosto dessa ideia.
Afirmou algures que, durante a Shivá [período de sete dias de retiro de luto,
tradicionalmente observado pelos judeus], a dor como que o fossilizou.
A
Shivá é uma grande invenção judaica. Todas as pessoas que conheceste de uma
forma próxima desde a escola primária, enfim, desde sempre, vêm visitar-te,
estar contigo durante uma ou duas horas, abraçar-te fisicamente. Durante uma
semana, a tua vida toda desfila diante de ti. Milhares de pessoas vieram
visitar-nos, a mim e à minha mulher, durante a Shivá pelo Uri. No dia seguinte,
regressei ao meu espaço de trabalho e à escrita de Até ao Fim da Terra, que, antes disso, estava prestes a terminar.
Foi muito difícil. No início, limitei-me a forçar-me a estar fechado, sozinho.
Depois, aos poucos, dei por mim a escrever e a dar aos meus personagens calor,
vitalidade, senso de humor, atração sexual... vida! Percebi que havia vida
dentro de mim e que podia dá-la aos outros.
Nos seus livros, está muito presente a
ideia de que a morte é o mais escandaloso dos escândalos.
[ri]
Claro, como é possível concebermos que vamos morrer? Temos tanta vida dentro de
nós e, afinal de contas, a vida é tão boa — pelo menos se considerarmos a
alternativa. Existe tão pouco tempo para compreendermos e conhecermos tanta
coisa que há para compreender e conhecer... Sinto desde sempre que só consigo
compreender as coisas verdadeiramente importantes da vida, se escrever sobre
elas. E já sei que não terei tempo para escrever sobre a maior parte das
questões mais importantes. Nem que vivesse cem anos... Sim, tudo o que tem a
ver com a morte é escandaloso.
Então, é nos opostos da morte, na memória e
na arte, que devemos procurar a vida?
Wisława Szymborska falou na
«vingança da mão que escreve». Apercebi-me disso sobretudo durante a escrita de Até ao Fim da Terra [2008] e de Falling Out
of Time. A arte é a única instância onde a vida e a sua perda coexistem.
O único sítio fora do tempo?
Sim, é isso: o único sítio
fora do tempo.
Como define as novas gerações de escritores
israelitas?
A literatura israelita é
extraordinariamente viva e rica. É impressionante. Hoje, coexistem seis
gerações de escritores, dos 20 e poucos anos até aos 90 [Aharon Megged tem 95].
Muitos dos mais novos não têm qualquer interesse em escrever sobre a guerra ou sobre
a Shoá; deixam esses temas para as gerações mais velhas. Deu-se uma espécie de
ruptura da cadeia do judaísmo e da literatura judaica para a literatura
israelita: hoje é mais correto falar em literatura produzida por escritores que
nasceram em Israel. Eles escrevem sobre a vida quotidiana. Sobre Telavive...
... que é uma das cidades mais vitais do
mundo...
Muito! Adoro Telavive,
embora essa vitalidade nem sempre crie grande literatura. Hoje, existe um surto
de criatividade em Israel, talvez em resposta à situação paranoide em que
vivemos [devido ao conflito israelo-palestiniano]. As afirmações estéticas são
quase todas individuais. Mas há agora um grupo bastante forte de escritores e
poetas de origem sefardita oriental que sentem que não foram suficientemente
representados na literatura israelita, se manifestam contra a velha elite
asquenazi e reivindicam maior protagonismo — apesar de existirem vários autores
sefarditas altamente reconhecidos, como Sami Michael, Eli Amir ou Sara Shiló. Não me parece
mal; na arte, o conflito é sempre bem vindo porque é um motor de mudança.
O David nasceu em Israel, a sua mãe nasceu na
Palestina, o seu pai na Galícia [região a oeste da atual Ucrânia e ao sul da Polónia].
Quando começou a escrever, nos jornais e depois ficção, era um autor de origem asquenazi,
nascido em Israel, que tinha estudado a língua árabe desde os 15 anos de idade.
Essa condição singular fê-lo distinguir-se de outros autores da sua geração?
Não sei definir-me nesses
termos. O que escrevo tem mais a ver com algumas características da infância:
um sentimento profundo de solidão, uma consciência vívida da morte. O papel da
imaginação na minha vida era muito, muito maior do que na vida das outras
crianças.
Como acontece com Momik?
Eu era bastante parecido
com ele. Acho que a maior parte da minha infância foi vivida debaixo de água.
Ninguém sabia ou poderia imaginar o que se passava dentro da minha cabeça. A
imaginação era a principal fonte da minha vitalidade e da felicidade que sentia,
mesmo passando a maior parte do tempo sozinho.
Que papel teve a solidão ao longo da sua vida
de escritor?
