Proust et Céleste, de Christian Péchenard (La Table Ronde) é um livro sobre a relação de Marcel Proust com a sua governanta, Céleste Albaret. Entre 1913 e 1922, ela servirá com uma dedicação de escrava este «marido de substituição», encafuado num quarto insonorizado, e será o seu único elo com o exterior. No início da Primavera de 1922, o ano da morte, ele diz-lhe: «Uma grande notícia. Esta noite pus a palavra FIM [no La Recherche]. Agora já posso morrer.» Céleste foi a mãe de substituição de Proust: dedicada, paga, incapaz de qualquer intimidade física, que curioso.
“Como o grã-cã conquistou o reino de Magi (do Mangi)
É verdade que na província de Eumagi (do Mangi) era senhor Fafur (Facfur), o qual era, depois do grã-cã, o maior senhor do mundo e o mais poderoso em riquezas e em gente. Mas não são pessoas de armas, porque se tivessem sido bons homens de guerra, nunca teriam perdido a sua terra: porque as suas terras estão todas rodeadas de águas muito profundas e não se entra lá através de pontes. De modo que o grã-cã mandou lá um barão que se chamava Baia Anasa (Baian Cincsan), o que quer dizer «Baia (Baian) cem olhos»; e isto aconteceu nos anos Domini MCCLXXIII. E o rei do Umagi (do Mangi) soube através da astrologia que a sua terra nunca se perderia, a não ser por um homem que tivesse cem olhos. E foi Baia (Baian) com muita gente e com muitos barcos, que lhe levaram homens a pé e a cavalo e chegou à primeira cidade de Lumagi (do Mangi) e os habitantes não se lhe quiseram render. Depois foi às outras até às seis cidades e deixava-as; porque o grã-cã mandava-lhe muita gente atrás; e é esse o grã-cã que hoje reina. Ora acontece que este tomou também essas seis cidades pela força e depois tomou tantas que ficou com doze; depois foi à cidade capital de Magi (Mangi) que se chama Quisai (Chinsai), onde se encontrava o rei e a rainha. Quando o rei viu tanta gente teve tanto medo que partiu da terra com muita gente e com mil embarcações e foi para o Mar Oceano e fugiu para as ilhas. E a rainha ficou defendendo-se o melhor que podia. E a rainha perguntou quem era o chefe do exército. Foi-lhe dito: «Chama-se Baia (Baian) cem olhos.» E a rainha recordou-se da profecia de que acima falámos: imediatamente se rendeu a terra e imediatamente se renderam a Baia (Baian) todas as cidades do Magi (Mangi).”
In “As Viagens de Marco Polo”
“As cidades e os olhos. 1 .
Os antigos construíram Valdrada nas margens de um lago com casas todas varandas umas em cima das outras e ruas altas que fazem assomar à água os parapeitos em balaustrada. Assim o viajante ao chegar vê duas cidades: uma direita sobre o lago e uma reflectida de pernas para o ar. Não existe nem acontece coisa numa Valdrada que a outra Valdrada não repita, porque a cidade foi construída de modo que todos os seus pontos fossem reflectidos pelo seu espelho, e a Valdrada na água contém não só todas as estrias e os remates das fachadas que se elevam por cima do lago, mas também o interior das casas com os tectos e pavimentos, a perspectiva dos corredores, os espelhos dos armários.
Os habitantes de Valdrada sabem que todos os seus actos são ao mesmo tempo esse acto e a a sua imagem especular, a que pertence a especial dignidade das imagens, e esta sua consciência proíbe-os de se abandonarem por um só instante ao acaso e ao esquecimento. Mesmo quando os amantes dão voltas aos corpos nus pele contra pele procurando a maneira de se colocarem para terem um do outro maior prazer, mesmo quando os assassinos empurram a faca para dentro das veias negras do pescoço e quanto mais sangue grumoso jorrar mais afundam a lâmina que desliza entre os tendões, não é tanto o seu unir-se ou trucidar-se que importa quanto o unir-se ou o trucidar-se das suas imagens límpidas e frias no espelho.
O espelho ora aumenta o valor às coisas, ora o nega. Nem tudo o que parece valer muito por cima do espelho consegue resistir quando espelhado. As duas cidades gémeas não são iguais, porque nada do que existe ou acontece em Valdrada é simétrico: a cada rosto e cada gesto respondem do espelho um rosto ou um gesto inverso ponto por ponto. As duas Valdradas vivem uma para a outra, olhando-se continuamente nos olhos, mas não se amam.”
