— Estás a precisar de um corte de cabelo - comentou o Chapeleiro. Há já muito tempo que fitava a menina com grande curiosidade, e foi a primeira coisa que disse.
— Devias aprender a não fazer reparos pessoais — disse Alice, um tanto bruscamente — É uma grande falta de educação.
O Chapeleiro abriu muito os olhos ao ouvir estas palavras, mas limitou-se a inquirir:
— Porque é que um corvo se parece com uma secretária?
«Vá lá, parece que agora vamos divertir-nos um bocado!», pensou Alice. «Ainda bem que começaram com as adivinhas.»
— Penso que consigo achar uma resposta — acrescentou ela, em voz alta.
— Então devias dizer o que pensas — continuou a Lebre de Março.
— E digo — apressou-se Alice a responder —... pelo menos, penso o que digo... é a mesma coisa, sabes?
— Não é nada a mesma coisa! —protestou a Lebre de Março — Ora, nesse caso também podias dizer que «Vejo o que como» é a mesma coisa que «Como o que vejo»!
— E bem podias dizer — acrescentou a Lebre de Março — que «Gosto do que tenho» é a mesma coisa que «Tenho o que gosto»!
—Bem podias dizer — intrometeu-se o Arganaz, que parecia falar a dormir — que «Respiro enquanto durmo» é a mesma coisa que «Durmo enquanto respiro»!
— Para ti é a mesma coisa — lembrou o Chapeleiro, posto o que a conversa esmoreceu, e o grupo fez um minuto de silêncio, enquanto Alice pensava em tudo o que se podia recordar acerca de corvos e secretárias, e que não era muito.
in Alice no País da Maravilhas, tradução (excelente) de Margarida Vale de Gato, Relógio D'Água
— Devias aprender a não fazer reparos pessoais — disse Alice, um tanto bruscamente — É uma grande falta de educação.
O Chapeleiro abriu muito os olhos ao ouvir estas palavras, mas limitou-se a inquirir:
— Porque é que um corvo se parece com uma secretária?
«Vá lá, parece que agora vamos divertir-nos um bocado!», pensou Alice. «Ainda bem que começaram com as adivinhas.»
— Penso que consigo achar uma resposta — acrescentou ela, em voz alta.
— Então devias dizer o que pensas — continuou a Lebre de Março.
— E digo — apressou-se Alice a responder —... pelo menos, penso o que digo... é a mesma coisa, sabes?
— Não é nada a mesma coisa! —protestou a Lebre de Março — Ora, nesse caso também podias dizer que «Vejo o que como» é a mesma coisa que «Como o que vejo»!
— E bem podias dizer — acrescentou a Lebre de Março — que «Gosto do que tenho» é a mesma coisa que «Tenho o que gosto»!
—Bem podias dizer — intrometeu-se o Arganaz, que parecia falar a dormir — que «Respiro enquanto durmo» é a mesma coisa que «Durmo enquanto respiro»!
— Para ti é a mesma coisa — lembrou o Chapeleiro, posto o que a conversa esmoreceu, e o grupo fez um minuto de silêncio, enquanto Alice pensava em tudo o que se podia recordar acerca de corvos e secretárias, e que não era muito.
in Alice no País da Maravilhas, tradução (excelente) de Margarida Vale de Gato, Relógio D'Água
«Jovem heroína de Alice no País das Maravilhas (1865) e Alice Através do Espelho (1871), contos para crianças de Lewis Carroll. De certo modo projectada num universo fantástico, Alice, não é, afinal, mais do que uma rapariguinha inglesa educada no culto das boas-maneiras e que observa, imperturbável, as singularidades dos outros, desde que estas não contrariem os seus próprios interesses. A pequena Alice do livro adora os animais. Não espanta, pois, que o seu sonho seja quase só habitado por animais humanizados. Embora não lhes seja insensível, as crianças interessam-lhe pouco. É preciso fazê-la sair do mundo real para que se perca numa outra realidade, a do sonho e da lenda. Contudo, e apesar disso, ela sabe «que, para regressar à realidade, bastar-lhe-ia abrir os olhos». Mas por quê abri-los, se, desde que os mantenha fechados, lhe aparece um outro mundo e muito mais divertido? Este mundo que Alice descobre não é propriamente um reino de fábula, mas antes uma longa viagem deliberada até ao país do «sem-sentido». Todavia, nesta aventura, ela permanece de cabeça fria. Clarividente, segue apaixonadamente o jogo sem jamais se deixar levar totalmente por ele. As múltiplas transformações sofridas pelo seu corpo - ora gigante, ora anã - não chegam a assustá-la: despertam a sua curiosidade e, até certo ponto, divertem-na. O fundo da natureza de Alice é uma confiança ingénua e inabalável.»
Pim, pam, pum
Ao Afonso Praça e ao Fernando Assis Pacheco
Nambuangongo, Angola, Junho de 1963
Quando se mata, morre-se? Não. Renasce-se. Porque, na verdade, não fui eu quem morreu há pouco, quando senti o primeiro coice a atingir-me no ombro. O dedo não parou de dar ao gatilho, duas, três, mais vezes. Os olhos não pararam de ver enquanto os corpos se erguiam ou tombavam por entre a névoa. Os ouvidos não pararam de ouvir.
