Pedro Tamen apresenta o «seu» Proust de Em Busca do Tempo Perdido. Para a semana, no dia 11, quinta-feira, às 19h, na livraria Almedina Saldanha, no ciclo Nós e os Clássicos. Estivemos ontem a preparar a sessão. E rimos de um comentário à margem do crítico Harold Bloom, para quem o Em Busca é um grande tratado sobre o ciúme sexual. Reza assim: «Para Swann, o amor morre, mas o ciúme mantém-se vivo durante mais algum tempo. […] Swann fica preso, pois no cosmo de Proust não se pode dizer 'Adeus, Odette, perdoo-te tudo quanto te fiz' (à maneira americana) ou 'Deixar de estar apaixonado é uma das maiores experiências humanas; parece que se vê o mundo com novos olhos' (à maneira anglo-irlandesa).» Como será o ciúme à maneira portuguesa, pergunto eu? Talvez «Não és meu, não és de mais ninguém», um divórcio litigioso ou seis facadas no coração... Sem retrospecções ou contemplações.
Memória
Quando eu morrer voltarei para buscar / os instantes que não vivi junto ao mar. Sophia de Mello Breyner Andresen
Havia um gesto largo como a quilha de um barco. E uma luz de oiro que o guiava entre o azul. Trazia-me dentro dele, entre os seus braços. Embalava-me a voz, transportando o mundo como uma revelação. E só em mim concentrava todas as paragens, os vários portos que, passando, descobríamos.
Consigo sem esforço imaginar-me nos braços da minha mãe. Faço-o muitas vezes. Acolhe-me um som distante de risos, mas provavelmente tudo acontecia em silêncio. Imagino a voz rompendo-o, e era a nossa. Impossível distingui-la. Continuo hoje à procura desse silêncio feito de vogais abertas e vocábulos curtos. Um som límpido como um espelho, aberto como a casa sobre o mar. Um som que era a aragem doce que lhe despenteava os cabelos, deixando-os cobrir o meu rosto e resguardá-lo da violência da luz do dia.
Tinha mãos de areia a minha mãe. Sentia-as quentes e suaves deslizando sobre mim. Contornavam-me, separavam-me do mundo onde, aí sim, o vento já rangia, abrindo as portas, espalhando as cinzas e as sombras sobre os retratos, esvaziando os armários. Nada disso eu sabia ainda, suspenso da queda. Suportado por gestos de espanto, em segredo.
Com mãos de areia, construíamos castelos. E, das ameias, espreitávamos tudo, guiados pela espuma das ondas e pelo brilho das estrelas. Límpido, quase branco, e esguio, o nosso caminho estava lá ao longe recortado. Sabíamos. Conhecíamos juntos a espessura das coisas e, no entanto, os nossos dedos não as tocavam, ocupados a tocar-nos um ao outro. Não tenho explicações, ainda hoje. Quero desconhecer uma verdade que não seja essa, e era a nossa.
Por muito tempo o rosto dela foi só um sol que fugia de repente, uma alvorada que eu descobria todos os dias. E, nele, os olhos limpos eram como os meus, faróis a evitar as fúrias, soberanos sobre a calmaria. Lembro bem o olhar da minha mãe, azul como essa calma lenta e profunda que amaciava as rochas. Sentados nelas, descobríamos navios sobre a seda de água dos nossos olhos, embarcávamos e partíamos. Em tantas paragens encontrámos ouro, as pedras mais preciosas que havia, e tesouros maiores: flores, mel e fruta. Nunca mais recolhi com as minhas mãos tanta riqueza, nem os meus olhos as viram em parte alguma. Estão todas guardadas na casa à beira-mar, encerradas em baús onde o vento não entra e que hoje já não sei abrir. Perdi as chaves, à proa dos navios. Deitei-as ao mar e, sem saber, a minha mãe recolheu-as todas lá no fundo, onde faz frio e os olhos estão fechados.
Mas, então, o tempo era ainda um infinito. De tantas viagens regressámos no mesmo instante, a casa à nossa espera, sobre as rochas. Desenhámos juntos nas paredes as palavras. Aprendi-as de cor no seu silêncio, na melodia suave com que me embalava. E nos sonhos estava ela, branca e linda, num rumor de tempo antigo e mundo novo.
Tudo estava algures ancorado dentro de mim. A minha mãe soltava amarras como sílabas, navegando pela casa adormecida. E era como um vento que corria, unindo-as e desfazendo-as, espantadas, atirando-as contra os móveis que assistiam, impávidos, à luta desenfreada. A casa era agora o sono e o palco aberto, eu dormia como quem assiste à tempestade, nos braços de uma mãe aconchegado. Tomara eu saber hoje com que fórmulas secretas eu aprendi as palavras que já antes conhecia. Treinei-as uma a uma, em redor dela. E a casa éramos nós que a construímos. De mim já não me separava nada.
Tem uma luz febril esta memória. E logo se enche de reflexos e me traz de volta à praia onde num tempo nos inventámos assim, a casa atravessada pelas marés.
Vem comigo a minha mãe. Caminhamos com passos curtos como as pegadas das gaivotas.
Publicado na Egoísta em 2004
«Sinto-me profundamente aliviado pelo facto de o Universo ser finalmente explicável. Começava a convencer-me de que o problema estava em mim. Segundo parece, a física, tal como um familiar que nos mexe com os nervos, tem as respostas todas»
Woody Allen, em Pura Anarquia (Gradiva, 2007)
Esta é uma má reprodução. Mas vale a pena comprar o álbum. Chama-se Le Mexique de Juan Rulfo 1945-1955 (Éditions Place des Victoires, 2002). Não lhe bastava ter escrito Pedro Páramo...