In “As Cidades Invisíveis”, Italo Calvino
“Por muitas vezes, nos dias, nos meses, nos anos que se seguiram, pensei que a única explicação possível para tão estranha ocorrência era a forte probabilidade de ter trazido dentro de mim o grande olho da casa da Ribeira Quente. Ou de ele ter vindo comigo, por iniciativa própria, para se abrir à noite, sempre que eu fechava os meus olhos. Tal como acontecera quando a minha mãe cerrara os dela e, nesse exacto momento, se abrira para me deixar sair. Do escuro para a luz. De dentro para fora.
Alinhadas e referidas as convicções anteriores, não sem uma nota suave de incredulidade, convém notar que foi por causa delas que me pareceu também evidente que era uma dádiva suprema poder sonhar todas as noites. Devia, pois, concentrar os meus esforços nessa vivência, fazendo-a preceder de incansáveis tarefas diurnas de preparação. Para que pudesse fruir mais e mais cada esboço de imagem, de luz e de cor, os meus sentidos deveriam estar em permanente estado de vigília, alerta e absorção.
A casa nova, com todos os seus recantos, contornos, volumes, saliências, cheiros e sons inexplorados, apresentava-se-me agora não como o inferno assustador das primeiras horas, mas antes como um paraíso transbordante de sensações virgens e por isso facilmente conversíveis em sonho. Como fruto das minhas explorações, rapidamente juntei à cartilha de sensações da casa velha, por esta ordem e nomenclatura, um Pan-Óptico de Cheiros, uma Galeria de Prismas Tácteis, um Esferímetro de Sons, uma Câmara de Sabores e um Refractómetro de Feixes Luminosos. Graças a eles, os meus sonhos foram-se gradualmente apurando, num atordoante desafio de esboços de imagens com cheiro, som, peso, tamanho, medida, variações de temperatura, sombras e, luxo dos luxos, inefáveis transparências.
Se hoje consigo contar tudo isto com uma ordem e uma lógica, se não fiéis, pelo menos verosímeis, já me é de todo impossível explicitar qual o momento em que o dia e a noite se fundiram num só e passei a sonhar acordada. Se me ficar pela solução mais fácil, posso situá-lo nessa primeira fracção de segundo em que adormeci na casa nova. De qualquer forma, trata-se de um pormenor de somenos importância. Tantas vezes cheguei à conclusão de que sonho porque vivo e vivo porque sonho, que já não faz qualquer sentido procurar conhecer a génese desta bifurcada evidência. Talvez o sonho seja hereditário e tenha a forma de um olho. Que nos olha de cima, apreendendo-nos como nessa ilusão óptica a que, aposto que inadvertidamente, demos o nome de irradiação: preto no branco, branco no preto. Hoje sei: só é cego quem não quer ver.”
© Filipa Melo
Pedro Tamen apresenta o «seu» Proust de Em Busca do Tempo Perdido. Para a semana, no dia 11, quinta-feira, às 19h, na livraria Almedina Saldanha, no ciclo Nós e os Clássicos. Estivemos ontem a preparar a sessão. E rimos de um comentário à margem do crítico Harold Bloom, para quem o Em Busca é um grande tratado sobre o ciúme sexual. Reza assim: «Para Swann, o amor morre, mas o ciúme mantém-se vivo durante mais algum tempo. […] Swann fica preso, pois no cosmo de Proust não se pode dizer 'Adeus, Odette, perdoo-te tudo quanto te fiz' (à maneira americana) ou 'Deixar de estar apaixonado é uma das maiores experiências humanas; parece que se vê o mundo com novos olhos' (à maneira anglo-irlandesa).» Como será o ciúme à maneira portuguesa, pergunto eu? Talvez «Não és meu, não és de mais ninguém», um divórcio litigioso ou seis facadas no coração... Sem retrospecções ou contemplações.
Memória
Quando eu morrer voltarei para buscar / os instantes que não vivi junto ao mar. Sophia de Mello Breyner Andresen
Havia um gesto largo como a quilha de um barco. E uma luz de oiro que o guiava entre o azul. Trazia-me dentro dele, entre os seus braços. Embalava-me a voz, transportando o mundo como uma revelação. E só em mim concentrava todas as paragens, os vários portos que, passando, descobríamos.
Consigo sem esforço imaginar-me nos braços da minha mãe. Faço-o muitas vezes. Acolhe-me um som distante de risos, mas provavelmente tudo acontecia em silêncio. Imagino a voz rompendo-o, e era a nossa. Impossível distingui-la. Continuo hoje à procura desse silêncio feito de vogais abertas e vocábulos curtos. Um som límpido como um espelho, aberto como a casa sobre o mar. Um som que era a aragem doce que lhe despenteava os cabelos, deixando-os cobrir o meu rosto e resguardá-lo da violência da luz do dia.
