«Quem por truculências do acaso, leia algum dos meus livros, não encontrará neles uma contradição, mas várias: não um tom, mas muitos; não uma linha, mas vários círculos. Por isso não creio que os meus romances se possam ler como uma história de acontecimentos concatenados, mas sim como uma ondulação que se expande, volta, engrossa, regressa, mais ténue, mais exacerbada, incessante, no meio de situações tão extremas que de tão intoleráveis se tornam às vezes libertadoras.»
Reinaldo Arenas, no prefácio de 1980 para O Mundo Alucinante, recém-reeditado pela Dom Quixote
«Nunca é demasiado tarde para se ter uma infância feliz.»
Fonte desconhecida
Aracne
Não sei quanto tempo laborei no erro. Estava de tal forma entregue à certeza de que em paz terminaria o trabalho antes do cair da noite que já mal olhava para a trama. Os dedos corriam maquinalmente sobre os fios de seda e, a estes, deixava-os eu completar sozinhos o desenho, convencido de que seguiam o rumo para o qual os manobrava. Fizera os mesmos gestos as mesmas mil vezes e confiava em que, então como em todos os dias de todos os meses e de todos os anos anteriores, eles se converteriam no resultado esperado: na mesma face ingénua da mesma rapariga triste, com longos cabelos castanhos, pele rosácea, finos lábios carmim e profundos olhos azuis, cortados pelo negro da pupila e pelo branco do reflexo da luz.
Fechara as janelas para abafar os sons da rua, acendera os paus de incenso e começara a meditação no exacto minuto em que voltara a sentar-me e em que os dedos puxaram de novo as meadas. Há já algum tempo que sonhava com este momento em que, sozinho na oficina, conseguiria alienar-me do automatismo dos gestos através do acto simultâneo de meditação.
Confesso que estava ansioso por experimentar a nova fórmula, ansioso por me dispor, tranquilo, a dar-lhe início. Metta Bhãvanã, ou do Amor Universal. Tinha lido e relido as instruções na caixa do incenso e seguia-as agora com afinco. Primeiro a respiração: lenta e profunda. Depois o pensamento: o mais fixo possível. «A minha mente está limpa de todas as impurezas, maldades, inimizades e sofrimento. O meu coração está cheio de amor e paz.» Nova pausa para respiração profunda. E novo esforço de visualização. Agora, na pessoa mais querida — a minha mãe — recebendo todo o meu pensamento de carinho, paz e amor. Pausa. Respiração. Via agora distintamente a face de «um conhecido do qual não gostamos nem deixamos de gostar” — a porteira Dona Rosa — e esforçava-me por lhe enviar o mesmo pensamento de carinho, paz e amor. Pausa para rectificar as meadas de seda e a lançadeira e para respirar profundamente. Não precisei de fechar os olhos para me lembrar de «alguém de que não gostamos, que nos é desagradável, por quem sentimos mesmo um certo rancor». Não precisei de muito para ver o Sr. Aníbal, o patrão, sorrindo enquanto coçava os pêlos do peito e se banhava no mar de pensamentos de perdão, amor, paz e compreensão que empenhadamente eu lhe enviava. A imagem sugeriu-me nova respiração e novo pensamento de divino amor, agora dirigido a todos os seres do planeta, sem discriminação alguma. Terminei a tarefa com um sorriso, ainda mais porque chegara ao último fio, à última linha. Eu mesmo estava inundado de paz, bendizendo tudo e todos à minha volta, quando retirei a tapeçaria do rolo e me dispus a admirá-la.
Foi o meu estado de placidez o que provavelmente me impediu de desmaiar, quando, frente aos meus olhos, se desenrolou a imagem. Cruzada com o mesmo rosto ingénuo da mesma rapariga triste, uma teia de finos fios de seda quase transparentes percorria todo o painel numa intricada rede de raios e espirais. No centro, duas pupilas negras olhavam-me com uma doce expressão de terror, que tomei como a minha, juntando-lhe a estupefacção com que observei os meus dedos dormentes, julgando-os incapazes de libertar os fluidos que, no meu corpo, sabia-o já, se haviam segregado em seda.
Agora tenho a certeza de que cabe apenas aos deuses tecer a perfeição do amor entre os homens, as coisas e os bichos, frágil e forte como a teia de uma aranha. E que dele só vemos a mesma face ingénua e triste.
«Creio que não é preciso ter vergonha de querer ser alguém diferente do que seríamos se nos abandonássemos aos nossos próprios caprichos. Esta criação faz-se não somente através daquilo que se acrescenta e que se suprime, mas do que se corrige de nós próprios. Porque o pior de nós mesmos (este é o segredo da graça) pode transformar-se no que mais nos enriquece.» François Mauriac
Com isto, e porque não estou nada de acordo com as duas primeiras frase (Mauriac já passou o prazo de validade), de ontem para hoje, investi sobretudo nos caprichos e nos defeitos. Sem querer corrigir nada. É discutível o ponto de vista sobre o que se acrescenta ou suprime. Afinal, não desejo graça nenhuma, mas aprovo a última frase. Acabei a tarde na maior com o meu pior, e comemorei com uma cerveja gelada.

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