Já tinha escurecido e estava a ficar mais frio. A chuva parara e uma brisa suave e quente remexia as folhas. Isso foi antes. E imediatamente depois. No meio, apenas um som ruidoso de mais, intenso de mais, repercurtindo-se para lá do embate nos corpos, nas árvores e no solo, projectando-se até ao céu. Era o som que se elevava, não os clarões da trajectória cruzada das balas ou da chuva de granadas-de-mão ou dos morteiros 82 a rebentarem nas copas dos imbondeiros. Era o som que, em torno de mim, suspendia os gestos na rapidez de cada ataque e de cada esquiva. Era o som que furava as nuvens e as obrigava a apartarem-se. Eu ouvia-o algures cá dentro, estilhaçando cada célula e cada nervo e transformando-se num desejo imparável de matar. Um. Dois. Três. MAIS! Uma ladainha, um refrão dos meus nervos, um monstro a devorar-me o cérebro: pim pam pum, cada bala mata um…
Os corpos em frente eram apenas bonecos de corda desarticulados pelas minhas mãos. Mãos cruéis de criança curiosa. Agora um braço, PIM! Agora uma perna, PAM! Agora uma cabeça, PUM! Agora eu, cada vez mais forte, cada vez mais possante, montado a galope no cavalo de pau da G3 a escoicear no meu ombro. Eu e a minha vontade elástica de disparar o medo e de o rebentar por dentro, com um estrondo suficientemente forte, suficientemente igual ao que me estoirava os ouvidos antes de se perder dentro de mim. Eu, cada vez mais vivo. Eu, sozinho, embriagado de mim mesmo, a avançar por entre um emaranhado de árvores nuas e corpos desfeitos. Eu, com as amarras cortadas. Eu, decidido a matar tudo o que estava fora de mim. Eu, a ir até ao fim.
Quando se mata, ensurdece-se. E há vozes vindas de longe e de perto que chocam entre si, confundidas pela ausência de palavras e pela inutilidade dos gritos. Por isso é impossível dizer a morte se não respondendo-lhe com um som igual, desabitado e surdo. Um gorjeio cru como o rebentar de um cérebro em borbotos de sangue, miolos e cabelos: Morre!
MORRE! Quero que sejas só a sombra que em frente vejo diluir-se como a chuva dissolve a terra e a faz cheirar a bicho. Quero ser eu o bicho que mata, o bicho que sobrevive, percebes? PERCEBES? Não importa se tu também tens um brinquedo como o meu e mo apontas a mim no escuro. PUM! Não me importa se corres para mim de peito aberto e gritas: «Bala não mata! Bala não mata!» Vais saber a verdade; a tua cabeça é um berlinde que os meus dedos disparam com um tiro só. PUM! Vês agora? Eu sou o bicho mais rápido, o bicho mais forte, o bicho que já não vê, só ouve. ESCUTA. A morte é como o bater do coração que sentimos a latejar nos membros todos, um coração do tamanho da parada, com forma de bicha pirilau a avançar pela mata e pronta a estrebuchar às guinadas, enrolada sobre si mesma, a esconjurar a «Pátria Amada» na berma de uma picada qualquer. «Porra p'ra esta merda, nunca mais despacham isto!» Eu só quero acabar isto e espetar o focinho da espingarda na terra e renascer abraçado a ela como a um brinquedo que mais ninguém tem. Embalá-la em silêncio enquanto eles não chegam. Somos só nós dois os naúfragos neste mar de mortos. Não há mais ninguém.
Vamos brincar a «ver quem fica morto mais tempo» e perde quem abrir os olhos. Agora eu. E o meu dedo-gatilho, encostado à têmpora e pronto a atirar. Só mais uma vez. PUM. Uma bala encurralada dentro de mim e eu capaz de rir à gargalhada. Capaz de morrer a rir. Uma bala a estraçalhar-me as entranhas com dentadas metálicas, enraivecida por não encontrar a saída. Uma bala só, cumpridora: pim pam pum, cada bala mata um… Isso foi depois. No meio, era o meu dedo no gatilho a disparar a morte aos coices, a distribuí-la à vez. Quem quer mais? TOMA! Estás morto. E não vale levantares-te de novo, eu não páro. Eu estou mais vivo do que nunca e ninguém me pára. Quando se mata, renasce-se.
MORRE!
Eu fico. E continuarei a ser. Um dia, longe da náusea deste cheiro a tédio, a sangue, a pólvora e a medo, descerei do cavalo e a noite estará calma e a ficar fria, só com uma brisa suave e quente a remexer as folhas e nem isso chegará para abafar o silêncio. Um silêncio definido e seco, cacimbado. Límpido e inteiro como eu e o meu corpo. Então sim, terei matado e morrerei.
Mas, para já, escavo o meu abrigo com a baioneta da espingarda. Vou ser eu mesmo a abrir a minha cova, a disparar o «coup de grâce». Eu sou o meu próprio caixão. Quando se mata, fica-se sem nada e parte-se sozinho. Sou um miúdo com os bolsos furados. Espalhei os tesouros enquanto marchava no pó.
Como o que resta da ração de combate, lata de anchovas ainda mais apimentada pelas formigas, maning bom! Não procuro nada, não quero encontrar nada. Não tenho nada que me prenda aqui, a este buraco de nada no meio de mapa nenhum. Um jornal A Bola de há um mês, limpo o cu nas tácticas nacionais. A garganta a uivar de sede. Na cabeça, o sol a pino. Deixem-me só seguir. AFASTEM-SE! Quero andar até as minhas pernas explodirem. Deixem-me em paz. Por favor, deixem-me em paz. Já não jogo mais. Para mim, a guerra acabou. Eu serei um dos vossos troféus, não me importo. Desde que me deixem sair daqui. DEIXEM-ME IR! Suplico.
Foi ainda há pouco e eu lembro-me. Aos solavancos no unimogue, abrimos pela noite como traças à procura da luz. Os tugas que arrumaram os turras. Trazemos connosco o Sesimbra e o Américo já cadáveres desarticulados e o Sousa está mais p'ra lá do que p'ra cá, tem o bucho aberto num buraco do tamanho de um punho. Mas vingámo-los bem. Somos os «filhos da Pátria» que deram cabo dos «filhos da puta». Adeus mãe, até ao meu regresso. Vim de matar e morrer. Sou bravo e valente, um homem crescido. Mas queria a tua mão a afagar o meu cabelo. Sentar-me ao teu colo e enterrar o meu rosto nas tuas mamas quentes. Morder os teus mamilos e sorver leite a saber a sangue. Deitar-me na camarata contigo.