Tinha mãos de areia a minha mãe. Sentia-as quentes e suaves deslizando sobre mim. Contornavam-me, separavam-me do mundo onde, aí sim, o vento já rangia, abrindo as portas, espalhando as cinzas e as sombras sobre os retratos, esvaziando os armários. Nada disso eu sabia ainda, suspenso da queda. Suportado por gestos de espanto, em segredo.
Com mãos de areia, construíamos castelos. E, das ameias, espreitávamos tudo, guiados pela espuma das ondas e pelo brilho das estrelas. Límpido, quase branco, e esguio, o nosso caminho estava lá ao longe recortado. Sabíamos. Conhecíamos juntos a espessura das coisas e, no entanto, os nossos dedos não as tocavam, ocupados a tocar-nos um ao outro. Não tenho explicações, ainda hoje. Quero desconhecer uma verdade que não seja essa, e era a nossa.
Por muito tempo o rosto dela foi só um sol que fugia de repente, uma alvorada que eu descobria todos os dias. E, nele, os olhos limpos eram como os meus, faróis a evitar as fúrias, soberanos sobre a calmaria. Lembro bem o olhar da minha mãe, azul como essa calma lenta e profunda que amaciava as rochas. Sentados nelas, descobríamos navios sobre a seda de água dos nossos olhos, embarcávamos e partíamos. Em tantas paragens encontrámos ouro, as pedras mais preciosas que havia, e tesouros maiores: flores, mel e fruta. Nunca mais recolhi com as minhas mãos tanta riqueza, nem os meus olhos as viram em parte alguma. Estão todas guardadas na casa à beira-mar, encerradas em baús onde o vento não entra e que hoje já não sei abrir. Perdi as chaves, à proa dos navios. Deitei-as ao mar e, sem saber, a minha mãe recolheu-as todas lá no fundo, onde faz frio e os olhos estão fechados.
Mas, então, o tempo era ainda um infinito. De tantas viagens regressámos no mesmo instante, a casa à nossa espera, sobre as rochas. Desenhámos juntos nas paredes as palavras. Aprendi-as de cor no seu silêncio, na melodia suave com que me embalava. E nos sonhos estava ela, branca e linda, num rumor de tempo antigo e mundo novo.
Tudo estava algures ancorado dentro de mim. A minha mãe soltava amarras como sílabas, navegando pela casa adormecida. E era como um vento que corria, unindo-as e desfazendo-as, espantadas, atirando-as contra os móveis que assistiam, impávidos, à luta desenfreada. A casa era agora o sono e o palco aberto, eu dormia como quem assiste à tempestade, nos braços de uma mãe aconchegado. Tomara eu saber hoje com que fórmulas secretas eu aprendi as palavras que já antes conhecia. Treinei-as uma a uma, em redor dela. E a casa éramos nós que a construímos. De mim já não me separava nada.
Tem uma luz febril esta memória. E logo se enche de reflexos e me traz de volta à praia onde num tempo nos inventámos assim, a casa atravessada pelas marés.
Vem comigo a minha mãe. Caminhamos com passos curtos como as pegadas das gaivotas.
Publicado na Egoísta em 2004
«Sinto-me profundamente aliviado pelo facto de o Universo ser finalmente explicável. Começava a convencer-me de que o problema estava em mim. Segundo parece, a física, tal como um familiar que nos mexe com os nervos, tem as respostas todas»
Woody Allen, em Pura Anarquia (Gradiva, 2007)
Esta é uma má reprodução. Mas vale a pena comprar o álbum. Chama-se Le Mexique de Juan Rulfo 1945-1955 (Éditions Place des Victoires, 2002). Não lhe bastava ter escrito Pedro Páramo...
«Quem por truculências do acaso, leia algum dos meus livros, não encontrará neles uma contradição, mas várias: não um tom, mas muitos; não uma linha, mas vários círculos. Por isso não creio que os meus romances se possam ler como uma história de acontecimentos concatenados, mas sim como uma ondulação que se expande, volta, engrossa, regressa, mais ténue, mais exacerbada, incessante, no meio de situações tão extremas que de tão intoleráveis se tornam às vezes libertadoras.»
Reinaldo Arenas, no prefácio de 1980 para O Mundo Alucinante, recém-reeditado pela Dom Quixote
«Nunca é demasiado tarde para se ter uma infância feliz.»