A maior parte da minha vida
foi vivida sozinho, fechado num quarto. Mesmo agora, com todo este circo
[mediático] à minha volta, passo diariamente pelo menos oito a nove horas
isolado, a escrever, e adoro poder fazê-lo. Se não consigo ter esse tempo para
mim, fico nervoso, irritadiço, alérgico, resmungão, feroz mesmo! [risos]
Fica sozinho e em silêncio?
Às vezes, oiço música:
clássica, sobretudo, mas também algum jazz. Quando o ritmo do que estou a
escrever estanca ou me parece contraditório, paro e fico em silêncio, sem me
mexer, durante um bom bocado. Quando acabo de escrever um livro, releio-o todo
em voz alta, e só então é que consigo encontrar-me pela primeira vez com a
história. É incrível: por mais que o escritor tenha consciência do plano
definido, das personagens, do livro que está a escrever, é como se este
existisse autonomamente, numa espécie de ângulo morto da mente. O principal
permanece sempre desconhecido.
E silencioso.
O mundo hoje é tão
horrorosamente ruidoso... Está tão cheio de clichés e generalizações...
Sinto-me um verdadeiro privilegiado por, através da arte, poder procurar as
palavras mais precisas e luminosas por entre a espessura e a opacidade do
mundo.
Isso é completamente judeu: procurar o
sentido no silêncio. Parar o tempo e reordená-lo.
[ri] É claro que é.
Num certo sentido, essa maneira de estar e de
ver o mundo implica desligar-se dos outros, não?
Enquanto judeu, não me
sinto desligado, sinto-me diferente. Mas não é assim que se sente toda a gente?
Diferente e única?
-- X --
Caixa 1:
David
Grossman estreou-se em 1983, com O
Sorriso do Cordeiro, o primeiro romance israelita sobre a ocupação, no qual
um contador de histórias palestiniano relata como fez um jovem soldado israelita,
Uri, seu refém. Apesar disso, em 1987, quando o jornal Koteret Rashit o enviou em
reportagem para os territórios ocupados, Grossman não imaginava com certeza que
se tornaria o arauto da primeira Intifada. A reportagem em questão, O Vento Amarelo: retrato da Palestina
ocupada (Dom Quixote, 1989), chocou os israelitas ao revelar a dimensão do ódio
dos palestinianos contra eles, tornou-se um símbolo premonitório das sequentes
duas décadas de conflito e trouxe fama internacional ao autor.
No
ano anterior, 1986, Grossman publicara Ver:
Amor, a sua obra-prima. Dividido em quatro partes que cobrem de forma não
linear quase todo o século XX, o romance narra as fantasias de uma criança
israelita (Momik) sobre os fantasmas da Shoá e da Besta Nazi na vida da sua
família; o modo como, já adulto e escritor, Momik reescreve a biografia do
escritor polaco Bruno Shultz, transmutando-o em salmão; as vivências do tio-avô
de Momik enquanto escritor de livros infantis e depois prisioneiro (imortal) de
um campo de concentração e protegido de um comandante nazi; por fim, o registo
enciclopédico da vida inteira de um homem contida em apenas 24 horas de
existência. Tour de force estilístico
e metafórico, Ver: Amor é uma das
mais imaginativas abordagens ficcionais do tema da Shoá.
Seguiram-se
ficções com temáticas, estilos e técnicas muito diferentes, numa bibliografia
marcada pelo experimentalismo e pelo impulso autobiográfico. Ver:Amor está disponível nas livrarias
portuguesas pela Dom Quixote, assim como o anterior romance, Até ao Fim da Terra (2008). Nele, Ora, uma
fisioterapeuta de Jerusalém, recém-divorciada, percorre Israel em direção à
Galileia, de forma a antecipar-se à chegada da notícia da morte do filho,
voluntário numa grande ofensiva de combate contra os palestinianos no início da
segunda Intifada. Enquanto questiona
qualquer perspetiva de futuro para Israel, Ora rememora a sua história pessoal,
que se cruza com a história coletiva do país desde a fundação, em 1948. O livro seguinte de David Grossman, Falling Out of Time, é um
íntimo e poético memorial de luto pela perda de um filho e tem edição prevista
para Portugal em 2016.
Entre
os livros de não-ficção de Grossman, destacam-se A Morte como Forma de Vida (2003), recolha de textos jornalísticos sobre
o conflito israelo-palestiniano, e uma colectânea de ensaios sobre literatura e
política (2008; ed. inglesa, Writing in
the Dark, Picador; ed. francesa, Dans
la Peau de Gisela, Seuil), que inclui o famoso discurso em defesa da paz proferido
pelo escritor três meses após a morte do filho, diante de cem mil israelitas
que assinalavam o aniversário do assassinato de Yitzhak Rabin. O
romance mais recente do escritor israelita chama-se Um Cavalo Entra Num Bar, passa-se num bar de comédia stand up e ainda não existe previsão
de data de lançamento por cá.
LER| Outono 2015
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)
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