NÃO VÁS! Quero morrer e matar de prazer. Eles não sabem nada, não vão saber. Que te vou fazer um filho para o império. Semear em ti uma emboscada, uma bomba-relógio. Eu sou mais eficaz do que uma mina. Estou a rebentar de seiva, mais esganado que os cães. De gatas, imploro-te: Não vás... De que serve este membro na minha mão, a minha arma? A pátria a latejar neste pedaço de carne, toda contida nesta tesão de raiva. Vou cair sobre ti como numa «queda-na-máscara», as pernas flectidas para amortecer o impacto. Cheiras a bicho e és a minha mãe preta. Vais pôr fim à minha guerra quando eu te ocupar toda com a minha pulsão de morte. Vou-te encher de mim e fazer estoirar esta cova opaca onde me escondi. VEM!
Tenho um caixão à minha espera e é muito apertado para mim. Um rectângulo de merda, plantado à beira do mar. Quatro paredes caiadas de negro, com o retrato de um homem impotente na parede. Injectou-nos ar nas veias, insuflou-nos com o orgulho nacional. «Quais forem as dificuldades que se nos deparem no nosso caminho, os sacrifícios que se nos imponham para vencê-las, não vejo outra atitude a tomar que não seja a decisão de continuar.» Rapidamente e em força. Portugal! Portugal! Angola é nossa! Angola é nossa! ANGOLA É NOSSA! Que importa se a mata grunhe: Upa! Upa! Upa! Viva! Viva! Viva! Preparem as espingardas. Eles afiam as catanas com limas. Havemos de nos encontrar no meio da mata, no centro do anel de fogo. Vou espetar a tua cabeça numa estaca. Depois de jogar à bola com ela. Exibir-te à beira da estrada como aquele que não ressuscita. Estás morto, mortinho da Silva. Entrei no nicho do deus zumbi a cavalo da «reacção operacional». A cavalo de mim. Eu sou uma vala aberta e o meu nome é Portugal. VEM!
O nevoeiro chegou de mansinho. Esta é uma guerra sem quartel. Mucondo, Quicundo e Muxaluando... Quixico, Quipedro. Zala é já aqui e o Sagrado Coração de Maria continua connosco. Temos uma bandeira para içar. Portugal! Portugal! Portugal! Ainda sonho com o calor, colado à nuca como um escarro. Sinto a mata a vomitar-me, as espinheiras a rasgar-me os braços e a cara. Este é um ângulo morto, e eu um estilhaço em fragmentação. Uma bisca lambida no meio do nada. Os meus olhos viram tudo, não os consigo arrancar. Já não leio o terreno em frente, estou em posição de rajada e não sei para onde atirar. Escuta só, não mexas o dedo no gatilho. Agarra! Agarra! Agarra! As botas batem no chão duro. A malta enfia-se nas valas. Cheira a urina e a fezes. Havemos de os vingar. Vai ser um ataque de mão. Agora. AGORA!
Mãe?! És tu, a costurar noite fora? É a minha mortalha o que coses? És tu que rezas no escuro? Calou-se o matraquear e posso ouvir-te melhor. Quando se morre, sabe-se. Tu sabes o que eu vim cá fazer. Diz-me. Eu não me mexo, juro. Não me mexo. JURO! Quero ficar aqui quietinho, o corpo moldado na lama, só mesmo a olhar para ti. Deram-me um cavalo manco e as esporas cravadas em mim. Mãe, venho de matar e morrer. Eles estão mesmo a chegar. Não os deixes fechar-me os olhos. Vou ficar aqui quietinho, só mesmo a olhar para ti. E para as nuvens à desfilada. Ordem-unida.
© Filipa Melo
(reprodução integral interdita sem autorização prévia)
Pim, pam, pum
Ao Afonso Praça e ao Fernando Assis Pacheco
Nambuangongo, Angola, Junho de 1963
Quando se mata, morre-se? Não. Renasce-se. Porque, na verdade, não fui eu quem morreu há pouco, quando senti o primeiro coice a atingir-me no ombro. O dedo não parou de dar ao gatilho, duas, três, mais vezes. Os olhos não pararam de ver enquanto os corpos se erguiam ou tombavam por entre a névoa. Os ouvidos não pararam de ouvir.
Já tinha escurecido e estava a ficar mais frio. A chuva parara e uma brisa suave e quente remexia as folhas. Isso foi antes. E imediatamente depois. No meio, apenas um som ruidoso de mais, intenso de mais, repercurtindo-se para lá do embate nos corpos, nas árvores e no solo, projectando-se até ao céu. Era o som que se elevava, não os clarões da trajectória cruzada das balas ou da chuva de granadas-de-mão ou dos morteiros 82 a rebentarem nas copas dos imbondeiros. Era o som que, em torno de mim, suspendia os gestos na rapidez de cada ataque e de cada esquiva. Era o som que furava as nuvens e as obrigava a apartarem-se. Eu ouvia-o algures cá dentro, estilhaçando cada célula e cada nervo e transformando-se num desejo imparável de matar. Um. Dois. Três. MAIS! Uma ladainha, um refrão dos meus nervos, um monstro a devorar-me o cérebro: pim pam pum, cada bala mata um…
Os corpos em frente eram apenas bonecos de corda desarticulados pelas minhas mãos. Mãos cruéis de criança curiosa. Agora um braço, PIM! Agora uma perna, PAM! Agora uma cabeça, PUM! Agora eu, cada vez mais forte, cada vez mais possante, montado a galope no cavalo de pau da G3 a escoicear no meu ombro. Eu e a minha vontade elástica de disparar o medo e de o rebentar por dentro, com um estrondo suficientemente forte, suficientemente igual ao que me estoirava os ouvidos antes de se perder dentro de mim. Eu, cada vez mais vivo. Eu, sozinho, embriagado de mim mesmo, a avançar por entre um emaranhado de árvores nuas e corpos desfeitos. Eu, com as amarras cortadas. Eu, decidido a matar tudo o que estava fora de mim. Eu, a ir até ao fim.