Fonte desconhecida
Aracne
Não sei quanto tempo laborei no erro. Estava de tal forma entregue à certeza de que em paz terminaria o trabalho antes do cair da noite que já mal olhava para a trama. Os dedos corriam maquinalmente sobre os fios de seda e, a estes, deixava-os eu completar sozinhos o desenho, convencido de que seguiam o rumo para o qual os manobrava. Fizera os mesmos gestos as mesmas mil vezes e confiava em que, então como em todos os dias de todos os meses e de todos os anos anteriores, eles se converteriam no resultado esperado: na mesma face ingénua da mesma rapariga triste, com longos cabelos castanhos, pele rosácea, finos lábios carmim e profundos olhos azuis, cortados pelo negro da pupila e pelo branco do reflexo da luz.
Fechara as janelas para abafar os sons da rua, acendera os paus de incenso e começara a meditação no exacto minuto em que voltara a sentar-me e em que os dedos puxaram de novo as meadas. Há já algum tempo que sonhava com este momento em que, sozinho na oficina, conseguiria alienar-me do automatismo dos gestos através do acto simultâneo de meditação.
Confesso que estava ansioso por experimentar a nova fórmula, ansioso por me dispor, tranquilo, a dar-lhe início. Metta Bhãvanã, ou do Amor Universal. Tinha lido e relido as instruções na caixa do incenso e seguia-as agora com afinco. Primeiro a respiração: lenta e profunda. Depois o pensamento: o mais fixo possível. «A minha mente está limpa de todas as impurezas, maldades, inimizades e sofrimento. O meu coração está cheio de amor e paz.» Nova pausa para respiração profunda. E novo esforço de visualização. Agora, na pessoa mais querida — a minha mãe — recebendo todo o meu pensamento de carinho, paz e amor. Pausa. Respiração. Via agora distintamente a face de «um conhecido do qual não gostamos nem deixamos de gostar” — a porteira Dona Rosa — e esforçava-me por lhe enviar o mesmo pensamento de carinho, paz e amor. Pausa para rectificar as meadas de seda e a lançadeira e para respirar profundamente. Não precisei de fechar os olhos para me lembrar de «alguém de que não gostamos, que nos é desagradável, por quem sentimos mesmo um certo rancor». Não precisei de muito para ver o Sr. Aníbal, o patrão, sorrindo enquanto coçava os pêlos do peito e se banhava no mar de pensamentos de perdão, amor, paz e compreensão que empenhadamente eu lhe enviava. A imagem sugeriu-me nova respiração e novo pensamento de divino amor, agora dirigido a todos os seres do planeta, sem discriminação alguma. Terminei a tarefa com um sorriso, ainda mais porque chegara ao último fio, à última linha. Eu mesmo estava inundado de paz, bendizendo tudo e todos à minha volta, quando retirei a tapeçaria do rolo e me dispus a admirá-la.
Foi o meu estado de placidez o que provavelmente me impediu de desmaiar, quando, frente aos meus olhos, se desenrolou a imagem. Cruzada com o mesmo rosto ingénuo da mesma rapariga triste, uma teia de finos fios de seda quase transparentes percorria todo o painel numa intricada rede de raios e espirais. No centro, duas pupilas negras olhavam-me com uma doce expressão de terror, que tomei como a minha, juntando-lhe a estupefacção com que observei os meus dedos dormentes, julgando-os incapazes de libertar os fluidos que, no meu corpo, sabia-o já, se haviam segregado em seda.
Agora tenho a certeza de que cabe apenas aos deuses tecer a perfeição do amor entre os homens, as coisas e os bichos, frágil e forte como a teia de uma aranha. E que dele só vemos a mesma face ingénua e triste.
«Creio que não é preciso ter vergonha de querer ser alguém diferente do que seríamos se nos abandonássemos aos nossos próprios caprichos. Esta criação faz-se não somente através daquilo que se acrescenta e que se suprime, mas do que se corrige de nós próprios. Porque o pior de nós mesmos (este é o segredo da graça) pode transformar-se no que mais nos enriquece.» François Mauriac
Com isto, e porque não estou nada de acordo com as duas primeiras frase (Mauriac já passou o prazo de validade), de ontem para hoje, investi sobretudo nos caprichos e nos defeitos. Sem querer corrigir nada. É discutível o ponto de vista sobre o que se acrescenta ou suprime. Afinal, não desejo graça nenhuma, mas aprovo a última frase. Acabei a tarde na maior com o meu pior, e comemorei com uma cerveja gelada.



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