«Quem por truculências do acaso, leia algum dos meus livros, não encontrará neles uma contradição, mas várias: não um tom, mas muitos; não uma linha, mas vários círculos. Por isso não creio que os meus romances se possam ler como uma história de acontecimentos concatenados, mas sim como uma ondulação que se expande, volta, engrossa, regressa, mais ténue, mais exacerbada, incessante, no meio de situações tão extremas que de tão intoleráveis se tornam às vezes libertadoras.»
Reinaldo Arenas, no prefácio de 1980 para O Mundo Alucinante, recém-reeditado pela Dom Quixote
«Nunca é demasiado tarde para se ter uma infância feliz.»
Fonte desconhecida
Aracne
Não sei quanto tempo laborei no erro. Estava de tal forma entregue à certeza de que em paz terminaria o trabalho antes do cair da noite que já mal olhava para a trama. Os dedos corriam maquinalmente sobre os fios de seda e, a estes, deixava-os eu completar sozinhos o desenho, convencido de que seguiam o rumo para o qual os manobrava. Fizera os mesmos gestos as mesmas mil vezes e confiava em que, então como em todos os dias de todos os meses e de todos os anos anteriores, eles se converteriam no resultado esperado: na mesma face ingénua da mesma rapariga triste, com longos cabelos castanhos, pele rosácea, finos lábios carmim e profundos olhos azuis, cortados pelo negro da pupila e pelo branco do reflexo da luz.
Fechara as janelas para abafar os sons da rua, acendera os paus de incenso e começara a meditação no exacto minuto em que voltara a sentar-me e em que os dedos puxaram de novo as meadas. Há já algum tempo que sonhava com este momento em que, sozinho na oficina, conseguiria alienar-me do automatismo dos gestos através do acto simultâneo de meditação.
Confesso que estava ansioso por experimentar a nova fórmula, ansioso por me dispor, tranquilo, a dar-lhe início. Metta Bhãvanã, ou do Amor Universal. Tinha lido e relido as instruções na caixa do incenso e seguia-as agora com afinco. Primeiro a respiração: lenta e profunda. Depois o pensamento: o mais fixo possível. «A minha mente está limpa de todas as impurezas, maldades, inimizades e sofrimento. O meu coração está cheio de amor e paz.» Nova pausa para respiração profunda. E novo esforço de visualização. Agora, na pessoa mais querida — a minha mãe — recebendo todo o meu pensamento de carinho, paz e amor. Pausa. Respiração. Via agora distintamente a face de «um conhecido do qual não gostamos nem deixamos de gostar” — a porteira Dona Rosa — e esforçava-me por lhe enviar o mesmo pensamento de carinho, paz e amor. Pausa para rectificar as meadas de seda e a lançadeira e para respirar profundamente. Não precisei de fechar os olhos para me lembrar de «alguém de que não gostamos, que nos é desagradável, por quem sentimos mesmo um certo rancor». Não precisei de muito para ver o Sr. Aníbal, o patrão, sorrindo enquanto coçava os pêlos do peito e se banhava no mar de pensamentos de perdão, amor, paz e compreensão que empenhadamente eu lhe enviava. A imagem sugeriu-me nova respiração e novo pensamento de divino amor, agora dirigido a todos os seres do planeta, sem discriminação alguma. Terminei a tarefa com um sorriso, ainda mais porque chegara ao último fio, à última linha. Eu mesmo estava inundado de paz, bendizendo tudo e todos à minha volta, quando retirei a tapeçaria do rolo e me dispus a admirá-la.
Foi o meu estado de placidez o que provavelmente me impediu de desmaiar, quando, frente aos meus olhos, se desenrolou a imagem. Cruzada com o mesmo rosto ingénuo da mesma rapariga triste, uma teia de finos fios de seda quase transparentes percorria todo o painel numa intricada rede de raios e espirais. No centro, duas pupilas negras olhavam-me com uma doce expressão de terror, que tomei como a minha, juntando-lhe a estupefacção com que observei os meus dedos dormentes, julgando-os incapazes de libertar os fluidos que, no meu corpo, sabia-o já, se haviam segregado em seda.
Agora tenho a certeza de que cabe apenas aos deuses tecer a perfeição do amor entre os homens, as coisas e os bichos, frágil e forte como a teia de uma aranha. E que dele só vemos a mesma face ingénua e triste.
«Creio que não é preciso ter vergonha de querer ser alguém diferente do que seríamos se nos abandonássemos aos nossos próprios caprichos. Esta criação faz-se não somente através daquilo que se acrescenta e que se suprime, mas do que se corrige de nós próprios. Porque o pior de nós mesmos (este é o segredo da graça) pode transformar-se no que mais nos enriquece.» François Mauriac
Com isto, e porque não estou nada de acordo com as duas primeiras frase (Mauriac já passou o prazo de validade), de ontem para hoje, investi sobretudo nos caprichos e nos defeitos. Sem querer corrigir nada. É discutível o ponto de vista sobre o que se acrescenta ou suprime. Afinal, não desejo graça nenhuma, mas aprovo a última frase. Acabei a tarde na maior com o meu pior, e comemorei com uma cerveja gelada.


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