Quando se mata, ensurdece-se. E há vozes vindas de longe e de perto que chocam entre si, confundidas pela ausência de palavras e pela inutilidade dos gritos. Por isso é impossível dizer a morte se não respondendo-lhe com um som igual, desabitado e surdo. Um gorjeio cru como o rebentar de um cérebro em borbotos de sangue, miolos e cabelos: Morre!
MORRE! Quero que sejas só a sombra que em frente vejo diluir-se como a chuva dissolve a terra e a faz cheirar a bicho. Quero ser eu o bicho que mata, o bicho que sobrevive, percebes? PERCEBES? Não importa se tu também tens um brinquedo como o meu e mo apontas a mim no escuro. PUM! Não me importa se corres para mim de peito aberto e gritas: «Bala não mata! Bala não mata!» Vais saber a verdade; a tua cabeça é um berlinde que os meus dedos disparam com um tiro só. PUM! Vês agora? Eu sou o bicho mais rápido, o bicho mais forte, o bicho que já não vê, só ouve. ESCUTA. A morte é como o bater do coração que sentimos a latejar nos membros todos, um coração do tamanho da parada, com forma de bicha pirilau a avançar pela mata e pronta a estrebuchar às guinadas, enrolada sobre si mesma, a esconjurar a «Pátria Amada» na berma de uma picada qualquer. «Porra p'ra esta merda, nunca mais despacham isto!» Eu só quero acabar isto e espetar o focinho da espingarda na terra e renascer abraçado a ela como a um brinquedo que mais ninguém tem. Embalá-la em silêncio enquanto eles não chegam. Somos só nós dois os naúfragos neste mar de mortos. Não há mais ninguém.
Vamos brincar a «ver quem fica morto mais tempo» e perde quem abrir os olhos. Agora eu. E o meu dedo-gatilho, encostado à têmpora e pronto a atirar. Só mais uma vez. PUM. Uma bala encurralada dentro de mim e eu capaz de rir à gargalhada. Capaz de morrer a rir. Uma bala a estraçalhar-me as entranhas com dentadas metálicas, enraivecida por não encontrar a saída. Uma bala só, cumpridora: pim pam pum, cada bala mata um… Isso foi depois. No meio, era o meu dedo no gatilho a disparar a morte aos coices, a distribuí-la à vez. Quem quer mais? TOMA! Estás morto. E não vale levantares-te de novo, eu não páro. Eu estou mais vivo do que nunca e ninguém me pára. Quando se mata, renasce-se.
MORRE!
Eu fico. E continuarei a ser. Um dia, longe da náusea deste cheiro a tédio, a sangue, a pólvora e a medo, descerei do cavalo e a noite estará calma e a ficar fria, só com uma brisa suave e quente a remexer as folhas e nem isso chegará para abafar o silêncio. Um silêncio definido e seco, cacimbado. Límpido e inteiro como eu e o meu corpo. Então sim, terei matado e morrerei.
Mas, para já, escavo o meu abrigo com a baioneta da espingarda. Vou ser eu mesmo a abrir a minha cova, a disparar o «coup de grâce». Eu sou o meu próprio caixão. Quando se mata, fica-se sem nada e parte-se sozinho. Sou um miúdo com os bolsos furados. Espalhei os tesouros enquanto marchava no pó.
Como o que resta da ração de combate, lata de anchovas ainda mais apimentada pelas formigas, maning bom! Não procuro nada, não quero encontrar nada. Não tenho nada que me prenda aqui, a este buraco de nada no meio de mapa nenhum. Um jornal A Bola de há um mês, limpo o cu nas tácticas nacionais. A garganta a uivar de sede. Na cabeça, o sol a pino. Deixem-me só seguir. AFASTEM-SE! Quero andar até as minhas pernas explodirem. Deixem-me em paz. Por favor, deixem-me em paz. Já não jogo mais. Para mim, a guerra acabou. Eu serei um dos vossos troféus, não me importo. Desde que me deixem sair daqui. DEIXEM-ME IR! Suplico.
Foi ainda há pouco e eu lembro-me. Aos solavancos no unimogue, abrimos pela noite como traças à procura da luz. Os tugas que arrumaram os turras. Trazemos connosco o Sesimbra e o Américo já cadáveres desarticulados e o Sousa está mais p'ra lá do que p'ra cá, tem o bucho aberto num buraco do tamanho de um punho. Mas vingámo-los bem. Somos os «filhos da Pátria» que deram cabo dos «filhos da puta». Adeus mãe, até ao meu regresso. Vim de matar e morrer. Sou bravo e valente, um homem crescido. Mas queria a tua mão a afagar o meu cabelo. Sentar-me ao teu colo e enterrar o meu rosto nas tuas mamas quentes. Morder os teus mamilos e sorver leite a saber a sangue. Deitar-me na camarata contigo.
NÃO VÁS! Quero morrer e matar de prazer. Eles não sabem nada, não vão saber. Que te vou fazer um filho para o império. Semear em ti uma emboscada, uma bomba-relógio. Eu sou mais eficaz do que uma mina. Estou a rebentar de seiva, mais esganado que os cães. De gatas, imploro-te: Não vás... De que serve este membro na minha mão, a minha arma? A pátria a latejar neste pedaço de carne, toda contida nesta tesão de raiva. Vou cair sobre ti como numa «queda-na-máscara», as pernas flectidas para amortecer o impacto. Cheiras a bicho e és a minha mãe preta. Vais pôr fim à minha guerra quando eu te ocupar toda com a minha pulsão de morte. Vou-te encher de mim e fazer estoirar esta cova opaca onde me escondi. VEM!
Tenho um caixão à minha espera e é muito apertado para mim. Um rectângulo de merda, plantado à beira do mar. Quatro paredes caiadas de negro, com o retrato de um homem impotente na parede. Injectou-nos ar nas veias, insuflou-nos com o orgulho nacional. «Quais forem as dificuldades que se nos deparem no nosso caminho, os sacrifícios que se nos imponham para vencê-las, não vejo outra atitude a tomar que não seja a decisão de continuar.» Rapidamente e em força. Portugal! Portugal! Angola é nossa! Angola é nossa! ANGOLA É NOSSA! Que importa se a mata grunhe: Upa! Upa! Upa! Viva! Viva! Viva! Preparem as espingardas. Eles afiam as catanas com limas. Havemos de nos encontrar no meio da mata, no centro do anel de fogo. Vou espetar a tua cabeça numa estaca. Depois de jogar à bola com ela. Exibir-te à beira da estrada como aquele que não ressuscita. Estás morto, mortinho da Silva. Entrei no nicho do deus zumbi a cavalo da «reacção operacional». A cavalo de mim. Eu sou uma vala aberta e o meu nome é Portugal. VEM!
O nevoeiro chegou de mansinho. Esta é uma guerra sem quartel. Mucondo, Quicundo e Muxaluando... Quixico, Quipedro. Zala é já aqui e o Sagrado Coração de Maria continua connosco. Temos uma bandeira para içar. Portugal! Portugal! Portugal! Ainda sonho com o calor, colado à nuca como um escarro. Sinto a mata a vomitar-me, as espinheiras a rasgar-me os braços e a cara. Este é um ângulo morto, e eu um estilhaço em fragmentação. Uma bisca lambida no meio do nada. Os meus olhos viram tudo, não os consigo arrancar. Já não leio o terreno em frente, estou em posição de rajada e não sei para onde atirar. Escuta só, não mexas o dedo no gatilho. Agarra! Agarra! Agarra! As botas batem no chão duro. A malta enfia-se nas valas. Cheira a urina e a fezes. Havemos de os vingar. Vai ser um ataque de mão. Agora. AGORA!
Mãe?! És tu, a costurar noite fora? É a minha mortalha o que coses? És tu que rezas no escuro? Calou-se o matraquear e posso ouvir-te melhor. Quando se morre, sabe-se. Tu sabes o que eu vim cá fazer. Diz-me. Eu não me mexo, juro. Não me mexo. JURO! Quero ficar aqui quietinho, o corpo moldado na lama, só mesmo a olhar para ti. Deram-me um cavalo manco e as esporas cravadas em mim. Mãe, venho de matar e morrer. Eles estão mesmo a chegar. Não os deixes fechar-me os olhos. Vou ficar aqui quietinho, só mesmo a olhar para ti. E para as nuvens à desfilada. Ordem-unida.
© Filipa Melo
(reprodução integral interdita sem autorização prévia)
Richard Zimler conversa na Comunidade de Leitores Almedina/Saldanha, hoje, quarta-feira, às 19h, sobre Os Anagramas de Varsóvia, o romance mais recente. Venham, venham...
Mais informações, aqui:
Stay in your mental pyjamas all day.
Colm Tóibin
Colm Tóibin
http://www.guardian.co.uk/books/2010/feb/20/ten-rules-for-writing-fiction-part-one
http://www.guardian.co.uk/books/2010/feb/20/10-rules-for-writing-fiction-part-two
As mais sagazes:
http://www.guardian.co.uk/books/2010/feb/20/10-rules-for-writing-fiction-part-two
As mais sagazes:
Andrew Motion
1 Decide when in the day (or night) it best suits you to write, and organise your life accordingly.
2 Think with your senses as well as your brain.
3 Honour the miraculousness of the ordinary.
4 Lock different characters/elements in a room and tell them to get on.
5 Remember there is no such thing as nonsense.
6 Bear in mind Wilde's dictum that "only mediocrities develop" – and challenge it.
7 Let your work stand before deciding whether or not to serve.
8 Think big and stay particular.
9 Write for tomorrow, not for today.
10 Work hard.
1 When still a child, make sure you read a lot of books. Spend more time doing this than anything else.
2 When an adult, try to read your own work as a stranger would read it, or even better, as an enemy would.
3 Don't romanticise your "vocation". You can either write good sentences or you can't. There is no "writer's lifestyle". All that matters is what you leave on the page.
4 Avoid your weaknesses. But do this without telling yourself that the things you can't do aren't worth doing. Don't mask self-doubt with contempt.
5 Leave a decent space of time between writing something and editing it.
6 Avoid cliques, gangs, groups. The presence of a crowd won't make your writing any better than it is.
7 Work on a computer that is disconnected from the internet.
8 Protect the time and space in which you write. Keep everybody away from it, even the people who are most important to you.
9 Don't confuse honours with achievement.
10 Tell the truth through whichever veil comes to hand – but tell it. Resign yourself to the lifelong sadness that comes from never being satisfied.
Sentenças finais:
Will Self
The writing life is essentially one of solitary confinement - if you can't deal with that you needn't apply.
Will Self
The writing life is essentially one of solitary confinement - if you can't deal with that you needn't apply.
Arroz-doce de Cesto
(Vila de Rua, Beira Alta)
Para 4 pessoas
1 litro de leite; 1 chávena de café de arroz; 4 gemas; sal; acúçar a gosto (cerca de 250g); canela
Escolhe-se o arroz [carolino], mas não se lava. Leva-se o arroz a abrir com 2,5 dl de água e um pouco de sal. Quando a água do arroz tiver evaporado, adiciona-se o leite e deixa-se cozer. Entretanto, misturam-se as gemas com o acúçar e, fora do lume, juntam-se ao arroz. Leva-se novamente ao lume só para cozer as gemas. Forra-se um cesto com um guardanapo [de pano branco, de preferência com rebordo bordado] e deita-se lá dentro o arroz-doce [sem medos, é para isso mesmo que servem as máquinas de lavar roupa ; )) ], depois de se ter deixado arrefecer um pouco. Enfeita-se com canela, desenhando corações, letras ou traços.
In Cozinha Tradicional Portuguesa, Maria de Lourdes Modesto
Não sei se me suicide, se vá à Fnac.
Proust et Céleste, de Christian Péchenard (La Table Ronde) é um livro sobre a relação de Marcel Proust com a sua governanta, Céleste Albaret. Entre 1913 e 1922, ela servirá com uma dedicação de escrava este «marido de substituição», encafuado num quarto insonorizado, e será o seu único elo com o exterior. No início da Primavera de 1922, o ano da morte, ele diz-lhe: «Uma grande notícia. Esta noite pus a palavra FIM [no La Recherche]. Agora já posso morrer.» Céleste foi a mãe de substituição de Proust: dedicada, paga, incapaz de qualquer intimidade física, que curioso.
“Como o grã-cã conquistou o reino de Magi (do Mangi)
É verdade que na província de Eumagi (do Mangi) era senhor Fafur (Facfur), o qual era, depois do grã-cã, o maior senhor do mundo e o mais poderoso em riquezas e em gente. Mas não são pessoas de armas, porque se tivessem sido bons homens de guerra, nunca teriam perdido a sua terra: porque as suas terras estão todas rodeadas de águas muito profundas e não se entra lá através de pontes. De modo que o grã-cã mandou lá um barão que se chamava Baia Anasa (Baian Cincsan), o que quer dizer «Baia (Baian) cem olhos»; e isto aconteceu nos anos Domini MCCLXXIII. E o rei do Umagi (do Mangi) soube através da astrologia que a sua terra nunca se perderia, a não ser por um homem que tivesse cem olhos. E foi Baia (Baian) com muita gente e com muitos barcos, que lhe levaram homens a pé e a cavalo e chegou à primeira cidade de Lumagi (do Mangi) e os habitantes não se lhe quiseram render. Depois foi às outras até às seis cidades e deixava-as; porque o grã-cã mandava-lhe muita gente atrás; e é esse o grã-cã que hoje reina. Ora acontece que este tomou também essas seis cidades pela força e depois tomou tantas que ficou com doze; depois foi à cidade capital de Magi (Mangi) que se chama Quisai (Chinsai), onde se encontrava o rei e a rainha. Quando o rei viu tanta gente teve tanto medo que partiu da terra com muita gente e com mil embarcações e foi para o Mar Oceano e fugiu para as ilhas. E a rainha ficou defendendo-se o melhor que podia. E a rainha perguntou quem era o chefe do exército. Foi-lhe dito: «Chama-se Baia (Baian) cem olhos.» E a rainha recordou-se da profecia de que acima falámos: imediatamente se rendeu a terra e imediatamente se renderam a Baia (Baian) todas as cidades do Magi (Mangi).”
In “As Viagens de Marco Polo”
“As cidades e os olhos. 1 .
Os antigos construíram Valdrada nas margens de um lago com casas todas varandas umas em cima das outras e ruas altas que fazem assomar à água os parapeitos em balaustrada. Assim o viajante ao chegar vê duas cidades: uma direita sobre o lago e uma reflectida de pernas para o ar. Não existe nem acontece coisa numa Valdrada que a outra Valdrada não repita, porque a cidade foi construída de modo que todos os seus pontos fossem reflectidos pelo seu espelho, e a Valdrada na água contém não só todas as estrias e os remates das fachadas que se elevam por cima do lago, mas também o interior das casas com os tectos e pavimentos, a perspectiva dos corredores, os espelhos dos armários.
Os habitantes de Valdrada sabem que todos os seus actos são ao mesmo tempo esse acto e a a sua imagem especular, a que pertence a especial dignidade das imagens, e esta sua consciência proíbe-os de se abandonarem por um só instante ao acaso e ao esquecimento. Mesmo quando os amantes dão voltas aos corpos nus pele contra pele procurando a maneira de se colocarem para terem um do outro maior prazer, mesmo quando os assassinos empurram a faca para dentro das veias negras do pescoço e quanto mais sangue grumoso jorrar mais afundam a lâmina que desliza entre os tendões, não é tanto o seu unir-se ou trucidar-se que importa quanto o unir-se ou o trucidar-se das suas imagens límpidas e frias no espelho.
O espelho ora aumenta o valor às coisas, ora o nega. Nem tudo o que parece valer muito por cima do espelho consegue resistir quando espelhado. As duas cidades gémeas não são iguais, porque nada do que existe ou acontece em Valdrada é simétrico: a cada rosto e cada gesto respondem do espelho um rosto ou um gesto inverso ponto por ponto. As duas Valdradas vivem uma para a outra, olhando-se continuamente nos olhos, mas não se amam.”
In “As Cidades Invisíveis”, Italo Calvino
“Por muitas vezes, nos dias, nos meses, nos anos que se seguiram, pensei que a única explicação possível para tão estranha ocorrência era a forte probabilidade de ter trazido dentro de mim o grande olho da casa da Ribeira Quente. Ou de ele ter vindo comigo, por iniciativa própria, para se abrir à noite, sempre que eu fechava os meus olhos. Tal como acontecera quando a minha mãe cerrara os dela e, nesse exacto momento, se abrira para me deixar sair. Do escuro para a luz. De dentro para fora.
Alinhadas e referidas as convicções anteriores, não sem uma nota suave de incredulidade, convém notar que foi por causa delas que me pareceu também evidente que era uma dádiva suprema poder sonhar todas as noites. Devia, pois, concentrar os meus esforços nessa vivência, fazendo-a preceder de incansáveis tarefas diurnas de preparação. Para que pudesse fruir mais e mais cada esboço de imagem, de luz e de cor, os meus sentidos deveriam estar em permanente estado de vigília, alerta e absorção.
A casa nova, com todos os seus recantos, contornos, volumes, saliências, cheiros e sons inexplorados, apresentava-se-me agora não como o inferno assustador das primeiras horas, mas antes como um paraíso transbordante de sensações virgens e por isso facilmente conversíveis em sonho. Como fruto das minhas explorações, rapidamente juntei à cartilha de sensações da casa velha, por esta ordem e nomenclatura, um Pan-Óptico de Cheiros, uma Galeria de Prismas Tácteis, um Esferímetro de Sons, uma Câmara de Sabores e um Refractómetro de Feixes Luminosos. Graças a eles, os meus sonhos foram-se gradualmente apurando, num atordoante desafio de esboços de imagens com cheiro, som, peso, tamanho, medida, variações de temperatura, sombras e, luxo dos luxos, inefáveis transparências.
Se hoje consigo contar tudo isto com uma ordem e uma lógica, se não fiéis, pelo menos verosímeis, já me é de todo impossível explicitar qual o momento em que o dia e a noite se fundiram num só e passei a sonhar acordada. Se me ficar pela solução mais fácil, posso situá-lo nessa primeira fracção de segundo em que adormeci na casa nova. De qualquer forma, trata-se de um pormenor de somenos importância. Tantas vezes cheguei à conclusão de que sonho porque vivo e vivo porque sonho, que já não faz qualquer sentido procurar conhecer a génese desta bifurcada evidência. Talvez o sonho seja hereditário e tenha a forma de um olho. Que nos olha de cima, apreendendo-nos como nessa ilusão óptica a que, aposto que inadvertidamente, demos o nome de irradiação: preto no branco, branco no preto. Hoje sei: só é cego quem não quer ver.”
© Filipa Melo
Pedro Tamen apresenta o «seu» Proust de Em Busca do Tempo Perdido. Para a semana, no dia 11, quinta-feira, às 19h, na livraria Almedina Saldanha, no ciclo Nós e os Clássicos. Estivemos ontem a preparar a sessão. E rimos de um comentário à margem do crítico Harold Bloom, para quem o Em Busca é um grande tratado sobre o ciúme sexual. Reza assim: «Para Swann, o amor morre, mas o ciúme mantém-se vivo durante mais algum tempo. […] Swann fica preso, pois no cosmo de Proust não se pode dizer 'Adeus, Odette, perdoo-te tudo quanto te fiz' (à maneira americana) ou 'Deixar de estar apaixonado é uma das maiores experiências humanas; parece que se vê o mundo com novos olhos' (à maneira anglo-irlandesa).» Como será o ciúme à maneira portuguesa, pergunto eu? Talvez «Não és meu, não és de mais ninguém», um divórcio litigioso ou seis facadas no coração... Sem retrospecções ou contemplações.
Memória
Quando eu morrer voltarei para buscar / os instantes que não vivi junto ao mar. Sophia de Mello Breyner Andresen
Havia um gesto largo como a quilha de um barco. E uma luz de oiro que o guiava entre o azul. Trazia-me dentro dele, entre os seus braços. Embalava-me a voz, transportando o mundo como uma revelação. E só em mim concentrava todas as paragens, os vários portos que, passando, descobríamos.
Consigo sem esforço imaginar-me nos braços da minha mãe. Faço-o muitas vezes. Acolhe-me um som distante de risos, mas provavelmente tudo acontecia em silêncio. Imagino a voz rompendo-o, e era a nossa. Impossível distingui-la. Continuo hoje à procura desse silêncio feito de vogais abertas e vocábulos curtos. Um som límpido como um espelho, aberto como a casa sobre o mar. Um som que era a aragem doce que lhe despenteava os cabelos, deixando-os cobrir o meu rosto e resguardá-lo da violência da luz do dia.
Tinha mãos de areia a minha mãe. Sentia-as quentes e suaves deslizando sobre mim. Contornavam-me, separavam-me do mundo onde, aí sim, o vento já rangia, abrindo as portas, espalhando as cinzas e as sombras sobre os retratos, esvaziando os armários. Nada disso eu sabia ainda, suspenso da queda. Suportado por gestos de espanto, em segredo.
Com mãos de areia, construíamos castelos. E, das ameias, espreitávamos tudo, guiados pela espuma das ondas e pelo brilho das estrelas. Límpido, quase branco, e esguio, o nosso caminho estava lá ao longe recortado. Sabíamos. Conhecíamos juntos a espessura das coisas e, no entanto, os nossos dedos não as tocavam, ocupados a tocar-nos um ao outro. Não tenho explicações, ainda hoje. Quero desconhecer uma verdade que não seja essa, e era a nossa.
Por muito tempo o rosto dela foi só um sol que fugia de repente, uma alvorada que eu descobria todos os dias. E, nele, os olhos limpos eram como os meus, faróis a evitar as fúrias, soberanos sobre a calmaria. Lembro bem o olhar da minha mãe, azul como essa calma lenta e profunda que amaciava as rochas. Sentados nelas, descobríamos navios sobre a seda de água dos nossos olhos, embarcávamos e partíamos. Em tantas paragens encontrámos ouro, as pedras mais preciosas que havia, e tesouros maiores: flores, mel e fruta. Nunca mais recolhi com as minhas mãos tanta riqueza, nem os meus olhos as viram em parte alguma. Estão todas guardadas na casa à beira-mar, encerradas em baús onde o vento não entra e que hoje já não sei abrir. Perdi as chaves, à proa dos navios. Deitei-as ao mar e, sem saber, a minha mãe recolheu-as todas lá no fundo, onde faz frio e os olhos estão fechados.
Mas, então, o tempo era ainda um infinito. De tantas viagens regressámos no mesmo instante, a casa à nossa espera, sobre as rochas. Desenhámos juntos nas paredes as palavras. Aprendi-as de cor no seu silêncio, na melodia suave com que me embalava. E nos sonhos estava ela, branca e linda, num rumor de tempo antigo e mundo novo.
Tudo estava algures ancorado dentro de mim. A minha mãe soltava amarras como sílabas, navegando pela casa adormecida. E era como um vento que corria, unindo-as e desfazendo-as, espantadas, atirando-as contra os móveis que assistiam, impávidos, à luta desenfreada. A casa era agora o sono e o palco aberto, eu dormia como quem assiste à tempestade, nos braços de uma mãe aconchegado. Tomara eu saber hoje com que fórmulas secretas eu aprendi as palavras que já antes conhecia. Treinei-as uma a uma, em redor dela. E a casa éramos nós que a construímos. De mim já não me separava nada.
Tem uma luz febril esta memória. E logo se enche de reflexos e me traz de volta à praia onde num tempo nos inventámos assim, a casa atravessada pelas marés.
Vem comigo a minha mãe. Caminhamos com passos curtos como as pegadas das gaivotas.
Publicado na Egoísta em 2004
«Sinto-me profundamente aliviado pelo facto de o Universo ser finalmente explicável. Começava a convencer-me de que o problema estava em mim. Segundo parece, a física, tal como um familiar que nos mexe com os nervos, tem as respostas todas»
Woody Allen, em Pura Anarquia (Gradiva, 2007)
Esta é uma má reprodução. Mas vale a pena comprar o álbum. Chama-se Le Mexique de Juan Rulfo 1945-1955 (Éditions Place des Victoires, 2002). Não lhe bastava ter escrito Pedro Páramo...
«Quem por truculências do acaso, leia algum dos meus livros, não encontrará neles uma contradição, mas várias: não um tom, mas muitos; não uma linha, mas vários círculos. Por isso não creio que os meus romances se possam ler como uma história de acontecimentos concatenados, mas sim como uma ondulação que se expande, volta, engrossa, regressa, mais ténue, mais exacerbada, incessante, no meio de situações tão extremas que de tão intoleráveis se tornam às vezes libertadoras.»
Reinaldo Arenas, no prefácio de 1980 para O Mundo Alucinante, recém-reeditado pela Dom Quixote
«Nunca é demasiado tarde para se ter uma infância feliz.»
Fonte desconhecida
Aracne
Não sei quanto tempo laborei no erro. Estava de tal forma entregue à certeza de que em paz terminaria o trabalho antes do cair da noite que já mal olhava para a trama. Os dedos corriam maquinalmente sobre os fios de seda e, a estes, deixava-os eu completar sozinhos o desenho, convencido de que seguiam o rumo para o qual os manobrava. Fizera os mesmos gestos as mesmas mil vezes e confiava em que, então como em todos os dias de todos os meses e de todos os anos anteriores, eles se converteriam no resultado esperado: na mesma face ingénua da mesma rapariga triste, com longos cabelos castanhos, pele rosácea, finos lábios carmim e profundos olhos azuis, cortados pelo negro da pupila e pelo branco do reflexo da luz.
Fechara as janelas para abafar os sons da rua, acendera os paus de incenso e começara a meditação no exacto minuto em que voltara a sentar-me e em que os dedos puxaram de novo as meadas. Há já algum tempo que sonhava com este momento em que, sozinho na oficina, conseguiria alienar-me do automatismo dos gestos através do acto simultâneo de meditação.
Confesso que estava ansioso por experimentar a nova fórmula, ansioso por me dispor, tranquilo, a dar-lhe início. Metta Bhãvanã, ou do Amor Universal. Tinha lido e relido as instruções na caixa do incenso e seguia-as agora com afinco. Primeiro a respiração: lenta e profunda. Depois o pensamento: o mais fixo possível. «A minha mente está limpa de todas as impurezas, maldades, inimizades e sofrimento. O meu coração está cheio de amor e paz.» Nova pausa para respiração profunda. E novo esforço de visualização. Agora, na pessoa mais querida — a minha mãe — recebendo todo o meu pensamento de carinho, paz e amor. Pausa. Respiração. Via agora distintamente a face de «um conhecido do qual não gostamos nem deixamos de gostar” — a porteira Dona Rosa — e esforçava-me por lhe enviar o mesmo pensamento de carinho, paz e amor. Pausa para rectificar as meadas de seda e a lançadeira e para respirar profundamente. Não precisei de fechar os olhos para me lembrar de «alguém de que não gostamos, que nos é desagradável, por quem sentimos mesmo um certo rancor». Não precisei de muito para ver o Sr. Aníbal, o patrão, sorrindo enquanto coçava os pêlos do peito e se banhava no mar de pensamentos de perdão, amor, paz e compreensão que empenhadamente eu lhe enviava. A imagem sugeriu-me nova respiração e novo pensamento de divino amor, agora dirigido a todos os seres do planeta, sem discriminação alguma. Terminei a tarefa com um sorriso, ainda mais porque chegara ao último fio, à última linha. Eu mesmo estava inundado de paz, bendizendo tudo e todos à minha volta, quando retirei a tapeçaria do rolo e me dispus a admirá-la.
Foi o meu estado de placidez o que provavelmente me impediu de desmaiar, quando, frente aos meus olhos, se desenrolou a imagem. Cruzada com o mesmo rosto ingénuo da mesma rapariga triste, uma teia de finos fios de seda quase transparentes percorria todo o painel numa intricada rede de raios e espirais. No centro, duas pupilas negras olhavam-me com uma doce expressão de terror, que tomei como a minha, juntando-lhe a estupefacção com que observei os meus dedos dormentes, julgando-os incapazes de libertar os fluidos que, no meu corpo, sabia-o já, se haviam segregado em seda.
Agora tenho a certeza de que cabe apenas aos deuses tecer a perfeição do amor entre os homens, as coisas e os bichos, frágil e forte como a teia de uma aranha. E que dele só vemos a mesma face ingénua e triste.
«Creio que não é preciso ter vergonha de querer ser alguém diferente do que seríamos se nos abandonássemos aos nossos próprios caprichos. Esta criação faz-se não somente através daquilo que se acrescenta e que se suprime, mas do que se corrige de nós próprios. Porque o pior de nós mesmos (este é o segredo da graça) pode transformar-se no que mais nos enriquece.» François Mauriac
Com isto, e porque não estou nada de acordo com as duas primeiras frase (Mauriac já passou o prazo de validade), de ontem para hoje, investi sobretudo nos caprichos e nos defeitos. Sem querer corrigir nada. É discutível o ponto de vista sobre o que se acrescenta ou suprime. Afinal, não desejo graça nenhuma, mas aprovo a última frase. Acabei a tarde na maior com o meu pior, e comemorei com uma cerveja gelada.





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